Pais por acaso

73 Renesmee- Passeio no parque


O tempo voa… É uma daquelas frases que a gente ouve a vida toda, mas só entende de verdade quando vê sua filha completar três meses de vida.

Três meses da nossa Serena. Três meses de noites mal dormidas, trocas de fralda de olhos fechados, choros que eu já sei distinguir pelo som… e sorrisos que iluminam o mundo inteiro.

Jacob tinha decorado a varanda com delicadas luzes em tom dourado e pendurado um varalzinho com fotos da nossa pequena: no colo dele, dormindo no meu peito, sendo ninada por Josh, recebendo beijinhos babados do Seth.

Falando neles… Seth e Josh estavam praticamente em guerra pelo direito de segurar Serena. Ela, claro, adorava a atenção, mesmo que não entendesse direito o que estava acontecendo.

— Ela quer vir para o irmãozão favorito, Nessie, fala para ele — dizia Seth, fazendo caretas engraçadas enquanto Josh revirava os olhos.

— Irmão favorito? Por favor, você mal sabe segurar ela, parece que vai derrubar.

— Isso porque eu deixo ela respirar! Você agarra ela como um urso!

— Meninos — eu adverti, rindo, sentada no sofá com Serena no meu colo. — Ela acabou de mamar, cuidado para não balançar muito ou vai acabar devolvendo o leitinho em vocês dois.

Eles riram, mas obedeceram. Jacob se aproximou e pegou Serena com todo o cuidado do mundo. Ver ele com a nossa filha ainda me emocionava como da primeira vez. Ele a olhava como se nada mais existisse no mundo. E talvez, para ele, não existisse mesmo.


— Parabéns, minha pequena. Três meses sendo a luz da casa... e do papai. — Ele deu um beijinho na testa dela, que sorriu como se entendesse tudo.

Estávamos todos rindo quando o celular de Seth tocou. Ele atendeu, ainda sorrindo, mas seu rosto mudou quase instantaneamente.

— É a Jane… ela… ela está indo para o hospital. O bebê vai nascer!

Um silêncio tomou conta da varanda. Por dois segundos, todo mundo parou.

— O quê? — Jacob arregalou os olhos. — Como assim… agora?

Seth apenas assentiu, nervoso. Jacob virou-se para mim como se só então tivesse processado a informação.

— Eu… eu vou ser avô?

— Oficialmente — falei com um sorriso suave, apesar do nó que me apertava a garganta. — Vai sim, vovô Black.

Josh quase engasgou de tanto rir.

— Ah não! Agora é "vovô"? Eu vou usar isso para sempre!

— Nem ouse — Jacob respondeu, apontando o dedo para ele, mas sorrindo, ainda em choque.

Ele se virou para mim, ainda segurando Serena, e se abaixou pra me dar um beijo. Nossos lábios se tocaram com carinho, e eu apoiei a mão no rosto dele.

— Vai com calma, amor. E me manda notícias assim que souber de algo, tá?

— Eu prometo. — Ele me olhou como se não quisesse sair, mas o dever — e o amor — o chamavam. — Cuida da nossa princesinha. E… torce para esse menino puxar a mãe.

— Vai com Deus — sussurrei.


Ele entregou Serena de volta para mim com um último beijo na testa dela, e saiu com Seth e Josh, ainda processando tudo.

E ali, sozinha com minha filha no colo e meu coração cheio, eu percebi… que essa nossa pequena família só estava começando.


O dia passou devagar, mas de um jeito bom. Serena parecia perceber que estávamos só nós duas em casa, e ficou especialmente tranquila. Dormiu longas sonecas e sorriu toda vez que eu cantava baixinho pra ela. Entre uma mamada e outra, assistimos desenhos na TV e dançamos juntas pela sala — bom, eu dancei, ela ficou balançando no meu colo, com aqueles olhinhos atentos e sonolentos.

No início da tarde, Jacob ligou. A voz dele estava cansada, mas carregada de alegria.

— Nasceu, amor. O pequeno Ephraim chegou. Jane está bem. Foi tudo tranquilo.

Senti um alívio percorrer meu corpo.

— Ai, que notícia maravilhosa! Manda foto, por favor!

Segundos depois, a notificação chegou no meu celular. Uma imagem do bebê enrolado em uma manta azul claro, com bochechas coradas e o cabelo bem loirinho como a mãe. Sorri encantada, até ler a mensagem logo abaixo:

"O bebê se salvou. Não parece com o Seth."

Caí na gargalhada ali mesmo, sentada com Serena no sofá. Meu marido não perdia a oportunidade de provocar.

— Seu pai é terrível, filha — falei pra Serena, que me olhou com seus olhos curiosos enquanto dava risadinhas aleatórias, sem entender nada.

