Pale (interativa)

13 Linha de fogo


Notas iniciais
Estão presentes nesse capítulo: Todos os personagens.

Os cidadãos permaneceriam dentro de suas cabanas até que os cadáveres aos pedaços pelas ruas fossem recolhidos e o incêndio causado pelas tochas dos guardas que foram atacados fosse contido. Antes da meia noite, a fumaça das cabanas e comércios queimados se concentrou no ar de modo que o céu fora coberto por um manto cinza e era inevitável respirar sem tossir entre as cinzas. Pale nunca esteve tão caótica. Haviam tijolos e vidros espalhados pelo asfalto, cercas e jardins destruídos, a água do rio que cortava a comuna estava rubra e escura como um rubi. Alguns familiares insistiram em procurar por seus conhecidos desaparecidos, mas foram controlados e levados para a ala hospitalar, onde esperariam até que os médicos tomassem os devidos cuidados com as vítimas, pois só assim poderiam identificar quem era quem, apesar dos rostos desfigurados.

Da vila dos assassinos, podia se escutar o pranto da população. Quando finalmente recolheram o corpo de Jadine — ou pelo menos o que restou dele, só alguns tendões prendiam o tronco à bacia — em uma maca, um dos guardas entrou na cabana para conversar com Dorothy. Encolhida em um canto da sala, ela estava em um estado catatônico. Mesmo que fosse alguém contratada para matar e isso exigisse uma frieza exacerbada, não esperava que sua nova amiga morresse daquele modo tão repentino. Agora, ela se via completamente sozinha. Se não com Jadine, com quem mais faria as missões?

Inclinando-se em sua direção, o guarda mascarado pôs as mãos sob seus ombros delicados. – Sinto muito por sua aliada, a morte de um conhecido nunca é fácil.

Com o maxilar trêmulo, ela não conseguiu formar palavras. Era um mecanismo de defesa psíquico.

– Vou ficar bem – rebateu com a voz fraca. De prontidão, escondeu a face entre os joelhos quando os enfermeiros passaram em frente à porta escancarada com a maca, carregando de sua aliada despedaçada. — Chega, não quero mais ver essa desgraça!

– Eu sei que você não quer ver isso, mas regras são regras e você tem que estar no hospital como testemunha do embalsamento – disse, em contrapartida.

– N-não, não quero, prefiro ficar aqui – ela se opôs, se espremendo contra a parede e sentindo o estômago revirar.

Como sua opinião não valia nada, o guarda a ergueu pelo quadril e arrastou aos berros para fora, levando-a para o hospital no centro, acompanhando uma enorme fila de enfermeiros. Usando máscaras de oxigênio e distribuindo-as aos feridos, Allan, Evanecer e Valentina tentavam amenizar o fogo com extintores, juntamente com os guardas para que residências abaixo dos alpes de Yamanashi não enxergassem o estrago. Seria muito suspeito e a imprensa nacional prontamente tentaria se intrometer. Nicole e o Imperador Obel visitaram cada cabana para passar uma mensagem de reconforto às famílias em desespero. Por sorte, o incêndio não tomou altas proporções. Valentina se dispersou da dupla para recolher a sujeira com voluntários. Botando os rastros da tragédia dentro de um saco plástico, ela enxergou uma silhueta se movendo através do campo...

E no campo, Ian se escondera na torre velha. Intimidado com os tiros e o fogo, seu espírito animal desistiu de guerrear. Abaixado na escada, sua respiração acelerada indicava de ele dolorosamente voltava à forma humana. A pelagem era expulsa de sua pele coberta e caia aos montes no solo de pedra. Em um processo anormal, os ossos se comprimiram até que seu corpo estivesse livre da maldição. De mal humor, Rebeca entrou na torre e atirou uma porção de roupas em sua cara.

– Vai, veste isso aí — ao notar de que ele fez uma careta ao verificar as roupas, ela torceu as sobrancelhas. – Foi o melhor que achei.

Enquanto Ian se vestia, Rebeca delineou com os olhos cada saliência de seus músculos e até mesmo a região de seu sexo e a virilha; partes expostas graças às roupas rasgadas de quando ele se transformou. Extasiada, ela reprimiu um suspiro de tesão e olhou para o alto, bem no teto degradado da torre, tentando não fantasiar sobre aquele maldito.

Agora vestido em um jeans e uma camisa folgada, Ian sentou em um degrau, hesitante, caindo em si de toda a tragédia que causou. – Eu fodi tudo né?

– Aham... Não adianta nada reclamar. Se nós já estávamos na merda, imagine agora.

Ele fechou o punho e esmurrou a própria coxa, praguejando baixinho até que sua voz dobrasse o volume. – Se eu soubesse que eu iria me prejudicar de novo teria preferido ficar trancado na prisão.

