Pais por acaso
28 Renesmee- Centro cirúrgico
Preparei-me na sala de paramentação, colocando meu avental estéril e ajustando a máscara. Jacob entrou logo depois, as mãos nos bolsos, o olhar fixo em mim.
— Você está muito calada hoje. — Ele arqueou uma sobrancelha. — Tem certeza de que está tudo bem?
Olhei para ele, tentando manter a calma. Mas havia algo preso na garganta desde a conversa com Bree. Não pude evitar.
— Quem é Bree Tanner?
Jacob pareceu surpreso com a pergunta, mas respondeu com naturalidade:
— Uma amiga de longa data. Por quê?
Cruzei os braços, tentando não parecer tão afetada quanto realmente estava.
— Porque ela não pareceu ser "só uma amiga". Não pela forma como falou de você com a irmã.
Ele me encarou por um momento, depois deu um sorriso de canto.
— Está com ciúmes, Nessie?
Revirei os olhos, cruzando os braços com mais força.
— Não é ciúmes, Jacob. Eu só quero saber onde estou pisando. Você tem fama de cafajeste, lembra? E seria bom saber com quantas você dormiu nos últimos três meses. Bree está na lista, por acaso?
O sorriso desapareceu do rosto dele. Ele respirou fundo, como se estivesse tentando se controlar.
— Podemos conversar sobre isso depois, Nessie. Não é o momento.
Sua resposta evasiva só piorou minha desconfiança.
— Ah, entendi. Então há algo para conversar.
Deixei claro o sarcasmo na minha voz, e antes que ele pudesse responder, saí da sala de preparação e entrei diretamente na sala de cirurgia. Não queria ouvir mais nada naquele momento.
Assim que entrei, vi Elizabeth ajustando os equipamentos ao lado da mesa cirúrgica. Claro que seria ela.
— Bom dia, doutora Cullen. — Elizabeth sorriu, mas havia um tom condescendente em sua voz.
— Bom dia. — Respondi rapidamente, colocando minhas luvas e tentando ignorar a sensação de que o dia só pioraria a partir dali.
Poucos minutos depois, Jacob entrou na sala, a expressão mais séria. Ele cumprimentou Elizabeth com um leve aceno e posicionou-se ao meu lado. Eu podia sentir seu olhar em mim, mas mantive o foco no paciente.
A cirurgia ainda nem havia começado, e eu já sabia que seria uma das mais longas da minha vida.
Respirei fundo, mantendo o foco enquanto realizava a última sutura. Era uma incisão delicada, mas já havia feito isso várias vezes durante as minhas práticas. Meu coração batia no ritmo do monitor cardíaco do paciente, cada som me ajudando a manter a calma.
Elizabeth, para ser justa, era incrivelmente competente. Observava cada movimento meu e de Jacob, garantindo que todos os equipamentos estivessem no lugar certo e que nada comprometesse o andamento da cirurgia. Por mais que não nos déssemos bem fora dali, era inegável que ela sabia o que fazia.
Jacob, ao meu lado, estava impecável como sempre. Ele dava instruções claras e precisas, guiando-me onde necessário, mas confiava no meu trabalho. Por um momento, admirei sua postura. Apesar da tensão que pairava entre nós, ele sempre mantinha o profissionalismo.
— Está quase terminando, Nessie? — ele perguntou, a voz tranquila, mas atenta.
— Sim, só mais um ponto.
Minha voz soou firme, mas meu corpo não estava. Um calor começou a subir pelo meu rosto, e senti um leve desconforto no estômago. Ignorei, achando que era apenas cansaço.
Fiz o último ponto e me afastei para verificar o alinhamento. Tudo parecia em ordem, mas o incômodo no estômago aumentou. Respirei fundo, tentando afastar a sensação.
— Ótimo trabalho — Jacob comentou, e Elizabeth também murmurou algo em aprovação.
Tentei sorrir, mas meu corpo tinha outros planos. O calor ficou mais intenso, minha visão começou a embaçar, e o som ao meu redor parecia distante.
— Nessie? — Ouvi a voz de Jacob, alarmada, mas não consegui responder.
O mundo ao meu redor girou, e minha última visão foi o rosto preocupado dele antes de tudo escurecer.
...
Acordei com a sensação de algo frio na minha testa e uma luz fraca vindo de uma luminária próxima. Minha visão se ajustou, e reconheci o sorriso tranquilizador de minha mãe ao meu lado. Ela estava sentada em uma cadeira próxima à maca, me observando com preocupação.
— Mãe... — murmurei, tentando me sentar, mas minha cabeça ainda estava um pouco pesada. — O que aconteceu?
— Você desmaiou, querida — Bella respondeu suavemente, ajeitando os fios soltos do meu cabelo. — Estamos na enfermaria, mas está tudo bem agora.
