Paixão Destinada
2 Segredo Inocente
Kasumi
Às vezes você faz algumas coisas das quais se arrepende por acabar descontando em quem não merece. Depois de muito ponderar, tomei a decisão de me mudar pro Rio de Janeiro e finalmente começar a lecionar.
Também decidi, por conta das razões que me levaram a essa decisão, não me envolver mais com homens. Pelo menos por enquanto.
E na soma disso tudo, no meu primeiro dia de aula, ainda não familiarizada com o bairro e as linhas de ônibus de onde moro, acabo chegando atrasada, e correndo, não notei que vinha um aluno na minha direção.
E claro, sendo ele homem, acabei descontando a raiva nele, e no reflexo isso continuou quando o diretor Osvaldo me levou até a sala onde eu daria a primeira aula, e logo o rapaz que eu havia derrubado estava lá.
No momento em que o diretor cobra uma explicação bate o arrependimento, mas felizmente o aluno quebra um galho imenso, usando meias verdades.
Depois, no fim da aula descubro que o Renan até que não era um mal garoto, mas alguma coisa nele... Ele não tem desejo algum, a postura dele, é a de alguém que simplesmente vive, sem fazer absolutamente nada. E sinceramente, eu gostaria de poder ajudar em alguma coisa, só não sei como.
Renan
Nos dias que se seguem, começo a notar algo diferente na escola. Principalmente entre os alunos homens, mas algumas garotas também. Repentinamente a professora Kasumi virou a queridinha de muita gente, pois além de sua beleza e formas suaves, ela é gentil com todos e explica a matéria de uma maneira que mesmo um energúmeno consegue entender.
Por outro lado, minhas interações com seres humanos ainda continuam próximas do zero, minha vontade de fazer as coisas continua nula e com exceção daquela conversa depois da primeira aula de história, não falei mais com a Kasumi.
Isso me deixa bem, bem... Qual o nome da palavra? Ah, sim, chateado! Eu quero melhorar, quero ser um cara melhor, só que nada vem na minha cabeça. Esses pensamentos permeiam a minha cabeça pelo resto da semana entediante de aula.
Outra coisa que me irrita um pouco, nos últimos dois dias da semana, é o tom de algumas conversas que ouço a respeito da professora. O bom de ser um cara "invisível", é que se consegue ouvir conversas sem que as pessoas notem que você está perto. E bem, as coisas que alguns dos alunos falam não são nada lisonjeiras.
Francamente, eu posso não conhecer absolutamente NADA sobre a vida pessoal dela, mas sei que ela certamente não fez metade das coisas que eles dizem que ela fez. Agora, de onde vieram esses boatos, não faço a menor ideia.
O fim de semana chega, e resolvo dar o primeiro passo, ao menos pra melhorar minha forma física. Não que eu seja um cara gordo, estou longe disso. Eu tenho a pele negra, 1,78 de altura e cabelos castanhos até o queixo, além de olhos castanho escuros. Porém não chego a ser um cara forte, sou, como meu histórico escolar e da vida diz: Um cara regular. E para melhorar minha forma física, resolvo pegar minha bicicleta e dar uma volta pelo bairro do Botafogo, pegando a rua onde moro, virar na Assis Bueno, pegar a General Polidoro até a altura da Real Grandeza e fazer o caminho de volta virando na Mena Barreto e descendo pela Tereza Guimarães, retornando a Assis Bueno e voltando pra casa.
As primeiras pedaladas são lentas e um pouco desengonçadas, faz tempo que não ando de bicicleta, mas aos poucos vou pegando o jeito. Uma coisa que estou habituado a fazer, mas não é muito recomendada, é pegar a via da contramão, porque na contramão eu posso ver o que vem, se eu pegar a via da mão, eu não vejo quem vem de trás. Um hábito perigoso.
Enfim, quando estou na General Polidoro, na altura do Prezunic, eu vejo alguém familiar. E sinceramente eu não acredito. Com uma blusa de alcinha verde e uma calça Jeans, óbvio, está ninguém menos do que Kasumi Oyokawa, a minha professora de história. Numa situação não muito boa, aliás. Ela está com OITO BOLSAS CHEIAS DE COMPRAS. E no momento nenhum táxi passa por ali.
Pedalo até me aproximar dela e freio a bicicleta a alguns metros de distância.
— Professora Kasumi? – Chamo, até que ela, que olhava de um lado pro outro da rua, procurando um taxi, se vira pra mim.
— Renan? – Ela aparentemente quer ir até mim, mas as compras não estão muito leves.
— Nossa, você lembrou meu nome. – Algo dentro de mim, faz com que eu queira dançar a conga, mas mantenho a calma e caminho até ela. – Nem preciso perguntar se você está com algum problema, porque tá na cara.
— Pois é... – Ela diz, suspirando. – Eu pedi um uber pra me pegar e me levar até em casa, mas o motorista cancelou.
— Você mora muito longe daqui?
