Paixão Destinada
3 Algo Especial
Kasumi
Duas vezes. Por duas vezes, Renan quase tocara em assuntos pessoais. Primeiro, quando ele perguntou a razão de eu vir pro Rio e quando citou os boatos que espalham sobre mim. A primeira, ele respeitou minha privacidade, já a segunda, eu não sei se ele acreditaria totalmente. Não se ele visse algumas das fotos que tirei como cosplayer.
Agora, vou dizer que caí feito um patinho quando ele sugeriu que em troca do silêncio, eu saísse com ele num encontro. Eu levei a sério e o bobo estava brincando, mas aceitei por duas razões: Talvez isso ajude ele a ser um cara mais sociável e seria bom sair pra conhecer algo da cidade, diabos, eu não tinha nenhum amigo aqui na cidade, todos os professores são no mínimo quinze anos mais velhos que eu.
—Agora... – Renan chama a minha atenção, interrompendo meu fluxo de pensamentos. – Se não for intimo demais perguntar isso... Mas de que lugar é esse cosplay?
Ele apontava pro meu cosplay de Maple. Por um segundo, achei que ele fosse fazer uma pergunta mais capiciosa a respeito da minha vida.
—A Maple é uma das personagens de uma série de Visual Novels chamada Nekopara. – Respondo, abrindo um jogo no notebook que continuava na minha cama. – Digamos que essa série é famosa não pelo roteiro, que é simplista, mas pelas personagens, que são Nekos, ou gatinhas, meninas com orelha de gato.
—Sem querer parecer burro, mas já sendo, mas o que é uma visual novel? – Ele pergunta, olhando a tela título do Volume 2 de Nekopara, com quatro meninas vestidas de empregada, e elas possuem orelhas e rabos de gato.
—Como explicar o conceito de uma visual novel pra quem não conhece o gênero... – Penso um pouco, tentando explicar. – Você conhece os RPG's no estilo livro jogo? – Ele assente positivamente com a cabeça. – Funciona mais ou menos no mesmo esquema, você acompanha uma história, e em alguns pontos chave precisa fazer escolhas que podem determinar o final. Só que ao contrário desses livros, nas Visual Novels existem ilustrações que acompanham a história.
—Entendi... E isso não é meio... Parado? – Renan questiona.
—Sim. – Respondo, com sinceridade. – Continuando, algumas visual novels, como Nekopara, são usualmente destinadas ao público adulto, pois possuem cenas de sexo.
—Agora me interessei... – Pelo tom de voz dele, ele tava de sacanagem... Ops, palavra errada.
—E também existem as novels que não possuem escolhas, Nekopara é uma delas, aliás. – Termino de explicar.
Depois da explicação, fica aquele silêncio constrangedor, onde eu não tenho assunto e aparentemente ele também não. Felizmente, é ele quem toma a iniciativa.
—Bem, obrigado por permitir que eu visitasse eu apartamento, professora Kasumi. – Ele diz, sorrindo. – A gente se vê na escola, na segunda-feira. E pode ficar tranquila que vou pensar num ponto legal pra visitarmos na semana que vem.
—Tudo bem... – O acompanho até a porta e vou observando enquanto Renan entra no elevador e dá um último tchauzinho.
Sorrindo, fecho a porta do meu apartamento e não deixo de pensar em duas coisas: Que o primeiro amigo que eu fiz aqui no Rio é justamente um aluno, e que Renan possivelmente queria dizer algo mais, mas algo o impediu.
E logo depois, retorno a cozinha porque as compras não vão pro armário e pra geladeira sozinhas... . Bem, eu optei pela vida independente, não ter gente em casa pra preparar as coisas seria uma constante.
Renan
O que foi aquilo, Renan? Respiro fundo enquanto o elevador desce. O que estava acontecendo comigo? Eu me controlei quando a Kasumi dera um inocente beijo na minha bochecha, mas foi só a porta do elevador fechar e o meu coração começou a bater forte feito um baterista de metal em show ao vivo.
