Painting Love

4 Parte 4 - Em que uma amizade torta se forma


Notas iniciais
HELLO PIPOU VAMOS FAZER AS COISA COMEÇAREM A ACONTECER, NÉ NOM? VAMOS! SENTA QUE LÁ VEM A HISTÓRIA njnfendqwmdlkqm

Parte 4 – Em que uma amizade torta se forma

.

.

Quando cheguei na sexta para a aula, nada parecia ter mudado. Aparentemente. Mesmas roupas escuras, mesma posição perto da janela, só que agora ele já estava pintando. Parou ao me ver chegar.

— Olá, amiguinho! – acenei. Ele revirou os olhos. Opa, nova reação dele. Eu estava colecionando-as com uma certa obsessão já. Era bom ver que ele parecia um boneco duro e inexpressivo só na primeira impressão, depois parecia até humano.

Joguei minha mochila de qualquer jeito perto da sua.

— Posso ficar modelando ao invés de pintando? – tentei.

— Não é porque você é melhor modelando que pode fazer isso o tempo todo. Respeite a aula de pintura. Menos 1 ponto. – cutucou com aquela faca que ele chamava de língua. Que frase estranha. Hum. Mas, voltando... Pelo visto “amigar” com ele não melhorava meu problema com nota.

— Argh. – resmunguei com muita dramaticidade e arrastei minhas coisas para mais perto dele. Agora estávamos a uns dois metros de distância. E a luz da janela bati bem melhor ali mesmo, melhor para enxergar os detalhes.

Encontrei as folhas já me esperando sobre a tela. Inclinei-a melhor e tentei reproduzir o mais parecido possível. Não ia confessar que tentava praticar em casa, inclusive conseguira fazer uma cadeira parecida com uma cadeira. Era minha vitória particular, mesmo que desse vontade de pegar ela e jogá-la na cara dele. Sasori era uma pessoa irresistível de se provocar, inferno.

— Quanto pontos já perdi até agora? Eu vou conseguir recuperar isso até o final do ano letivo? – minha voz saiu bem descrente, quebrando silêncio.

— Trabalhe dure. Plante e colherá. – ele citou, ainda preso àquele quadro maldito. Pensei em algo interessante para falar e matar o tempo enquanto desenhava.

— Porque o milk-shake de café? – tentei não soar como se estivesse morrendo de curiosidade. – Por favor. – já complementei, querendo me poupar de tapas verbais e chegas-pra-lá. Ele sempre precisava de um tempinho para se preparar, como se pensasse bem no que iria dizer e se queria dizer aquilo mesmo. Mas não pressionaria, já estava num caminho bom, eu ia querer arrancar meus cabelos se retrocedesse.

— Eu tomo café da manhã lá quase todos os dias. – deu de ombros, fazendo parecer nada, mas senti que era importante.

— Não tem tempo de comer em casa? – continuei, parecendo mais despreocupado que ele.

— Meu pai não faz café. – rebateu.

— Minha mãe também odeia fazer, ela jura que vai ficar super magra se pular o café da manhã. – minha mãe e suas falácias sem comprovação científica. Mas aquele não era o caso de Sasori, eu sabia instintivamente. Apenas soávamos como se fosse nada, super normal e comum.

— O meu pai simplesmente não gosta de perder tempo.

— Comer é perder tempo? Que ofensa. – indignei.

— Isso combina bem com você. – balançou a cabeça, deixando um riso-ronco escapar.

— E porque perda de tempo? – tomara que estivesse descontraído o suficiente para abordar aquilo. Fingi estar todo interessado no corpo feminino que tentava desenhar.

— Workaholic.

— A minha mãe poderia sobreviver de pensão, se pudesse. Mas ela trabalha em um salão de beleza com minha tia agora. Problemas e manias de família. – aquilo estava ficando muito íntimo para mim. Podia sentir a frustração brotando.

— Meus pais são separados. – parou, parecendo surpreso por ter dado a informação. – Ambos sempre foram ausentes por se preocuparem mais com carreira profissional. – podia notar por seu tom de voz que ele também tinha seus problemas internos por causa da família.

— A minha mãe sequer possui essa desculpa, ela é completamente surtada. – risquei forte demais o círculo que formaria os quadris da pobre moça.

