Pallas e os Gregos
2 Tem certeza que você não é filho de Apolo?
Lembro de ter acordado várias vezes, com uma ardência infernal no corpo.
Acordei no que me pareceu ser uma enfermaria, mas estava vazia. Tentei me mexer, apesar de ter acabado de acordar, me sentia cansada, meu corpo doía. Resolvi sentar e o mundo girou. Perdi o controle do meu corpo, que se inclinou perigosamente para a direita, me fazendo perder o equilíbrio.
-Opa, opa.- gritou alguém, vindo me segurar.- Vamos com calma, mocinha.
Por pouco eu não cai no chão. Confortavelmente encostada, olhei pro meu salvador. Era uma garota aparentemente da minha idade, loira, com a pele bronzeada e um sorriso enorme.
-Sou Bella, ou melhor, Isabella.
-Oi.- respondi.
Ainda estava zonza, então demorei pra raciocinar o que estava acontecendo. Isabella me olhava com expectativa.
-Ah! Você quer saber meu nome.- exclamei, seu sorriso aumentou.- Hã... meu nome é Alex.
-Graças aos Deuses você se lembra! Ficamos preocupados com o que o veneno poderia fazer com você. Klaus não soube explicar muita coisa...
-Espera, você disse deuses?- perguntei.
-Ah, certo, esqueci que você é nova nisso. Já que você está melhor, vamos até o Quíron, ele vai te explicar tudo.- falou.
-Não tenho certeza se é uma boa ideia sair da cama.- comentei.
-Bobagem, você nem está mais verde.- falou com um gesto de desdém.
-Verde? Como verde?- perguntei, minha voz saindo esganiçada. Ela mordeu o lábio.
-Bom, levando em conta o fato de você ter sido picada por uma cobra milenar e o veneno quase ter te matado, logo que você desmaiou no pavilhão de refeições, seu corpo foi ficando meio verde, mas esse foi o menor dos problemas.- respondeu.
-Como assim, eu quase ter morrido?- gritei.
-Já vi que ela acordou.
O cara loiro que era o motivo de eu estar nessa droga de situação estava parado na porta.
-Você teve sorte, o Klaus geralmente não é tão atencioso.- comentou Isabella.
-Não se acostumem, não vou manchar minha reputação de príncipe das trevas novamente.- retrucou, vindo até nós. Ergui as sobrancelhas.
-Vocês em algum momento vão fazer sentido?- perguntei.
-Sua aura não está mais ao estilo de quase morte, então, hora do tour.- chamou.
-Você devia leva-la até o Quíron.- aconselhou Isa, Klaus sorriu.
-Com certeza.- respondeu.
-Klaus...
-Hora de ir!- exclamou, me puxando com ele pra fora da cama.
No caminho pra fora da enfermaria, eu quase vomitei algumas vezes, ainda estava zonza, mas Klaus me ajudou a ficar de pé.
-Então, você já conheceu a enfermaria.- começou ele.
-Onde estamos, Klaus?
-Certo, você já sabe meu nome. O que é engraçado, porque já faz dois dias que nos conhecemos.
-Dois dias?-gritei.
-É bem, chegamos no domingo de manhã...
-Eram 15h quando saímos da Paulista.- protestei.
-Hã... fuso horário diferente.- comentou. Cruzei os braços, me recusando a continuar.- Ah, qual é, vamos.
Ergui as sobrancelhas e me recostei na parede.
-É complicado.- falou, passando a mão no cabelo.- Mas é melhor a gente conversar lá fora.
Revirei os olhos, mas voltei a andar.
-Pra começar, você não é uma pessoa comum e não estou dizendo que isso é ruim. Bom... talvez.- começou, eu queria enforca-lo.- Acontece, que você não é humana, só 50%. A outra metade tem sangue divino.
-Você tá zoando com a minha cara?- falei, irritada.
-Não, eu estou falando sério, preste atenção.- retrucou.- Aparentemente, você conhece a mitologia grega, com base na sua dedução de que fomos perseguidos por Ortros. Enfim, pra sua alegria ou não, é tudo de verdade. Os deuses existem e estão vivinhos da silva! E você é filha de um deles, ou seja, uma semideusa.
-Olha só Klaus...
-Ok, eu sei que é difícil acreditar, mas você viu Ortros, foi picada por ele. E também tem a mim. Você me viu.- insistiu.- Aquele "buraco", era uma passagem nas sombras que eu abri pra me trazer de volta pra cá, o Acampamento Meio-Sangue.- falou, abrindo os braços.
Tínhamos chegado ao lado de fora da enfermaria, que eu percebi ser uma casa extremamente grande.
-Este acampamento é especial, feito para pessoas como nós, semideuses, que correm grande perigo no mundo exterior. Aqui, do lado de dentro da fronteira mágica, estamos a salvo de monstros como Ortros.- apresentou. Eu ia soca-lo.- E, claro, o mais importante... Fica em Nova York.
