Pallas e os Gregos

3 Meu jantar é como a Titanomaquia.


Quando eu acordei, o céu já estava com um leve tom alaranjado.

Decidi que era hora de voltar. Levantei e me senti zonza, me apoiei numa árvore, vendo pontos pretos. Não me lembrava da última vez que havia comido alguma coisa, meu corpo não havia se recuperado totalmente do veneno. Eu estava fraca e um tanto perdida na floresta.

Tentei dar mais um passo e cai no chão. Acabei vomitando, mesmo não tendo muita coisa no estomago. Senti braços me levantarem, mas eu já estava perdendo a consciência.

...

Mais uma vez acordei na enfermaria, mas dessa vez, eu estava cercada de pessoas.

-Bem vinda de volta.- cumprimentou Bella, com um sorriso solidário.

Não respondi, eu queria me sentar, mas achei que não seria uma boa ideia devido ao meu estado.

-Como se sente?- perguntou Quíron.

-As ninfas do bosque disseram que você dormiu e quando acordou estava fraca demais pra conseguir andar, acabou passando mal novamente.- comentou um outro cara loiro.

-Você comeu alguma coisa depois que saiu daqui de manhã?- perguntou Isabella, lançando um olhar acusador para Klaus, que estava sério.

-Não.- respondi.

-Te demos um pouco de ambrosia, mas você precisa comer comida normal.- continuou Isa.

-Ambrosia? Comida dos deuses?

-É, ela ajuda na recuperação dos semideuses, mas só podemos consumir em poucas quantidades.- explicou o carinha loiro ao meu lado.

-Certo pessoal, vão para o pavilhão, o jantar já vai começar.- mandou Quíron, todos o obedeceram imediatamente, exceto por Klaus e Isabella.

Quando todos saíram, Quíron se aproximou.

-Criança, sei que nada disso é fácil pra você, mas estamos tentando fazer todo o possível pra te ajudar. Podemos chamar os seus pais e resolvermos isso da melhor maneira possível, mas, enquanto isso, não posso deixar que saia deste acampamento. Além de você correr perigo por ser uma semideusa, você não tem documentos.

-Se você passar seus dados o pessoal de Hermes pode dar um jeito nisso. Só precisamos do seu sobrenome, Alex.- incentivou Bella.

Resolvi me sentar e eles me ajudaram, respirei fundo.

-Pallas. Meu nome é Pallas.- confessei.- Eu sou adotada.

-Uau!- exclamou Bella.- Só pode significar que você é...

Um trovão soou lá fora. Isabella foi de animada para assustada, Klaus olhou para Quíron, que parecia pensativo.

-É melhor que não tiremos conclusões precipitadas. Vamos jantar.

Klaus e Isabella se afastaram e Quíron me ajudou.

-Antes de irmos, poderia me falar o que sabe sobre sua adoção?- pediu o centauro, me ajudando a montar em suas costas.

-Aparentemente alguém me deixou ainda bebe numa cesta na porta da casa dos meus pais.- contei.- Havia uma manta me envolvendo, com o nome Pallas bordado. Meus pais não podiam ter filhos, então entenderam isso como um milagre, mas acrescentaram Alex, ou melhor, Alessandra, pra que eu tivesse um nome comum na escola.

-Isso é muito interessante.- comentou.

-Não precisa disfarçar, eu conheço as histórias. Sei que Atena tinha uma amiga Pallas e elas eram tão inseparáveis que quando Pallas morreu, Atena fez uma estatua em sua homenagem, elas eram tão parecidas que os gregos acabaram acreditando que se tratava da mesma pessoa, então começaram á chama-la de Pallas Atena.- falei.

-Você é muito sábia, criança. Mas, como é de praxe aqui no acampamento: até que seu pai ou mãe olimpiano reclame você, terá que ficar no chalé de Hermes.

-Contanto que continuem me chamando de Alex, tudo bem, não vou ficar aqui muito tempo mesmo.- respondi.

-É claro.- concordou.

Chegamos ao pavilhão de refeições, onde todos os campistas aguardavam sentados.

-Connor, está é Alex, nossa nova campista. Connor é o conselheiro do chalé de Hermes.- apresentou Quíron e indo para seu lugar na mesa principal.

-Seja bem vinda, ao chalé mais acolhedor do acampamento (não acreditem naqueles caras de Apolo), nós recebemos todos os forasteiros, perdidos, renegados, somos uma turma ótima pra se conviver!

