Pais por acaso
78 Jacob - Interdição
Notas iniciais
A porta se abriu devagar, e os saltos de Elizabeth ecoaram pelo mármore da mansão como se anunciassem um espetáculo… e de certo modo, era isso mesmo. Ela entrou como se nada estivesse errado — com aquele mesmo andar elegante, quase teatral, que sempre carregou. Vestia um blazer claro, os cabelos perfeitamente alinhados e o mesmo sorriso sarcástico de sempre nos lábios.
— Que estranho... toda a família reunida numa sexta à tarde? — Ela comentou, largando a bolsa com descaso sobre a mesa de centro. Seu olhar logo encontrou o meu. — E você, Jacob… está tão bonito. Quem diria? Um pai de terceira viagem com esse porte todo ainda em dia.
Senti o sangue ferver, mas não respondi. Apenas encarei.
— Sua víbora! — Bella explodiu, já se levantando, mas Edward foi mais rápido e segurou sua cintura, impedindo que ela avançasse.
— Bella, não — ele sussurrou.
— Ah, por favor, Bella… — Elizabeth continuou, com ironia venenosa. — Se você me odeia tanto assim, por que ainda mora aqui? Compra uma casa, some da minha vista.
Carlisle se levantou, a voz firme.
— Elizabeth, pare com isso agora. Nós sabemos o que você fez. A foto do Jacob e da Olivia. A mensagem. A funcionária do hospital já confessou. Foi você quem pagou por tudo.
O sorriso no rosto dela sumiu por um segundo… mas então voltou, mais debochado ainda.
— Eu só quis abrir os olhos da nossa querida princesa — disse, passando o dedo pela borda da xícara vazia sobre a mesa. — Jacob Black nunca vai mudar. Só achei que alguém precisava lembrá-la disso antes que fosse tarde demais.
Bella arfou, os olhos brilhando de raiva.
— Você a persegue. Minha filha! Desde que era uma criança. Me diz por quê, Elizabeth. Me diz o que a Renesmee te fez.
Elizabeth revirou os olhos e se voltou para Edward.
— Vai controlar a sua esposa ou quer que eu faça isso por você?
— Chega! — Esme interveio, com a voz carregada de tristeza. — Elizabeth, minha filha… isso não é normal. Não é saudável. Você precisa de ajuda, querida. Nós queremos ajudar você.
Elizabeth virou-se como se tivesse sido esbofeteada. A dor em seu rosto foi real por um instante… antes de ser encoberta novamente por fúria.
— Você está contra mim? Depois de tudo? Depois do que Jacob fez comigo? Eu tinha 19 anos, mãe! Ele me iludiu, me fez acreditar que... que talvez...
Suspirei. O peso das palavras dela caiu como pedra sobre mim.
— Se é disso que você precisa… então eu te peço perdão, Elizabeth.
Ela se calou, surpresa.
— Eu fui egoísta. Jovem, inconsequente. E você tem razão. Eu não deveria ter brincado com seus sentimentos naquela época. Eu sinto muito. Sinto mesmo.
Elizabeth engoliu em seco, mas logo o veneno voltou aos olhos dela.
— E por que com a Renesmee é diferente, hein? O que ela tem que eu não tinha?
Bella avançou de novo, mas Edward e Emmett a seguraram desta vez.
— Não é sobre isso — respondi, com a voz firme, mas serena. — Renesmee não é um capricho, nem um erro do passado. Ela é… tudo pra mim. Eu a amo. E tudo que estou tentando fazer é consertar o que eu fui… por ela, por nossos filhos.
Carlisle se levantou e discou no celular.
— Elizabeth, nós vamos ajudar você. Seja como for.
Ela recuou um passo, alarmada.
— O que você tá fazendo?
— Uma chamada de emergência — disse ele. — Você não está bem. E eu não vou permitir que machuque mais ninguém. Nem a si mesma.
Elizabeth foi até a mesa para pegar a bolsa, mas dois seguranças surgiram na entrada. Ela congelou.
— O que é isso? — Perguntou, com a voz subindo uma oitava.
Esme, com lágrimas nos olhos, caminhou até ela e disse com doçura:
— É pro seu bem, minha filha.
— Vocês estão me trancando? Como se eu fosse louca? EU NÃO ESTOU LOUCA!
Alice desviou o olhar, e Rosalie balançou a cabeça, cruzando os braços.
— Você está obcecada, Elizabeth. E precisa aceitar isso.
A irmã mais nova dos Cullen gritou, se debatendo, enquanto os seguranças se aproximavam devagar, sem violência, mas com firmeza. O teatro acabou. A verdade, enfim, tinha vencido a encenação.
E eu… só consegui fechar os olhos por um segundo. Porque apesar de tudo… ela era família. E eu odiava ter chegado a esse ponto.
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Elizabeth gritou até o último segundo, mas ninguém respondeu com gritos. Não mais. Apenas o silêncio compassivo de Esme, o olhar firme de Carlisle e a presença imponente de Emmett, Rosalie e Jasper a acompanharam pela escada acima. Vi os olhos de Esme brilharem quando ela tocou no braço da filha, como se ainda houvesse ali uma esperança de redenção. Talvez haja… pensei. Talvez.
Fiquei ali, parado, como se o peso da sala inteira tivesse caído sobre meus ombros. Alice se aproximou de Bella, que ainda respirava pesado, sentou-se ao lado dela e passou a mão com cuidado pelos cabelos da cunhada.
— Calma… acabou, Bella. Ela foi embora por agora, você está segura.
Bella assentiu, mas continuava tremendo. Edward deu um passo à frente, me entregando um copo com um líquido âmbar. Whisky. Forte o bastante para silenciar o mundo por alguns segundos. Aceitei.
