Painting Love
3 Parte 3 - Em que há uma trégua
Notas iniciais
Parte 3 – Em há uma trégua
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Na próxima quarta feira eu fui todo serelepe para a sala de aula. Tá, exagerei um pouco, mas eu estava confiante. Mentira, estava exalando confiança, mas por dentro estava me cagando. Eu ia tentar algo que nem sabia se poderia dar certo. Muitas coisas em jogo naquele dia. Mas mesmo assim entrei normalmente para a sala. Ele estava no mesmo lugar, roupas parecidas, mesma expressão compenetrada. Só que ao invés de pegar minhas coisas e ir desenhar, joguei a mochila no chão, um metro mais perto dele. Mas ainda longe o suficiente para ele não me acertar com tinta ou algo assim.
Despejei um pouco do conteúdo da mochila e me sentei como índio, pegando o que precisaria. Eu havia captado sua atenção com sucesso. Ele me encarava por cima do quadro, tentando entender o que diabos eu ia fazer. Abri o pacote e peguei a massa. Um pouco de água para detalhes. Papel para forrar o chão. Algumas espátulas para moldes. Consegui amarrar o avental em mim, pelo menos, nada elegante ir para casa todo ujo de argila. Não ia fazer nada complexo, afinal, eram só duas aulas. Mas já me sentia e casa com o cheiro da argila e cercado pelas minhas coisas.
— O que é isso? – havia um temor em sua voz, enquanto ele olhava ao redor.
— Calma, não vou matar ninguém. – o assegurei. – É só que pintura e desenho talvez não sejam mesmo o meu forte, então resolvi tentar algo em que sou bom. Mesmo que você não queria me mostrar no que você é bom, pensei que seria bom mostrar no que sou, assim você para de me subestimar. – aquilo deslizou como uma faca tão bem afiada que ele enfurnou atrás do quadro e não disse nada.
Mordi as bochechas para não sorrir de orelha à orelha. E comecei a trabalhar na argila.
Durante o tempo que eu gastei, fiquei mantendo metade do cérebro no que fazia e a outra concentrada nele. Às vezes, no início raramente, um olho castanho aparecia de trás do quadro. À medida que o tempo corria e a escultura ficava mais complexa, o olho virou um par. Sorte que eu tinha prendido todo o cabelo antes, a posição não era das mais confortáveis para modelar, mas eu estava me esforçando ali. Sei que ele teve alunos que não entendiam nada de arte, sei o quanto isso pode te irritar, principalmente quando você ama tanto algo e os outros o menosprezam. Venhamos e convenhamos, a maioria das pessoas nunca teria um olho para a arte. Pelo menos não a verdadeira arte, ignorando aquela arte pop feita pela cultura de massas.
Eu poderia fazer uma dissertação sobre a importância milenar da arte. Ela sempre vai significar além do que os olhos podem ver. E apenas olhos bem treinados para captar esse além. E eu sabia que ele possuía aqueles olhos. O pouco que vi de seu desenho e pintura me fizeram intuir que ele estava naquilo há muito tempo. Era bom encontrar uma semelhança em algo com alguém.
E quando eu fiquei distraído demais com os detalhes do cabelo, não percebi que a cabeça toda dele estava para fora, me observando. Só me toquei quando não havia barulho de lápis ou tinta sendo misturada. Por falar nisso, a aula toda que eu passei modelando, ele passou misturando tinta. Bem pouco prático daquela vez, o que me fez dar um sorrisinho. Quando levantei a cabeça, tendo considerado concluído o trabalho, faltava alguns 20 minutos para a última aula acabar. Eu tinha feito em um tempo recorde. Adorava fazer aquele modelo, Michelangelo era meu artista preferido e eu suava horrores tentando imitá-lo e me inspirar nele. Sasori voltou a trabalhar no quadro instantaneamente.
