Pallas e os Gregos

4 Especial de Natal (parte I)


No Monte Olimpo:

É véspera de natal e todos organizaram uma grande festa, o salão do trono conta com um enorme pinheiro (plantado cuidadosamente num vaso apropriado, depois, é claro, do longo discurso e ataque de nervos de Deméter sobre como era absurdo que ela, a deusa da colheita, protetora da jardinagem permitisse uma barbaridade como a de cortar árvores), decorado com pedras preciosas, ouro e tudo o mais que fosse de valor. Com direito a pisca-pisca e refletor, tinha nada menos que 20 metros de altura.

Zeus que gostava de se exibir, ficou se gabando de ter o melhor pinheiro de todo o Olimpo, enquanto Deméter fazia questão de lembra-lo de que ela era responsável por tal feito. Apolo que era o deus Sol, a divindade mais brilhante de todo o mundo ficou indignado com toda a produção e destaque que a árvore estava ganhando.

-Esse pinheiro devia ser preso por tentar brilhar mais que eu!- reclamou. Ártemis, sua irmã gêmea deu uma leve cotovelada em suas costelas.- Ai, Ártemis!

-Deixa de ser invejoso, Apolo, a decoração toda esta maravilhosa.- retrucou, alegremente. Apolo bufou e saiu resmungando.

Enquanto isso, do outro lado da festa:

-Tem certeza que esse vermelho todo não é em minha homenagem?- perguntou Ares.

-Não, querido, o natal é pra espalhar o amor, fazer declarações, finalmente ficar com aquele crush que você tanto stalkeia nas redes sociais... A homenagem é pra mim, tenho certeza.- respondeu Afrodite.

-Com licença.- chamou Héstia.- Não pude deixar de ouvir que vocês falavam do natal, não é lindo? Uma época do ano feita especialmente para confraternizações de paz, amor, gentileza! Ahh, é tão maravilhoso ver todos os gestos de carinho...

-Acho que você se confundiu minha querida.- interrompeu Afrodite.- O natal é sobre amor.

-Sim, você está certa, comemoramos o amor ao próximo, somos bondosos, carinhosos e solidários!- exclamou Hestia.

-Não é sobre desejo carnal?- insistiu Afrodite.

-Não tem guerra?- choramingou Ares.

-Mas é claro que não, o natal é um momento de paz!- continuou Hestia.- E sim, eu tenho certeza.

Ares e Afrodite ficaram tão decepcionados que ignoraram Héstia, fingiram que não tinham ouvido a verdade sobre o natal e continuaram se gabando pra outros deuses menores falando que era tudo em sua homenagem.

-Ei, cara, você ouviu falar que Hefesto preparou um especial de natal na programação que vai ao ar meia noite?- perguntou Hermes para Poseidon.

-Ouvi dizer que ele vai fazer uma retrospectiva da era olimpiana, tipo melhores momentos.- concordou Poseidon.

-Só espero que ele tenha me retratado direito dessa vez.- comentou Hades, surgindo das sombras.

-Ei, irmãozinho, que bom que você foi convidado!- exclamou Poseidon.

-Pela 37492615 vez Poseidon, eu sou o irmão mais velho!- lembrou Hades.

-Você foi vomitado por Cronos depois de mim, irmãozinho.- argumentou Poseidon, sorridente. Hades revirou os olhos.

-Porque você foi um dos últimos a nascer e ser engolido por nosso pai, isso fez com que você ficasse em cima, mas eu já estava lá antes de você chegar, ou seja, eu sou o mais velho aqui.- retrucou Hades. Poseidon ficou parado sorrindo e balançando a cabeça afirmativamente, sinal de que ele estava tentando organizar os fatos em sua mente.- Deixa pra lá, você vai ficar toda uma década ai parado tentando entender tudo o que eu disse.

Hades se afastou, enquanto Hermes se contorcia no chão de tanto gargalhar.

Apesar de estar nevando lá fora, dentro do salão do trono estava abafado. Além da tradicional fogueira de Héstia, Zeus fez questão que Hefesto instala-se uma chaminé de verdade, onde outra lareira estava acesa. Além disso, Hesfesto teve que construir meias com compartimentos, já que todos os convidados deveriam levar presentes e colocar na meia do deus escolhido, de modo que apesar da quantidade gigantesca de presentes, ela não ficasse lotada. As meias foram divididas em duas fileiras, a primeira pertencia aos primeiros olimpianos (Zeus, Hera, Poseidon, Deméter... Hades e Héstia sendo incluídos pela primeira vez) e na inferior (Hermes, Afrodite, Ares, Hefesto, Apolo, Ártemis, Dionísio e Atena).

