Notas iniciais
Mais um capítulo postado! Aqui vamos descobrir mais uma nova forma de evitar a Morte. Boa leitura.

O necrotério Peace Stone era frio como a respiração de um túmulo aberto. O cheiro de formol e carne antiga impregnava o ar. Lá dentro, a luz esverdeada dos tubos fluorescentes piscava preguiçosa sobre as superfícies de aço.

William Bludworth assobiava uma melodia arrastada e sem nome enquanto passava o bisturi sobre o peito pálido de um cadáver. O som do metal cortando a carne enchiam o ambiente de um desconforto nauseante.

Quando a porta rangeu e o grupo entrou, ele sequer olhou.

— Olá, Bludworth. — Kim falou, tensa.

— Kimberly Corman… — murmurou, com um sorriso torto no canto da boca. — Difícil esquecer uma vida que não devia mais estar por aqui.

Kimberly cruzou os braços, disfarçando a inquietação.

— Pois é. Sou boa em decepcionar expectativas. Até da Morte.

Ele soltou uma risadinha seca e continuou seu trabalho, drenando um fluido escuro do corpo sobre a mesa.

Jamie, inquieto, se adiantou.

— A gente precisa saber… existe alguma forma de parar isso? Qualquer coisa.

Bludworth colocou o bisturi em uma bandeja com respingos de sangue-escuro. Sem olhar, respondeu:

— Poucas… e nenhuma limpa.

Jamie foi até ele, o tocando no ombro, desesperado.

— Por favor. Qualquer jeito.

William ergueu os olhos, afiados como navalhas.

— Pode se tornar um Servo da Morte. — disse, como se falasse da previsão do tempo.

Ramon soltou uma risada abafada.

— E isso seria o quê? Ser capacho dela?

Bludworth esboçou um meio sorriso e, sem parar de manusear o corpo, explicou:

— Todos somos Servos da Morte sem saber. Um tropeço aqui, um atraso ali… pequenas peças que desencadeiam desastres. Mas quando se faz isso de propósito… a Morte presta atenção. Se alguém dentro da lista matar os próximos na ordem correta, através “acidentes” bem colocados, ela passa reto por você. Só que… por um tempo.

Ruby se aproximou, olhos vermelhos e inchados, mas fixos e determinados.

— E como eu faço isso?

Megan tentou intervir. O curativo lateral que a equipe médica deu estava colado em seu pescoço.

— Ruby… não. Se acalma.

— Não, Megan! Se existe um jeito de parar isso, você não está interessada em saber?

Mas a ruiva nem piscou. Bludworth esperou o sangue ser drenado do cadáver e encarou-a, frio.

— Casualidades, querida. Um copo mal colocado, um pneu solto, um empurrão no momento certo… Quanto mais natural parecer, melhor.

Ramon cruzou os braços.

— E… isso já deu certo alguma vez?

— Não conheço nenhum que tenha vivido tempo suficiente pra contar. Mas chance… é chance. Kimberly apostou a dela e veja só. Está aqui. Por enquanto.

Kimberly não desviou o olhar.

— E a Morte? Como ela tá burlando agora? Por que a Nova Vida não deu certo?

Bludworth se aproximou. Seus olhos profundos e frios como pedra de cemitério. Kimberly não se deixou abater e cruzou seus braços.

— A Morte ajustou os planos. Aperfeiçoou sua lista. Agora não há mais brechas. A Nova Vida só quebra o ciclo se for a sua hora. E… qualquer fruto colhido antes, que atrapalhe a colheita… é podado. Isso inclui você, Kimberly.

Jamie arregalou os olhos.

— Você quer dizer que… ela vai morrer?

Bludworth deu de ombros.

— Todo mundo morre, garoto. A única questão é o quando. Mas quem resolve brincar de enganar a Morte… costuma descobrir cedo.

O silêncio pairou, pesado como o próprio ar ali. Bludworth então voltou ao corpo, vendo o sangue escorrendo através do tubo com cautela.

— Podem ir. Tenho mais serviço. E... vejo vocês no final.

Kimberly lançou um último olhar frio e seguiu, puxando Jamie e Ramon junto.

Ruby ficou para trás por um segundo, os olhos brilhando com uma febre perigosa.

— Eu vou conseguir. — murmurou para si, antes de seguir os outros, seu rosto dividido entre medo e fascínio.

E o assobio de Bludworth os acompanhou até o corredor, como um aviso.

