Painting Love

5 Parte 5 - Em que há situações estranhas


Notas iniciais
Um capítulo bem especial, ednkndkjendkj Espero que gostem c:

Parte 5 – Em que há situações estranhas

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Quando cheguei naquela sala, tanto tempo já após o almoço, nem liguei de ver a cena imutável. Já estava bem acostumado com aquilo. E mesmo com minha mão parecendo ter espasmos involuntários ainda, arrastei meu banco mais para perto dele. Sasori observou com uma certa curiosidade, mas voltou a pintar quando me sentei. Eu tinha que controlar a mordeção nas bochechas para evitar sorrisos, droga, logo estaria com a boca toda machucada.

— Poderia ir pintar lá em casa hoje, após a aula? Não consigo segurar mais as tintas escondidas de minha mãe. – falei, meio sem graça.

— Hum-hum. – vai saber o que aquilo significava, mas parecia uma afirmativa, sua cara não demonstrando nada.

Eu pensei que seria mais um início de tarde normal, mas quando aquela mulher surgiu na porta, esbaforida, fechei a cara sem nem perceber o que fazia.

— Oh, não estou muito atrasada, não é? – ela foi andando até a mesa, uma das mais bagunçadas, e se esticou na cadeira atrás dela. – Você é quem mesmo, menininha? – olhou para mim, sorrindo. Não sei se minha cara poderia ficar mais feia, mas acho que consegui.

— Eu sou O Deidara. – dei ênfase no “o” e na minha voz não lá feminina. Sorte que já havia passado por esse momento perturbador de transição de voz, nossa, foi uma merda. Eu ria feito uma garotinha, o que não ajudava meu cabelo grande.

— Oh. – ela arregalou os olhos, supresa consigo. – Mais um aluno andrógeno. – não saiu tão baixo quanto ela gostaria.

Olhei para Sasori, mas ele nem ligou para a presença dela. Cutuquei ele com o lápis, forçando-o a prestar atenção em mim.

— Kurenai. – ele disse, simplesmente. – Pelo visto não teve sexo hoje. – ele sussurrou maldosamente. Escapei uma risada e ela nos olhou com curiosidade.

— Bom ver que vocês estão se dando bem. – concordou. – Hum, Sasori, anda tudo bem por aqui? – fingiu estar toda interessada no seu suposto trabalho. Como diabos ela havia sido contratada mesmo?

— Sempre. – naquele momento gostei dele ser um homem de poucas palavras.

— Oh, bom, bom. – logo ela não resistiu, mexendo no celular.

Tentei voltar para meus desenhos, mas eu estava meio irado. Eu estava zangado por ela ter aparecido. Já estava tão acostumado com nossas aulas calmas e com apenas nós dois, ela parecia uma aberração em uma ambiente perfeito. Caralho, eu estava bem zangado, o que parecia fora de proporção. Tá, a professora finalmente havia aparecido, mas tinha que ser hoje? Como continuar a droga da amizade com ela ali? Como diabos... Lembrei de nossas mãos antes e me afundei no banco, tendo todo o tipo de ataque que uma pessoa que não sabe se controlar poderia ter.

Sasori me olhou, perguntando implicitamente se eu estava bem. Será que eu poderia explicar as bochechas coradas pelo exercício físico de vir até o prédio? Mal o olhei e abanei com a mão, indicando estar tudo tranquilo.

Eu não sabia o que era, mas algo engraçado estava acontecendo comigo naquelas semanas. Sim, conversar com Sasori poderia ser impressionantemente bom, principalmente quando engatávamos nos assuntos sem nem nos esforçar. Parecia uma boa química. Mas havia algo mais ali. Algo que começou me deixando interessado demais. Me esforçando demais. Gostando demais. Algo sobre os toques trocados sem querer, e mantidos em comum acordo. E pensar sobre isso estava me deixando mai sem graça.

Continuei de forma mecânica os desenhos. Era mais complicado desenhar o corpo masculino, pelo visto, já que eu deixava os ombros largos demais ou ele ganhava mais quadril do que o esperado. Quando cansei, levei um susto ao ouvir um ronco. Mas Sasori não havia rido e quando olhei para trás, não fiquei indignado.