— Não. Tanto que vim a pé. – Ela responde. – Moro ali na Álvaro Ramos. Mas com essa quantidade de bolsas aqui, fica difícil de voltar.
Eu fico pasmo. Primeiro que a Kasumi é uma mulher bem inocente, eu sou um aluno que a conheceu tem menos de uma semana e ela me dá o nome da rua onde mora. Se eu fosse um cara mal intencionado, isso seria um perigo. E segundo, que a professora mora NA MINHA RUA!
— Olha, eu posso te ajudar a levar essas compras. – Me ofereço, sem pensar direito.
— Sério? – Ela arregala os olhos, com um sorriso no rosto. – E não vai te atrapalhar, pelo que vejo você estava pedalando.
— Pra ser sincero, não é muito longe de onde moro. – O sorriso dela fez com que eu ganhasse a semana. A sinceridade e inocência daquele gesto faz com que algo esquente no meu peito.
— Se é assim... Eu aceito a sua ajuda.
Eu ajudo pendurando algumas bolsas no guidão da bicicleta, e a guio, com a professora levando três bolsas e eu levando cinco.
— Professora, você não é daqui do Rio, é? – Pergunto, puxando assunto.
— Não... E Renan, não estamos em aula, pode me chamar de Kasumi mesmo. – Ela responde, antes de completar. – Eu nasci em Naha, na província de Okinawa no Japão, mas moro no Brasil desde que tinha quatro meses de idade. Morei a minha vida toda em São Paulo.
— E há quanto tempo você se mudou?
— Fazem dez dias... Mas só agora pude ir às compras. Como vê pela quantidade... – Ela dá uma risada. – Eu não podia viver pra sempre de fast food e macarrão instantâneo.
— O que te levou a se mudar pro Rio?
— ... – Ela não responde e pela leve erguida no queixo que ela dera, tem algo mais nisso.
— Não precisa responder se não quiser. – Digo, pra tranquilizar. – Isso não é um interrogatório.
— Tudo bem... – O tom dela é ameno.
Durante o resto do caminho, seguimos em silêncio. Eu não tinha sequer o que perguntar, até que algo passa pela minha cabeça.
— Pro... Kasumi... Posso lhe perguntar algo? – Me corrijo antes de chamá-la de professora, estamos quase virando a Álvaro Ramos.
— Claro...
— Você por acaso sabe o que andam falando por trás de você na escola?
Ela olha pra mim com uma expressão zangada, e com uma pontada de felicidade, percebo que essa expressão não era necessariamente pra mim.
— Eu estou ciente de que tem uma espécie de fã-clube meu desde que comecei a trabalhar no Alvorada. – Kasumi diz, com a voz um pouco irritada. – Isso eu posso aguentar de boa, não machuca nem ofende ninguém. Desde que não me mandem fotos de partes íntimas... Só que um certo professor que não quero citar o nome, vem me importunando pra sair com ele desde que comecei a trabalhar lá. E quando finalmente dei o fora, veja só, eu escuto algumas coisas não muito boas a meu respeito.
Então, um professor está espalhando boatos sobre a suposta vida sexual da professora. Por quê será que não estou surpreso?
— Então... – Paramos em frente a um prédio, um dos de alto padrão na rua. E reparo que ele não é muito longe do prédio onde moro com minha família. – Você também tem escutado?
— Sim... – Kasumi assente com a cabeça, enquanto ela abre o portão do prédio com a chave.
— Você vai pedir ajuda? – Permaneço parado no portão.
— Não vai entrar? – Ela convida, no que eu aceno positivamente com a cabeça, mantendo a calma, mas por dentro eu estou dando a volta da vitória no estádio olímpico.
— Onde posso deixar minha bicicleta? – Pergunto, um pouco confuso.
— Deixe numa vaga de carros, felizmente eu tenho uma. – Kasumi indica o caminho do estacionamento.
Após deixar minha bicicleta, nós dois subimos o elevador até o quinto andar, onde fica o apartamento dela. Meu coração palpita forte, eu jamais esperaria que em tão pouco tempo eu acabaria visitando a professora que sem querer mudara minha rotina.
Kasumi abre a porta de seu quarto e entra, comigo acompanhando logo atrás. Seu apartamento definitivamente é diferente do que eu esperava pra alguém que leciona... Ou mesmo alguém que tem as feições dela. Há uma SmarTV de 32 polegadas, um Playstation 4 na sala com uma decoração modesta, não muito espalhafatosa ou cara. Ela conecta o iPhone a uma caixa de som e coloca uma playlist para tocar... E o som é diferente do que eu estou acostumado a ouvir.
Pelos acordes tocados, eu diria que é Power Metal, mas não vou fazer nenhum pré julgamento antes de ouvir tudo.
— Coloca as coisas na cozinha, e sinta-se em casa. – Ela diz, indo até a cozinha também, colocando as compras em cima da mesa, e eu faço o mesmo.