XX

A porta lateral do Peace Stone rangeu ao fechar atrás deles, abafando o som arrastado do assobio de Bludworth. A porta giratória estava interditada e havia alguns técnicos regulando seus trilhos defeituosos.

Lá fora, a neblina continuava, densa como se o ar soubesse o peso das coisas que ali aconteceriam.

O grupo se reuniu perto da caminhonete, sem dizer nada por um instante. Só o som das motos passando ao longe e o bater irregular de um catavento quebrado.

Kimberly apoiou as mãos na carroceria, respirando fundo. Seus cabelos negros balançando contra a leve brisa.

— Agora a gente sabe. — disse, a voz baixa. — O jogo tá sujo… e só vai piorar.

Ramon passou a mão pelos cabelos, nervoso.

— Mano… isso de virar Servo da Morte? Cês ouviram isso? Isso é loucura.

Jamie olhou pro chão, a expressão sombria.

— Pelo menos é alguma coisa. Antes disso a gente não tinha nada.

Ruby deu um passo à frente, o rosto endurecido.

— Eu vou fazer.

Todos se viraram pra ela.

— Ruby… — começou Megan, mas a ruiva levantou a mão, interrompendo.

— Se é isso ou morrer como o Steven… esmagada, afogada, queimada, o caralho… então eu prefiro ter controle. Se tem alguém que precisa pagar primeiro, vai pagar.

Ramon bufou, irritado.

— Você tá ouvindo o que tá dizendo? Vai virar assassina? De quem? De quem tá na lista? E se for a Natalie? Ou eu?

Ruby apertou os punhos.

— Se for pra viver, eu faço. Não me importa.

O silêncio caiu grosso entre eles. Megan balançou a cabeça de forma negativa, incomodada com aquilo. Jamie se adiantou, encarando Ruby.

— Acha mesmo que vai conseguir carregar isso? Que vai dormir sabendo que foi você quem causou?

Ruby encarou de volta, olhos úmidos, mas firmes.

— Pior é morrer sabendo que podia ter feito algo.

Kimberly se aproximou dela, mais calma.

— Escuta, eu já vi gente chegar nesse ponto. E sabe o que acontece? A Morte te dá mais tempo… e depois arranca tudo de você quando menos espera. Ela sempre cobra.

Ruby não respondeu. Só olhou para longe, para o céu nublado, engolindo em seco.

Megan abraçou os braços, a pele arrepiada.

— E… e eu? Eu ainda tô na lista?

Jamie fechou os olhos, lembrando-se do que Bludworth dissera.

— Se a Morte tá podando quem se mete, você ainda corre risco. Mas eu prometo, Megan… enquanto eu estiver respirando, eu não vou deixar nada te acontecer.

Ela o olhou, surpresa. Um pequeno aceno de cabeça, grata e apavorada ao mesmo tempo.

Kimberly então respirou fundo e deu o tom final:

— A gente fica junto. Ninguém tenta nada sozinho. Nem Ruby. Nem Jamie. Nem Ramon. Se essa merda de lista vai tentar levar a gente… vai ter que passar por todos.

Os outros assentiram, embora os olhos de Ruby ainda brilhassem com uma decisão incômoda.

Ramon deu partida na moto, o som cortando o silêncio. Kimberly olhou para a estrada.

— Depois de Megan.... é quem, filho?

— Sasha ou... Ramon. — ele falou — Não sei quem vem primeiro. Eles caem juntos.

— Vamos achar quem é o próximo. E rápido. Antes que essa porra pegue mais um.

Eles entraram nos veículos, cada um carregando não só a morte, mas agora também o fardo de decidir até onde iriam para sobreviver.

A névoa os engoliu na estrada enquanto o som do assobio de Bludworth ainda ecoava na cabeça de cada um.

XX

O posto de gasolina era antigo, desses que ainda exibiam letreiros luminosos meio falhos e bombas de combustível sobre um chão rachado e empoeirado.

A estrada ali ao lado parecia abandonada, engolida pelo mato. As luzes da conveniência zunbiam fracas, lutando para manter a claridade contra a umidade pesada do início de tarde.

Ramon estacionou a moto e retirou o capacete com seu habitual ar despreocupado, ajeitando os cabelos desgrenhados. Kimberly desceu da caminhonete logo atrás, já caminhando em direção à bomba para abastecer.

— Ei, se cuida aí. — disse Jamie a Ramon, que girava a tampa do tanque com rapidez.

— Relaxa, chefão. Eu sou mais rápido que a Morte. — ele piscou e apontou o dedo em forma de arma. — E se alguém vai dessa pra melhor, é a Sasha.