Kurenai cochilava sobre a mesa de forma pesada e profunda, o celular em uma mão e a cabeça deitada sobre o outro braço. Não percebi o quão perversamente feliz fiquei até que sorri de forma maligna. Fui voltar para meu quadro quando vi Sasori esticado no banco para o meu lado, vendo o que eu estava fazendo. Ele analisou tudo em poucos segundos.

— Tá errado. – declarou.

— Ah, sério? – aquilo já abaixou meu humor novamente.

Mas não demorou muito, logo depois de eu ter apagado o desenho e estar recomeçando, a cabeça dele surgiu do meu lado novamente. Mais uma análise curta da parte dele.

— Refaça os braços.

— Mas eu ainda nem os fiz...

— Me baseando nos que você fez antes, tá fora de proporção. Muito curtos.

Foi a minha vez de me esticar no banco para ver sua pintura. Voltei para o meu canto murcho, difícil criticar aquilo. Ele já havia pintado a maioria das árvores e usara um tom claro para a terra da estrada, pelo menos. Eu teria que passar mais um ano ali, sentado e tentando fazer cadeira parecer cadeira, para chegar perto daquilo. Pelo menos eu tinha minha argila. Ainda desafiaria ele a moldar algo, claro. Meu pequeno momento de glória.

Eu estava tranquilamente riscando daaquela vez, quando Sasori esticou do banco para bisbilhotar o que diabos eu fazia na minha tela, não parti para a violência verbal. Apenas virei a cara para o seu lado, com um certo enfado, esperando a sua análise minuciosa. Mas ele virou o rosto do quadro para me encarar na mesma hora. E nossos rostos ficaram próximos, talvez um pouco demais. Mas ao invés de ser sarcástico ou demoníaco com alguma crítica, ele ficou em silêncio sustentando o olhar. De forma instintiva e estúpida observei sua boca. E nem pensei muito ao diminuir a distância e selar nossos lábios. Foi uma agradável surpresa descobri-los tão macios e quentes.

Durou no máximo três segundos, mas foi no mínimo esquisito. Talvez diferente. Talvez curioso. Isso até Sasori pular e cair do banco. Kurenai puxou um ronco mais forte, acordando de súbito pelo barulho. Nem lembrei de rir, tentar amenizar a situação ou coisa assim, um pouco fascinado pelo ocorrido, encarando a parede branca, ainda tentando juntar o cérebro em uma ordem. O que eu fizera, o que ele fez, as consequências. Mas ele logo levantou e se sentou, voltando a pintar seu quadro como nada houvesse acontecido.

Mas havia uma falha ali, na sua máscara zangada que o deixava parecido com uma figura de ação. Havia um vermelho em suas bochechas que ele não poderia esconder. Diabos, eu nem entendi porque eu fizera aquilo. Caralho. Puta merda. Eu poderia xingar por meia hora por causa do ocorrido, tentando achar uma lógica. Tá, eu fiz aquilo para ele parar de me encher. Claro. Mas não era aquilo.

— Oh, com licença, garotos. – Kurenai se levantou, saindo da sala e lendo algo com voracidade no celular.

— O sexo foi marcado. – Sasori disse, limpando um pouco a garganta, tentando agir de forma normal.

Mas ele não entendia, tudo havia mudado. Eu tive uma ânsia louca de sair correndo em círculos e puxando o cabelo, algo que nem entendi, até lembrar que minha mãe fazia algo parecido quando tentava achar uma solução para algo. Quando ela não conseguia, ela fugia. Era sempre assim. Aquilo me deixou determinado a não fugir, não importava se eu não encontrasse uma solução. Foda-se se as coisas ficavam estranhas, eu não ia sair correndo e matando aula com Shikamaru. E mais importante, não deixaria Sasori fugir também. Algo aqueceu dentro de mim, me deixando mais convicto, quando olhei para ele.

Quando a aula finalmente acabou, fomos pegar nossas coisas de forma cuidadosa e planejada.

— Então, sobre a pintura...

— Vamos lá. – ele disse apenas, passando por mim e parecendo muito normal. Fiquei impaciente com aquilo sem entender.