Sério, ela pode não perceber, mas está mexendo comigo de uma maneira que ninguém fizera antes. Eu preciso saber o que é isso. Será que... Será que estou me apaixonando pela minha própria professora?
Com os pensamentos mais confusos do que antes, saio do prédio dela, decidindo continuar a pedalar, mas indo pra outra parte do bairro de Botafogo. E muito tempo depois, eu percebi que mesmo com um encontro marcado... Eu sequer pegara o telefone dela, parabéns Renan, prêmio idiota do ano!
Eu queria dizer que o meu fim de semana correu tão bem quanto aquela hora que passei na companhia da professora Kasumi, porém não foi o que aconteceu. Não, nada de ruim aconteceu, o problema é que eu não parava de pensar nela.
E o fato de morarmos na mesma rua não ajudou em nada, já que logo na segunda-feira, quando estou no ponto esperando o ônibus, quem eu vejo chegando? Claro, a professora Kasumi. E mais uma vez ela vem com a jaqueta Jeans, camisa branca e calça Jeans.
—Bom dia, professora. – A cumprimento casualmente, embora meu coração esteja dando mortais pra trás.
—Renan... – Ela me cumprimenta com um aceno de cabeça, enquanto faz sinal. – Aliás, não estamos em aula ainda, pode me chamar de Kasumi.
—A propósito, pro... Kasumi. – É difícil não chamá-la de professora. – Eu não tenho seu número, tipo, a gente vai sair no sábado e não tenho como entrar em contato. Juro que não vou usar seu numero pra mandar besteira.
—Me empresta o seu telefone... – Kasumi pede, enquanto passamos pela roleta e sentamos um do lado do outro.
Entrego meu telefone a ela, e Kasumi habilmente digita algumas coisas, entregando de volta meio minuto depois.
—E por favor, não comente com ninguém o nome que está no contato. – Ela me pede, com um olhar suplicante.
Olho na lista de contatos do telefone que tem somente "Casa", "Pai" e "Mãe", além do novíssimo "Kasumi-chan.".
Eu tento me controlar pra não falar nenhuma besteira, o que poderia gerar um momento desconfortável, mas felizmente a questão do ônibus enchendo impede que conversemos melhor. Apenas quando descemos próximos da escola, que Kasumi volta a falar comigo.
—Olha, enquanto estivermos dentro da escola, poderia manter o tom profissional? – Kasumi pede. – Não quero que pensem que estou te favorecendo, ou espalhem boatos sem sentido.
—Sem problema... – Dou de ombros enquanto caminhamos até os portões da escola. – Se bem que seria incomum associarem a gente. Você é a professora mais popular, eu sou um zé ninguém sem nenhuma característica marcante. Isso aqui não é ficção.
—Que seja... – Ela diz, enquanto atravessamos o pátio, Kasumi vai pra sala dos professores e eu pra sala da turma.
A aula de história prossegue de maneira normal, sem nada em particular, não vejo porque abastecer a vida de vocês com detalhes da história do Brasil e do Mundo, eles não são relevantes. Não aqui, se é que me entendem.
As coisas começaram a ficar interessantes em relação a um certo assunto quando eu estava no corredor, a caminho da aula de educação física, quando escuto dois alunos conversam.
—Opa, você viu o que o Gavião deixou? – Um deles comenta, excitado.
—Po, to na seca... Se isso for verdade... – O outro comenta, com um riso. – A Kasumi tem um corpão, ela deve mandar muito bem e gemer bonito.
—Tomara, véi... – O primeiro diz, e eu me aproximo. Os dois eram familiares, então posso usá-los.
—Tão falando da professora Kasumi? – Pergunto, com um ar ligeiramente descontraído.
—E você é? – Um deles pergunta, não me reconhecendo.
—Renan Rocha. – Respondo, no mesmo tom. – A gente fez um trabalho de sociologia no fim do mês passado. Vocês são Leonardo e Juan, não?