— O pior é que a desculpa nem cola muito, pois tem sido assim desde que tive consciência do mundo ao meu redor. Como caralhos você deixa uma criança de quatro anos se virar sozinha para comer, trabalhando o dia inteiro e pouco ligando se ela pode morrer de inanição? – okay, estávamos num nível de desabafo que apenas crescia.

— Que merda, pelo menos minha mãe deixava papinha de bebê até quando fiz 8 anos. – dei uma risada sem querer.

— Papinha de bebê aos 8 anos? – ele me acompanhou.

— Sim, infernos, deve ser por isso que como feito um animal selvagem, tive que comer papinha até os 8 anos. Aquilo é uma droga.

— Que sabor?

— Ela comprava justamente os de frango, feijão e legumes variados. Aquilo não parece nem minimamente com isso. Parecia gume com um leve sabor, mas nada forte porque supostamente é para bebês.

— Pelo menos aprendi a cozinhar forçadamente nessa idade. – pareceu quase feliz por ter tido mais sorte que eu no campo alimentar.

— Uau, o que você fazia com 8 anos? – perguntei, chocado.

— Obviamente comecei cozinhando ovos. Cozinhava tudo que havia pela minha frente. Demorei a entender que havia toda uma sorte de temperos para deixar o gosto melhor. – ele murchou, parecendo envergonhado.

— Droga, até hoje não sei nem temperar direito. Até meu macarrão instantâneo fica esquisito. Será a água demais? – confabulei comigo mesmo.

— A água demais, com certeza. – ele fez um risco enorme no quadro que me fez me esticar para ver o que foi aquilo.

Ele já estava pintando as arvores.

— Por favor, coloque cores alegres. – pedi, quase inconscientemente. Ele me olhou surpreso. – Você usa apenas cores frias. É meio pesado para a paisagem.

— Eu vou colocar cores claras. – ele olhou meu tênis azul claro que estava imundo. Franziu a testa e voltou ao quadro. – O que você fez com o corpo feminino? – fez careta para meu quadril sinistramente desproporcional e escuro demais.

— Droga, empolgação. – corri para melhorar aquilo.

Foi a conversa mais espontânea que tivemos até aquele momento e, enquanto eu tentava salvar a pobre garota do desenho, me controlei para não ficar alegre demais. Eu já tinha felicidade o suficiente para encher aquela sala por nós dois, isso sem ataques impulsivos. Mas foi difícil, pois fiquei sapateando uma batida mesmo assim. Claro que ele não demorou para me olhar feio.

— Você topa pintar a sala para minha mãe? Ela está fazendo uma destruição lá, estou com medo de ela empolgar para os quartos. – vomitei tudo muito rápido, deixando ele mais confuso que informado. – Te pago. – adicionei, tentando persuadi-lo.

— Hum, vou ter que pensar. – conseguiu dizer.

— Misericórdia, ela vai querer encher meu quarto de borboletas tortas e flores exóticas que mais lembram lagartixas. – eu estava muito nervoso. Droga, porque aquilo estava acontecendo? Porque aquilo piorava meus pés debatendo no chão? Eu apenas estava pedindo uma ajuda para salvar minha casa de um desastre artístico. Se eu havia herdado a incapacidade desenhar de alguém, fora de minha mãe. Mas porque a ideia dele em casa me soava tão... Perturbante? E nem era questão de vergonha. Novamente droga.

— Bem, isso realmente seria inadmissível. Eu colocaria pássaros e algo que remetesse à modelagem. – ele se voltou de forma acanhada para o quadro, parecendo meio vermelho.

Fiquei meio paralisado, absorvendo a informação de que ele dissera o que eu queria mesmo. Inferno, formávamos uma amizade loucamente boa. Talvez... algo mais.. Voltei para meus desenhos atordoado. Eu estava tendo umas ideias completamente sem noção em relação àquilo e ele, e estava complicado lidar com elas. Apaguei o círculo do quadril quase enfiando minha borracha no tecido, frustrado comigo. Eu não poderia estragar aquilo que se formava com as ideias nada a ver. Deve ser herança da família a imaginação hiperativa também.