Mas andamos até minha casa em silêncio, mesmo assim. Tentei pensar em algo para dizer, mas desisti ao ver que seria inútil. Não fomos pelo estacionamento, mandei uma mensagem à Ino, avisando que iria a pé hoje. Ela ficou me enchendo o saco perguntando o porquê até finalmente chegarmos em casa. Ino morava a algumas casas de mim, o que era péssimo, então peguei um caminho mais longo. O carro dela passando por nós seria péssimo. A porca, assim que fizera 16, obrigara a mãe a dar um carro a ele e eu tinha uma inveja branca por aquele método fácil e rápido de locomoção. Só me fez pensar ainda nos longos meses até eu ter idade para tirar carteira. Sim, Ino tinha atrasado na escola, eu adorava encher o saco dela por causa disso no fundamental.

Mas Ino nos ver seria um saco, pois ela possui uma das maiores bocas daquela cidade. E ela ficaria me infernizando pelo celular mais ainda. Por enquanto eu queria manter aquela coisa toda, aquilo difícil de nomear, só entre nós dois. Puramente egoísta, mas compreensível.

Minha mãe sorriu horrores ao nos ver chegar.

— Você é o amiguinho pintor do Dei-Dei? – ela já me deixou constrangido na primeira frase, puta que pariu. Sasori deixou sua bicicleta na garagem não utilizada e parecia acanhado ali, principalmente com a animação da minha mãe. – Eu fiz panquecas de chocolate, acho que ficaram ótimas! – ela foi para a cozinha, tilintando seus tamancos de madeira.

— Não, não ficaram. – já avisei para ele.

— Agora sei de onde você puxou a, hum, animação. – ele me entregou a mochila, enquanto eu colocava junto à minha, perto da entrada.

— É o mal de família. – franzi a testa. – Estou andando muito com você. – relaxei a expressão, rindo. Ele demorou alguns segundos para entender e parecer ofendido.

— Eu não sou ranzinza o tempo todo. – se defendeu.

— Eu sei. – falei com tanta calma que me surpreendi. Só quebramos o fio que ligava nosso olhar quando minha mãe chegou com as famigeradas panquecas.

— O Dei-Dei adora esculpir, é tão bom ele ter um amigo que também curte artes. – ela falou, na melhor das intenções.

— Modelar. – Sasori corrigiu-a, ficando meio sem graça. Droga, aquilo que me aqueceu durante a aula voltou com um pouco mais de força.

— Oh, sim. – deu uma risada, como se desculpasse pelo erro. – Eu estava pensando em fazer algo bem bonito na sala, o que acha? – ela apontou as paredes brancas e logo ele entrou no seu estado crítico e analítico.

Decoração não me interessava muito, então apenas me sentei no sofá de forma relaxada, testando as panquecas. Havia umas partes queimadas, mas tirando aquilo o gosto era tragável. Minha mãe também poderia ter suas vitórias na cozinha, surpreendente. Por sorte ela comprara um pouco de creme de avelã e eu estava comendo sem restrições, retirando as partes queimadas. Melhorava ainda mais o gosto.

— Dei-Dei, seja educado e deixe comida para as visitas. – ela ralhou. Quase cuspi o pedaço de panqueca enquanto Sasori ria-roncava. Minha mãe olhou para ele, se divertindo. – Você possui uma risada espontânea e gostosa de ouvir, Satori. – ela errou o nome dele, para variar.

— É Sasori, mãe. – consegui engolir o suficiente para dizer, vendo ele ficar constrangido.

— Conhecemos bem uma pessoa por sua risada, e pela sua, já sei que você é um bom garoto. – ela deu tapinhas no ombro dele, com sua afetuosidade fora de hora e espalhafatosa. Não deixei de pensar com meus botões o quanto eu também adorava sua risada e o fato de conseguir arranca-las dele. Voltei para as panquecas com muita concentração, oferecendo um pouco para Sasori.