Havia fila para as meias, já que ao chegar o convidado era imediatamente encaminhado a entregar os presentes. Depois um pequeno tour sobre o pinheiro e você era liberado pra curtir a festa. O sistema era tão rigoroso que se você tentasse surgir no meio do salão através de fumaça, bolhas, ou seja lá o modo preferido pela deidade, você era expulso (mas não antes de deixar os presentes, é claro).

O salão ficou tão lotado que Hefesto teve que ativar o sistema de emergências, fazendo algumas paredes darem lugar a novos compartimentos, previamente decorados. Havia um espaço reservado para o tradicional beijo sob o visco, exigido por Afrodite, mas ela quis inovar e fez um espaço só para quem quisesse curtir a festa "namorando", então haviam cabines e cortinas pra quem quisesse privacidade.

Apolo cedeu a uma pista de dança e aderiu os eletrônicos, onde ele seria o DJ e organizador de passinhos. Ele finalmente abriu mão da sua performance solo, que incluía exibir seus dons não apenas na música, mas com o arco e flecha também e qualquer coisa extra que lhe "desse na telha", como na vez em que ele se transformou em pura luz a fim de provar que era o ser mais brilhante da fase da terra e acabou deixando alguns convidados cegos por uma semana. Mas no momento ele não se encontrava em lugar nenhum da festa.

Dionísio ficou responsável pela equipe de bartenders, que na verdade, eram todos seus seguidores (alguns até tinham estado lá quando ele descobriu o vinho). Inclusive, eles tinham um vasto cardápio de bebidas baseadas no vinho, então você poderia receber uma taça de vinho tinto com um guarda-chuvinha e canudo colorido. Sem falar nas manobras e malabarismos que eles faziam pra misturar as bebidas.

Enquanto isso, Atena estava recostada num divã, lendo o mais novo livro da sua coleção.

-Atena, querida, isso é uma festa, você deveria se enturmar!- falou Hera, sentando-se ao lado da deusa da sabedoria.

-Estou me enturmando com a nova zoologia.- retrucou Atena.

-Não entendi.- falou Hera, Atena a encarou.

-Este livro é uma pesquisa sobre a descoberta de novos animais fantásticos!- explicou.- Aqui tem tudo sobre eles, por exemplo, seu habitat, onde encontra-los, seus costumes, etc.

-E como se chama? Estou mesmo precisando de um novo animal sagrado. Os mortais não respeitam mais as vacas como antes, não está fazendo bem pra minha imagem.- comentou Hera. Atena sorriu.

-Animais Fantásticos e Onde Habitam, por Newt Scamander.- respondeu Atena.

-Vou dar uma olhada depois, por hora, voltemos a festa!- chamou, indo pra pista de dança. Atena riu e voltou para sua leitura.

A festa ocorreu normalmente, todos bebendo, namorando (aquela festa iria render muitos deuses novos pro olimpo). Tudo às mil maravilhas. Foi então que o relógio deu as doze badaladas.

Zeus levantou, pronto para fazer seu discurso, mas um brilho chamou a atenção de todos para o lado de fora. Um enorme brilho dourado surgia no céu e vinha se aproximando da entrada do salão.

-Aquele é...

-Não pode ser!- praguejou Ártemis.

-Ele não fez isso.- comentou Hera.

-Ele fez sim.- retrucou Atena.

-Apolo!- gritou uma ninfa, acenando e dando pulinhos.

O brilho dourado se transformou na carruagem do sol, agora puxada pelas vacas vermelhas de seu rebanho sagrado. Apolo apareceu com um terno de puro glitter vermelho e sapatos italianos brancos.

-HO HO HO, Olimpo!- gritou, as mulheres soltaram gritinhos empolgados.

A carruagem deu uma volta e estacionou na entrada da festa, onde um tapete vermelho havia sido colocado.

-Podem me chamar de Noel, pois eu presenteio todos vocês com a minha presença.- falou.

Algumas ninfas fingiram desmaios. Enquanto os outros olimpianos olhavam boquiabertos para Apolo.

-Você é inacreditável! — rosnou Ártemis.

-O que você tá pensando andando na carruagem do sol durante a noite?- gritou Zeus.- Você não é o dono da festa!

-Bom, papai, agora eu sou.- retrucou Apolo, dando uma piscadela e entrando no salão.

Todos voltaram para dentro do salão, os olimpianos formando um circulo no centro do salão (Zeus aumentando um pouco de tamanho).

-Agora que já estamos todos reunidos e já passa da meia noite, teremos a retrospectiva preparada por Hefesto, mas antes, umas palavrinhas.- anunciou Zeus.- Quero agradecer a todos aqui presentes para me homenagear em mais uma festa, e principalmente aquele mortal Jesus, responsável por criar este feriado para mim...

-Hã, com licença, senhor Zeus.- chamou uma voz na multidão. Zeus revirou os olhos.