No fim da tarde, decidi que nós duas precisávamos de ar. Vesti Serena com um macacão amarelinho com orelhas de coelho no capuz, coloquei uma manta leve no carrinho e descemos. A pracinha próxima ao prédio estava tranquila. As árvores balançavam levemente com a brisa, e o céu se tingia com tons de dourado e rosa, como se o universo quisesse nos dar um presente.

Conversei com algumas mães que eu via de vez em quando, falamos sobre cólicas, mamadas, fraldas… coisas de mãe cansada, mas feliz. Enquanto Serena dormia tranquila no carrinho, fiquei observando crianças correndo pelo gramado, algumas gritando, outras rindo, e por um instante me imaginei ali com ela, daqui uns anos, correndo atrás da minha menina de cabelinhos castanhos e sorriso fácil.

Foi quando ouvi.

— Renesmee.

A voz cortou o ar feito navalha. Me virei de imediato.

Elizabeth.

Por um momento, não a reconheci. Estava mais magra, os olhos fundos e as roupas simples, sem nenhum dos exageros que ela costumava usar. Parecia… abatida. Ferida. Quase invisível diante da mulher que um dia fez de tudo para parecer imponente.

— Tia… — sussurrei, ainda surpresa — o que está fazendo aqui?

Ela deu alguns passos, os braços cruzados contra o corpo como se buscasse proteção.

— Você pergunta se eu estou bem? — a voz dela estava rouca, cansada — Não, Renesmee. Não estou bem. E a culpa… é sua.

Senti meu estômago revirar.

— Como assim?

Elizabeth me olhou com tanta dor nos olhos que por um instante eu esqueci de respirar.


— Você tirou tudo de mim.

Fiquei ali, paralisada, com as mãos no carrinho de Serena, enquanto o sol desaparecia no horizonte… sem entender do que minha tia estava me acusando.

— Eles me trancaram por sua culpa — Elizabeth disse, os olhos faiscando com raiva e algo que eu só poderia descrever como desespero. — Tudo isso... tudo isso foi por sua causa! Porque você teve o que eu nunca tive. Porque ele... — ela apontou com o queixo, cheia de amargura — o Jacob te deu um lar. Te deu tudo.

Eu a encarei, confusa, tentando entender onde aquela dor e aquele ódio se cruzavam.

— Eu não sei do que você está falando… — murmurei, meu coração começando a acelerar. — Eu nunca quis que… que ninguém te fizesse mal.

Ela deu uma risada seca, nervosa, trêmula.

— Claro que não quis. Você nem precisou sujar as mãos, princesa. Foi só existir. Só ser amada. Só estar no lugar que era pra ser meu!

Meus olhos automaticamente buscaram Serena, dormindo pacífica no carrinho.

Foi quando Elizabeth avançou.

— VOCÊ VAI PAGAR! — Ela gritou, indo direto em direção ao carrinho.

— NÃO! — Gritei, empurrando-a com força, o instinto mais primal de proteção explodindo dentro de mim.

Elizabeth tropeçou e cambaleou para trás, mas antes que pudesse tentar qualquer coisa novamente, ouvi a voz dele.

— Renesmee!

Jacob surgiu como uma tempestade. Num segundo, ele já estava entre mim e Elizabeth, os braços abertos, protegendo a mim e Serena. O olhar dele, duro, selvagem, fez Elizabeth recuar alguns passos.

Josh apareceu logo atrás, ofegante, com o celular na mão.

— A polícia já está vindo — disse ele, firme.

Elizabeth olhou para mim mais uma vez. Uma mistura de raiva, dor e derrota.

— Isso não acaba aqui — ela murmurou, e então virou-se e correu, desaparecendo entre as árvores da pracinha.

Eu caí de joelhos no chão, o corpo tremendo. Jacob se abaixou imediatamente ao meu lado, me envolvendo com seus braços.

— Shhh… você tá bem, meu amor. Tá tudo bem agora. Eu tô aqui — ele sussurrava no meu ouvido, apertando meus ombros com as mãos quentes e firmes.

Josh checou Serena, que ainda dormia, alheia ao caos.

— Ela tá bem. A bebê tá bem — ele confirmou, aliviado.

Mas eu... eu não sabia se estava. O susto, o medo, o peso de tudo me deixaram sem ar por um instante. Olhei pra Jacob, ainda com as mãos tremendo.

— O que tá acontecendo, Jake? — minha voz saiu num sussurro quebrado. — Por que ela fez isso? Por que… ela disse que a culpa era minha?

Ele me olhou nos olhos, com aquele jeito que sempre teve de querer me poupar.

— A gente vai resolver isso. Eu prometo. Mas agora… você e Serena são minha prioridade. Sempre foram.

E naquele momento, mesmo sem entender todas as peças, eu sabia de uma coisa: Jacob estava ali. E ele era o meu lar.