— Bebe — ele disse, baixo. — Você precisa.
Levei o copo à boca e senti o álcool descer queimando a garganta. Por um momento, fechei os olhos. A pressão nas têmporas parecia aliviar.
— Não era assim que eu queria que terminasse — confessei, encarando o fundo do copo. — Elizabeth... ela foi uma menina que eu feri. E por mais que tenha feito tudo o que fez... eu torço pra que ela encontre paz. Que se cure desse... sentimento doentio que carrega por mim.
Alice me encarou com o olhar sensível que só ela sabia oferecer. Como se pudesse enxergar além do agora.
— E o Joseph? — ela perguntou em voz baixa. — Vai contar a ele?
Suspirei.
— Vou. Ele tem o direito de saber. É maduro, já passou por tanta coisa... mas não quero que Renesmee saiba. Nenhuma palavra.
— Concordo — disse Alice. — Depois do que ela passou com a síndrome, os dias internada, e agora o puerpério... ela está sensível, instável. Ela não aguentaria mais essa carga.
Bella assentiu, finalmente parecendo se acalmar ao lado de Alice.
— Ela mal tem conseguido dormir, Jacob. Tem surtos de choro, se culpa por tudo, mesmo sem razão... — a voz dela embargou. — Minha filha não pode lidar com mais essa dor.
— E não vai — garanti, levantando os olhos para todos. — Não enquanto eu puder protegê-la disso. Ela é minha mulher. A mãe da minha filha. E ninguém… ninguém vai encostar nela de novo.
Edward se levantou e me ofereceu a mão. Apertei forte. Havia respeito naquele gesto. E também aliança. Pela primeira vez, estávamos todos do mesmo lado.
— Ela vai ficar bem, Jake — disse ele, com convicção. — Porque ela tem você.
Assenti. Mas por dentro... sabia que a estrada ainda seria longa. E, por ela, eu caminharia até o fim.
Ao entrar em casa, o som de tiros e explosões digitais preencheu o ambiente antes mesmo que eu fechasse a porta. A luz da TV piscava no ritmo frenético de uma batalha virtual, e ali estava ele, jogado no sofá, controle na mão, expressão séria como se estivesse defendendo o universo inteiro.
— Josh... — Chamei, com um sorriso. — Ainda dominando mundos?
— Pai! — Ele respondeu sem tirar os olhos da tela, os dedos se movendo rápido. — Seth teve que ir, compromisso com a família da Jane. Mas tá tudo bem por aqui.
— E sua madrasta? — Perguntei, apoiando as chaves na mesinha e tirando o casaco.
— No quarto com a Serena. As duas dormiram há um tempinho. Eu escutei o silêncio e resolvi respeitar, sabe?
— Bom garoto — sorri, passando por trás do sofá e bagunçando os cabelos dele. — Vou ver como elas estão.
Fui até o quarto. A porta entreaberta me deu visão suficiente pra derreter qualquer tensão do dia. Nessie, deitada de lado, os cabelos bagunçados sobre o travesseiro, e nossa pequena Serena aninhada em seu seio. As duas respirando em perfeita harmonia, como se o mundo lá fora não existisse.
Aquela visão... era tudo o que eu precisava pra lembrar o porquê de tanta luta. Deixei um beijo silencioso no ar e me retirei, fechando a porta com o máximo de cuidado. Voltei pra sala e me joguei no sofá ao lado de Joseph, que continuava concentrado no jogo.
— Isso aí tá parecendo fácil demais. Aposto que eu ganho de você com uma mão só — provoquei, pegando o controle reserva.
— Tá se achando porque virou pai de terceira viagem? — ele riu, finalmente desviando o olhar da tela. — Mas... pai, fala sério. Você voltou com essa cara de quem precisa conversar.
Fiquei em silêncio por um segundo, encarando o filho que a vida me deu. Ele cresceu tão rápido...
— Preciso te contar algo. E é só entre a gente, tá?
Joseph pausou o jogo.
— Tô ouvindo.
— A Elizabeth… — respirei fundo — Ela foi internada. Hoje. Após... um episódio.
Ele não pareceu surpreso. Apenas deixou o controle no colo e me olhou, sério.
— Ela... é minha mãe biológica, eu sei. Mas nunca senti que ela me amava de verdade, sabe? Quando a gente se encontrava, ela só queria saber da Nessie. Perguntava tudo sobre ela, como ela estava, com que falava, quem eram os amigos... Sempre foi sobre a Nessie. Eu? Eu era um pretexto. Um informante. Foi por isso que a gente se afastou.
As palavras me atingiram como socos abafados.
— Eu sinto muito por isso, filho. Você não merecia... nunca. Mas eu admiro você, Josh. Sua maturidade. Seu coração. Você é melhor do que muita gente por aí.
Ele deu um meio sorriso.
— Eu não odeio ela. Só espero que ela fique bem. Se ela se curar... talvez a gente possa até ser amigos um dia. Só isso.
— E é exatamente por isso que eu tenho tanto orgulho de você — falei, bagunçando de novo o cabelo dele, agora com mais carinho. — Mas isso fica só entre a gente. A Renesmee não pode saber, ok?
Ele assentiu com firmeza.
— Segredo de família.
— Isso aí. Agora... — estiquei o braço e peguei o controle — Me passa essa partida. Vamos ver se você ainda joga melhor que seu velho.
— Hah! Você vai comer poeira, pai.
E por alguns instantes... rimos. Apenas pai e filho. Ali, naquele sofá, esquecendo o peso do mundo por alguns segundos.
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