Me levantei e fui carregando o busto até ele. Era uma versão rústica e pequena do busto de Davi, de Michelangelo. Mas eu tinha feito bem aquele maldito cabelo. Ele dera tanto trabalho quando o refiz pela terceira vez, ano passado. Mas agora, pela sexta vez, ele ficara mais decente. Talvez eu era meio obcecado com Michelangelo. Talvez.
Sasori ficou olhando, pela primeira vez sem estar com a cara toda franzida.
— Voilá. Eu modelo, você pinta. – apontei o óbvio. Ele colocou o lápis no suporte e levantou uma mão, como se pedisse permissão para tocar. Peguei sua mão, ele quase a retraiu, mas eu apenas fiz ele colocar os dedos numa posição boa para pegar o busto. Estava meio pesadinho, e eu iria quebrar aquele cavalete na sua cabeça se ele o deixasse cair. E até que sua palma era macia, enquanto a minha estava toda grudenta por causa da argila.
Ele ficou analisando cada detalhe por um tempo infinito e então me toquei. Aproveitei para observar o que diabos ele fazia. Havia uma paisagem, um caminho entre árvores rabiscado. Eu poderia imaginar todas as cores que ele utilizaria ali e fiquei contente de perceber que ele usaria amarelo. Ele deveria usar muito amarelo. Finalmente um tom que não fosse frio. Só se ele fosse misturar o amarelo com preto ou outra cor escura, tirando toda a graça. Olhei a palheta dele e vi que havia amarelo ali. Mas havia marrom escuro e verde escuro também. Pelo menos eu acertei uma coisa, argh. Percebi que a situação ficou momentaneamente invertida, eu quem estava fazendo careta enquanto ele deixava um sorriso escapar, um que não fosse sinistro ou irônico, observando o busto. Considerei uma vitória gigantesca.
— Você realmente é bom. – ele quebrou o silêncio. – Mas ainda não sabe desenhar uma cadeira. – completou, ainda sorrindo.
— Acho que eu não poderia ter passado sem essa, não é? – amargurei. Ele voltou a ficar sério e pensativo, desviando a atenção para o chão.
— Cobranças são boas, em um aspecto. Sem elas você nunca consegue uma força de vontade boa o suficiente para fazer as coisas mudarem. – comentou. Arqueei uma sobrancelha, ele murchou os ombros, esticando a escultura para mim.
Peguei-a de sua mão, encarando a argila ainda molhada. Droga, impulsividade da família Yamanaka nas veias. Não pensei muito sobre, só vou fazer isso depois de jogar o cocô no ventilador.
— Conhece o Ichiraku’s? – perguntei. Ele nem teve tempo de pegar o lápis novamente para fazer a típica expressão de desagrado quando eu o interrompia.
— Porque? – despejou desconfiança.
— Você pode me mostrar onde fica? – passou uns 5 minutos, sinceramente. Fiquei bem desconfortável ali com o silêncio.
— Para quê? – ele me lembrou a Ino semana passada, tentando juntar 2+2 e encontrar lógica na situação.
— Meu deus, você nunca sai? – fui pegar minha mochila, sem me importar muito que ainda não havia dado o sinal. A professora estava longe de aparecer ali. Fazia tempo que eu via tamanho descaso profissional, humpf.
— Hum. – deu de ombros, voltando a riscar na tela.
Suspirei, fui lavar as mãos e arrastei um banco para observar o que ele desenhava. Daquela vez ele não reclamou ou coisa assim, apesar de eu perceber que suas costas estavam mais eretas, como se estivesse tenso com o público. Quase chutei seu banco de propósito, só pra irritar, mas temi que ele partisse para violência física. Afinal, de onde diabos veio o apelido Demônio Vermelho? Eu não queria testar muito. Se eu fosse receber algum apelido, seria algo relacionado a essa incrível capacidade de deixar os outros irritados.
