Pais por acaso

7 Jacob- Familia


Duas coisas eram absolutamente certas na minha vida naquele momento: Renesmee era Nessie, a filha dos meus melhores amigos, ex do meu filho, neta do meu chefe, e agora, para completar o caos, minha pupila no hospital. Se eu achava que as coisas estavam complicadas antes, agora elas haviam atingido um novo nível de complexidade.

Eu e Nessie havíamos conversado logo após a nossa "descoberta" desconcertante. Pelo menos, ela tinha maturidade. Decidimos que esqueceríamos a noite anterior e manteríamos o profissionalismo. Não tínhamos outra escolha, e a última coisa que eu queria era transformar isso em um problema maior.

Caminhávamos lado a lado pelos corredores do hospital. Nessie segurava uma prancheta com firmeza, explicando o caso do paciente que estávamos prestes a visitar.

— O nome dele é Alex Turner, 19 anos. Ele sofreu um acidente de carro na noite passada e foi submetido a uma cirurgia de emergência por conta de uma hemorragia interna no abdômen. Houve laceração no fígado e danos moderados ao baço, que foi parcialmente removido — ela dizia com a voz firme e profissional, sem nem um traço da confusão que rondava nossa situação pessoal. — A equipe de cirurgia conseguiu estancar o sangramento, mas ainda estamos monitorando a função hepática e os sinais vitais. O risco de complicações nas próximas 48 horas é elevado.

Assenti, absorvendo as informações que ela transmitia. Nessie sabia do que estava falando, e era evidente que estava mais do que preparada para lidar com casos assim. Eu já sabia que ela tinha sido a número um na sua turma, mas vê-la em ação era diferente.

Entramos no quarto do paciente. Alex estava sedado, ainda conectado a vários aparelhos que monitoravam seus sinais vitais. O som suave dos monitores preenchia o ambiente, e eu percebi o olhar atento de Nessie enquanto avaliava o estado do paciente.

— Ele vai precisar de um acompanhamento contínuo nas próximas horas — comecei, mantendo meu tom profissional. — Além da observação pós-operatória padrão, certifique-se de que está monitorando qualquer sinal de infecção. Hemoculturas devem ser feitas se houver febre, e mantenha contato próximo com a equipe de enfermagem. Ele também pode apresentar complicações respiratórias por conta do trauma, então fique de olho em qualquer mudança na saturação de oxigênio.

Nessie assentiu, tomando nota mentalmente de tudo que eu estava dizendo, mas então, nossos olhares se encontraram. Eu vi o momento de hesitação nos olhos dela, algo que refletia a confusão que eu também sentia. Desviei o olhar rapidamente, tentando evitar o clima estranho que começava a se formar.

— Você será responsável pelo acompanhamento deste paciente — disse, tentando voltar ao foco. — Relate diretamente a mim qualquer mudança no estado dele.

— Claro, Dr. Black — ela respondeu, usando um tom mais formal do que eu esperava.

Eu me virei rapidamente e saí do quarto, andando pelos corredores com passos firmes. Minha cabeça estava uma confusão, mas eu não podia deixar que isso afetasse meu trabalho. Meus pensamentos estavam uma bagunça, e, enquanto caminhava em direção à minha sala, só conseguia pensar em como o destino realmente sabia como complicar as coisas.

Entrei na minha sala e soltei um longo suspiro, jogando-me na cadeira. Mesmo com o clima estranho que se formou entre mim e Renesmee, não pude evitar rir da minha própria situação. Como eu havia me metido nisso? Algo que deveria ter sido casual se tornou absurdamente complicado.

Liguei o notebook e comecei a revisar a lista de pacientes que o Edward havia me passado. No entanto, antes que pudesse me concentrar de verdade, a porta da sala se abriu abruptamente, e Seth entrou sem bater.

— Bom ver você, pai — ele disse com um sorriso, mas havia algo de amargo em seu tom.

Levantei os olhos da tela do computador e o encarei por um momento, tentando medir o clima.

— É bom ver você também, Seth — respondi, voltando a encarar o monitor. — Precisa de alguma coisa?

Seth se aproximou da mesa, sua expressão se endurecendo enquanto me observava.