Rebeca esfregou a testa. – Você não só se prejudicou como prejudicou a vida de muita gente.

– Que se dane, problema é deles – disse para evitar a culpa.

– Olha Ian, eu nem consigo te olhar de tanta raiva – ela confessou, sem encará-lo.

– Foi mal – deu de ombros, como se tudo pudesse ser consertado em um passe de mágica.

Invadindo o local, Valentina tranquilamente apontou para Ian. – Desculpe interromper a discussão do casal. Você merecia uma morte lenta, seu miserável.

Esboçando um sorriso malicioso, ele ficou de pé e pôs os braços para cima como se estivesse se rendendo. – Opa, é melhor não me ameaçar antes que alguém se machuque.

Sentindo um formigamento nas pontas dos dedos, a líder concentrou todo seu poder místico neles e atingiu o criminoso, resultando em uma potente energia invisível que o impedia de reagir.

– O que você fez foi nojento e imperdoável – ela declarou.

Rebeca não o defendeu, achou que talvez fosse melhor que ele fosse punido com severidade. A energia veementemente se manifestou no plano material como uma corrente translúcida e brilhosa.

– Você vai perder um licantropo útil para proteger Pale – chantageou.

Ela teve que rir, concentrando a energia no pescoço de Ian e o apertando à distância. – Proteger? Você destruiu o equilíbrio da comuna.

Sufocou. – Eu posso servir ao Império.

– Eu não confio em você!

Vendo que a cor da face de seu parceiro estava se alterando do roxo para o azul, Rebeca entrou em desespero e implorou para que a líder não terminasse de estrangulá-lo. – Para! Ele vai morrer!

Perdendo o foco por compaixão, Valentina parou de visualizar a energia cósmica e o pescoço do rapaz foi solto. – Vocês não entendem de que nada que possam fazer pode substituir as pessoas que ele matou?

Ian ficou olhando de soslaio para a líder. – Bruxas nojentas, deviam todas ter sido queimadas em Salém.

Ofendida por suas ancestrais, Valentina o deu um tapa no rosto e ele a devolveu o tapa com agilidade.

– Seus poderes não são tão eficientes assim – ele concluiu.

– Eu adoraria que ver você servindo ao Império e sendo o nosso escravo pelo resto de sua vida.

– Se você sair viva daqui, conte a eles o quanto fui piedoso em poupar Pale.

Valentina alertou. – Eu posso manifestar outro feitiço tão expansivo que eles saberão aonde estou em menos de segundos. Não é melhor vir comigo e se entregar ao Império?

Passivamente, Rebeca assentiu para ele, sinalizando de que era a única saída.

– Tá certo – ele aceitou o acordo, mesmo à contra-gosto.

Indo para o castelo, Valentina os fez invisíveis aos olhos alheios e só desse jeito eles estariam seguros. Ao chegar ao salão principal, dobrou um corredor e entrou no escritório de Obel que ainda estava acordado organizando uma papelada para administrar todos os rombos financeiros, ninguém mais dormiria naquela noite turbulenta. A líder nem sequer bateu na porta, já chegou fazendo escândalo.

– Eu trouxe o autor dos crimes – e os fez visíveis novamente.

Obel derrubou a caneta que estava usando para fazer as contas e se aproximou de Ian.

– Espero que esteja preparado para ser torturado até o momento de seu último suspiro – o velho planejou sobre arrancá-lo a alma e adicioná-la em sua coleção.

Em um comitê com todos os líderes no escritório, decidiram que deixá-lo no calabouço do castelo seria o mais apropriado por enquanto, achavam que se Ian se transformasse novamente não teria como escapar daquela redoma. A punição daquela noite seriam chicotadas.

~

A uma hora da madrugada, o clima não estava mais tão pesado, as ruas ficaram pacatas como se fosse um dia comum e o colérico frenesi consequente da tragédia passou. A fumaça se misturou com a serração e entre ela, Às e Stefan seguravam lanternas acessas enquanto caminhavam até a cabana vizinha quase sem enxergar a um palmo. Sem serem atingidos pela histeria coletiva, eles levavam grades de cerveja para compartilhar com outros aliados. Bateram na porta de Anna e Kenshin e os convidaram para ir até a cabana de Jean e Sydney. Embora consternados com os olhos escuros do vampiro, óbvio que eles aceitaram de bom grado. Seria uma festa sem comemoração específica, mais como uma reunião. Descendo a ladeira de paralelepípedos com as garrafas tinindo, o grupo tentou não fazer barulho para que os guardas nas redondezas não os vissem e os mandassem de volta às suas respectivas moradias.

