Painting Love
6 Parte 6 - Em que há frustrações
Notas iniciais
Parte 6 – Em que há frustrações
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Existia pessoa mais frustrante do que Sasori? O que diabos eu estava esperando mesmo, ele mudar alguma coisa depois do que havia acontecido? Ele tem a mais incrível capacidade agir como se nada houvesse acontecido, o que me deixava com o ímpeto de puxar o cabelo e rodar em círculos de novo. Aquela aula foi tão igual às outras que comecei a ficar seriamente preocupado. O que era irônico, pois eu não sabia explicar o que estava acontecendo, mas queria que continuasse acontecendo.
Pelo menos ele não ficou observando o que eu desenhava daquela vez. Sorte minha, pois fiquei fazendo florezinhas idiotas e tortas pelo quadro inteiro. Se eu era ruim fazendo margaridas, imagina rosas. Sorte que minha mãe não iria pintar lá em casa, senão ficaria feio o suficiente para me fazer querer mudar de novo.
Demorei a sacar que a aula havia acabado, até ele aparecer atrás de mim com minha mochila.
— Que horror. Menos 1 ponto. – ele fez uma expressão de desagrado ao ver o que eu havia feito.
— Tá, eu não fiz o que era pra fazer, mas desenhei mesmo assim.
— Horrivelmente. – fiquei tentado a rosnar pra ele como um animal. – Siga todas as minhas orientações e talvez possa sobreviver ao semestre. – ele deu um sorrisinho que me fez ver que agora ele brincava comigo.
Droga, as coisas estavam invertendo ali. Agora era Sasori que me provocava, agia como nada houvesse acontecido e me deixava confuso.
Fomos andando sem muito papo novamente, indo para minha casa. Percebi que sua mochila chacoalhava, acho que deveria haver muita coisa lá para pintar uma parede. Mas minha mãe nos recebeu com seus tamancos e com uma toalha na cabeça, toda animada e com um cheesecake. Meus olhos se arregalaram, mas foi para a torta. Aquela era uma receita que minha mãe definitivamente não corria nenhum risco de acertar. Sempre parecia uma torta com gosto de queijo muito forte, misturado com a calda de morango e embrulhava o estômago. Mesmo que tivesse uma aparência linda eu não pude evitar de ficar verde ao olhá-lo. Minha última experiência com aquilo me deixou no banheiro por 2 horas.
— Hum, mãe. – chamei-a.
— Tudo bem, Satori? Como Deidara anda nas aulas? Espero que não tenha causado problemas, ele é ótimo em se meter em confusões. – Sasori apenas observava com aquele sorrisinho irritante.
— Mãe.
— Sim, Dei-Dei? – ela virou rápido, fazendo a toalha em sua cabeça cambalear.
— Eh, quer servir a torta? – sugeri.
— Ah, sim, claro! – ela foi sapateando para a cozinha.
— Não coma. – avisei, sério.
— Porque? As panquecas...
— Aquilo foi um abuso da sorte. Não conte com ela agora. O cheesecake dela fica monstruoso. – joguei minha mochila sobre a cômoda da entrada, mas ele não me deixou pegar a dele.
— Aqui tem coisas que utilizarei. – disse simplesmente. Os saltos nos avisaram da proximidade da minha mãe, carregando dois pratos com fatias da torta.
— É a preferida do Dei-Dei. – ela piscou para mim. Com assim, ela sabia bem que eu passara mal depois da última torta, não entendi nada.
Fomos para a sala, nos sentando no sofá. Fiquei encarando a torta com medo. Sasori apenas deu de ombros, dando uma garfada. Ele arqueou as sobrancelhas, pegando outra garfada, essa maior. Estranhei sua reação, principalmente a da minha mãe, observando-nos com tanta atenção e expectativa. Quando comi um pedaço adivinhei tudo. Ela comprara fora. Só aquilo explicava o gosto tão bom. Minha mãe, minha cara e desastrada mãe nunca conseguira alcançar aquele nível de maestria na cozinha. Semicerrei os olhos, julgando-a. Ela apenas deu uma risadinha.
— Está ótima. – Sasori falou, gentil.
— Obrigada, Satori. – como se ela houvesse feito-a mesmo, tsc.
Logo fomos deixados sozinhos, enquanto ela ia secar o cabelo. Disse que o dia no salão fora uma loucura, que ela havia testado toda as cores de cabelo possíveis. Acho que ela animara demais com aquela ideia de pintar a casa.
Sasori retirou uma pequena câmera, tirando fotos das paredes brancas. Fiquei observando-o, comendo um terceiro pedaço da torta. Eu tinha que aproveitar as coisas boas, mesmo que raras, óbvio. Ele entrou no modo de concentração de quando ia pintar quadros, ficando sério e analisando cada aspecto, inclusive os móveis. Testando combinações, provavelmente. Estava fascinante observá-lo quando percebi uma coisa reluzente na entrada da sala. Minha mãe havia deixado seu cabelo branco, o que me assustou. Éramos loiros, mas algo meio termo entre amarelo claro e castanho claro, meio longe daquele tom branco. O garfo quase caiu da minha mão.