-Estou sem palavras.- falei, ríspida.
-Cara, eu estou morrendo aqui. O que é ridículo, já que meu pai é o Deus da Morte.- reclamou.
-Claro, você tinha que ser filho de Hades, com todo esse cabelo brilhoso e socialização.- zombei.
-O cabelo eu herdei da minha mãe. Enfim, como mais você explicaria o fato de eu ter nos trazido por viagem nas sombra? Sem contar que minhas roupas transmitem completamente meu ser interior.- retrucou, indicando as roupas pretas.
-Se estamos em Nova York, como eu consegui bater um papinho com a outra loira?
-Os filhos de Hefesto fizeram um dispositivo que reproduz suas falas num idioma que a pessoa que está ouvindo consiga entender, é esse treco na sua blusa. A propósito, você deveria tomar um banho.
Olhei pras minhas roupas, elas estavam coladas na minha pele, indicando que eu havia suado. Na gola da minha blusa vi um pontinho metálico, devia ser o tal dispositivo.
-Ok, digamos que eu finja acreditar em você, e agora?
-Um tour totalmente de minha autoria!
Um sorriso travesso e meio assustador surgiu em seus lábios, os olhos brilhando.
—O acampamento fica localizado em Manhattan, mais precisamente no Estreito de Long Island. Os mortais, ou pessoas comuns não sabem da nossa existência por causa de uma coisa chamada Névoa, ela é responsável por esconder tudo o que seja estranho pra mente humana comum, por exemplo os monstros. Mas, raramente, alguns mortais conseguem ver através da Névoa, e isso explica o fato de eu achar que Ortros não iria te machucar, uma vez que todo mundo ignora os mortais.
-É, isso foi bem esclarecedor.- concordei.
-Então, tradicionalmente a entrada do acampamento fica naquela colina ali, onde tem o Pinheiro de Thalia, que é uma história longa demais, com o Velocino de Ouro que você deve conhecer o mito. O Pinheiro e o Velocino são guardados por um dragão chamado Peleu e também tem a Atena Partenos, outra longa história, junto com a caverna do Oráculo.- falou, apontando pra uma colina onde um dragão de verdade descansava enroscado num pinheiro com uma espece de lã brilhante, bem ao lado de uma estátua da deusa Atena gigantesca e a tal caverna, que usava uma cortina como porta.- Aqui, é a Casa Grande, um tanto óbvio. Os campos de morango... vamos andando. A quadra de vôlei é pra lazer. Á esquerda temos as forjas dos filhos de Hefesto e o arsenal com todas as armas disponíveis que podemos usar. Mais atrás ficam a arena, para lutas sangrentas até a morte, os alvos pro treinamento de arco e flecha e os estábulos dos pégasos, que você também deve conhecer.
-Isso é um acampamento ou o exército?- perguntei, ele riu.
-Um pouco de cada, principalmente se os filhos de Ares estiverem envolvidos.
-Certo, o deus da guerra.
-Isso aí. Continuando, sempre nos reunimos no anfiteatro após o jantar e cantamos ao redor da fogueira. Ali tem o pessoal que acha que entende de arte. O lago de canoagem, a parede de escalada que joga lava de verdade pra um treinamento reforçado. Ah, tem também o pavilhão de refeições, onde você teve uma grande entrada. Agora vamos conhecer os chalés.
Os chalés se diferenciavam por números e decoração, mas tinham o mesmo tamanho, suficientemente grande pra acomodar umas 30 pessoas lá dentro.
-Número 1, o todo poderoso, grandioso, babaca mulherengo, Zeus! Seguido pela maior vaca de todas, sua esposa querida, Hera. Depois vem o sr. Eu Tiro Onda, baby, ocupando o chalé de número 3, Poseidon.- apresentou. Vários adolescentes começaram a olhar pra nós e cochichar.- Ai temos nossa Cereal killer, mãe super protetoramente louca, que usa casca de milho no cabelo, Demeter. Ainda na letra D, nosso querido diretor (leia-se: carcereiro), rei das festas e possivelmente incentivador do uso da maconha de modo recreativo, Dionísio, que só virou deus por ter inventado uma bebida e deixar todo mundo louco. Tem também a srt. Dor de Cabeça, literalmente; dizem que a mãe dela originou a vozinha irritante chamada consciência, mas essa é outra história, conheça Atena, inteligente demais pra se casar! E seu antagonista (desculpem o trocadilho), lorde das tretas, rei em ver o circo pegar fogo, o valentão dos valentões, Ares, único filho de orgulho pra Hera, não me pergunte porquê. Um filho que não deu orgulho nenhum á Hera, o maior corno de todos os tempos, o sr. dos vulcões e forjas e a tv á cabo, Hefesto. E o motivo dos chifres do deus ferreiro, a amante super oficial e totalmente fixa de Ares, a mais bela de todas (o pessoal da branca de neve roubou isso de um artista grego), a responsável por despertar os desejos amorosos ou rancorosos das pessoas (a final ódio e amor são quase a mesma coisa mesmo), sua majestade, Afrodite, a dona da purpurina toda. Não podemos esquecer do maior mafioso já existente e não estou falando de Pablo Escobar (apesar de ser seu descente), o mais sorrateiro, que construiu um império de entregas express e apesar de não ter inventado diretamente, é o rei da internet e patenteou as trolagens, o deus mensageiro e de todas as pessoas (viajantes), o primeiro e único Hermes. E falando em único, precisamos citar o cara mais exibido e popular de todas as eras, o literalmente brilhante, bronzeado e descolado, deus-sol, da música, arco e flecha, medicina e tudo o mais que tiver sobrado, Apolo. E não podemos esquecer de sua irmã gêmea, a rainha da caçada, a donzela protetora de donzelas, que exalta o poder feminino e incentiva a igualdade de gênero, Ártemis, senhora da lua. E por último, mas não menos importante, o cara que inventou o estilo dark, o rei de todo o mau, lorde das trevas, senhor dos monstros e criador de punições, meu pai, Hades. Ah, claro, ali tem mais uns chalés, representando os deuses menores.