Jamie hesitou, coçando a nuca.

— Eu… não tenho certeza. — Sua voz saiu baixa, abafada pelo som de um carro distante passando na estrada. — Você e ela caem juntos na minha visão.

A piada perdeu a graça. Ramon ficou quieto por um segundo antes de esboçar um sorriso debochado, como se quisesse afastar a tensão com um comentário qualquer.

— Então, que a gente vá bonito.

Jamie forçou um meio sorriso e caminhou até a loja de conveniência. Megan o acompanhou em silêncio, puxando o zíper do casaco até o queixo, protegendo-se do vento frio.

A porta rangeu ao se abrir, e o cheiro de gasolina, enlatados e madeira úmida tomou conta. Um rádio velho tocava uma balada country distante, misturada ao zumbido das geladeiras. As luzes tremulavam, como se até a eletricidade soubesse que algo ruim pairava no ar.

Jamie pegou duas garrafas de refrigerante e um biscoito, jogando sobre o balcão, sem muito interesse. Ao olhar para o lado, seus olhos pousaram em Megan.

Ela caminhava distraída entre as prateleiras, a ponta dos dedos passando pelos pacotes de biscoito colorido vencido. Os cabelos castanhos caíam um pouco sobre o rosto, e havia algo nos olhos dela — algo antigo, cansado demais para a pouca idade que tinha.

Jamie respirou fundo. Ele se lembrou.

Ela tinha doze anos quando o pai morreu em um acidente brutal na estrada. Um caminhão fora de controle, uma bola de ferragens e sangue por toda parte.

Os bombeiros dizendo que ele morreu na hora. E duas semanas depois, a mãe dela — devastada, sem conseguir suportar a perda — colocou o carro na garagem, ligou o motor e esperou.

Megan foi quem encontrou o corpo.

A lembrança se enfiou como uma lâmina em Jamie. Desde então, Megan havia sido jogada de um canto a outro da família, até que a tia a acolheu. E mesmo assim, nunca pareceu ter encontrado um lugar de verdade.

Como se vivesse à margem, com o olhar de quem esperava o mundo desabar a qualquer momento.

Ele a viu rir poucas vezes. Mas agora, naquela loja esquecida no meio do nada, havia um certo alívio no rosto dela. Como se a presença deles, por mais amaldiçoada que fosse, lhe desse alguma âncora.

Jamie apoiou-se no balcão e disse, quebrando o silêncio:

— Quer pegar alguma coisa para comer na viagem? Se quiser eu pago.

Megan ergueu os olhos, surpresa, e depois sorriu.

— Isso foi uma cantada?

— Algo assim. — Ele deu um sorriso torto.

Por um instante, ficou só o som da música ruim e da velha luminária tremeluzindo.

— Eu fico agradecida por tentar sempre me proteger, James. Não digo isso porque estamos nessa situação agora, mas por tudo... desde da época do meu pai.

— Amigos são para isso.

— Sei que quer algo mais que uma amizade. — ela disse, o observando de relance — Eu pensava que não estava pronta para isso... tantas coisas se passam na cabeça da gente quando tentamos construir nossos próprios sonhos...

— E agora?

— Agora... parece que nada disso importava, já que a Morte esta na nossa cola. Tudo que resta é apenas nós mesmo.

Jamie viu o curativo no pescoço dela pelo reflexo da porta de vidro da geladeira. Lembrou-se do estalo da porta giratória, do fogo quase caindo nela. De como a Morte havia passado tão perto.

Ele virou para Megan, sem saber muito bem o que fazer. E antes que pudesse se conter, se inclinou e a beijou.

Foi rápido, quase instintivo. Mas quando recuou, ela o segurou pela gola da camisa e o puxou de volta. Um beijo mais longo, mais certo. Como se os dois entendessem que talvez não tivessem outra chance.

Quando se separaram, Megan sorriu, os olhos brilhando.

— Primeira coisa boa do dia.

Jamie sentiu o peito apertar.

Antes que respondesse, a velha televisão no canto do balcão trocou de programação. O anúncio colorido do desfile de Ação de Graças deu lugar a uma reportagem.

— “Michael Cross, sobrevivente não registrado da tragédia do Celeiro Hope Hills, relata como previu o colapso do local antes de escapar.

A imagem na tela era dele. Cabelos platinados, olhar abatido, suado, a barba por fazer.

Jamie congelou.

A cena voltou como uma marretada: a noite do celeiro. Michael Cross esbarrando nele às pressas, os olhos arregalados, as palavras sussurradas no caos:

— “Isso aqui vai desabar.”