Ele tinha uma mão bem firme na hora de fazer traços, mesmo que fossem retos ou curvos. Seu esboço estava ficando bom e fiquei imaginando o resultado final. Tomara que ele usasse cores mais alegres. Do nada ele parou e tive que piscar, quase despertando de um sonho. Sasori não disse nada, apenas arrumando suas coisas e pegando a mochila. Me estiquei, bocejando. Eu estava com uma fome monstro e ainda teria que achar o Ichiraku’s sozinho. Droga, deveria ter perguntado onde ficava para Ino, já que ela e os amigos adoravam aquele lugar. Eu tinha que testar os novos lugares para poder me enfurnar e fugir da minha mãe. Agora ela estava com ataques de pintura pela casa e, se eu já estava indo mal na aula de Sasori, imagina se ela me fizesse pintar uma rosa na sala. Aquilo me deu uma ideiazinha que me fez dar uma estremecida, sem saber o porquê. Balancei a cabeça, tentando ignorar o que diabos fosse aquilo.
— Vai ficar aí ou ainda quer ir lá? – ele falou, já na porta, com a chave na mão. Dessa vez seu rosto não estava muito franzido, o que agradeci.
— Ah, claro! – fui apressado até ele, esbarrando em seu ombro pra sair. Fiquei com um sorriso monstro na cara, aguardando ele trancar a sala. Quando se virou até assustou, o que me fez rir feito o idiota que sou.
Já estava praticamente nos considerando amigos a partir dali.
***
Sasori deixou sua bicicleta de fora, presa com uma corrente, o que me deixou mais animado ainda. Mas quando ele ia entrando, subitamente voltou de costa e bateu em mim. Percebi que o local estava meio cheio àquela hora, puro frescor da juventude, como diria meu ex-professor de Teatro, Maito Gai. Havia toda a conspiração pelo primeiro ano de que ele era pedófilo ou algo assim. Mas Sasori me despertou batendo a cabeça no meu nariz. E aquilo doeu.
— Ai, o que foi, diabos? – perguntei, segurando o nariz. Ele parecia meio amarelo enquanto olhava para dentro. – O que, alguém conhecido que não quer rever? – ele apenas fez que não com um aceno. – Bem, então vamos.
Praticamente fui arrastando ele pelos ombros até uma mesa vazia, perto dos fundos. Pelo menos era um lugar mais reservado do barulho que estava ali. Sasori estava meio endurecido debaixo de minhas mãos, mas sentou obedientemente no banco à minha frente. Ele mordia o lábio inferior compulsivamente. Inferno, ele estava bem ou iria ter uma convulsão ali? Estalei os dedos à sua frente, fazendo ele despertar do transe.
— Sasori? – perguntei. Eu iria ser culpado pela morte ele, eu sabia. Merda. Mas ele respirou fundo, tentando se acalmar.
— Eu odeio aglomerações. – respondeu baixo, limpando o forro da mesa de uma sujeira invisível. Uh, droga, eu tinha despertado uma fobia nele.
— O que vai querer? Eu pago. – tentei melhorar a situação. Ele apenas deu de ombros, olhando para fora, pela janela. Aquilo poderia ter começado bem melhor.
Demorou um pouco para a garçonete finalmente conseguir chegar até nossa mesa. Eu já havia quase memorizado o cardápio, tendo decidido por um sanduíche tamanho família e um milk-shake longe de ser humilde. Eu estava em fase crescimento, sempre justificava minha esfomeada comilança naquilo, er. Aquilo atraiu a atenção de Sasori, que parecia ter voltado a seu estado normal. Acho que olhar para a rua e imaginar estar longe de todas aquelas pessoas seja um método para ele.
A garçonete deu um olhar cansado para ele.
— Um milk-shake de café pra mim. – ele pediu sem olhar para o cardápio. Tive que olhar novamente, enquanto a garçonete ia entregar o pedido à cozinha.
— Como assim de café? Onde está isso? – ele deu de ombros novamente.
— É um pedido especial. – voltou a limpar a mesa novamente.
— Você vem muito aqui? – eu não poderia segurar minha boca e curiosidade, claro.
— Às vezes. – voltou a olhar para fora.
Suspirei de forma profunda, não querendo desistir.
