Pais por acaso

72 Renesmee- Desculpas


A água quente caía sobre mim como uma tentativa fracassada de acalmar o caos dentro do meu peito.

Meus dedos tocaram, de forma quase automática, a marca ainda recente da cesárea. A cicatriz que me tornava mãe. A lembrança física de Serena, do momento mais intenso e belo da minha vida… mas, agora, tudo isso parecia tão distante. Como se a felicidade tivesse escorregado por entre meus dedos sem que eu percebesse.

As lágrimas se misturavam à água do chuveiro. E, por mais que eu tentasse controlá-las, era impossível. A dor era física e emocional. Um nó se formava no meu peito, sufocante. Eu me sentia fraca, despedaçada, insegura. Eu me sentia... descartável.

Não sabia há quanto tempo estava ali. Só percebi que meus dedos estavam enrugados, como se o tempo tivesse escorrido sem que eu notasse.

Foi então que ouvi vozes abafadas vindo da sala. Ignorei. Meu corpo inteiro parecia pesado demais para reagir.

Logo depois, o som da porta do quarto sendo aberta... e fechada.

Meus olhos permaneceram fixos no azulejo da parede, até que a voz dele preencheu o ambiente:

— Nessie? Amor... você está aí?

Ele soava preocupado. Carinhoso. Tão Jacob.

Mas eu não consegui responder. Apenas desliguei a chave do chuveiro, tentando encontrar forças para sair dali. Estendi a mão até o gancho onde o roupão estava, mas antes que conseguisse vesti-lo, ele apareceu.

Jacob.


Seus olhos se arregalaram ao me ver daquele jeito — encolhida, molhada, frágil. Meus olhos estavam inchados, meu rosto vermelho. E tudo que eu conseguia fazer era... chorar.

Sem dizer nada, ele pegou o roupão e cuidadosamente o colocou sobre meus ombros. Seus dedos foram leves, cuidadosos. E então, ele me puxou devagar para seus braços.

— Ei... amor... — sussurrou com a voz embargada de dor.

Me deixei ir. Afundei no peito dele, e chorei. Chorei com tudo que tinha. Como se aquilo fosse a única forma de me manter em pé. Não consegui dizer nada, nem ao menos explicar. Não havia palavras. Só dor.

Ele não me soltou. Apertou os braços ao meu redor, como se tentasse me manter inteira quando eu mesma já não conseguia.

E ali, no silêncio quebrado apenas pelos meus soluços, eu sentia que meu mundo talvez ainda pudesse ser reconstruído... se ele continuasse me segurando assim.

Acordei com o som suave de passos e um sussurro baixo, quase como um mantra reconfortante.

— Vamos cuidar da mamãe, pequena... Ela tá sensível hoje, tá? — a voz de Jacob era baixa, doce, como só ele conseguia ser com nossa filha.

Abri os olhos devagar, ainda sonolenta. Os cobertores me envolviam como um ninho quente, e o quarto estava mergulhado em uma penumbra tranquila. Meus olhos encontraram a silhueta dele caminhando pelo quarto com Serena aninhada em seus braços, toda enroladinha em uma mantinha rosa. Ele parecia uma pintura viva da paz.


— Olha só quem acordou... — ele sorriu ao me ver. — A mamãe acordou, pequena. E sabe o que isso significa? Hora do bico.

Dei um risinho abafado, mesmo sem forças. Estendi os braços e ele colocou Serena gentilmente nos meus braços. Ela remexeu a boquinha e se ajeitou com rapidez, como se soubesse exatamente o que queria. Enquanto ela mamava, Jacob se sentou ao meu lado na cama, me observando.

— O que aconteceu?

Mas, no fundo, eu precisava.

Houve um silêncio incômodo entre nós. Meu coração acelerava. O peso da dúvida ainda me corroía, mesmo que parte de mim gritasse que ele não faria isso comigo.

Jacob tocou meu queixo com delicadeza, inclinando meu rosto para que eu o encarasse.

— Nessie... olha para mim. Você confia em mim?

Não respondi. Em vez disso, pedi baixinho:

— Pega meu celular... está na cômoda.

Ele obedeceu sem questionar, me entregando o aparelho. Desbloqueei a tela com os dedos trêmulos e mostrei a mensagem e a foto. Meu coração se partia enquanto observava a expressão dele mudar.