—Ah, lembrei! – Juan, o segundo, reconhece. – Você salvou o rabo da gente naquele trabalho.
—Eu só não queria ficar com nota vermelha. – Respondo, dando de ombros.
—Mas sim... – Leonardo confirma. – Estamos falando da Kasumi. Tem um grupo no whatsapp que tá sempre comentando uma coisa aqui e outra ali.
—Interessante... E teria como eu entrar? – Pergunto, pensando em investigar.
—Só me dar seu número que eu te adiciono no grupo. – Juan responde, sacando o celular.
—Uma dica que dou, cara. – Leonardo comenta. – Não se indisponha com o Gavião, que é o admin. E quem fornece as coisas lá.
—Beleza... – Afirmo, pensando. O Gavião certamente deve ser um professor do colégio, mas quem seria ele, não sei. – Sou tranquilo, então não devo arrumar problemas.
Passo o número pro Juan, e dois minutos depois recebo o convite pro tal grupo de admiradores da professora Kasumi.
Após as aulas, em casa, analiso um pouco do teor das mensagens do grupo. No geral, variava entre alguns admiradores a moda clássica, enquanto outros admitem abertamente que se masturbam vendo fotos da professora, desde algumas tiradas a escondida, com o celular, até ensaios dos cosplays que ela fez.
Apesar dos comentários muitas vezes indecentes, ver a Kasumi vestida de Mai Shiranui valeu a pena. Mas, vendo os comentários do Gavião, ele não tem lá uma opinião elogiosa. E pelo que vejo de mensagens de um aluno ou outro, o Gavião prometera um vídeo no qual a Kasumi... Estaria transando com alguém usando um cosplay.
Isso me deixou bastante perturbado, não por saber sobre a possível vida sexual de minha professora (apesar de me irritar lá no fundo), mas porque ali era um professor do colégio prejudicando a imagem de uma colega pelas costas.
Preciso dar um jeito de descobrir quem é o Gavião, então pra armar, pego o número dele e salvo na agenda. Por enquanto bastaria por hoje.
Enquanto penso em como tentar pegar o Gavião, tenho que decidir que lugar visitarei com a Kasumi no sábado, mas nenhuma ideia surge na minha cabeça. É incrível que quando você tem que escolher algo, é mais difícil do que ir ao acaso.
Na quarta–feira, depois de mais um dia normal, finalmente pensei em algo. Claro, que eu teria que pedir ajuda a diarista que trabalha aqui em casa, a Graça.
—Então, Graça, queria te pedir um favor. – Chego nela, após as aulas.
—Claro, Renan. – Ela, solícita, me responde.
—Eu queria que você ligasse pra esse número aqui. – Entrego o número do Gavião pra ela. – E deixe no viva voz. Quando ele atender, deixe passar um tempo e diga que foi engano, que ligou pro numero errado e peça desculpas.
—Mas, por quê? – Graça pergunta, franzindo a testa.
—A verdade é que eu quero descobrir quem é esse cara. – Digo, resolvendo contar parte da verdade a ela. Como ela não faz parte do círculo envolvido na questão, não teria problema. – Ele tem espalhado alguns boatos a respeito de uma amiga minha.
—Entendi... – Ela assente, fazendo a ligação.
Um toque. Dois toques. Três toques. Um clique e a voz sai pelo viva voz do celular de Graça.
—Alô? – A voz me choca, porque eu a conheço. Diabos, eu a ouvi pouco depois de eu ter entrado pro tal grupo. – Alô? Quem fala?
—Desculpa... – Graça responde. – Liguei pro número errado.
—Ah, sem problemas. – A voz tem um tom descontraído, e desliga o telefone sem pensar duas vezes.
—Muito, muito obrigado mesmo, Graça! – Digo, tentando conter meu choque.
—Não tem de quê, Renan... Sabe quem é? – Ela pergunta, e assinto com a cabeça, antes de ir pro meu quarto.