-Quem chamou?- perguntou. Hestia ficou na frente do circulo de Olimpianos.- Ah, é você Hestia! Sim, você pode ficar no circulo desta vez.

-Não era isso...

-Se ela pode, eu também tenho direito!- gritou outra voz.

-Mas quem...

Hades apareceu do lado de Héstia.

-Tinha que ser você, irmãozinho. Está bem, só dessa vez.- resmungou Zeus.

-Continuando meu discurso. Aquele mortal quis homenagear o fato do meu nascimento ter colocado fim da era dos Titãs...

-Senhor Zeus.- chamou Hestia, novamente.

-Sim, Héstia, tenho certeza que Hefesto lembrou de você na retrospectiva.- falou Zeus.- Agora, não me interrompa mais. Continuando, neste feriado retratamos o meu nascimento numa caverna até ficar adulto e enfrentar Cronos, resgatando meus irmãos e salvando a todos...

-Desculpa mesmo, senhor Zeus, mas eu preciso falar uma coisa.- interrompeu Hestia.

-Fale logo de uma vez Hestia, se não ele nunca terminará esse discurso.- reclamou Hermes.

-Acontece que Zeus está... errado.- falou. Um silêncio mortal invadiu o salão, todos os convidados com os olhos arregalados de pavor.

-Como ousa?- perguntou Zeus, tremendo de raiva.

-Eu posso explicar. Acontece que esse feriado não foi criado por Jesus...

-Então quem foi?

-Os cristãos.

-Mas eles não nos odeiam?- perguntou Ares.

-Não é bem ódio, eles só acreditam em outro deus e fizeram mais da metade do planeta acreditarem também.- respondeu Atena.

-Bom, então eles quiseram se redimir e fizeram este feriado, problema resolvido, podemos continuar!- exclamou Zeus.

-Na verdade... -começou Hestia, todos reviraram os olhos.

-Isso vai levar uma eternidade!- reclamou Apolo.

-Deixem ela terminar logo!- gritou Demeter. Os convidados se remexeram nervosos, da ultima vez que Demeter havia tido um ataque de nervos, transformou todos em milho.

-Como eu dizia, os cristão criaram este feriado, em homenagem ao nascimento de Jesus.- falou Hestia.

-Mas porque eles homenageariam outro mortal?- perguntou Zeus.

-Porque eles acreditam que esse mortal é filho de seu deus e que veio salva-los.- respondeu Atena. Hestia concordou.

-Então eu tenho que matar esse mortal por roubar minha glória.- decidiu Zeus.

-Agora que eu estou me lembrando, você já fez isso cara, mandou os romanos atrás dele.- interveio Hades.- Ele foi promovido pra trabalhar no meu palácio, recentemente. É uma boa alma, sujeito legal.

-É, agora que você falou, me lembrei também. Os cristãos não ficaram muito felizes, tomaram conta de Roma depois disso.- falou Zeus.- A minha homenagem deve ser esse que as crianças chamam de Papai Noel, já que eu sempre dou presentes para a humanidade.

-Outro engano, meu senhor.- falou Hestia.- O Papai Noel é em homenagem a Prometeu, já que ele criou os humanos e depois lhes presenteou com fogo, para que pudessem se desenvolver.

-Aquele traidor?- berrou Zeus.

-Sim, senhor.- confirmou Zeus. Alguns convidados começaram a cochichar de que aquilo fazia muito sentido.

-Pelo menos eu sei que o Pinheiro é em minha homenagem.- gabou-se Deméter.

-E eu sou o responsável pelas canções de natal!- exclamou Apolo.

-Eu sou o responsável por fazer todas as entregas até a meia noite ou seu dinheiro de volta.- falou Hermes.

-Vermelho é sobre mim!- comentou Ares.

-Já disse que é sobre o amor, querido.- retrucou Afrodite.

-É feriado de família, também estou sendo homenageada.- concordou Hera.

-A chaminé é sobre mim.- disse Hestia, todos a olharam, já que aquilo era quase uma admissão de culpa (diz a lenda que foi Hestia que deu o fogo a Prometeu, mas no julgamento, não houve provas, então Zeus concluiu que Prometheus sorrateiramente roubou da lareira de Hestia).- Só porque o fogo é o meu símbolo.- concluiu apressada, todos concordaram.

De repente, cada um dos quatorze olimpianos começou a apontar que ponto do natal era em sua homenagem, até Zeus levantar os braços e todos ficarem em silencio novamente.

-Bom, pelo visto todos temos motivos para acreditar que esse feriado é em nossa homenagem, que tal deixarmos assim?- sugeriu, ao que todos concordaram.- Maravilha, agora vamos todos nos sentar para assistir ao slide show.

-O nome é Especial de Natal.- comentou Apolo.

-Ah, certo.- concordou Zeus.- Vamos assistir o Especial.

Continua...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.