Pale (interativa)
14 O roubo
Notas iniciais
Cochilando, Dorothy estava na sala de espera do hospital quando uma enfermeira veio convocá-la segurando uma prancheta.
– Com licença, você é a Dorothy?
Ainda com as pálpebras semicerradas, ela apenas balançou a cabeça, confirmando. Havia embolado a própria jaqueta para usar como almofada.
– Então, por favor, me acompanhe – pediu educadamente.
Meio sonolenta, seguiu a enfermeira pelos corredores bastante iluminados e brancos. Dorothy ressaltou que tanto no interior quanto no exterior, o hospital de dois andares de Pale tinha uma estrutura diferenciada das outras construções da comuna, pois era feito de concreto e sua arquitetura o fez um prédio urbano e bruto deslocado no meio das cabanas tradicionais e comércios japoneses com telhados inclinados. Era muito desproporcional.
Em frente às portas duplas da sala do necrotério, a enfermeira a entregou uma caneta e ela assinou seu nome sem ler o documento. Estava tão abatida que não lhe interessava. Quando a mulher empurrou uma porta, Dorothy entrou e se deparou com o cadáver de Jadine sob uma maca no centro da sala. Sua pele estava meio acinzentada e as laterais da cabeça e costelas haviam sido completamente devoradas. Resumindo, pouco sobrara daquela garota. Um médico se levantou da cadeira onde computava detalhes dos documentos dos exames finais e foi até a visitante.
– É uma pena, sua aliada era bem jovem – ele lamentou com sotaque.
– Todos nós somos, se algum de nós tiver mais de dezenove anos é muito – rebateu, sendo ingênua e verificando se Jadine ainda estava respirando, sendo que não havia restado nem cinquenta por centro de seus pulmões ou intestinos.
Desviou o olhar, sentindo o estômago revirar outra vez. Era chocante ver um conhecido naquele estado. Alguém que se locomovia, ria e conversava reduzido a uma carcaça.
O médico finalmente a questionou. – Você não acha injusto que Obel obrigou todos a nunca mais sair daqui? Por que vocês não se rebelam?
Sem saber se tinha permissão para falar do contrato do Imperador com os assassinos, deu uma resposta curta. – Eu estou aqui para testemunhar de que a Jadine está mesmo morta, Doutor.
– Agora que já a viu, pode ir embora – a dispensou.
Dorothy fitou o doutor. – E onde vão enterrá-la?
Ele suspirou. – Ah, o funeral será ás cinco da manhã.
– Eu quero que ela seja enterrada logo, se for possível.
– Não enterramos, nós cremamos em um local fora de Pale. Se quiser comparecer para pegar as cinzas, precisará informar a um dos líderes e assinar um formulário de saída.
– Acho melhor assim, vou dar um jeito nisso – e se despediu com um aceno.
Voltando desacompanhada à vila dos assassinos, enxergou Stefan e Greta entrando na cabana de Sydney e Jean, onde Ás e a Anna os puxavam para dentro com pressa. Suspeitando, decidiu ir espiar mais de perto. Vigiando do lado de fora através da janela, viu todos reunidos na sala se divertindo, mas o que a alfinetou de verdade foi quando Kenshin agarrou um violão e ganhou um beijo na bochecha de Anna.
– Que filhos da puta, como consegue se divertir numa situação dessas?! – reclamou, quase gritando.
De punhos fechados, caminhou até a porta e deu duas batidas violentas.
Ao ser atendida, fez seu escândalo. – Porra, que absurdo é esse? Vocês deviam ter vergonha de comemorar a tragédia que aconteceu hoje!
Jean automaticamente puxou-a para dentro da cabana, fechando a porta. – Seja discreta.
Quieta em seu canto, Anna revirou os olhos, incrédula do que estava testemunhando. Se tivesse a enxergado pela cortina, teria a detido a tempo.
– Não estamos comemorando nada, Dorothy – Ás defendeu.
– Cala a boca, eu sei o que eu vi – ela esperneou, segurando o próprio cabelo enquanto batia os pés.
