Palavras de Heagle II
3 O passado condena
Matthew, com um chute, arrombou a porta do apartamento de Valary. Gritou, a primeiro momento, pelo nome de “FILHA DA PUTA”, mas depois de vê-la sentada no sofá completamente nua, brincando com alguma coisa que não sabia identificar, resumiu sua agressão verbal para um “VADIA”.
Ela riu, acariciando o cabelo.
– Sua noiva leu a mensagem? – provocou, mordendo o canto da boca. – Não há problema caso não tenha visto, envio outra.
– EU-TE-PROIBI-DE-TOCAR-NESSE-ASSUNTO! – berrou ele, acirrando os punhos. – Aquilo foi uma puta falta de...
– Tá, você estava bêbado, havia brigado com ela, como sempre vem feito, e aí não aguentou e transou comigo. – ironizou, contando nos dedos. – Não uma, não duas, não três. Várias vezes você procurou abrigo daquela louca em minha cama, Matthew. Por que não cai na real e não confessa ainda está nessa porque a história de amor de Heagle e Shadows dá ibope aos novos trabalhos da banda? Ou que está com medo de deixa-la porque a idiota pode ter uma crise emocional e voltar para uma cadeira de rodas?
– CALA A SUA BOCA ANTES DE FALAR DA MARIETTA! – berrou ele, puxando-a pelos dois braços. – Não vou cometer o erro duas vezes.
– Faça o favor, cara. – riu ele, fazendo um biquinho. – Você usou a Heagle para crescer. Você, os avengers, o empresário, todos. Como conseguiram manter a banda com o Jimmy e Johnny mortos?
– Você está ficando louca, Valery.
O que incomodava Matthew, na verdade, não era aquelas inutilidades que a ex-esposa estava dizendo. O fato de, no início da amizade com Marietta, ter pensado na vantagem que tudo aquilo traria, o perturbava até os dias atuais. E as traições, que aconteciam sem que ele se desse conta, também. Estava a ponto de chamar a noiva para uma confissão, mas possuía medo. Sabia que... ela nunca o perdoaria, como ocorreu com Mel e Syn.
Preferiu não dar mais bola àquela maluca ninfomaníaca. Jogou-a no chão e saiu da casa, antes que ela o persuadisse a ficar.
Deu partida no carro, pisou no acelerador, mas acabou parando no encostamento, massageando o rosto com as mãos. Pensou em conversar com algum dos amigos, mas eles eram mais desmiolados que ele, não era válido. Mel, nem pensar. Marietta, muito menos.
Quem seria maduro e confiável o suficiente para ter uma conversa sensata, justa, sem gritos nem histerias?
– Henrique, temo que meu noivado termine. – confessou o Ogro, sentado em uma mesa de lanchonete com o guarda-costas de sua Marietta. É pessoal, Henrique se tornou chave importante na vida desses putos.
O homem, que na boate já deve ter presenciado muitas coisas, sorriu:
– Você traiu a senhorita Genoom, certo?
Matthew não tem nem a audácia de mentir. Na verdade, teve receio: por mais que fosse forte, Henrique dava o dobro de sua musculatura. Era bom não abusar.
– Cara, você deve ter lido o Palavras de Heagle, de certo sabe como minha vida e o de Marietta sempre foi conturbada. Devo confessar que no começo não sentia atração sequer por ela, ao contrário... às vezes seu jeito me irritava. Nunca havia estado com uma criaturinha tão infantil. Quando ela convidou para que eu fosse o Jonathan no cinema, não pensei no que poderia significar para ela... embora eu tenha fingido muito bem. Eu pensei no que aquele dinheiro e aquele papel acarretaria ao Avenged... oh shit, eu nunca disse isso para ninguém, mas meus sentimentos por Marietta surgiram do meu interesse. Não sei se isso é errado, mas me atormenta. E... muitas coisas ocorreram, e quando vi que realmente estava apaixonado... meu Deus, as coisas complicaram ainda mais. Bebidas, drogas, acidentes... minha vida desestabilizou completamente.
Matthew cuspia uma torrente de palavras sem poder respirar. Despejava tudo aquilo como se precisava desabafar com alguém seu conturbado histórico com a Heagle. Sentia-se culpado pelo seu passado tão mesquinho.
– E... eu me apaixonei. É sério, eu amo Marietta... mas essa vida de noivo e noiva me aterroriza. Vivi com uma mulher por muito tempo e eu sempre a traía. Nunca fui fiel. Eu sei que a Marie é diferente mas... oh merda, eu dormi com minha ex-esposa várias vezes. Não me conformo, a vadia ainda envia mensagens pro meu celular descrevendo nossas noites. O que eu faço, Henrique?
– Veja bem, Matthew. – iniciou o guarda, bebericando um pouco de seu café. – Sou casado há muitos anos e tenho uma menina. Quando conheci a Iara, eu estava interessada na amiga dela, então me aproximei apenas para... conquistar meu território.
– E? – Matthew parecia não ter muita paciência para histórias que não fossem as suas. Henrique não se importou: ele apenas sorriu.
– Enquanto estava com Iara, a trai com a tal amiga. Só que depois de fazer toda a merda... eu percebi realmente quem me esperava em casa toda sorridente e se oferecia para tratar meus calos depois de um dia de serviço. Foi assim que percebi que ela era a mulher da minha vida, da mesma forma que você está percebendo que a Marie é sua.
– E o que você fez?
– Eu contei. Nos separamos. Fui para o exército e voltei depois de 10 anos. Ela ficou me esperando. Ela havia me perdoado.
– Não acredito que a Marie faça do gênero compreensiva. – resmungou Matt, torcendo os dedos. – Ela vai cortar meu pinto fora. Não a trai com uma qualquer... FOI COM A VALARY! Capaz dela querer se vingar e ressuscitar a praga do ex-marido moribundo.
– E o irrita tanto em pensar na Marietta com o tal Hugo?
– Eu explodo a cabeça daquele desgraçado se ele tocar na minha menina. – sussurrou agressivamente, apoiando a mão na testa. – Oh Henrique... não sei se teria a mesma coragem que você, cara. O que eu faço para salvar meu amor com a Marie? Ela é tudo para mim.
– Dois conselhos, meu caro: revele toda a verdade e espere até que toda a raiva e dor dela tenha passado... ou nunca, nunca revele isso à ninguém. Ex-esposa vive levantando injúrias. Ninguém vai acreditar.
Querendo ou não, a última sugestão foi a que mais o agradou. Riscaria aquela vida desgraçada. Traçaria um novo rumo. Sem traições, sem baderna, sem nada. Seria fiel à Marie até que a morte os separasse. Valary não filmava as transas e nem tinha provas. Chegava ao apartamento disfarçado, ninguém o reconhecia. Os amigos, tão pouco, e mesmo se soubessem, nada contariam.
Boa ideia... era isso que faria. Vida nova, vida nova.
Fácil? Não quando se está em jogo um relacionamento tão complicado.
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