— Oh, eu vou pintar de ruivo ainda. – ela falou, animada. – Acho que empolguei com cores. – pareceu tímida com a minha cara.
— Muitas mudanças. – apontei tudo ao meu redor.
— Mudanças são boas. – Sasori sorriu para ela. Ele era incrivelmente gentil com minha mãe, era chocante ver. Quem era você e o que fez com o verdadeiro e carrancudo Sasori?
— Mas eu estava pensando em um ruivo alaranjado. Não que os avermelhados sejam feios, o seu cabelo é lindo Satori. – houve uma cor nas bochechas dele e ela deu apenas uma risada. – Sempre me imaginei com outras cores, toda nossa família é loira, loiro é enfadonho. – ela saiu sapateando sabe-se deus para onde.
— Hey. Respeite o loiro. – disse, tarde demais.
Satori, digo Sasori, droga, já estava pegando a mania de errar nomes da minha mãe? Enfim, Sasori voltou a pensar sobre as paredes.
— Quanta intensidade, uh. – provoquei. Ele apenas mexeu na câmera, parecendo sem graça. – Mas estou confiando que vai dar certo. – e eu estava mesmo. Ele agia sério demais para fazer merda na minha casa. E eu o enforcaria se tentasse.
— Posso fotografar os, hum, outros lugares que queiram pintar? – perguntou.
— Okay. – me levantei, guiando-o pelo corredor.
Minha mãe havia coincidentemente sumido, mas o barulho de secador no banheiro me indicou que ela tentaria escovar o cabelo. Ela era péssima nisso, só mesmo minha tia para emprega-la no seu salão. Pensei se ela havia dito algo sobre pintura no quarto dela, mas o levei para lá mesmo assim. A cama estava bagunçada, mas o guarda roupa dela vivia impecável, assombroso.
Sasori entrou de forma contida, analisando bem tudo. Tirou fotos cuidadosas. Minha mãe xingou dentro do banheiro, sendo ouvida sobre o barulho do secador. Minha cara e desastrada mãe. Suspirei.
Não havia muitos cômodos na casa, mas ainda relutei um pouco em leva-lo para meu quarto, afinal, era meu quarto. Eu ainda nem terminara de arrumar minhas coisas, pura preguiça e relapso, mas enquanto minha mãe não percebesse e reclamasse, eu não faria muita coisa. Parecia uma leve rebeldia contra o fato de termos mudado, eu enrolava bastante para finalmente me alojar no meu novo quarto. Uma vez demorei quase seis meses. E quando finalmente terminei tudo, minha mãe correu para me avisar de que fugia de um novo namorado, fugia da seriedade a qual o relacionamento caminhava, e iriamos nos mudar de novo. Era uma vida cheia de frustrações. A necessidade de me fixar em um canto, me sentir seguro em um lugar, era gritante. Mas eu ainda demorava para aceitar me fixar naquele quarto. Sempre parecia que ele iria me escapar.
Enquanto Sasori observava meu quarto, me sentei na cama, apoiando o queixo no punho, pensativo. De certa forma eu poderia transpor aquilo para a atual relação com Sasori. Eu relutava em pensar muito sobre a amizade torta e estranha que formávamos, relutava em pensar sobre cada ponto, mas ainda ansiava por ela. E era difícil sentir alguma segurança ali, principalmente com Sasori indo e voltando com tanta inconstância. Eu estava cansado de inconstância.
Percebi que ele ainda não tirara nenhuma foto, vendo meus livros empilhados de qualquer jeito sobre a estante e no chão. Minha mãe tinha a ideia fixa de que, se me desse livros, eu poderia me tornar superinteligente. Mas ela não distinguia muito os gêneros, de modo que eu tinha desde erótico feminino, meio vergonhoso, até livros de sociologia. Mas o interesse de Sasori parecia inofensivo, ele não falou nada sobre a coleção diversa e curiosa.
— Meu quarto vai dar trabalho. – limpei a garganta, despertando-o.
— Coleção diversificada. – comentou.
Mas eu não falei nada. Era um dia bem silencioso de nossa parte. Eu, relembrando quando ele esteve ali antes, como foi a despedida. Sasori pensando diabos saberá o que, tirando fotos de forma lenta. Quando um flash caiu sobre mim me assustei. Mas Sasori olhava para um ponto atrás de mim. Droga, eu saíra na foto, provavelmente deveria ter ficado fora do alcance da câmera. Mas ele não reclamou, tirando uma última foto da estante. Ele engoliu em seco e eu fiquei sem graça.
Caminhou até sentar do meu lado, olhando as fotos que tirara, forçando uma concentração que percebi ser falsa. Liguei toda minha percepção nele, analisando-o como estivera analisando todo o ambiente da casa. Ele se demorava em alguma fotos. Tomei a câmera dele num impulso, ele nem pode resistir. Sasori nunca tinha uma chance contra mim.