– Você não sabe de nada, só sabe que a putinha da Jadine morreu e agora quer nos ferrar como se tivéssemos culpa – Kenshin rebateu, deixando o violão de lado. Haviam arruinado seu humor.
Dorothy empinou o nariz, olhando-os com arrogância. – Minha amiga morreu por vocês e vocês não tem o mínimo de consideração. Vão pagar por isso.
– Ela morreu porque estava na rua – Anna atacou, saboreando sua cerveja. – A propósito, o que ela estava fazendo na rua quando já haviam dado o toque de recolher?
Não podia responder que iam espalhar os cartazes com a intenção de difamá-la. – Não importa, o que me importa é que agora eu fiquei sozinha, não tenho mais ninguém! – declarou, transparecendo sua insegurança. Sentiu seu rosto ficar quente e o escondeu entre as mãos quando soluçou e chorou.
Sentindo certa pena por ela ser tão oca e inescrupulosa, Jean passou um braço ao seu redor e a levou até o sofá para reconfortá-la. – Calma, não precisa ficar assim. Olhe ao seu redor, você não está sozinha, nós estamos aqui com você.
– Eu não quero participar das missões sem a Jadine, não sei se vou aguentar todo esse peso sozinha – confessou e seu pranto se tornou conformado. Ela percebeu de que só passou vergonha ao tentar humilhá-los.
– Eu posso participar das missões com você – Greta se manifestou entre os outros aliados.
Sua decisão havia sido manipulada pelos poderes psíquicos de Stefan e ao lado de Anna, perto da lareira, Kenshin percebeu.
~
Ao resolverem o problema, Greta e Dorothy procuraram por um dos líderes no castelo e encontraram Nicole conversando com um dos empregados que limpava o salão após a punição de Ian.
– Queremos ser aliadas – anunciou a mais baixinha.
E sim, as decisões por parte de Greta continuava hipnotizada por Stefan, que ficou escondido atrás de um dos pilares para vigiar, devia estar pronto se algo desse errado. Antes de elas estarem naquele lugar, ele contou a Dorothy sobre as condições de Greta e que ela havia descoberto de que Ian havia matado seus pais, então teve que hipnotizá-la para adiar a ascensão do caos em Pale, pois com certeza não fazia parte dos planos dela tornar-se a aliada daquela garota, preferiria continuar a vagar solitária e sem mais nada a perder, mas por enquanto era tudo o que lhe restava.
Dispensando o serviçal, Nicole as observou analiticamente por um segundo e aceitou a proposta. – É plausível, já que Jadine morreu.
– Podemos ir completar alguma missão hoje mesmo, se quiser – Dorothy sugeriu, deixando nítido o quanto estava abalada. Haviam sido muitas emoções para uma noite só.
A líder fez uma breve pausa para pensar a respeito do assunto, mas outra pessoa se intrometeu.
– Acho que tenho uma missão perfeita para vocês – Evanecer advertiu, descendo a escadaria com um sorriso cínico.
Nicole se opôs de imediato, angustiada. – Não, tudo menos isso! Ainda é muito arriscado e elas não tem tanta experiência. Obel não acharia isso certo.
– Nunca vamos saber se não tentarmos... – rebateu, atrevida. De fato, não era uma decisão esperta. – Eu é que não vou sujar as minhas mãos com aquelas pessoas miseráveis e você?
Seguindo a regra de que era necessário manter uma relação pacífica com os outros líderes, Nicole foi obrigada a ceder. Particularmente, nunca gostou de Evanecer, sempre a achou esnobe e irresponsável, a única que se dava bem apesar de todos os erros que cometia, afinal, existiam outras pessoas para repará-los e uma delas era a sacerdotisa Hikaru.
– Tudo o que vocês têm que fazer é assassinar silenciosamente dois investigadores em Yokohama – Evanecer disse às recrutas. – Vocês vão até um departamento no endereço que eu te indicar e vão pegar as provas.
– Só isso?
– Não. Soube pela Natasha de que eles estariam na parte litorânea de Chiba investigando mais um caso. Vocês vão terminar esse serviço o mais rápido que puderem e vão direto para essa cidade. Quero esses dois mortos até o fim do dia – ela exigiu com severidade. – Joguem eles no mar, deixe que eles afundem.
