Pais por acaso

69 Renesmee - O Despertar


Era tudo o que existia. Um lugar sem tempo, sem dor, sem cor. Eu estava flutuando em meio ao nada — e, ao mesmo tempo, parecia que tudo me puxava para baixo.

Mas então... um som.

Suave. Distante. Familiar.

— ...Nessie? — A voz da minha mãe.

Depois, outra. Mais grave. Aveludada.

— Filha... aguenta firme. — Era meu pai.

Eu queria responder. Gritar. Dizer que eu estava aqui. Que eu os ouvia. Que eu precisava deles. Mas minha boca não se mexia. Meu corpo não reagia.

O som agudo de uma sirene cortou o silêncio da escuridão, como um raio em meio à noite. Sirene de ambulância. Eu conhecia. Já ouvira tantas vezes... no hospital. O hospital...

E então, uma voz que fez meu coração estremecer.

— Eu tô aqui, amor... tô com você. — Jacob.

Minha alma inteira quis correr até ele. Estender as mãos. Me jogar em seus braços.

Mas tudo era peso.

Ouvi outras vozes. Algumas conhecidas, outras não. Sons embaralhados. Passos correndo. Alarmes. Instrumentos. As palavras se confundiam: "pressão", "saturação", "cesárea", "pré-eclâmpsia"... nomes soltos no caos.

Tentei me agarrar a qualquer coisa que me mantivesse ali.

Mas outra onda de escuridão veio. Mais pesada. Mais forte.

E antes que ela me levasse de volta ao nada...

Eu ouvi.

O som mais lindo que meus ouvidos já captaram.

Um choro. Agudo. Recém-nascido. Frágil.

Minha bebê.

Serena.

Ela nasceu.

Era real. Ela estava viva. Eu consegui. Nós conseguimos.

Um calor suave me envolveu por dentro. Como um cobertor. Como um raio de sol atravessando as nuvens.

Eu me senti... em paz.

E então, por fim, me deixei ir.

A escuridão me levou mais uma vez.

Mas dessa vez, leve.

Serena estava aqui.

E isso era tudo.



Eu caminhava.

Os pés descalços tocavam um chão frio, úmido, coberto por uma névoa densa. Não via paredes, mas sabia que estava presa. Um labirinto escuro. Um lugar entre o mundo real e o outro. Entre a vida... e o esquecimento.

Meu corpo estava leve, mas o coração pesava.

Eu tinha que sair dali.

E então vi.

Uma luz. Fraca. Tremulando à distância como uma chama pequena prestes a se apagar.

Meus pés se moveram por instinto.

Eu precisava alcançá-la.

A cada passo, sons começaram a surgir ao meu redor. Fragmentos de vozes. Sussurros distorcidos.

— ...Nessie, por favor... volta pra mim... — a voz...

Jacob.

Ele estava chorando.

Meu coração se apertou.

Não.

Ele não.

Ele era força, era calor, era abrigo. Ele não podia estar sofrendo.

— Jake! — Tentei gritar, mas minha voz morreu na garganta.

Comecei a correr.

A luz parecia fugir de mim.

Como se o mundo me testasse, mais uma vez.

Jacob precisa de mim.

Serena precisa de mim.

Eu tô indo... — murmurei entre lágrimas invisíveis.

O som sumiu. Por um instante, tudo voltou a silenciar.

Pensei que fosse cair novamente na escuridão, mas então…

— Ele está com outra. — Uma voz feminina, fria. Quase um sussurro cortante.

Eu parei. Meu peito queimou.

Elizabeth?

— Ele seguiu em frente, querida. —

Agora era outra. Uma voz que eu não conhecia, mas carregada de julgamento.

— Jacob não vai gostar de vê-la aqui. Vai ser melhor se for embora...


Não. Não pode ser...

Meu coração disparou, confuso, sufocado.

Eu gritei sem som.

— Não! Jacob me ama. Ele me ama...

Mas a luz, antes fraca e constante, agora parecia mais distante. Como se se afastasse toda vez que eu dava um passo.

Meus pés voltaram a correr.

Não por mim.

Mas por ele.

Por nossa filha.

Porque mesmo se tudo isso for real... mesmo se ele estiver com outra...

Eu ainda preciso vê-lo.

Ainda preciso vê-la.

E enquanto eu corria, com o coração em pedaços, uma certeza me impulsionava:

Eu vou encontrar a luz.


Meus passos se tornavam mais rápidos.

O ar começava a rarear, como se cada investida me drenasse a alma.

A escuridão parecia querer me engolir viva, como uma floresta sem fim.

E então, a voz dela voltou.

— Eles estavam juntos… de mãos dadas. Ele sorriu pra ela como sorria pra você. —

Elizabeth.