Continuei a desenhar silenciosamente, sem muita coragem de inventar papo. Nada parar piorar o ataque de ideias fora de contexto. Em um momento da última aula tive outra ideia, mas não era tão absurda. Pelo menos envolvia a interação de mais pessoas e eu poderia controlar meus pensamentos idiotas durante ela. Pensei em como propor aquilo à Ino. Acho que ela não iria resistir.

***

— Você está louco. Fumou maconha estragada, querido? – Ino declarou, convicta.

— Coopera, porca, eu preciso consolidar isso. – falei, bravo.

— Vai cagar na latinha, barbie punk do caralho. – ela me mostrou o dedo do meio.

— Sem querer me meter, mas já me metendo... Acho que poderia ser bom. – Shikamaru falou, roubando batatas fritas de Ino.

— Devolve isso agora. – ela brigou com ele. Shikamaru deu de ombros, já enfiando o dedo na garganta para forçar o vômito quando ela deu um gritinho. – Não, seu nojento!

— Você falou pra devolver, princesa, decida-se se quer que eu tire as batatas do meu estômago ou não. – ele disse, inocentemente.

— Tu é bom em irrita-la, pode me dar umas dicas? – pedi, animado.

— Vão cagar na latinha vocês dois. – ela cortou Shikamaru antes que esse me respondesse, também animando.

— Mas pode ser bom, Ino. Se conseguirmos tornar o Demônio Vermelho mais, er, tratável, pelo menos poderemos não ficar preocupados de pegar pintura ano que vem. – Sakura opinou.

— Mas é mais fácil ele cair em cima de nós com uma faca do que isso acontecer. – Ino se frustrou.

— Podemos tentar. – Sakura me ajudou. Então ela sorriu e acenou animadamente para alguém atrás de mim. – Sasori, vem cá! – assustei, me virando.

Ele realmente havia aparecido para pegar seu almoço e levou um susto maior do que o meu com toda a atenção que Sakura jogou em cima dele. O olhei com expectativa. Ele nos olhou, preocupado, e eu vi em sua cara que ele iria nos ignorar. Não me contive e me levantei, indo até ele. Sasori ficou maravilhosamente perdido, sem saber se corria do refeitório ou se me matava, ou coisa assim. Peguei sua bandeja sem cerimônia.

— Vamos amigar. – falei, sorridente. Eu li o que havia em seus olhos castanhos claramente “menos 100 pontos por isso”. Sorte que não tinha como tirar 100 pontos mesmo. Se vamos para o inferno, então vamos fazer o serviço completo.

Não olhei para ver se ele me seguia, mas pelas expressões ansiosas de todos na mesa, aquilo ocorria. Ele sentou ao meu lado, com uma cara de quem sofria com tudo aquilo.

— Oi. – Sakura iniciou, animada. Eu admirava sua capacidade de enfrentar monstros.

— Hum. – Sasori concordou, limpando uma sujeira invisível da mesa. Ah, ele tinha essa mania, como se resistisse a não fugir dali, mas se recusava a olhar o interlocutor.

— Como vão as aulas de pintura? – sorri para Sakura, elogiando suas tentativas, depois olhando feio para Shikamaru e Ino por eles estarem boquiabertos ainda.

— Bem, acho. – ah, vamos lá Sasori, você pode se esforçar mais. Deus sabia que eu não tinha solução, pobre Sasori, nunca teve uma chance perto de mim.

— Acho que vou perder 10 pontos por causa disso. Pode ficar devendo quase 20 pontos? – perguntei preocupado, me virando para ele.

— Eu vou fazer ser possível. – me olhou com uma seriedade surpreendente.

— Como você consegue ser tão mau? – Ino soltou. Shikamaru deu uma cotovelada nela, mas não dava muito pra consertar aquilo.

— Da mesma forma que vocês conseguem ser tão idiotas. – Sasori soltou com aquela naturalidade monstruosa dele. Droga, eu estava admirando mesmo aquela língua ferina. De repente me engasguei e tentei disfarçar tossindo. Oh, merda, Deidara.

Sakura deu uma risada e Sasori a observou, como se aprovasse.

— Não consigo entender como infernos o Deidara conseguiu conversar com você. – Ino me olhou de forma esquisita.