— Okay, já descobrimos algo em comum, que é o amor pela arte. Vamos compartilhar mais. – deu tapinhas na mesa, exigindo. Ele voltou a fazer caretas.
— Compartilhar o que?
— Informações. Como fazer amizade sem interação? – dei uma tossida.
— Amizade para quê?
— Seus músculos faciais não doem de tanto serem contraídos não? – soltei sem querer. – E tudo tem que ter um porquê, diabos, você tem um problema com os porquês. – emendei rápido, antes que ele enfezasse feio e saísse dali.
— Porque nada nessa vida acontece sem um porquê. – declarou. Apoiei o queixo na mão.
— Como você consegue ser tão intenso, caramba? – aquilo o fez ficar vermelho sem poder controlar. Quase tirei uma foto para cantar vitória por ter arrancado uma reação dele sem que fosse associada a raiva e frustração.
— Porque há muitas pessoas vazias por aí. – sustentamos o olhar até a garçonete jogar o que pedimos ali.
Comi com toda a voracidade que consegui, fazendo barulho ao tomar o milk-shake de chocolate. Sasori parecia estar com medo do tamanho que minha boca poderia e abrir e morder o sanduíche. Aquilo me fez me conter um pouco, eu e minha desenvoltura e elegância naturais. Mas durante todo o tempo fiquei dando olhadelas para seu lado, vendo-o observar lá fora, tomar lentamente seu shake de café – eu tinha que experimentar aquilo um dia – e às vezes olhando eu comer abismado.
— O que? – perguntei com a boa cheia. – É bom ter apetite.
— Apetite normal, diferente de alguém que parece que nunca comeu na vida.
— Diabos, você alfineta o tempo todo, baixe a guarda por um momento. Não dá pra amigarmos assim. – fiquei consciente de que estava quase cuspindo ao falar aquilo tudo, e escutei outro ronco. Ele deixou escapar uma risada.
— Amigarmos. – repetiu.
— Sim, fazer amizade, interagir, ter laços saudáveis com outras pessoas.
— Pelo amor, termina de mastigar senão vai cuspir tudo em mim. – comentou, preocupado. Tive que lutar para engolir sem rir e fazer o que ele disse.
— Cuspir uma alface.
Foi só eu me imaginar cuspindo um pedaço de alface nele que se tornou praticamente impossível parar. Sorte que eu engolira a maioria e agora só ria de boca fechada, de um jeito esquisito, meio pelo nariz. Era a desenvoltura e elegância natas aparecendo firmes e fortes agora. Droga, aquilo me fez rir ainda mais. Finalmente Sasori deixou de resistir e acompanhou algumas risadas minhas. Droga, o ronco dele poderia me fazer rir mais ainda. Nem olhei, mas sabia que metade do lugar estava olhando para nós, o mais puro ataque de riso adolescente sem noção.
Quando finalmente conseguimos parar eu tinha conseguido engolir tudo, nem sei como. Limpei os cantos dos olhos de forma dramática, tirando as lágrimas. Foi aí que reparei sua expressão, muito diferente de quando ele estava na sala de pintura. Não lembro de ter visto seu rosto todo relaxado, corado e animado antes. Era uma mudança ótima, assim como ouvir seu ronco-riso.
— Você deveria relaxar mais, fica bem melhor assim. – deixei escapar e me estapeei mentalmente. Vai lá, Deidara, destruidor de momentos descontraídos.
Ele ficou um pouco mais vermelho e voltou para seu milk-shake. Imitei ele, já que uma boa parte do meu estômago já estava cheia e o sanduíche havia acabado. Aquilo estava meio esquisito. Sim, eu queria mesmo fazer amizade com ele. Mas ainda assim não parecia o suficiente e eu não conseguia identificar direito o que era. Era tudo bem diferente, não conseguia me basear em qualquer outra experiência que tenha tido. Fiquei confuso e olhei de soslaio para ele. Sasori estava me olhando também. Desviamos rapidamente como se fugíssemos de algo.
Droga, o que diabos era aquilo?
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