Pais por acaso

71 Renesmee- Puerpério


Notas iniciais
Quem será que esta mandando mensagens pra Nessie? Jacob e Olivia? Será mesmo?

O primeiro mês de vida da Serena passou como um sopro…

Um sopro intenso, exaustivo e ao mesmo tempo incrivelmente cheio de amor.

As noites pareciam infinitas.

O cansaço grudava na minha pele como um cobertor pesado e gelado. A cada mamada, a cada troca de fralda no meio da madrugada, eu me sentia no limite — mas então olhava para aqueles olhos pequeninos e aquela boquinha rosada… e tudo fazia sentido de novo.

O puerpério não era apenas físico. Era emocional.

Eu chorava do nada. Me sentia sozinha às vezes, mesmo com todos por perto. Tinha dias em que me olhava no espelho e mal reconhecia quem era aquela mulher que aparecia de pijama sujo de leite, cabelo preso de qualquer jeito e olheiras até o queixo.

Mas Jacob…

Jacob foi meu pilar.

Ele pediu licença do hospital assim que cheguei em casa. Disse que não queria perder nada. Nem o primeiro sorriso, nem a primeira cólica, nem a primeira madrugada em claro.

Ele fazia o café da manhã, arrumava a casa com a ajuda de Sarah e da minha mãe, e cuidava de mim como se eu também fosse parte da fragilidade daquele pós-parto.

Me dava banho quando via que eu não tinha forças nem para levantar. Me ajudava a amamentar nas madrugadas em que o cansaço vencia minha resistência.

E Josh… ah, meu pequeno grande menino.

Ele era o melhor enteado que eu poderia ter.

Observava Serena com olhos curiosos, e dizia que ela parecia uma joaninha enrolada nas mantinhas cor-de-rosa. Às vezes, sentava ao meu lado só pra vê-la dormir e me fazia companhia em silêncio. Eu sabia que aquele amor entre irmãos já estava se formando de maneira natural, linda, forte.

Numa tarde qualquer, enquanto Jacob cochilava no sofá com Serena no colo e Josh jogava videogame no quarto, minha mãe chegou para uma visita.

Estava linda como sempre, cheirosa, radiante. E eu, com um coque torto e uma blusa manchada de leite, me sentia... um trapo.

Nos sentamos na varanda. Ela trouxe chá e biscoitos.

— Mãe… — comecei mordendo o canto do lábio, sem coragem.

— Hm? — Ela me olhou com aquele sorriso terno que só as mães sabem dar.

— Você acha que eu tô… gorda?

Ela arqueou as sobrancelhas e depois riu. Riu de verdade, daquelas risadas que ecoam na alma da gente.

— Nessie! Pelo amor de Deus! Você acabou de parir um ser humano! Claro que seu corpo vai mudar! Isso é normal. Você é linda. É natural se sentir insegura, filha… mas não tem que se comparar com ninguém.

Baixei os olhos e suspirei.

— É que… eu e o Jacob… a gente está há tanto tempo sem fazer amor. E eu fico com medo, sabe? De ele não me desejar mais.

Minha mãe me olhou com um misto de ternura e firmeza.

— Você é médica, não é? Sabe que precisa respeitar o seu tempo, que seu corpo ainda está se curando.

— Eu sei… — respondi, ficando vermelha. — Mas não é só físico. É emocional também. Eu me olho no espelho e… não me sinto mais a mesma. Às vezes penso que ele sente falta da antiga eu.


Ela se aproximou e me puxou para os braços como fazia quando eu era criança.

— Olha para mim, Nessie. Um relacionamento de verdade… não se resume a sexo. Depois que você nasceu, eu e seu pai só voltamos a ter intimidade quase seis meses depois. E ainda assim, ele nunca deixou de ser amoroso, de me admirar, de me amar com cada gesto.

Engoli em seco, com os olhos marejados.

— Você tem um homem incrível do seu lado. Que está com você em cada passo. Ele te ama, Nessie. Não por um corpo, não por um momento… mas por tudo o que você é. A mulher, a mãe, a parceira. E essa insegurança… vai passar. Com o tempo, com amor. E você vai se redescobrir também.

Abracei minha mãe com força.

Ela sempre soube dizer as palavras certas.

E ali, nos braços dela, percebi que eu não precisava ter todas as respostas.

Só precisava viver um dia de cada vez.

Com amor.

Com coragem.

Com Jacob.

E com a pequena Serena, que era agora meu maior motivo para ser forte.



Serena dormia no quarto, tranquila, o rostinho sereno no bercinho perto da janela, cercada de almofadas bordadas com flores e bichinhos. A brisa suave que passava pela varanda trazia um pouco de alívio para o calor do meu peito, que insistia em pesar, às vezes sem motivo, às vezes por todos eles ao mesmo tempo.

