Palavras de Heagle II
2 Pendências
Não adiantou muita coisa eu ter me afastado com Arin e Zacky, muito pelo contrário: não tardou para que o empresário dos meninos, junto dos profissionais técnicos, chamassem pela gente. Gritavam algo tipo “MARIETTA, SUA AMIGA VAI MATAR O SYNYSTER”.
Normal, eu sabia que isso iria acontecer, mas não quis me meter. Mas espera... primeiro vocês precisam saber da história, né? Tá, vou ser breve... muito breve: o puto do Brian traiu a Mel numa boate. Zacky e Arin viram, eu e Matt não. Ficamos sabendo só que não falamos, afinal... não tínhamos certeza de nada.
Okay, um ponto para Syn. Mas cara, EU NÃO SOU BOBA e nem a Mel. Desde que voltei da Alemanha, isso faz menos de um ano, o cara está muito distante e meio estranho, não sei como explicar. Na verdade, a mudança veio depois que o Avenged voltou. Ele, Arin e Zacky formam o trio de bocós. Sentia medo de revelar meus temores à Mel... mas eu sabia que hora ou outra, Syn sentiria falta da solteirice.
E não pense que estou livre de passar por isso não. Conheço Matt, e por mais que tenhamos passado tanta merda juntos e que em poucos meses, já planejamos nos casar... não confio cegamente que teremos um final feliz.
Pressentimento (ou pessimismo) inútil de uma mulher. Você percebe que está tudo bem, mas que a pessoa perdeu sua essência. A essência do Avengers era a liberdade, e eu e Mel tiramos isso deles.
Tudo bem, ignorem essa porra. Nada mais que devaneios de uma mulher na TPM. Ou não, minha menstruação está atrasada há três meses. Enfim...
– Que merda. – gritou Arin, correndo pelos corredores. O público já estava agitado lá na casa de show; estávamos atrasados mais de uma hora, o que nos preocupávamos um pouco mais. Mel e Brian viviam nas guerras, nada demais.
– Eles sempre brigam. – riu Zacky, andando como uma bicha. – Até chegarmos lá, eles estarão se comendo em cima da mesa, como sempre acontece.
– É uma traição, seu gordo. – corrigi, sabendo que Melissa poderia ser a mais louca possível... mas que não perdoava mentiras e traições nem fudendo. Posso ser sincera? O relacionamento deles, se já estava por um fio, agora passa o vão de uma agulha. – Brian foi um puto...
– Ele É um puto. – riu Arin, tentando afastar a multidão que se aglomerava perto do camarim de Matthew, aquele que eu estava há algum tempo.
Pelo visto, a coisa havia sido séria mesmo. Tinha até o Henrique lá no meio, segurando uma louca descabelada pelos braços, gritando para que ela se controlasse. Só vi seu rosto vermelho, visto que os cabeçudos curiosos de plantão ficavam na ponta do pé para saber o que estava acontecendo.
Mas é um bando de puto que quer ver uma sessão de histeria de uma corna... ér... MEEEL, AMIGA, SORRY PELA EXPRESSÃO, MAS A VIDA É ASSIM, SER CORNA OU NÃO SER, bem diria o saudoso Dinho (ignora).
Sei que chegamos empurrando todo mundo. Henrique, que tinha quase dois metros de altura, esticou o braço para que eu me aproximasse. Com um empurrão, ele mandou longe quatro caras. E uma menina.
– Dê um jeito nessa sua amiga, senhorita Genoom, ela quis matar o namorado com uma torta na cara.
Aprendi a conhecer Henrique nesses últimos tempos. Juro que vi um sorriso disfarçado em seus lábios, um esforço absurdo para não começar a rir. Eu riria junto... se não fosse incrivelmente trágico.
Corri até ela e agarrei sua mão, olhando de esgoela para dentro do camarim. Tudo quebrado, inclusive a cara de Syn e a testa de Matt, que carregava uma enorme mancha de sangue.
– Que você fez...? – comecei a perguntar para Mel, mas fui interrompida por 200 quilos de massa corpórea tatuada e bombada.