Tentei lembrar, flashes do momento no centro cirúrgico passando pela minha mente. A sutura, Jacob, Elizabeth, e depois... tudo apagou.
— Tudo bem mesmo? — insisti, olhando-a com preocupação crescente.
Bella assentiu, seu sorriso se ampliando. — Sim. O Jacob queria ficar com você até acordar, mas Edward insistiu que ele fosse para a reunião final do hospital. Ele não teve como recusar, já que seu pai desconfiaria se inventasse uma desculpa.
Soltei um suspiro, a memória voltando lentamente. — Ah, agora lembro. Jacob estava lá... Foi só uma queda de pressão?
Minha mãe segurou minha mão com carinho. — Foi o que ele disse. Edward e Carlisle ficaram preocupados, mas Alice garantiu que está tudo bem com você e o bebê.
Senti uma pontada de alívio, mas ainda assim, precisei perguntar:
— E o bebê? Está mesmo tudo bem?
Bella apertou minha mão com mais força. — Sim, querida. Alice viu que foi apenas o cansaço. Mas você precisa se cuidar mais. Está se esforçando demais, Nessie.
Desviei o olhar, sabendo que ela tinha razão, mas o peso das responsabilidades no hospital, combinado com toda a situação com Jacob, não me dava muito espaço para descanso.
— Prometo que vou me cuidar melhor — murmurei.
Bella me lançou um olhar cético, mas seu sorriso ainda estava lá. — Eu espero mesmo. Você não está sozinha nisso, sabe?
Assenti lentamente, sabendo que ela estava certa, mas a ansiedade ainda pairava no fundo da minha mente.
Assim que Alice me liberou da enfermaria, fiz questão de garantir que estava bem, apesar dos olhares preocupados da minha mãe.
— Vou buscar minha bolsa e me trocar — disse, tentando parecer mais confiante do que me sentia. — Pode me esperar na recepção, mãe?
Bella assentiu, embora ainda demonstrasse alguma relutância. — Não demore, Nessie. Você precisa descansar.
— Prometo que não vou demorar.
Segui para o vestiário feminino, ansiosa para pegar minhas coisas e sair dali. Assim que empurrei a porta, ouvi um soluço abafado. Parei no mesmo instante, reconhecendo a figura de Jane sentada em um dos bancos, o rosto escondido nas mãos.
Por um momento, considerei dar meia-volta. Minha relação com Jane estava longe de ser amigável, mas algo na forma como ela tremia enquanto chorava me fez parar.
— Jane? — chamei com cautela, me aproximando devagar.
Ela ergueu os olhos para mim, o rosto vermelho e os olhos brilhando com lágrimas.
— O que você quer? — perguntou, a voz carregada de irritação, mas não tão forte quanto parecia tentar.
— Nada — respondi, me sentando no banco ao lado. — Só vi que você estava chorando e... Achei que talvez precisasse de alguém.
Jane soltou uma risada amarga. — Não sabia que você era tão altruísta assim.
Ignorei o comentário. — O que aconteceu?
Por um momento, achei que ela fosse me expulsar dali. Mas então, com um suspiro pesado, ela retirou algo do bolso e estendeu para mim. Um teste de gravidez.
— Estou grávida.
Olhei para o teste e depois para ela, surpresa. Sua expressão oscilava entre medo e raiva.
— E... o pai? — perguntei, ainda tentando processar a situação.
Jane limpou o rosto rapidamente, como se quisesse esconder as lágrimas. — Seth.
Seth. A mesma pessoa que tinha acabado de cruzar uma linha comigo no elevador.
— Jane... — comecei, escolhendo as palavras com cuidado. — Vocês estão juntos?
Ela balançou a cabeça, as lágrimas voltando a cair. — Não! Ele... Foi um erro. Eu fui estúpida. E agora... — Ela apontou para o teste, a voz quebrando. — Agora isso.
Suspirei, sentindo uma mistura de sentimentos. Apesar de todas as farpas trocadas, Jane parecia realmente vulnerável naquele momento, e eu sabia que não podia ignorar isso.
— Você já contou a ele?
Jane negou com a cabeça novamente. — Ainda não. Ele nem vai querer saber.
— Você não sabe disso — retruquei, tentando soar encorajadora, embora minha confiança em Seth estivesse no chão depois do que ele fez no elevador. — Ele tem o direito de saber, Jane.
Ela me olhou, os olhos brilhando de pânico. — E se ele não quiser nada comigo?
Eu respirei fundo, entendendo o peso do que ela carregava. — Então, você vai ter que ser forte. Não é fácil, mas você consegue. E se precisar de ajuda... Eu estou aqui.
Jane me olhou surpresa, como se não esperasse isso de mim.
— Por que você se importa?
Eu dei um pequeno sorriso, me levantando. — Porque, às vezes, precisamos de alguém, mesmo que achemos que não merecemos.
Ela não respondeu, mas pelo menos parou de chorar, e isso já era algo.
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