Evanecer assinou um formulário de saída para elas e mais detalhes do departamento, incluindo endereço e algumas notas de ienes para comprarem as passagens de trem e fotos pessoais dos investigadores que furtou dos arquivos do departamento. Quando os equipamentos estavam prontos e bem arranjados nas mochilas, as novas aliadas partiram da sede da comuna.
Tomaram um trem expresso na estação Kofu em Yamanashi até Shinjuku e em seguida chegariam a Yokohama de táxi. Neste ponto, o céu já assumia uma cor clara. Após esperarem alguns minutos até ter um táxi disponível, Dorothy auxiliou o motorista a encontrar o endereço e ao chegarem lá, triunfantes, elas entraram no estacionamento subterrâneo do departamento, o que foi um erro e uma bela irresponsabilidade já que as câmeras de segurança flagrariam seu veículo e as mídias das gravações serviriam como mais uma prova contra Pale.
Frustrado com as buzinadas da fila de carros que se formou atrás delas, o segurança na cabine as permitiu que entrassem e as deu o número da vaga em que deviam estacionar. Depois de deixarem o carro na vaga indicada, subiram de elevador até o piso dos escritórios de Max e Natasha.
– Tudo pronto?
– Sim, estou pronta – afirmou, suspirando todo o ar acumulado em seus pulmões. Dorothy carregava uma mochila preta escolar com luvas, uma pistola com silenciador, uma pequena máquina de solda portátil e uma densa barra de ferro que serviria para fechar a porta da sala enquanto sua aliada assassinasse as vítimas, assim daria tempo de fugir antes que alguém arrombasse a porta, caso algo desse errado.
– Vai dar tudo certo – Greta sorriu para passar confiança. Por precaução, levava uma granada. Planejava explodir o andar inteiro e mandar tudo pelos ares, se falhassem. Além de tudo, destruiria as provas desse jeito e Pale ficaria grata por sua boa ação.
– Você está bem? — ela a indagou, preocupada com quantos dias duraria a hipnose.
– Muito bem e você? — sua aliada ainda não respondia a estímulos sentimentais ou sequer sentia sono, apenas sobraram os sentidos lógicos e de maneira bem limitada.
Nenhum pensamento a respeito de seus pais ou Ian cruzariam sua mente, assim como Stefan decretou.
– Acho que estou bem também, mas não tão bem – Dorothy não iria se atrever a dizê-la que estava hipnotizada, afinal, como se dizia isso a alguém?
O quão surreal e cômico soaria um “Você não anda desconfiando de que foi hipnotizada por um vampiro?” ?
No andar dos escritórios, maior parte das salas estava vazia, exceto pela seção de atendimento dos quais algumas pessoas terminavam seu turno das dez até às seis da manhã. No entanto, eles não as viram, pois elas cruzaram o lado oposto do corredor. Na porta da sala dos investigadores estava escrito em uma plaquinha cromada seus respectivos nomes.
– É esse o lugar, vamos terminar logo a primeira etapa do serviço – Dorothy murmurou mais esperançosa.
– Não podemos invadir ainda – vendo que havia uma câmera no canto do teto, Greta fez um sinal para ela passar reto pelo escritório por enquanto. – Me segue, eu tenho outro plano.
Saindo para a área do terraço, Greta resolveu escalar a parede exterior do prédio e se pendurar no beiral ao lado de fora da janela do tal escritório. Antes de imitá-la, Dorothy olhou para baixo e cambaleou, pensando duas vezes antes de pôr seus pés no parapeito de vidro e se escalar tão habilidosamente quanto sua aliada.
Greta a estendeu uma mão, sentada no largo beiral. – Vem garota burra. Eu te ajudo.
– Vou tentar – respondeu, pondo um dos pés de cada vez. Ao segurar sua mão com força, se pressionou para frente e deu um salto no beiral.