No quarto, antes de pegar meu telefone, penso. Um passo dado, agora falta outro. Bem, tanto eu, quanto Kasumi moramos aqui no Botafogo... Caramba! Como vivo há tanto tempo aqui me esqueci completamente, mas tem um lugar bom, que a Kasumi sendo nova aqui na cidade, certamente ainda não foi.
Com um ânimo renovado, abro o whatsapp, saio do grupo tóxico de "admiradores" dela e vou até o contato. Deixo uma mensagem pra ela.
"Preciso conversar com você mais tarde, é sério."
Nisso, ela me responde com duas letras: "ok"
Quando se quer, as horas nunca passam, então claro, o tempo se arrastou, até que por volta de seis e meia da tarde, meu telefone apita com uma mensagem da Kasumi: "Só mais uns minutos, já estou chegando em casa."
Respondo, ainda preocupado, com um "ok". E menos de dez minutos depois, mais uma mensagem de Kasumi:
"Pronto, sobre o que você quer falar, Renan?"
"Eu não vou fazer rodeios, nem enrolar, Kasumi." Envio, e continuo. "Por quê você não me disse que a pessoa que tinha te importunado e começou a espalhar os boatos acerca de você era o Professor Glauco, de Educação Física?"
"Como você descobriu?" Kasumi respondeu, após mais ou menos um minuto de silêncio.
"Eu tenho meus meios. Sábado eu explico melhor." Respondo, guardando minhas cartas. "Quero saber a razão, Kasumi."
"Vou confessar, eu tive medo, tá?" Ela responde, rapidamente. "Não sei se você acreditaria em mim, afinal, o Glauco é professor da Alvorada tem pelo menos oito anos, eu cheguei tem menos de uma semana."
"Seu medo me magoa um pouco." Respondo, um pouco chateado. "Eu estou só há um mês no colégio, e sinceramente falando, você é a minha única amiga aqui. Seria legal se você confiasse um pouco mais em mim."
"Desculpa, Renan..." A mensagem é acompanhada de alguns emoticons de choro. "Acreditaria se eu dissesse que você é meu único amigo aqui no Rio?"
"Considerando que você mora aqui há menos de um mês, eu diria que isso é verdade." Respondo, com alguns emojis de riso. "E a propósito, já pensei num lugar pra sábado."
"Sério?" A resposta dela vem rápido. "Onde?"
"O Pão de Açúcar. Não é muito longe daqui, e é um lugar muito bonito." Respondo, pensando em como seria a reação dela ao se deparar com a vista lá do alto.
"Nossa! Eu adoraria visitar!" Kasumi responde. "Olha, eu tenho que preparar o jantar, amanhã a gente se fala no ponto."
"Tudo bem, até amanhã. Eu também tenho algumas coisas pra fazer, trabalhos e tudo mais. Boa noite, Kasumi."
"Boa Noite, Renan." Ela responde, mandando uma rápida selfie dela piscando. Eu guardaria essa foto pra sempre.
Mais animado do que nunca, eu pego meus deveres de casa pra fazer. Seria uma longa noite, mas diabos, eu vou sair com a Kasumi no fim de semana, não quero exercícios escolares no meu caminho.
O sábado surpreendentemente chega rápido, eu havia combinado na noite anterior com a Kasumi de nos encontrarmos meio dia e meia no ponto de ônibus pra irmos até a bilheteria da Praia Vermelha. Eu resolvo usar uma roupa bastante simples, uma camisa branca com alguns detalhes na manga em vermelho (sempre fui xarope pra roupas, nunca tive um "estilo") e uma bermuda Jeans até um pouco embaixo dos joelhos, porque o tempo não pedia calças.
E quando eu vi a Kasumi me esperando no ponto, meu coração quase parou. Foi naquele momento, mesmo tendo pensado muito durante esses dias todos, que eu percebi que estava realmente apaixonado pela minha professora. Ela usava um vestido simples vermelho, com bolinhas brancas, e um chapéu praiano com um laço azul e branco nele. Mesmo o vestido sendo simples, havia alguns detalhes que mostravam que ela tinha um belo corpo, como uma abertura na lateral, cerca de dois dedos acima do cotovelo. Essa abertura mostrava um pouco da pele dela, mas não muito.