— Olha, vou ser sincero... – Digo, enquanto deixo as sacolas em cima da mesa. – Tanto a decoração da sua casa, a música, não são algo que eu esperaria de uma professora. Principalmente dada a matéria que você leciona.
— Eu não devo ser muito mais velha do que você. – Kasumi rebate, enquanto tira uma garrafa de água da geladeira e enche dois copos, me entregando um.
— Eu fiz dezoito no começo do ano... – Digo, após tomar um gole de água. – Você parece ter uns vinte e quatro, vinte e cinco no máximo.
— Fiz vinte e três em Janeiro! – Ela conta, sorrindo. Então a nossa diferença é de cinco anos, interessante.
— Isso é japonês? – Pergunto, ao ouvir a língua da música que tocava.
— Algum problema com a língua? – Kasumi responde com outra pergunta, enquanto vamos pra sala.
— Não... É que não é o que estou acostumado a ouvir... E não esperava ter uma professora que curtisse metal japonês.
— Eu tive a chance de assistir a um show dessa banda quando fui ao Japão no ano passado. – Ela comenta. – Tenho a discografia deles completa, foi um pouco caro, mas valeu a pena.
Sem eu perceber, ela acaba me levando ao seu quarto... Que também não era o que eu esperaria de uma professora antes de entrar na casa dela. A cama é simples, sem muita ostentação, mas a estante possui, além dos jogos de PS4, diversas figures de personagens que sinceramente, poucos eu conheço.
— Aqui... – Ela me indica um canto da estante onde haviam vários CD's. Coisa rara de se ver no ano de 2017.
Vejo os discos que ela tem, Galneryus, Dir em Grey, Maximum the Hormone, Fear and Loathing in Las Vegas... E tem alguns ocidentais também, como Fozzy, Alter Bridge e Nightwish. Com exceção do Nightwish, não é o tipo de disco que se vê nas lojas aqui do Brasil.
— Morreu uma grana grande aqui, hein... – Digo, indicando os discos.
— Sim... Alguns eu importei, outros eu comprei em viagens mesmo. – Kasumi conta, ligando o notebook, casualmente.
— Olha, não é querendo ser chato ou idiota... – Chamo a atenção dela. – Mas você não acha meio estranho, do meu ponto de vista, uma professora que mal conhece um aluno o convidar pra própria casa assim, do nada?
— Do seu ponto de vista... – Ela dirige um olhar que mistura seriedade e confiança. – Talvez. Mas, no minuto que eu saio da escola, eu não sou mais uma professora. Claro, eu uso meu tempo aqui em casa pra preparar o material e estudar o que o professor anterior tinha pronto, mas não fico 100% focada nisso porque eu preciso me preocupar comigo mesma também.
— É... Eu te entendo, mas... Ah, eu estou confuso! – Definitivamente eu não consigo mais me entender. Eu estou ali, na casa da mulher que alterou meu modo de ver o mundo, mas não consigo manter uma conversa coerente sobre nada.
— Confuso com o quê? – Kasumi pergunta, não entendendo.
— Pra mim, um cara acostumado com uma vida tediosa, estar aqui na casa de uma pessoa que nem você, que é atenciosa, MUITO BONITA e gentil, e a pessoa fazer com que eu... – Eu me apoio na porta do guarda roupa e acidentalmente a abro, caindo no chão no processo.
Se Kasumi estava vermelha antes enquanto eu falava o que vinha na minha cabeça, não se compara com o que vejo no guarda roupa, uma roupa de empregada com um crachá em formato de coração, escrito "Maple" e uma tiara com orelhas de gatinho na cor castanho alaranjado, além de uma cauda na mesma cor.
— O... O que é isso? – Pergunto, tentando interpretar o que era aquilo.
— B... Bem... – Ela tenta formar palavras. – É que nas minhas horas vagas... Eu sou uma cosplayer. Essa é uma das minhas roupas... Olha, Renan... Por tudo o que é mais sagrado, prometa que não vai contar isso pra ninguém.
— ... – Fico em silêncio. Se ela confiou o suficiente em mim pra mostrar a casa e o pequeno segredo dela, significa que eu posso brincar um pouquinho com a inocência dela. – Eu guardo esse segredo, só se...
— Se?
— Você sair comigo num encontro! – Eu solto sem pensar. Sério, Renan?
— Tudo bem. – Kasumi responde na lata. – Se é pra manter o segredo...
— Peraí, não era pra ser assim... – Eu digo, porque de fato eu estava brincando. – Na verdade eu estava brincando com você, eu guardaria esse segredo seu sem troca de favores.
Kasumi arregala os olhos, surpresa. E começa a rir, de maneira adorável.
— Pode até ser... – Ela diz, se aproximando de mim. – Você é um bom garoto, Renan... Espero que tenha um bom gosto pro local, pois no próximo final de semana, vamos nos divertir um pouco...
Para minha total surpresa, Kasumi dá um beijo em meu rosto.
Fale com o autor