Ás entrelaçou seu braço ao de Kenshin e saltitou. – Assim podemos todos conhecer um ao outro.

– Eu estava planejando fazer isso, só faltava coragem – Anna concordou, tropeçando e ajudando Stefan a carregar as bebidas.

– E a Jinx e a Maisha? Não convidaram elas? – Kenshin indagou.

– Sim, convidamos, mas a Maisha estava tomando banho – Stefan deu de ombros, neutro. — Então pedi para elas virem depois.

Tirando as mãos dos bolsos do casaco, Kenshin deu três batidas na porta da cabana. As luzes ainda estavam acessas, sinal de que eles não estavam dormindo. Não demorou para Sydney atendê-los com uma escova de dentes na boca e a pasta de dente azul escorrendo pelo canto dos lábios.

– O que vocês querem? – perguntou com grosseria sem tê-los visto, mas ao se dar conta de que eram os outros assassinos arregalou os olhos.

Ás apontou para as garrafas. – Nós trouxemos muita cerveja, viemos fazer uma festa.

– Ah... — Sydney balbuciou, dando passos para trás. Devia bater a porta na cara deles sim ou claro? — Festa aqui? Mas eu quero dormir!

– Só dessa vez – Ás persuadiu, fazendo um bico.

– Tá! – ela cedeu, sorrindo.

Entusiástico, Jean surgiu atrás dela na porta. – Eu ouvi a palavra cerveja?

E em contrapartida da indecisão de Sydney, os quatro entraram e tumultuaram a sala. Entre risos, abriram as garrafas e brindaram um pouco introvertidos. Se soltando, Anna rodopiou e procurou pelo rádio na estante e Stefan a ajudou a sintonizar em alguma estação que prestasse, mas parecia que todas estavam fora do ar e a única estação que funcionava era a da comuna; que anunciava inutilidades de meia em meia hora. Nesse horário o interlocutor noticiava a lista de mortos daquela noite em ordem alfabética, mas nenhum deles sequer prestou atenção.

– Acho que nunca conversei com você – Jean disse pro Kenshin, sentando-se na poltrona à lareira.

– O nível de intimidação aqui é grande, não dá para confiar em todo mundo – era a maneira mais longa de dizer "Tá tudo bem, relaxa".

– Sim, não dá, mas podemos tentar – Ás subiu em cima da mesinha de centro. – Queria que vocês fossem amigos, é esse o propósito de termos vindo até aqui.

Sydney sacudiu a cabeça ao concordar e depois pegou duas garrafas, passando uma para seu aliado.

Do corredor do quarto, Greta surgiu esfregando os olhos vestida em seu pijama e se assustou ao ver todas aqueles rostos a encarando na sala.

– Então você é a tal fugitiva? – Ás questionou, curiosa.

Cruzou os braços, estranhando aquelas presenças. – Não sou mais uma fugitiva, Obel me reintegrou à categoria dos assassinos.

– Bem-vinda de volta – Stefan aproximou-se e afagou nas costas.

Ao se afastar, ele retornou ao canto onde estava escutando a rádio.

Audaciosa, ela ergueu uma sobrancelha, gostando dele. – O prazer é todo meu.

Mesmo em tempos tão turbulentos, algumas pessoas ainda pensavam em sexo. Olhando ao redor, Anna riu baixinho e agradeceu por estar rodeada com aquelas pessoas que eram sua nova família. Bebendo em seu canto e refletindo sobre Allan, sabia que não era correto ter se sentido atraída pelo líder casado, mas bem que Sarah merecia uma lição que a fizesse se sentir insignificante. Soturna, ela mirou a paisagem através da janela e Kenshin notou o quanto sua aliada estava melancólica.

– Algum problema? – foi direto ao ponto.

– Nenhum problema que possamos conversar agora – assegurou, temendo que os outros escutassem. Não era para ninguém saber.

Particularmente, Kenshin não se sentia sexualmente atraído por ela, apesar de toda sua beleza. O que ele sentia por ela era além da amizade, mas abaixo da paixão. Era certo instinto protetor e companheirismo, como uma prima distante.

– Você anda estranha... – ele cochichou. – Acho que tem a ver com algo que você queira me contar, mas não pode.

– Será? – ela se fez de difícil.

– Eu não sei, mas está me incomodando. Tem a ver comigo? Eu fiz algo de errado, é isso?

– Além de roncar muito e ficar jogando até amanhecer? – ela brincou, o dando um leve empurrão. — Não Kenshin, eu te adoro.

– O dia em que o líder estava em frente a nossa cabana, eu sei que ele conversou com você – ele estreitou os olhos, ameaçador. – Eu queria saber o quê.

Interrompendo as respectivas conversas, batidas na porta foram ouvidas e Ás se levantou para atender, prendendo a respiração porque poderiam ser os guardas, mas para a alegria deles era somente Maisha e Jinx.