– A MEL É LOUCA, MARIETTA! – berrou Matt, bravo pra cacete. Eu sei disso... um nervinho no pescoço parecia querer sair andando. – OLHA QUE ELA FEZ, ELA TACOU UM VASO NA MINHA CABEÇA!
– LOUUUCAA ÉÉÉ A SUA MÃÃÃE DE QUAAAATRO, SEU MORFÉÉÉTICO, VOCÊ SABIA DE TUDOOOOO, PUUUUTO DESGRAÇADO! – berrava Mel, tentando dar uns chutes no alto, enquanto Henrique a suspendia com os braços. Oh baixinha nervosa é essa, viu?
– Por favor, Mel, fica calma, não vamos fazer disso um Caso de Família, pelo amor! – implorei, voltando a olhar para meu noivo. Legal, Mel estava louca mesmo... MAS NINGUÉM TINHA DIREITO DE OFENDÊ-LA NA MINHA FRENTE, VALEU? – E não fala assim da Mel, Matthew.
Ele ficou ainda mais puto. E ainda mais vermelho. Ui, medinho da passiva e abusada (ironia mode on).
– A guria me desce o vaso na cabeça, sem eu ter feito nada, e você ainda a defende?
– Ela é minha irmã. Eu não estou aqui xingando o Synyster porque ele foi um cachorro.
– Hey! Não fui um cachorro. – resmungou Syn, que estava sendo atendido por um enfermeiro... ou qualquer um que soubesse colocar o maxilar no lugar. – Foi só um deslize cara... estava bêbado.
Eu e Matthew ignoramos o que aquela anta asmática estava falando. A briga, que não tinha nada a ver com a gente, passou a ser da gente. Voltando aos bons e velhos tempos...
– Sua mania ficar defendendo tudo que a Mel faz. – acusou, levantando-se com violência. – Sempre, sempre nós que somos os errados.
– E não é? Não lembro de tê-la visto em uma boate nos catos com um pinto qualquer! Brian sim. Não com pinto, no caso...
– Marietta, você é muito ignorante. – gritou, elevando o tom de voz cada vez mais. Tanto que Syn, com a sobrancelha arqueada e testa enrugada, saiu de fininho da cena. Mel tentou catá-lo mais uma vez, mas Henrique se mandou com ela.
Mas os curiosos... ah os curiosos, eles ainda estavam ali, ouvindo com atenção cada parte da nossa discussão. Como eu já estava puta numa altura destas, expulsei todos do camarim e tranquei a porta, na chave.
A cobra ia fumar naquela porra de lugar.
– Então EU sou a ignorante, Matthew? Seu amigo faz besteira e EU tenho culpa? Me explica como tudo que acontece nessa porra de grupo, é culpa da MARIIIEEEETTA!? – continuei, berrando também.
De certo, os curiosos estavam grudados na porta... dava para ouvir com clareza até dali 10 metros.
– Vocês são um bando de malas que fica no nosso pé! Não sei que fala da Melissa, você fez o maior escândalo outro dia que a Valary foi nos visitar.
Baixou o capeta em mim nessa hora, podem botar fé. Só sei que avancei nele e comecei a dar chutes, tapas, socos, todas aquelas agressões que não surtiam efeito nenhum naquele Ogro maldito.
– DEVE SER PORQUE A MALDITA É SUA EX-ESPOSA! EX-ESPOSA! E DESDE QUE NOIVAMOS, OU MELHOR, DESDE QUE EU RESPIREI DO SEU LADO, AQUELA VACA DECLAROU GUERRA!
– Foi uma besteira ter te pedido em noivado. Esse ciúmes idiota já irritou!
– O mesmo que você tem por Hugo? – provoquei, parando de soca-lo. Agora eu queria mesmo era machucar o orgulho. – O primeiro amor da minha vida, como a Valary foi para você?
Ele ficou tão vermelho, tão vermelho, que se eu não conhecesse o pingo de índole de cavalheiro que Matthew tem, acharia que ele fosse me agredir. Ele tentou fazer isso, mas com palavras. Como sempre... com as palavras.