Tão clara, tão cruel.

Meus pés vacilaram.

Meu peito doeu de novo, agora com um novo tipo de dor.

Medo.

— Mentira! — Tentei gritar, mas a voz não saía.

Era como gritar debaixo d’água.

Ciúmes queimaram minha garganta.

Jacob.

Meu Jacob…

Não. Ele me ama. Ele me esperaria.

Ele é meu.

A luz se aproximava. Ou talvez eu estivesse finalmente conseguindo alcançá-la.

Eu precisava chegar até ela. Precisava provar que ainda havia vida em mim. Que ainda havia amor.

Então veio a dor.

Uma súbita pressão no peito, como se um peso invisível me esmagasse os pulmões.

Não conseguia respirar.

A luz explodiu diante dos meus olhos.

E tudo mudou.

Meus olhos se abriram — com dificuldade, pesados, doloridos.

A claridade do ambiente me cegou por um segundo.

O som de um monitor cardíaco preenchia o ar.

Eu estava deitada.

Tubos… na minha boca, na minha garganta… eu não conseguia falar.

Não conseguia respirar direito.

O pânico me atingiu como uma avalanche.

Minhas mãos, fracas, tentaram arrancar aquilo de mim.

Mas antes que eu conseguisse, uma mulher entrou no quarto — enfermeira. Eu sabia pelo uniforme branco e o crachá.

Ela se aproximou rapidamente.

— Ei, calma! Calma, meu bem. — Disse, segurando minhas mãos com firmeza.

Apertou um botão na parede.

— Você está segura, ouviu? Vai ficar tudo bem.

Serena.

Jacob.

Queria perguntar… queria saber se eles estavam bem.

Mas o tubo impedia até meu choro.

Minhas lágrimas escorreram em silêncio, traindo meu desespero.

Logo outra mulher entrou — de jaleco. Devia ser uma médica.

Trazia o cabelo preso e um olhar calmo, mas atento.

Ela sorriu com delicadeza ao me ver desperta.

— Que bom que voltou, ruiva. — Disse, se aproximando da cama. — Agora fica tranquila, tá? Você está em boas mãos. Vai ficar tudo bem. Te prometo.

Tentei acreditar nela.

Mas meus olhos pesaram de novo.

A consciência escorregou dos meus dedos como areia entre os ventos.

E, mais uma vez, fui vencida pela escuridão.

A escuridão começou a se dissolver como névoa diante da luz do amanhecer.

Sutil, mas constante.

Uma claridade suave foi abrindo caminho, como se uma nova chance estivesse prestes a nascer.

O calor chegou primeiro.

O calor de um toque familiar.

Dedos contra os meus dedos.

E então… a voz dele.

Tão doce. Tão carregada de amor.

— …não vejo a hora de te ver entrando naquela igreja com um vestido branco. — ele sussurrou, como se falasse para o próprio coração — E a Serena… ela tem que usar um vestido igual ao seu. Vai ser o nosso dia, Nessie… O nosso recomeço.


Meu coração disparou.

Jacob.

Sua voz me envolvia como um cobertor quentinho numa noite fria.

E ele continuava, sem perceber que eu o ouvia:

— Ela tá em casa, meu amor… a nossa filha. E é a sua cópia perfeita. — a voz dele falhou, embargada pela emoção. — Só herdou o meu cabelo. O resto é todo você.

Lentamente, meus olhos se abriram.

A luz da sala invadiu minha visão ainda turva.

Havia dor — na garganta, no nariz, por dentro.

Mas nada disso importava.

Porque ali, ao lado da cama, de cabeça baixa, estava ele.

Jacob.

Segurando minha mão como se ela fosse a única coisa capaz de mantê-lo inteiro.

— Ja… — minha voz saiu em um sussurro, rouca e fraca, mas ele ouviu.

Ele congelou.

Seus olhos se ergueram e encontraram os meus.

Aquele olhar intenso, selvagem e terno, que sempre foi só meu.

— Renesmee… — ele arfou, como se dissesse meu nome pela primeira vez.

As lágrimas correram pelo rosto dele, sem vergonha, sem contenção.

— Você voltou pra mim… — ele se inclinou, colando os lábios na minha testa com delicadeza — Eu te amo. Eu te amo tanto…

Respirei fundo, sentindo o cheiro dele, o calor, a vida.

— Nunca mais faz isso comigo. — Ele sussurrou, quase quebrado — Nunca mais me abandona assim.

Minha mão apertou a dele com a pouca força que eu tinha.

Eu nunca quis ir embora.

Mas agora… agora eu estava de volta.

Por ele.

Pela nossa filha.

Pelo amor que nos fazia invencíveis.