Tinha parado bem na foto que tirara do meu lado, eu saíra pensativo e sério, quase tão carrancudo quanto ele. A convivência fazia cada coisa. Mas não tinha nada muito interessante na foto além disso. Houve um momento constrangedor bem grave, enquanto ficávamos vermelhos e olhávamos para qualquer canto bem longe um do outro. Ele me frustrava bastante mesmo. Aceitava minha aproximação, mas depois permanecia distante. Às vezes se aproximava e, antes que eu pudesse fazer algo, se afastava. Então, mesmo eu querendo enfiar a cara no chão, peguei sua mão novamente. Ele deixou. Ele sempre deixava.
Entrelaçamos os dedos na privacidade do meu quarto, ainda ouvindo o som distante do secador, o que agradeci. Dessa vez houve um pouco mais de experiência naquilo, e tive vontade de rir ao pensar em como pegar na mão de alguém poderia ter diferentes significados. Em como olhar para alguém poderia ter tantos significados. Desviei o olhar do aperto para seu rosto. Ele já o fizera antes de mim. Sasori e suas surpresas. Eu podia sentir o lado racional me deixando, me instigando a quebrar a distância. Mas aí o barulho de tamancos e ausência de secador me fez nos separar com mais frustração. De novo. Para variar.
— Satori, consegue salvar nossa pobre casa? – minha mãe apareceu na entrada, com uma expressão de desalento.
— Claro. – ele limpou a garganta. — Mas ela não está estragada.
— Muita gentileza sua. – ela disse, marota.
Acabamos voltando para a sala e Sasori desajolou sua mochila. Havia moldes de desenhos feitos à mão e inclusive uma amostra de tintas. Pensei se ele ficara tão animado assim com a pintura que fizera aquilo tudo sozinho. Droga, o fato de ele parecer importar me deixava com a ânsia de puxar os cabelos.
Logo, depois de uma leve conversa em que minha mãe deixou tudo nas mãos dele, ela era pior para decoração que eu, Sasori riscava a parede com os moldes. Me levantei, disposto a ajudar, pelo menor riscar moldes eu conseguiria, desenhar à mão livre nunca.
— Não, não, Dei-Dei, venha cá. – minha mãe me chamou, me mandando de volta para o sofá.
— Argh. – resmunguei.
— Não suje a casa toda, não se suje todo e não se machuque. – avisou, enquanto puxava todo o meu cabelo e prendia firme. – Seja um bom garoto. – eu estava quase morrendo ali, quando ouvi o ronco-riso característico. Maldito. – Obrigada novamente, Satori. – ela sorriu calorosa. – Vou na casa da sua prima, talvez ela possa ajudar também.
— Não. – falamos ao mesmo tempo. Ela ficou confusa.
— Ino está namorando. Muito ocupada. E não gosta de pintar. – sabia muito bem o que havia feito.
A mãe de Ino era um saco em relação à ela, jurava que a mesma se casaria virgem e pura aos olhos do Senhor. Isso porque ela não ouviu Sakura delatar Ino dormindo com Shikamaru. Quase sorri malignamente ao pensar na mãe de Ino infernizando-a.
— Oh, Misa precisa saber disso. – Misa era o apelido de Misato, minha tia. – Ela não vai ficar muito feliz. – minha mãe saiu apressada, pronta para fazer uma ajuda para a irmã.
— O que foi isso? – Sasori perguntou.
— Tia Misa quer que Ino seja puritana e inocente em todos os aspectos. – falei, me sentindo feliz pelo malfeito. Ele me olhou com uma expressão que misturava surpresa pelo meu ato e diversão.
Riscamos boa parte da parede e logo anoitecia. Eu podia me sentir ficando nervoso por causa da lembrança de quando ele se despediu antes. Estava ficando problemático. Quando errei um molde, desisti e me sentei. Aquilo o fez parar e começar a organizar suas coisas. Fiquei bem deselegante ali, nem me oferecendo para ajudar, mais interessante observando. A parede poderia ficar boa. Ele usaria tons claros, eu sabia sem nem precisar questionar.
O revival foi forte quando o acompanhei de novo para fora de casa. Inclusive olhei novamente para a casa de Ino, vendo o carro dela estacionado torto como sempre. Sasori pegou sua bicicleta e senti que precisava fazer algo. Tá, menos radical que um beijo. Eu estava levemente desanimado e desencorajado. Mesmo após o acontecido no meu quarto. Mas peguei-o de surpresa, como sempre também.
Abracei Sasori pela primeira vez, que conseguia lembrar. O cheiro leve dele, como se ele não gostasse de tomar banho de perfume, o que agradeci, me relaxou. Seu cabelo espetou meu rosto, mas resisti ao impulso nada a ver de enfiar a cara ali. Ele sempre demorava para reagir, mas não houve rechaço. Eu estava ganhando confiança de que nunca haveria isso. Não quando ele me abraçou de volta, introvertidamente. Lembrei vagamente daqueles bichinhos agarra-agarra que não soltavam seus dedos, eu estava parecido com eles. Mas depois de uns dois minutos, quando considerei o suficiente, deixei ele ir.
Dessa vez ele não correu de mim.
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