Ela continuou conversando com ele, enquanto o mesmo desfazia as ideias malucas de forma sutil. Sorte que não teríamos mais um Taj Mahal pintado ali na sala, mas suaves padrões geométricos de tons pastéis. Ele era bom em lidar com minha mãe, inicialmente tímido, mas se tratando de arte, logo melhorou as ideias sem noção dela. Agradeci a mim mesmo por ter chamado ele para fazer aquilo. Eu estava planejando ficar um bom tempo naquele lugar e impedir minha mãe de suas mudanças súbitas.

Nem que eu tivesse que forçar a dar certo, mas ela continuaria naquele salão com minha tia e se manteria feliz. Sem problemas. Inferno, eu iria pagar as contas para ela, tudo para eu terminar o maldito do ensino médio naquele colégio. Minha convicção me deixou um pouco abalado ao pensar no que caralhos tinha me feito querer ficar ali. Mas calei tudo enfiando um pedaço grande na boca.

No fim sobraram umas 3 panquecas para Sasori, o que me deixou assustado comigo mesmo. Tinha que parar de descontar na comida, sorte que ainda estava em período de crescimento e metabolismo acelerado, senão seria obeso.

— Credo, Dei-Dei, não foi isso que te ensinei. – ela voltou a ralhar comigo.

— Está muito bom. – Sasori elogiou, fazendo-a esquecer de mim.

— Oh, vou fazer mais para você, Satori. – e saiu sem nem dar tempo de dizer que não precisava.

— A empolgação é da família? – ele falou para mim, adivinhando meu pensamento pela minha expressão dolorida.

— Aham. – suspirei. – Calma, em uma semana ela aprende o seu nome correto. – ele deu de ombros, não ligando.

— Provavelmente não vai dar para começar hoje. – ele olhou no relógio, e realmente a tarde findava pelas janelas. – Volto outro dia. – fiquei estalando os dedos, tentando conter a ansiedade. Malditas ideias fora de hora.

— Eu aviso para ela. – concordei.

Nos levantamos, ele ainda deixou meia panqueca no prato.

— Como você consegue sobreviver com tão pouco? – questionei.

— Como você consegue sobreviver com tanto? – rebateu.

— Bom ponto. – falei, pensativo, lhe entregando sua mochila.

O acompanhei até a garagem, podendo ver ao longe o carro de Ino estacionado de forma torta na sua casa. Pelo menos ela era péssima manobrista, vibrei internamente. Sasori pegou sua bicicleta e ficamos parados, tentando pensar em algo pra dizer. Naquele dia tinha ocorrido muitas situações estranhas, fato. Mas ele não poderia acabar em mais uma.

— Obrigado por dissuadir minha mãe da ideia das oitavas maravilhas do mundo. – dei um meio sorriso.

— Se eu disser que a ideia dela poderia ficar boa você acredita? – também sorriu.

— Não. – bufei.

— Pois ficaria. Mas em uma agência de viagens. – é, não resisti àquela.

— Mas, enfim, como quer o pagamento? Dinheiro, cheque, cartão de crédito... – fingi muita importância ao falar aquilo.

— Eu não quero esse tipo de pagamento. – ele revirou os olhos, meio tenso.

— Exigente. – franzi a testa. – Então serão as panquecas da minha mãe. Vai comê-las todos os dias...

Ele nem me deu tempo de reagir, indo rápido e com toda a coragem do mundo, poderia ver pela sua expressão. Sasori se aproximou o suficiente para devolver o selinho, calando minha boca grande. O engraçado foi que mantivemos os olhos abertos, um encarando o outro enquanto o leve beijo ocorria. E meu corpo reagiu mais rápido que a mente, como uma injeção de adrenalina tivesse sido aplicada diretamente no meu coração, batendo desenfreadamente e multiplicando o calor interno que eu sentira antes de forma tímida no estômago.

Mas Sasori se afastou, sendo mais rápido ainda em pular na bicicleta e pedalar para longe dali, como o diabo fugindo da cruz. Eu nem precisei de confirmar que ele corara violentamente tanto quanto eu. Maldito Sasori. Eu tinha certeza mesmo que ele quem não tinha nenhuma chance comigo? Aquilo não poderia se inverter não? Maldito Sasori e suas surpresas. Droga, eu definitivamente iria beijá-lo de novo.

Notas finais
Chega dá vontade de vomitar arco íris com esses dois, ai socorro oudiwenfo