Pais por acaso

6 Jacob- Os Residentes


O som irritante do celular vibrando me acordou de repente. Ainda sonolento, estendi a mão para o aparelho sobre a mesa de cabeceira e, ao ver o nome Cullen no display, fiz uma careta. Sério, logo de manhã? Olhei ao lado, esperando ver a ruiva ainda ali, mas a cama estava vazia. Ela já tinha ido embora.

— Bom dia, Cullen — atendi, a voz um pouco rouca.

Estou ligando para lembrar do seu compromisso às sete, Jacob — a voz de Edward soou do outro lado, sempre pontual.

— Você não é meu pai, Edward — respondi com sarcasmo, passando a mão pelos cabelos desgrenhados.

Ouvi a risada do outro lado.

— Só estou cumprindo ordens da Bella. Ela acha que você estaria com... como ela disse mesmo? Ah, sim, "algum rabo de saia" e perderia a hora.

Ri com ele, me encostando na cabeceira da cama.

— Pede pra Bella parar de ser ciumenta, vai. Ela é casada, sabia?

— Ela só quer o seu bem, Jacob. Nos vemos no hospital. Não se atrase.

Ele encerrou a ligação, deixando-me ali, sentado, ainda meio confuso entre a realidade e o que havia acontecido na noite passada. Nessie. O nome que ela usou ecoava na minha mente. Olhei de novo para o lado da cama, onde seus cabelos ruivos deveriam estar espalhados sobre o travesseiro. Nada. Ela foi embora sem deixar rastro, nem sequer deixou seu número.

Suspirei, frustrado. É... noite boa, mas agora estou sem forma de contato com a garota. Então, ao baixar os olhos para o chão, algo chamou minha atenção. Uma pequena peça de roupa preta de renda.

Eu ri ao ver que ela tinha esquecido a calcinha. Sair tão apressada que deixou uma pista pra trás...

Peguei a peça e a observei por um segundo, lembrando da noite anterior. Talvez, em algum momento, essa calcinha rendada pudesse me ajudar a encontrar minha "Cinderela de Seattle". Só que, ao invés de experimentar o sapatinho de cristal nas moças da cidade, eu teria que testar... outra coisa.

A ideia me fez rir sozinho. Coloquei a calcinha de volta na cama e me levantei. Caminhei até o banheiro com um sorriso no rosto, já pronto para começar o dia, mesmo que o pensamento dela ainda estivesse rondando minha mente.

Horas depois, eu estava no Cullen Medical, caminhando pelos corredores ao lado de Edward e Carlisle. Eles falavam sobre a estrutura do hospital, os novos equipamentos, e me mostravam alguns dos pavilhões que eu supervisionaria. Carlisle sempre fora extremamente detalhista, enquanto Edward pontuava apenas o necessário, mas, juntos, funcionavam como uma equipe perfeitamente sincronizada.

Depois de uma longa caminhada, paramos para tomar um café. Eles acertaram comigo os detalhes sobre os residentes, os horários, as responsabilidades. Eu escutava, mas minha mente ainda vagava, ocasionalmente lembrando da ruiva misteriosa da noite anterior.

Eu tomava o café da manhã com Carlisle e Edward, sentado à mesa elegante do hospital, observando o movimento ao redor. Carlisle falava sobre os processos seletivos e como o programa de residência médica era essencial para adquirir novos talentos.

— Estamos sempre em busca dos melhores — dizia Carlisle, mexendo a colher na xícara de café. — O programa de residência é uma forma de garantir que formemos grandes médicos aqui no Cullen Medical.

Edward assentiu, pegando as fichas dos residentes em potencial sobre a mesa.

— Temos jovens talentosos que podem se tornar grandes cirurgiões. — Ele começou a ler as fichas, destacando cada um dos candidatos. — Jessica Stanley, por exemplo. — Edward me lançou um olhar. — Quer ser obstetra. Tem boas notas, mas é um tanto impaciente e, às vezes, precisa trabalhar mais em equipe. Tem potencial, mas é claro que vai precisar de orientação.

Jessica da faculdade. Sempre foi boa, mas ambiciosa demais. Não era surpresa que ela estivesse perseguindo a área de obstetrícia.