— Favores sexuais. – deixei escapar como brincadeira, mas reverteu contra mim e ficamos nós dois feito pimentões ali. Pus a mão no queixo, fingindo seriedade e Sasori ficou olhando o teto.

— Faz sentido. – Ino levou a sério. Shikamaru riu dela.

— Ino, menos. – ele recebeu a vingança pela cotovelada dela agora. – Porra, princesa.

— É a violência dos Yamanaka. – ela jogou o cabelo na cara dele.

— É de família mesmo. – colaborei na mudança de assunto.

— Você não ameaça nem uma mosca.

— Para de me desmoralizar, caralho. – rosnei para Sasori, ele apenas riu-roncou. Todo mundo ficou observando fascinado ele rir. Eu sei, eu também era fascinado com aquilo. Inclusive ele jogava a cabeça um pouco para trás e ria de forma bem dramática, era interessantíssimo observar.

— Posso ir para Pintura ano que vem? – Ino perguntou, animada por ele ter parecido normal naqueles segundos.

— Não. – Sasori fechou a cara. Aquele era meu Sasori. Cortei o sorriso na hora, cada assalto de pensamentos esquisitos, puta merda.

Acabei pondo a mão do meu lado no banco e assustei ao sentir a minha se sobrepor a dele. Definitivamente inesperado. Mas não retirei a minha. Parecia que eu estava quebrando alguma lei, regra, algo que me deixava nervoso, mas mantive minha mão, congelado. Pela forma como ele paralisou ao meu lado, algo parecido deveria ter acontecido com ele. Ino nem percebeu, atenta demais com suas próprias reclamações.

— Droga, uma pessoa não pode nem sonhar. – ela resmungou.

— Achei que estava gostando de construir casinhas de pássaros, princesa. – Shikamaru provocou, enfiando uma batata dela na boca. Ela parecia prestes a pular sobre a jugular dele. – O que? Estou te ajudando a manter o peso.

— Vish, ele falou no tema proibido. – Sakura estremeceu.

— Sakura. – Ino a chamou.

— Sim, Ino, você continua magra e linda. – Sakura falou, não convencendo nada.

— Eu vou falar com o Sasuke hoje sobre você querer sair com ele. – Sakura ficou branca como cera.

— E eu vou contar para a escola toda o fato de você ter dormido com o Shikamaru logo na festa de boas vindas para o ensino médio. – Sakura irou-se, o que me surpreendeu, uau, ela poderia parecer pior que Ino quando zangada.

E eu sabia que tinha rolado algo entre ela e Shikamaru. O mesmo estava preso às batatas dela, nem ligando para a discussão, o que agradeci. Sei nem como explicaria a posição esquisita minha e de Sasori.

Mas ele não retirou a mão debaixo da minha. Havia algo ali que estava queimando meu interior. O que era bem ridículo, mas no momento me interessei apenas pelas reações. Meu indicador entrelaçou entre o dele num gesto de pura ousadia, mas Sasori não me rechaçou em nenhum momento. Em nenhum momento olhamos um para o outro, preocupados demais naquele ato novo de enroscar os dedos um no outro. Quando nossas mãos finalmente estavam presas uma na outra, eu engolindo em seco já, Ino se virou brava para nós.

— Deidara! Me ajude no ritual satânico contra Sakura hoje, à meia noite! – ela ordenou. Soltei minha mão com a súbita atenção voltada para nós, quase infartando naquele banco. – Você está passando mal? – fez careta para mim.

Mantive a mão no colo, fingindo estar completamente bem.

— Vou te ajudar com merda nenhuma, gosto da Sakura. – a mesma cantou vitória rindo já, com apenas meu apoio.

— Barbie punk do caralho! – Ino irou-se.

Mas eu nem ligava para ela, apenas prestando atenção na minha mão que formigava e meus dedos que se mexiam, como se quisessem agarrar algo. Sasori ficou com ambas as mãos no colo enquanto tomava seu refrigerante calmamente pelo canudo. Mas eu percebi ele abrindo e fechando a mão criminosa, numa forma parecida com a minha.

Notas finais
Mão do Deidara falando: O que dizer dessa mão que mal conheço mas já considero pacas? SOS eoneofneofjmqpdqem