Ela usou uma ferramenta fina para abrir o trinco da janela por dentro e entraram. Esquadrinhando ao redor, não ficaram surpresas pela sala estar vazia. Havia uma mesa coberta por papeis, um computador e um telefone sem fio. Um divã, armários, prateleiras com inúmeros livros de advocacia e didáticos e um bebedouro. Greta achou aquele lugar feio, muito impessoal e desconfortável. Não gostaria de trabalhar num local como aquele.
– Eu procuro nessas pastas e você dá uma olhada nesses papeis aí – Dorothy ditou, abrindo as gavetas deslizantes do arquivo.
Sua aliada deu uma checada nos documentos impressos acima da mesa e em uma das páginas encontrou um texto sobre os detalhes da necropsia das vítimas de Anna e Kenshin. – Encontrei um dos papéis.
Dorothy franziu a testa, folheando entre uma pasta parda. – Ainda não encontrei nada.
Arfando, vasculhou as gavetas da mesa. Havia um revolver acima de umas fotos. – Dois a zero para você. Encontrei tudo. Vamos embora.
– Eles são muito amadores, deixaram as provas–.
Uma mão pôs um pano sob a boca de Dorothy e a fez desmaiar instantaneamente. Do outro lado do escritório, Max apontou seu revolver para Greta e puxou o gatilho. O tiro atravessou seu braço, pois ela se virou antes do disparo.
– Engraçado vocês terem caído nessa – Natasha afirmou, mirando-a de cima. – Sabe, eu nunca encontrei um de vocês de perto.
Greta a chutou no joelho e disparou para fora da sala, Max a perseguiu, disparando, mas não conseguiu capturá-la quando o elevador fechou as portas. Assumindo ser a única sobrevivente da dupla, atravessou o estacionamento e se escondeu entre os incontáveis carros quando o investigador a procurava.
– É melhor você aparecer, posso poupar a sua vida se nós conversarmos e você me disser tudo o que quero saber. É um bom acordo.
Ela engatinhou até a saída.
Com a arma que roubou da gaveta mirou na cabeça de um dos executivos e o forçou a sair de seu veículo. – Saia, se não eu te mato.
Ele obedeceu e ela fugiu, derrubando as placas de segurança e quase atropelando um dos pedestres. Desconfiada de que Max a perseguiria, Greta retornou para Pale na área rural por um caminho mais longo e do qual não estava acostumada. Felizmente, as provas e fotografias da cena do crime estavam em seu bolso, mas o que lhe interessava era resgatar Dorothy, e para isso pediria ajuda de Stefan, pois sentia que podia confiar nele. Antes de entrar na sede da comuna, foi até o crematório no bosque e buscou as cinzas de Jadine.
~
Horas depois de terem suas provas roubadas, Max e Natasha levaram a aliada de Greta no porta-malas para o litoral de Chiba e depois deram uma pausa na rotina estressante em uma lanchonete próxima à praia enquanto ela ficou dopada e amarrada à cabeceira de uma cama dum quarto de hotel barato. Já era de manhã e a rotina humana recomeçava. Estranhamente, não havia muitas pessoas passeando pela areia, apesar do tempo aberto.
– Desgraçados – Natasha se queixou, dando uma última mordida em seu lanche.
Do outro lado da mesinha, seu parceiro estava morrendo por dentro, sendo consumido pelo fato de não ter capturado a outra garota. – Mas eles vão vir atrás da Dorothy. E é aí que está nossa oportunidade de expor as intenções de Pale para a polícia, já que eles vão vir para nos matar.
– Nossa armadilha não deu muito certo, Nicole Montibeller pode nos ter dito de que elas viriam, mas não conseguimos prender as duas. Isso você não conseguiu prever – zombou.
– Não preciso que me diga o quanto errei – ele rebateu, indecifrável.
E o som dos veleiros e da maré colidindo contra as rochas na baía eram a verdadeira melodia da tranquilidade, porém a calmaria sempre existiu antes da tempestade e agora o destino de Pale estava nas mãos da pessoa mais improvável: Dorothy. As horas escorriam no relógio e as chances de Greta e Stefan resgatarem a aliada só diminuíam.
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