Se outra mulher estivesse usando o mesmo vestido, talvez ele poderia até parecer vulgar de longe, mas a expressão inocente dela, o sorriso, deixavam claro que ela era um anjo... Ao menos pra mim. Não sei qual era a minha cara, mas assim que me viu, Kasumi deu uma risada, não do tipo debochada, mas do tipo inocente. Isso me tira do meu devaneio.
—Viu um fantasma? – Kasumi pergunta, com um sorriso no rosto.
—Não, eu achei que tinha morrido e ido parar no céu, pois vi um anjo na minha frente. – Falo, sem pensar e Kasumi cora. Foi sem querer. – Enfim... Vamos?
—V–vamos... – Kasumi gagueja, enquanto faço sinal pro ônibus.
Sim, poderíamos ter pegado um uber ou mesmo táxi pra ir, mas não era longe de casa e usar uber pra qualquer lugar perto é perda de tempo. Durante a viagem conversamos algumas amenidades, nada demais porque francamente, nos falta assunto. Claro, ainda discutiríamos a questão do Glauco e bancaríamos os turistas no Pão de Açúcar.
—Espero que tenha trazido dinheiro, porque olha, o preço da subida no Pão de Açúcar é caro. – Comento, assim que descemos do ônibus.
—O quão caro? – Kasumi pergunta, enquanto caminhamos até a bilheteria. Ela não parece preocupada, apenas levemente curiosa.
—Eu, que sou estudante... E menor de vinte e um anos, pago quarenta reais. – Digo, enquanto a fila anda.
—Ufa... – Kasumi comenta, aliviada. – Por um momento achei que fosse um valor mais exorbitante.
—Eu não quero ser idiota nem nada... Mas você tem coisas na sua casa como um Playstation 4, diversas figures e coisas que não devem ser baratas... O que você fazia antes de lecionar?
—Renan... – Ela dá um risinho enquanto paga pelo próprio bilhete. – Esse é meu primeiro emprego. A verdade, é que antes de decidir pela vida aqui no Rio, eu era quase uma princesinha, minha família é bem sucedida.
—Entendi... – Digo, enquanto adentramos o bondinho e começamos a subir. Uma primeiras coisas que escuto, é um ronco vindo do estômago de Kasumi.
—Desculpa... – Kasumi fica vermelha. – É que eu estava tão ansiosa, que não almocei... E tomei café às seis da manhã.
—Tudo bem... Eu também não almocei. – Comento, tentando não rir. – Só não tomei café a essa hora... Enfim, podemos almoçar no Morro da Urca ou no Pão de Açúcar. Tem algumas boas opções.
Depois de descermos no Morro da Urca, vamos direto a uma das lojas ali disponíveis. Infelizmente um restaurante conceituado que ficava ali havia fechado, mas um famoso ficava no Morro do Pão de Açúcar. Então, decidimos comprar apenas uma sobremesa por conta do calor.
Toda a construção feita no Morro da Urca transformou o que já era naturalmente bonito em algo maravilhoso, a combinação da natureza com o esforço humano proporcionou um cenário lindo. Rindo como uma criança, Kasumi se senta num banco próximo ao guarda corpo, com uma salada de frutas na mão, eu havia optado por um sorvete e me sento ao lado dela.
—Eu já tinha visto por fotos, mas aqui, pessoalmente, é lindo! – Kasumi exclama, encantada, enquanto observa o verde da mata e ao fundo o mar.
—A verdade é que eu já visitei muito aqui. – Comento, sorridente. – Então eu meio que estou acostumado ao cenário e por muitas vezes parece não me impressionar...
—Sério?
—Mas é o que dizem... – Eu aumento meu sorriso. – Muitas vezes não é o local, mas sim a companhia. Estar aqui com você me fez apreciar melhor a vista.