— Jane Volturi — continuou Edward, com um sorriso um pouco mais contido. — Inteligente, dedicada, mas tem uma tendência a ser... controladora. Quer fazer neurocirurgia, o que não é surpresa. Ela tem uma mente afiada, mas precisa aprender a ser mais flexível.

— Volturi, hein? — murmurei, me lembrando da reputação da família. — Parece que o controle corre no sangue.

Carlisle sorriu.

— Todos têm suas peculiaridades, Jacob.

— E temos Mike Newton — disse Edward, com uma expressão ligeiramente divertida. — Não é o melhor em termos acadêmicos, mas é trabalhador. Ele quer se especializar em ortopedia. Eu gostaria de trabalhar com ele, guiá-lo. Acho que ele tem um bom coração e poderia se beneficiar de uma orientação mais próxima.

Eu balancei a cabeça, imaginando Mike Newton, como o tipo de cara que era fácil de subestimar, mas com um pouco de direcionamento, poderia surpreender.

Então Edward pegou a ficha de Seth Clearwater, e tanto ele quanto Carlisle trocaram olhares significativos comigo. O nome do meu filho parecia carregar um peso diferente.

— Seth Clearwater — disse Carlisle, observando-me atentamente. — Ele faz questão de usar o sobrenome da mãe.

— Eu entendo os motivos dele — respondi, com um leve suspiro, tentando não deixar a culpa me dominar.

— Seth é... preguiçoso, para ser honesto — disse Edward, olhando-me com uma expressão mista de seriedade e brincadeira.

Eu franzi o cenho.

— Sei que tenho culpa nisso. — Admitir isso me deixou com um gosto amargo na boca. Eu sempre soube que falhei como pai em muitos aspectos, e a ideia de Seth estar com um desempenho abaixo do que poderia alcançar não era novidade para mim.

Edward, tentando suavizar o ambiente, pegou outra ficha, e dessa vez sorriu de maneira enigmática.

— Renesmee Cullen.

Levantei a cabeça, encarando Edward. Um sorriso se formou nos meus lábios.

— A herdeira.

Carlisle também sorriu, cheio de orgulho.

— Minha neta foi a número um na turma. As melhores notas, sempre comprometida.

— Uma verdadeira CDF — brinquei, me esforçando para manter o tom leve.

Edward riu, assentindo.

— Você está certo sobre isso. Ela é extremamente dedicada, e é por isso que, se você aceitasse Seth como seu pupilo, eu ficaria muito feliz em saber que Renesmee seria sua também. Ela aprenderia muito com você, Jake.

Eu fiquei em silêncio por um momento, considerando as palavras de Edward. Olhei para a ficha de Seth novamente, sabendo que, por mais que eu quisesse ajudá-lo, nosso relacionamento era complicado demais para misturar trabalho e vida pessoal.

— Tudo bem — disse, finalmente. — Aceito a herdeira Cullen como minha pupila. Acho que Seth confundiria as coisas se fosse o meu.

Edward assentiu, satisfeito.

— Ele definitivamente confundiria — admitiu, sem rodeios. — Mas você conhece seu filho melhor do que qualquer um. Renesmee vai se sair bem com você.

Eu ainda não podia acreditar que a herdeira Cullen seria minha pupila.

— Eu conheci a sua filha quando ela era só uma criança — comentei, casualmente, olhando para Edward. — Lembro-me de como ela costumava brincar com Seth. Ela sempre o vencia em tudo. Ele ficava uma fera.

Carlisle riu e balançou a cabeça.

— Aquela criança cresceu, Jacob. Agora ela é uma jovem mulher e, sem dúvida, uma das mais talentosas que já passaram por aqui.

Antes que eu pudesse responder, o celular de Edward tocou. Ele tirou o aparelho do bolso e atendeu, uma expressão de diversão surgindo em seu rosto enquanto olhava para mim.

— Sim, ele está bem na minha frente — disse Edward, enquanto colocava o telefone no viva-voz.

A voz de Bella ecoou pela sala, alegre e animada.

Jake! Estou preparando um jantar de boas-vindas para o meu melhor amigo.

Eu sorri, aproveitando a oportunidade para me divertir.