– POR QUE MARIETTA, VOCÊ NÃO SOME DA MINHA VIDA? – berrou, empurrando-me. – TUDO SERIA DIFERENTE SE VOCÊ NÃO EXIST...
Ele se interrompeu, batendo a mão na testa. Percebera que havia dito merda demais. Muita merda, a mesma merda que havia dito dois, três anos atrás. Aquele desejo absurdo de me ver longe, a ponto de desejar até minha própria morte.
A verdade é que Matthew sempre tentou superar a “perda” da liberdade e da vida promíscua, mas nunca conseguiu, e vira e mexe estava tacando isso na minha cara.
Mas repetir aquela frase... para mim já era demais.
– Não Marie, me desculpa... não, não vai embora! – implorou, já em um tom de voz diferente, correndo para frente da porta. Eu já estava lá, prontinha para sair e mandar toda aquela merda de “conto de fada” pra porra. – Marie, não, não, perai, me espera, calma... não devia ter dito isso, eu sei que...
– SAI-DA-MINHA-FRENTE! – berrei, tentando me esquivar daqueles braços. Mas não foi possível, porque como vocês devem entender, 55 quilos competir com 200 (hipérbole, oi) não é algo muito justo.
E ele, aquele maldito, sabendo disso, empurrou-me lentamente até uma parede, prensando-me nela. Afastou o cabelo do meu rosto, que grudara por conta do suor e do nervoso, e murmurou:
– Me perdoa, eu sempre falo merda. Mas Marie... não vamos deixar a briga dos dois interferir nossa vida. Ela já é complicada por si só.
– Você complica as coisas, Mateus. – retruquei, em português, virando o rosto. Mas ele não se deu por vencido, aquele desgraçado que a singela presença já era o suficiente para amolecer as pernas. Ele sorriu, acariciando meu rosto, murmurando algo como “você é tudo para mim, não liga para isso não...”.
Não preciso dizer que... bem... não resisti. Nunca resisto aos olhos verdes, nem as covinhas, e muito menos aquela voz rouca murmurando coisas eróticas no meu ouvido. E nem aquelas mãos percorrendo meu corpo, como se o simples toque arrepiasse toda minha pele. Minha coxa, meus seios, minha nuca...
Só sei que fizemos amor ali mesmo, de pé (depois que comecei a namorar Matthew, aprendi posições meio... “diferentes”. Lembro que brincavam, nas fanpages da vida, que ele tinha uma anaconda entre as pernas. Agora eu posso dizer com todo orgulho: O DOBRO, BEU ABOR). Não sei se ouvi alguém chamar pela gente na porta, e deve ter até mesmo ocorrido, afinal... já passava da meia noite e nada de show ainda. A plateia estava emputecida.
Mas FODA-SE. Eu estava ali com o homem que amava, isso era o mais importante para mim. Era a melhor sensação do mundo transar com Matthew. Bem mais experiente que eu... me sentia uma menina. Frágil, que às vezes chegava a machucar com tanta força. Mesmo com mais de 30 anos, ele ainda tinha fôlego para duas, três, quatro vezes seguidas. Nunca imaginei que alguém fosse capaz disso.
Fiz coisas que jamais pensei em fazer, confesso. Na rua, no carro, no banheiro do bar, no banheiro do avião, no camarim... na piscina... perto de pessoas. Às vezes me sentia mal por isso, mas era excitante estar com ele. Estava vivenciando um mundo desconhecido, e muito, muito gostoso.
Pensava nisso quando eu ficava de quatro, com ele sobre mim. Nunca pensei em minha vida fazer aquilo... mas era demais. E por falar nisso, acabamos fazendo em cima da mesa também, e ao menos tivemos trabalho de limpá-la antes; Mel fez o favor de jogar todos os alimentos, objetos e afins na cara do Syn, durante a pancadaria.
Era tudo muito bom. Minha vida estava boa. Mas mal eu sabia que no celular dele, no bolso da calça (agora jogada no chão), havia chegado uma mensagem. Algo em francês, que remetia à “Fico toda molhada só de lembrar da nossa noite. De você em mim, na nossa cama. Estou com saudades”.
Alguém empresta uma faca? Vou fazer fritado de testículo.
Fale com o autor