—Renan, a gente mal chegou aqui.
—Eu devia te dar um espelho, pois você precisava ter visto a sua cara, desde que saímos do bondinho, ou quando observamos a vista lá do próprio. E além do mais, você é uma pessoa gentil e agradável de se lidar, Kasumi.
—Obrigado... – Kasumi corou novamente. – Mas, enquanto estamos aqui... No duro, como você descobriu que era o G... Glauco, a pessoa que estava espalhando os boatos?
—Bem... Eu tive que fazer aquela coisa de socialização. – Começo a explicar. – Ouvi por acaso uns dois colegas de classe falando sobre você e alguma coisa que alguém liberaria, aí descobri um certo grupo no whatsapp que por acaso é de onde vem os boatos. Com o número do administrador, eu fiz uma ligação por engano, do telefone da diarista lá de casa.
—Foi bastante engenhoso... – Ela diz, se levantando. – Vamos continuar a subida?
—Mas já?
—Você acha que vou conseguir me manter de pé com essa saladinha? – Kasumi pergunta, e eu começo a rir.
Alguns minutos depois, estamos almoçando num restaurante no morro do Pão de Açúcar e olha, se a Kasumi não tivesse se oferecido pra pagar a minha parte, duvido que eu conseguiria almoçar lá. E enquanto almoçamos, o papo continua.
—Você sabia que tem gente tirando fotos suas escondido? – Pergunto, com um ar preocupado.
—Considerando os boatos, desconfiava. – Ela responde, com um tom zangado na voz.
—E alguém, provavelmente o Glauco. – Continuo. – Anda fazendo algumas manipulações no photoshop pra parecer que você tirou fotos íntimas com os cosplays. – A minha voz tem uma nota de raiva.
—Essa é nova pra mim... Mas como você sabe se são manipulações e não fotos minhas de verdade? Você não sabe tudo sobre mim.
—Isso é simples. – Abro o telefone e pego uma das fotos manipuladas. Era uma em que a modelo estava com as pernas bem abertas, e o rosto da Kasumi colado habilmente. – Aqui está o seu rosto. – Dou um zoom. – O tom de pele é diferente, a sua pele é mais clara. Sem contar que particularmente... Desculpe inclusive por falar isso, já que é um pouco mais particular. – As proporções dela não são as mesmas que você tem. O seu corpo parece mais harmonioso.
—E como você sabe disso? – Kasumi pergunta com um sorrisinho enigmático, não sei se ela tá querendo afirmar que tirou as fotos, ou se quer que eu explique como ela é, vista de fora.
—Digamos que daqui a alguns anos, a modelo dessa foto aqui corre o risco de desenvolver um problema na coluna por causa dos peitos. – Respondo, corando. – Já as suas proporções, que me desculpe, são perfeitas, mesmo eu tendo visto você de roupa.
—Não precisa se desculpar... – Ela cora. – Uma coisa que eu queria lhe contar sobre o dinheiro da minha família. Quando eu era pequena, eu não gostava dos presentes caros e sem sentido que meus pais davam a mim e a minha irmã. Só que quando adquiri hobbies, como videogames, figures e o cosplay, bem, eu passei a usar o dinheiro que iria a coisas fúteis pra financiá–los. Pode ser uma maneira meio fútil de se gastar o dinheiro, mas pelo menos eu ficava feliz.
O almoço segue tranquilamente, e conversamos amenidades, sobre minhas expectativas pro futuro (Cinco dolorosos minutos com ela tentando descobrir algo que eu goste.), até que toco em um ponto que abordamos na vez em que a ajudei a levar as compras pra casa.
—Eu sei que posso parecer intrometido. – Respiro fundo. – Mas eu queria saber o porque de você ter vindo ao Rio de Janeiro. Não que eu esteja reclamando, longe disso, ter conhecido você foi a melhor coisa que me aconteceu desde... Sempre. Eu posso ainda não ter perspectivas pro futuro, mas pelo menos já quero as ter, algum dia.