— Só queria saber se você pretende me ignorar enquanto trabalha no hospital, como fez na sala dos médicos — disse ele, sem rodeios.

Soltei um suspiro mais profundo desta vez, tentando manter a calma. Eu sabia que esse tipo de conversa viria eventualmente, mas não esperava que fosse tão cedo.

— Seth, ali é o ambiente de trabalho. Eu sou seu chefe, não seu pai.

— Você nunca foi meu pai — ele disparou, rindo sem humor. — Vamos ser honestos aqui.

— Seth... — comecei, mas ele me interrompeu antes que eu pudesse continuar.

— Não, eu não quero ouvir desculpas — disse ele, a frustração evidente. — Eu só... esperava que você, pelo menos, tivesse a decência de me avisar que estava voltando. Não só isso, você teve a chance de me escolher como seu pupilo, mas não. Nem isso. É como se... como se você me odiasse. E eu sei que eu não tenho culpa dos erros da minha mãe, então por que você age assim comigo?

As palavras dele me atingiram como um soco no estômago. Eu fiquei sem fala por um momento, processando o que ele havia dito. Antes que eu pudesse reagir, ele abriu a porta com força e saiu, claramente magoado.

— Seth! — chamei, levantando da cadeira, mas ele me ignorou completamente.

Sentei-me novamente e passei as mãos pelo rosto, sentindo o peso da situação desmoronar sobre mim. Eu sabia, desde o momento que decidi assumir a paternidade de Seth, que isso seria difícil. Mas agora, vendo a dor nos olhos dele, eu não podia evitar pensar que talvez eu tivesse cometido um erro colossal.

Por mais que tentasse, eu nunca consegui separar a imagem de Seth da de sua mãe... e as coisas que aconteceram no passado continuavam me assombrando. Eu sabia que precisava lidar com isso. Mas como?

Era fim de turno, e eu estava cansado, mas ainda tinha algo a resolver. Reuni todos os residentes na sala dos médicos, esperando que essa nova rotina de final de expediente fosse bem recebida. Os rostos jovens, cheios de expectativas e cansaço, me observavam em silêncio enquanto eu me colocava no centro da sala.

— A partir de hoje, todo final de expediente, vocês vão me entregar as fichas dos pacientes atendidos e o relatório do dia. Quero tudo documentado de forma detalhada — eu disse, firme. Eles assentiram em silêncio, claramente cientes de que esse seria um trabalho diário.

Meus olhos vagaram pela sala, até encontrarem Renesmee, ou melhor, Nessie. Ela imediatamente desviou o olhar, criando aquele clima estranho de novo. Suspirei internamente e voltei minha atenção para o grupo.

— Todos estão dispensados, menos o Clearwater.

Os residentes começaram a se levantar, saindo em silêncio. Antes de sair, Nessie olhou para mim uma última vez, e por um momento, nossos olhares se cruzaram. Ela parecia indecisa, mas logo fechou a porta e desapareceu no corredor.

Seth permaneceu de pé, em silêncio, suas mãos enfiadas nos bolsos do jaleco. Ele parecia tenso, como se esperasse algum tipo de reprimenda.

— Cometi algum erro, doutor Black? — perguntou ele, com uma voz mais controlada do que esperava.

Balancei a cabeça lentamente, cruzando os braços.

— Não, Seth. Não é nada disso. Mas precisamos conversar.

A expressão dele se fechou ainda mais. Seth tinha o hábito de guardar as coisas para si, como eu costumava fazer na sua idade. Ele parecia estar se preparando para uma discussão, mas eu não queria que fosse desse jeito.

— Não vamos fazer isso aqui, no hospital — acrescentei, observando sua reação. — Eu vou almoçar com você e a Leah no fim de semana. Aí conversamos com calma.

Seth assentiu, sem muito entusiasmo, mas pelo menos concordou.

— Tudo bem — ele disse, a voz baixa, antes de se virar e sair da sala.

Fiquei ali por um momento, sozinho, o silêncio da sala me envolvendo. Tinha tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo: o hospital, os residentes, minha relação com Seth, e, claro, Renesmee. Passei a mão pelo rosto, cansado, sabendo que esse almoço com Seth e Leah no final de semana poderia ser a oportunidade que eu precisava para acertar as coisas. Só esperava que não fosse tarde demais.