Jacob fechou os olhos por um segundo, inspirou fundo, e quando falou, sua voz estava carregada de frustração.

— Isso é uma brincadeira de muito mau gosto. — Ele balançou a cabeça, claramente irritado. — Eu abracei a Olivia para me despedir, Renesmee. Ela recebeu uma proposta de trabalho dos sonhos... vai embora amanhã cedo. Só isso. Eu não... eu jamais faria algo para te machucar. Nunca.


Engoli em seco, o rosto queimando de vergonha. A culpa me invadiu como uma onda cruel.

— Me desculpa... eu... eu me senti tão insegura. Tão frágil. — Minha voz saiu falha, quase imperceptível.

— Eu sei. — Ele respondeu mais calmo. — Mas você precisa confiar em mim. Porque se não confiar... isso não vai funcionar, Ness. E a gente precisa funcionar.

Ele se levantou, os olhos ainda em mim por alguns segundos antes de suspirar e sair do quarto.

Fiquei ali, em silêncio, com Serena em meus braços. A pequena agora dormia profundamente, alheia a tudo.

E eu... eu só queria que tudo voltasse a ser leve de novo.



Fiquei alguns minutos sozinha no quarto com Serena nos meus braços, escutando apenas a respiração suave da minha filha e o som abafado do mundo lá fora. O quarto parecia suspenso no tempo. Um silêncio acolhedor, mas ao mesmo tempo pesado, me envolvia por completo. Meus pensamentos se embaralhavam entre o cansaço físico, a dor emocional e a culpa que ainda me corroía por dentro.

O rosto de Jacob continuava vivo na minha mente. Eu tinha visto... nos olhos dele... a decepção.

Suspirei, acariciando o rostinho tranquilo da nossa bebê. Como algo tão pequeno podia representar tanto amor? E ainda assim, ali estava eu, duvidando de quem mais me amava no mundo.

A porta se abriu devagar, e Jacob entrou em silêncio.

— Ela dormiu — murmurei, com a voz embargada.

Ele apenas assentiu com um leve sorriso e se aproximou.


— Eu vou colocá-la no berço — disse baixinho.

Assenti com um pequeno movimento de cabeça, e ele pegou Serena com todo o cuidado do mundo. Observá-los juntos sempre me tocava profundamente. Ela parecia tão segura nos braços dele... tão em paz.

Assim que ele saiu com ela nos braços, respirei fundo, sentindo meus olhos arderem novamente. Aquela troca silenciosa entre nós me doía mais do que qualquer briga.

Minutos depois, Jacob voltou. Seu caminhar era calmo, mas havia algo contido em seu rosto. Um silêncio dele que me pesava ainda mais no peito.

— Me desculpa — sussurrei, as lágrimas escapando antes que eu conseguisse contê-las. — Eu... eu não queria duvidar de você. Eu só... eu tô tão exausta, tão confusa...

Ele se aproximou e se sentou na beirada da cama, com os olhos calmos, mas cheios de sentimento. Tocou meu rosto com delicadeza, enxugando uma lágrima que escorria pela minha bochecha.

— Está tudo bem, Ness. — Sua voz era baixa, mas firme. — Eu entendo. Você passou por muita coisa. É normal se sentir insegura. Ainda mais agora, com tanta coisa nova acontecendo.

Balancei a cabeça, ainda me sentindo péssima.

— Mas eu devia confiar em você...

— E você confia, só estamos passando por uma mudança e tudo vai ser como antes. Aos poucos. Um passo de cada vez. — Ele inclinou o rosto, me fazendo olhar direto em seus olhos. — Mas precisa lembrar de uma coisa: eu te amo, Renesmee. Como nunca amei ninguém na minha vida.

Aquilo me desmontou de vez. Me joguei em seus braços e ele me acolheu com firmeza, me abraçando forte, me segurando como se pudesse me reconstruir só com aquele toque.

E talvez pudesse mesmo.

Seus lábios tocaram os meus com uma ternura que me fez esquecer por um instante toda a dor. Um beijo doce. Apaixonado. Intenso na medida certa. Um beijo que dizia tudo o que as palavras não conseguiam expressar.

E ali, nos braços dele, com o gosto do amor nos lábios, eu comecei a acreditar de novo.