— Ah, é? Espero que ele compareça. Parece que está muito ocupado ultimamente.

Carlisle e Edward riram enquanto Bella suspirava do outro lado da linha.

— Palhaço — disse ela. — Eu estou falando de você, idiota. E você vai, sim, ou eu vou até o hospital te buscar!

Eu ri alto, balançando a cabeça.

— Tá bom, tá bom. Vou sim. Não quero te ver chorando de novo. Só não faça nada na frente do Edward, por favor. Ele não pode desconfiar da gente.

Edward levantou uma sobrancelha enquanto Carlisle tentava não rir alto. Bella suspirou do outro lado.

Ah, Jake, você nunca muda. Mas tudo bem, vejo você mais tarde. E se não vier, vou saber onde te encontrar!

— Não se preocupe, Bella. Eu não perderia isso por nada. — Respondi, piscando para Edward, que observava a interação com um sorriso.

Edward encerrou a ligação, balançando a cabeça com uma expressão divertida.

— Vocês dois nunca perdem a chance de brincar, né?

— É o que mantém a amizade interessante — respondi com um sorriso.

— Vamos — disse Edward, olhando para o relógio. — Temos que ir para a sala dos médicos.

Eu assenti, acompanhando os dois pelos corredores do hospital. Enquanto caminhávamos, o pensamento de como seria trabalhar novamente naquele hospital e não imaginava a armadilha que o destino havia me reservado.

Ao chegarmos na sala dos médicos, Edward foi o primeiro a seguir em frente, mas antes que eu pudesse entrar, senti uma mão no meu ombro. Me virei e dei de cara com Elizabeth Cullen, irmã de Edward. Ela sorriu para mim, mas havia algo de malicioso em seu olhar.

— Jake, quanto tempo — disse ela, e eu a cumprimentei com um sorriso.

— Liza, faz anos. Como você está? — Perguntei, lembrando vagamente da última vez que a vi. Edward aproveitou o momento para nos deixar a sós.

— Eu te espero lá dentro — disse ele, com um aceno de cabeça. — Vou preparar os residentes.

Assenti, mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Elizabeth, ou melhor, Liza, estalou um tapa no meu rosto tão forte que me fez cambalear um passo para trás.

— Você é um grande cafajeste, Jacob Black! — ela disse, furiosa, enquanto eu a olhava surpreso, ainda sentindo o ardor em meu rosto. — Passou uma noite comigo, depois sumiu no dia seguinte e só agora, quinze anos depois, aparece? Como se nada tivesse acontecido?!

— Espera aí... isso foi há quinze anos, Liza. Eu nem lembrava mais disso — respondi, confuso. Não que eu estivesse negando, mas, honestamente, aquilo estava tão longe na minha memória que parecia outra vida.

— Pois é, eu lembro! — Ela bufou, os olhos brilhando de raiva. — Você é um cretino, Jacob. Não mudou nada.

Ela me lançou um último olhar de desprezo antes de sair dali batendo os saltos no chão. Eu suspirei, esfregando o rosto onde o tapa ainda ardia, e balancei a cabeça. Esse reencontro não poderia ter sido mais desastroso.

— Que merda — murmurei para mim mesmo antes de entrar na sala.

Assim que entrei, ouvi a voz de Edward, que já estava apresentando os novos residentes. Ele se voltou para mim, anunciando minha chegada.

— Estou muito feliz em apresentar nosso mais novo chefe de residência médica. Ele é um dos melhores cirurgiões do país e do mundo e meu grande amigo pessoal— Edward sorriu, acenando para mim entrar.

Mas naquele momento, tudo ao meu redor ficou em segundo plano. Meus olhos encontraram os olhos de uma das residentes. Os mesmos olhos que me encararam na noite anterior. A mesma ruiva com quem eu havia passado a noite.

Meu coração disparou. Puta merda, sussurrei para mim mesmo. Não podia ser. A herdeira Cullen, Renesmee, era Nessie. A garota com quem eu dormi ontem.

Ela me olhou com os mesmos olhos arregalados de surpresa, mas rapidamente desviou o olhar, tentando manter a compostura. Por dentro, eu só conseguia pensar que o destino estava fazendo uma grande sacanagem comigo.