-Não acredite nele!- gritou alguém.

-Cala boca, Austin.- retrucou Connor.

Uma trombeta soou.

-Hora da comida!- exclamou Connor, levantando.- Você pode pegar tudo o que quiser, mas antes de voltar pra mesa e começar a comer, você tem que jogar as melhores partes dos alimentos que você pegou na fogueira, é uma oferenda aos deuses.

Fiz o que Connor me disse. Peguei tudo em dobro, o que fez uma pequena montanha de comida no meu prato e joguei metade na fogueira, o que me lembrou da guerra quando os Olimpianos assumiram o controle do cosmos. O palácio de Cronos ficava no Monte Otris, a mais alta montanha da Grécia antiga, os Olimpianos subiram na montanha vizinha, Monte Olimpo e jogaram tantas pedras em Otris que reduziram a montanha á metade de seu tamanho original.

-Não tem nenhuma bebida nesse lugar? Achei que teríamos pelo menos uma adega de vinhos em homenagem á Dionísio.- comentei, me sentando-a mesa de Hermes, que estava repleta de taças. Arqueei as sobrancelhas, Connor sorriu.

-Qual a bebida que você mais gosta?- perguntou.

-Pepsi.- respondi, desconfiada. Ele pegou uma das taças e a encarou.

-Uma pepsi, por favor.- falou, então me entregou a taça, que agora, continha um liquido escuro.

-Eu não vou tomar isso.- avisei, ele riu, tomou a taça de volta e deu um gole.

-Nenhum veneno, pode ficar tranquila.

Tomei um gole e senti o gosto inconfundível de pepsi, refrescante.

-Que tipo de magica é essa que faz parecer melhor que de latinha?- perguntei, Connor gargalhou.

-Só os melhores engradados pra nós, filhos dos deuses!- falou, erguendo sua taça.

-Você é ridículo.- zombei.

O pessoal de Hermes se mostrou extremamente agradável. É claro que eu quase engasguei algumas vezes, já que as piadas e pegadinhas eram seu ponto forte. Por exemplo quando trocaram a taça de um cara da mesa ao lado por uma falsa.

-Mas que droga, não consigo beber, parece congelado!- reclamou, então ergueu a taça e a virou de cabeça pra baixo e olhou dentro, bem na hora que o liquido (que na verdade era uma gelatina congelada só na superfície) se soltou e caiu com um splash em sua cara. A mesa de Hermes explodiu em gargalhadas.- Vou pegar vocês, desgraçados!

Ao final do jantar, todos foram pro anfiteatro, onde não tinham regras sobre os assentos. Sentei em qualquer lugar, já que não tinha amigos.

-Tome cuidado com Connor, ele pode parecer amigável, mas você não é uma deles.

Encarei Klaus, agora sentado ao meu lado.

-Não se preocupe, vou embora logo.- retruquei. Ele foi embora.

O pessoal começou a cantar várias músicas típicas do acampamento, das quais eu não conhecia nenhuma. Depois de um tempo, aos poucos cada um foi se retirando, alguns indo fazer outras atividades ou indo dormir. Fui para o lago, observar a água ao luar, algo que não era muito possível onde eu morava, uma vez que mal conseguíamos encontrar a lua no céu.

-Não se preocupe, logo saberemos quem é seu pai ou mãe olimpiano. Por enquanto, arrumamos um cantinho pra você no chalé de Hermes.

Era uma garota, devia ter uns 14 anos, morena. Ela me acompanhou até seu chalé, onde descobri que meu cantinho significava um colchão no chão.

-Desculpe, as camas são apenas para residentes fixos.- comentou.

Consegui tomar um banho e comprei umas roupas na lojinha do acampamento. Os filhos de Hermes conseguiram hackear a conta do meu pai e transferir o dinheiro.

Quando voltei pro chalé a luz já havia sido apagada, tentei me esgueirar sorrateiramente até meu colchão, mas não tive tanta sorte. Chutei uma beliche sem querer e acabei caindo em cima de alguém. Connor precisou acender a luz e eu fui pro meu colchão.

Estava tendo um sonho agitado, como se estivesse sendo atingida por um terremoto.

-Acorda!

Deu um pulo do colchão, acordando do pior jeito do mundo.

-Meu deus, o que foi?- perguntei. O pessoal do chalé de Hermes me encaravam ansiosos.

-Seus pais.- começou Connor.

-O que que tem?

-Eles... estão aqui!