Maisha carregava nos braços o pequeno Scar e os apresentou aos assassinos que não o pouparam de carícias e o deixaram querendo morder as almofadas e arranhar os móveis. Jinx sentou-se entre Kenshin e Anna e começou a conversar incenssantemente sobre luta e artilharia enquanto sua aliada só observou, encostada à parede. Maisha não sentia vontade de beber, quando bebia ficava com a voz arrastada muito rápido e acabava caindo no sono de tanto tédio.

– Me disseram que você é uma excepcional arqueira – Jinx questionou, pegando uma garrafa que já estava aberta em cima da mesinha de centro.
Anna coçou a nuca. — Bom... Não sei se sou tão boa, mas dá pro gasto.

– Você precisa me treinar, eu sempre adorei arco e flecha – insistiu, determinada.

– Quem sabe um dia desses... – ela garantiu, sentindo-se orgulhosa.

Grata, resolveu se dirigir à Kenshin. – Qual é a sua habilidade especial?

– Eu já zerei vários jogos online – ele respondeu com seriedade.

Logo em seguida, os três riram.

– Oi, gostei do seu cabelo rosa – Ás cumprimentou Maisha ao tocar seu ombro, roubando a atenção do trio que ela observava. – Eu nunca consegui tingir meu cabelo de outra cor, não combina comigo.

Ela respondeu timidamente, sem saber se prestava atenção no passeio de Scar pela cabana ou em Jinx sendo tão espontânea e admirável. – Falou comigo? Ah, oi, obrigada.

Meiga, Ás continuou. – Se precisar de alguém pra ficar com seu leão enquanto faz as missões pode contar comigo.

– Talvez sim, talvez não – Maisha tentou não ser rude. Não confiava mais nas pessoas depois de tanto dano que elas a causaram, não podia correr o risco de perder Scar também.

– Acho que já te disseram isso antes, mas eu não sou como as outras pessoas – assegurou, transmitindo lealdade em seu semblante.

– Já me disseram muitas vezes, mas vou tentar. Seria incrível ter alguém pra cuidar dele – ela encontrou o olhar disperso de Jinx do outro lado da sala e desviou o seu depressa, sentindo outra sensação que a inquietou.

Num intervalo de silêncio, identificaram gritos longíncuos de um homem e estalos de um chicote. Greta conhecia os timbres da voz de Ian, ele com certeza estava sendo castigado. Saindo da cabana num átimo, foi impedida por Stefan.

– Você não pode ir até lá! – advertiu, a preocupação tingia sua expressão.

– Eu quero ver esse idiota pagando por tudo o que fez – ela sorriu sadicamente e se desviou, rumando em direção ao castelo.

– Vai atrás dela! Trás ela de volta! – Ás e Jean pediram em coro.

Seguindo Greta, ele acelerou o passo quando ela atravessou a ponte e se escondeu atrás de um pilar na base da torre. Rápido e em um piscar, já estava ao seu lado. Os dois espiaram a conversa entre Rebeca e Valentina e ela ficou furiosa com o quanto a ruiva havia criado laços com os líderes.

– Uma vaca – resmungou, enjoada.

Até que a conversa atingiu o ponto em que uma confissão foi feita. Bem ali nas portas do castelo, a líder e a infiltrada trocaram um segredo importante.

– Não quero que a Greta descubra sobre ele ter matado seus pais – Rebeca dizia.

Valentina petrificou, boquiaberta. – O Ian matou os pais da Greta Green?

– Ele mesmo me contou quando fugimos da prisão. Acho que foi meio de uma estrada na floresta quando ele estava em forma de lobo. Ela ainda não sabe disso e eu até prefiro que seja assim!

Apertando o maxilar, Greta sentiu uma cólera envolver seu corpo dos pés à cabeça em uma camada de pura violência, fincada em seu âmago desde o acidente de carro que a fez perder aqueles que tanto amava.

Pretendia invadir o salão, ou pelo menos cuspir na cara de Ian. – Não... Eu não acredito... Seria muita coincidência. Preciso dar um fim nisso.

Se não fosse por Stefan, ela teria conseguido.

Hipnotizando-a, ele mirou o fundo de seus olhos e obteve controle sob seu psicológico, a submetendo a um estado apático. – Nós vamos embora daqui.

– Sim, nós vamos – ela concordou com calma, ainda sentindo o coração disparado pelo crescente ódio.

O efeito não era duradouro, mas duraria o bastante para resolverem o que fariam.

Notas finais
Espero que gostem, a próxima missão será uma surpresa. Por fim, a playlist: http://8tracks.com/foxxxxxxx/pale-fanfic