A essa altura do campeonato, alguns dos adolescentes olhavam com olhares assassinos para Klaus, aparentemente, não tinham gostado de suas observações.
-Essas pessoas que estão com olhares raivosos são semideuses, como nós.
-Com licença.- chamou uma voz masculina. Nos viramos e demos de cara com nada menos que um centauro duas vezes maior que eu, ele se inclinou um pouco.- Você deve ser a Alex, sou Quíron, centauro, instrutor e responsável pelos semideuses deste acampamento. Klaus deve ter te apresentado tudo, á maneira dele, é claro.
-Sim, ele me mostrou as coisas.- concordei.
-Importa-se de conversamos enquanto caminhamos? Preciso supervisionar algumas atividades.- pediu, concordei. -Klaus, já pode voltar as suas atividades, conversamos depois. E todos os outros, tenho certeza de que tem coisas para fazer.
Nos afastamos da área dos chalés. Reparei que por todo lado haviam pessoas praticando lutas, construindo armas ou aprendendo alguma coisa, aparentemente ninguém ficava parado.
-O verão é nossa época de maior atividade, é quando a maioria dos campistas estão de férias, então vem pra cá, ficar em segurança. Temos alguns semideuses que ficam o ano todo conosco, geralmente os mais poderosos ou que tenham problemas em casa.- comentou.- Eu sei que pode ser confuso pra você, mas esperamos poder ajudar.
-Olha, eu não estou reclamando e agradeço por não me deixarem morrer, mas isso é loucura. Meus pais devem estar enlouquecendo agora, aliás, eu nem tenho passaporte ou permissão pra estar aqui.- discordei, ele parou.
-Vamos entrar em contato com seus pais imediatamente. Já teríamos feito isso, mas não sabíamos nem seu nome, então seria uma tarefa um tanto difícil.
-Meu deus, estou encrencada. -choraminguei.
-Não se preocupe, vamos resolver tudo.- prometeu.- No entanto, não recomendo que volte agora para o Brasil, uma vez que vocês não mataram Ortros, ele com certeza irá te perseguir no momento em que farejar você.
-Que maravilha, não posso nem voltar pra casa!
-Sinto muito, querida. No momento, preciso que me dê todas as informações possíveis para podermos legalizar sua estadia aqui, enquanto isso, você será instalada no chalé de Hermes, até seu pai ou mãe olimpiano reclamar você...
-Eu já tenho um pai e uma mãe e eles não são deuses mitológicos! — gritei e sai correndo.
...
Eu sei que Quíron só queria me ajudar, mas a única coisa que eu precisava era voltar pra casa e viver minha vida normalmente, o que seria totalmente impossível agora, comigo desaparecida, meus pais com toda certeza deveriam ter acionado até o exército pra me procurar.
Acabei indo parar na floresta e me deparei com uns espíritos da natureza, que graças aos meus conhecimentos, eu soube reconhecer, então não entrei em pânico quando eles se aproximaram e me ofereceram frutas, flautas e vários utensílios domésticos (de alta qualidade e uma variedade incrível, fora que os meios de pagamento eram excelentes: em até 7x sem juros!). Mas, infelizmente pra eles, eu não estava no clima de comprar nada.
Deitei na grama e analisei minha situação. Apenas com a roupa do corpo, que estava completamente nojenta (afinal, dois dias haviam se passado). Minha bolsa com celular, documentos e dinheiro estavam desaparecidos. Involuntariamente comecei a chorar, o céu estava num azul perfeito, do tipo que me fazia feliz sem motivo nenhum, era um dia lindo que eu adoraria aproveitar, mas não hoje.
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