Eu estava abraçada com minha mãe, buscando no colo dela a firmeza que parecia ter me abandonado nos últimos dias. O puerpério é cruel, silencioso... e mesmo cercada de amor, às vezes me sentia sozinha. Insegura. Cansada.

Foi quando a porta da varanda se abriu e ele surgiu — Jacob. Sempre tão certo, tão inteiro. Arrumado, camisa azul dobrada nas mangas, perfume discreto, mas inconfundível. Ele ajeitava o relógio no pulso quando falou:

— Preciso ir ao hospital rapidinho, meu amor. Prometo que não passo de uma hora e volto antes da sogrinha aqui ir embora.

— Sogrinha, é? — Minha mãe disse com aquele ar falsamente ofendido, antes de dar um tapinha no braço dele. — Abusado.

Eu ri, mesmo sem muita vontade, e Jacob sorriu de volta. Em dois passos ele estava diante de mim. Me puxou para seus braços como se o mundo inteiro coubesse ali — e realmente cabia.

— Já estou com a lista de compras da nossa pequena Serena, mas... tem alguma coisa que você quer, minha rainha?

— Chocolates — murmurei, sentindo o rosto corar. — Aqueles... recheados de caramelo que eu gosto.

Ele sorriu de lado, cúmplice.

— Seu desejo é uma ordem, mamãe linda.

Beijou minha testa, depois meus lábios com doçura. Quando se afastou, o celular dele começou a tocar. Ele olhou a tela, suspirou e atendeu com um gesto rápido de “já volto”. Entrou na sala falando baixo e, por um instante, o silêncio voltou.


Minha mãe me olhou, com aquele sorriso terno que só ela tinha, e sussurrou:

— Viu só? É seu Jacob.

Eu suspirei, encostando o rosto no ombro dela. Um sorriso escapou entre meus lábios.

— É... ele é meu.

E naquele instante, isso bastava.



Já fazia quase duas horas desde que Jacob tinha saído. Ele tinha prometido que não demoraria... mas o relógio parecia zombar de mim a cada minuto que passava.

Na sala, minha mãe estava com Serena no carrinho, distraída, empurrando-o de leve de um lado para o outro enquanto falava baixinho para a neta. O som suave da voz dela era reconfortante, e ver as duas ali juntas deveria ser suficiente para acalmar meu peito, mas...

Me levantei devagar, ajustando o nó do roupão ao redor da cintura. O calor do chuveiro parecia um bom lugar para me esconder por alguns minutos. Quando cheguei à porta do banheiro, ouvi batidas leves.


— Pode entrar — chamei, sem pensar, e me virei em direção à porta.

Joseph apareceu, com o cabelo um pouco bagunçado e uma bola de basquete debaixo do braço. Sorriu, meio sem jeito.

— Nessie... será que posso descer para jogar basquete com os meninos da quadra?

Assenti com a cabeça, sorrindo com carinho. Ele parecia animado de verdade.

— Pode sim. Mas nada de sumir, hein? E leva uma garrafinha de água.

— Pode deixar! — Respondeu, já saindo em disparada pelo corredor. — Você é a melhor!

Soltei uma risada baixinha. Às vezes, mesmo com toda a instabilidade dos últimos dias, aquele garoto conseguia arrancar algo leve de mim.

Voltei para o banheiro, estiquei a mão para abrir a torneira... e então meu celular vibrou no criado-mudo. Um som seco, insistente. Meu coração disparou — Jacob. Pensei automaticamente. Talvez estivesse avisando que estava voltando, ou perguntando se eu queria mais chocolates.


Peguei o celular, com um sorriso involuntário brotando nos lábios... mas ele morreu antes mesmo de se formar por completo.

Era uma mensagem de um número desconhecido.

“Ele está com ela agora”.

Franzi o cenho, confusa. Meu dedo hesitou antes de rolar a tela — e então outra notificação apareceu.

Uma foto.

Abri.

Jacob.

Com Olivia.

Ela em seus braços.

Sorrindo.

Meu coração parou. Literalmente. Por um segundo o mundo ao meu redor ficou mudo. O som da rua, da voz da minha mãe, da respiração suave de Serena... tudo se dissolveu.

Eu só conseguia olhar para aquela imagem.

A garganta secou, o estômago embrulhou, e uma onda fria tomou conta do meu corpo como se eu estivesse despencando de um penhasco. Tentei respirar, mas o ar parecia preso em algum lugar que eu não conseguia alcançar.

Não, não... Isso não pode ser real. Não pode ser.

A dúvida gritou. A dor veio logo atrás.

E meu mundo, mais uma vez... começou a desmoronar.