—Olha, eu negaria isso... – Ela começa, um pouco cansada. – Mas, bem, se eu não confiar em você, que é o único amigo que tenho aqui. – Vale registrar que isso me dá uma pontada de tristeza, a palavra amigo. – Em quem eu confiaria? Bem, a verdade é que dos dezenove aos vinte e dois anos, eu namorava um cara. Só que algumas coisas não deram muito certo, e em agosto do ano passado terminamos. Coisas aconteceram, e decidi vir pro Rio de Janeiro pra lecionar. E a verdade é que essa amizade entre nós dois foi algo não planejado, eu não tinha mais muita confiança em homens.
—Por quê?
—Aquela pessoa... Ela... Ela me deixou mal.
—Entendo... – Digo, com um tom claro de tristeza na voz. Eu não teria chance com ela. – Posso fazer uma última pergunta?
—Por quê última? – Kasumi faz uma cara confusa, enquanto passa a mão em meus cabelos, de maneira despreocupada.
—Aquele grupo do professor Glauco... Bem, uma das coisas que ele estava prometendo pra este fim de semana, seria um vídeo... Onde você estaria transando com alguém, usando um cosplay. Esse vídeo existe?
—O–o–o–q–q–q–quê? – Kasumi se levanta, indignada. – C–como assim?
—Existe, ou não existe?
—É–é–é claro q–que ele não existe! – A voz dela treme.
—Então, qual é a da reação? – Ergo as sobrancelhas.
—Olha, Renan... – Kasumi se senta, tentando se acalmar. – Desculpe, mas é que isso foi de um absurdo que... – Ela baixa a voz, os olhos marejando um pouco por conta da raiva. – Espero que não ria de mim, nem me ache uma idiota. Mas, esse vídeo não existe... Porque bem... Porque eu sou virgem.
Não sei se isso deveria ter um impacto pra mim, porque não tem. Era até de se esperar, visto a inocência que ela demonstrara desde que a conheci melhor. Claro, tem o ditado que diz que as santinhas são as mais pervertidas, mas caramba! Eu estou completamente apaixonado por ela, logo eu escolhi romantizar isso.
—Aliás, essa foi uma das razões pelas quais eu terminei com o Felipe... – A voz dela tremia, a raiva dela se transformara em tristeza, e lágrimas desciam aos poucos de seus olhos. – Ele queria porque queria me levar pra cama, eu não me sentia pronta... Ele tentou passar dos limites... Pra mim... – Ela começara a soluçar. – Pra mim não deu mais, seis meses aguentando essas investidas, foi aí... Foi aí que eu decidi largar ele... – Kasumi me abraça, soluçando de tristeza. – Eu amava ele, mas não dava mais, isso tava me machucando e eu não aguentava mais. E então eu... Eu decidi que não queria mais me relacionar com homens. Nenhum deles. Mas bem... Aí apareceu você.
—Como assim? – Pergunto, confuso, o meu coração começou a bater mais forte.
—Você foi gentil comigo, se mostrou um amigo legal... – Ela diz, ainda com a voz embargada. – Sei que se fôssemos um casal, você não iria me decepcionar.
—Kasumi... – Sem pensar em mais nada, como se todo tempo tivesse planejado isso, eu pego com suavidade na nuca dela e a beijo.
Aliás, o meu primeiro beijo. Se a Kasumi me empurrasse e desse um tapa na minha cara, eu não tiraria a razão dela, mas ela não o faz. A sensação, é como se Deus, ou quem quer que seja o regente do universo, tivesse criado toda a vida humana para convergir naquele momento.
E diabos, a sensação dos lábios de Kasumi colados aos meus é algo que eu jamais esqueceria. E esse momento pode não ter durado muito, mas foi intenso. O problema, vai ser a reação da Kasumi quando nossos lábios se separarem. Eu temo que ela acabe com a nossa amizade.
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