Jamie ficou pálido. Um enjoo subindo pela garganta.

Megan percebeu na hora.

— Jamie? Ei, o que foi?

Ele largou a garrafa no balcão, assim que o caixa os esperava, as mãos tremendo.

— Ele… ele tava lá. No celeiro. Eu vi esse cara. Ele devia ter morrido.

Megan arregalou os olhos. Correu até a porta.

— Gente! Vem aqui!

Jamie se apoiou no balcão, respirando fundo, tentando apagar a imagem de Michael Cross dizendo aquelas palavras.

A Morte ainda tinha mais nomes. E eles não faziam ideia de quantos.

XX

O céu da tarde estava opaco, nuvens espessas pairando pesadas sobre a cidade, como se o próprio dia se recusasse a seguir em frente.

Sasha Wong caminhava devagar pela entrada estreita da floricultura, as botas fazendo um som abafado sobre o piso de pedra antiga. As vitrines da loja já estavam fechadas, e o cheiro adocicado das flores misturava-se com o da terra molhada.

Ela segurava a bolsa de tricô contra o peito, o rosto pálido e abatido depois de horas no velório. A imagem do caixão de Jacob ainda gravada em sua mente, como se cada piscada pudesse projetar aquela cena de novo — o rosto jovem, inerte, e a última flor depositada sobre ele.

Ao chegar nos fundos, Sasha destrancou a porta de madeira gasta e entrou em sua casa alugada, simples, onde a floricultura terminava e o ateliê começava.

Tirou o casaco, deixando-o pendurado numa cadeira. O ar parecia mais pesado ali dentro.

De repente, o peito apertou. Uma dor familiar. Ela levou a mão à bolsa, tateando a bombinha de asma. Os pulmões pareceram buscar mais ar por um segundo antes que ela colocasse o inalador na boca, pressionando o dispositivo e sugando o ar medicado.

Suspirou.

Olhou ao redor. As telas inacabadas de seu ateliê a observavam de volta. Mas uma, em especial, atraía seus olhos — o retrato começado de Jacob. Os traços esboçados do rosto dele estavam lá, o olhar ainda sem vida, o contorno do sorriso que ela nunca conseguiu finalizar.

O pincel seco ainda repousava sobre a paleta ressecada de tinta.

Sasha caminhou até a tela e tentou retomar o trabalho. Mas a mão tremeu. Uma pincelada errada e o traço do rosto de Jacob se distorceu. Ela jogou o pincel de lado, um soluço ameaçando subir.

Foi então que sentiu uma rajada fria. Uma leve brisa entrou pela fresta da claraboia do teto, balançando uma tela branca encostada em um cavalete. Quando Sasha se virou para ver, esbarrou numa pilha de molduras encostadas.

Um movimento em falso e as estruturas de madeira começaram a tombar. Acertaram uma escada de metal, usada nos reparos de obras de seu pai, fazendo ela se inclinar para frente.

A escada iria acertá-la com força.

Ela se jogou para o lado no último instante, a escada caindo no chão em um barulho alto.

— Merda… — sussurrou, o coração martelando.

Ficou sentada no chão por um momento, tentando controlar a respiração, até que o som do interfone soou na sala de estar.

Sasha se levantou devagar, varrendo a franja do rosto e limpando as mãos sujas de poeira na calça jeans. Caminhou até o aparelho na parede, hesitando antes de apertar o botão.

A voz de Jamie saiu pelo alto-falante.

— Sasha… é o Jamie. Tô aqui com o pessoal. A gente precisa conversar. É importante.

Sasha ficou imóvel por um instante, o olhar voltando para a tela de Jacob e depois para o interfone. A lembrança da conversa com Jamie no ginásio lhe veio nítida.

Ele falando sobre sinais, sobre a Morte seguindo uma lista… e sobre Jacob estar nela.

Um calafrio percorreu sua espinha.

Aperou o botão, a voz mais baixa do que pretendia.

— Jamie… eu… não sei se é uma boa hora.

— Escuta, Sasha. Pode estar acontecendo de novo. E você pode estar em perigo. Por favor… abre pra gente.

Havia algo na voz dele — não desespero, mas um cansaço preocupado, como quem já perdeu mais do que podia suportar.

Sasha hesitou mais um instante antes de suspirar, apertando o botão de liberação.

— Tá bom. Entrem.

XX

Assim que abriu a porta, viu Jamie na frente, o rosto marcado pelas olheiras e a urgência nos olhos.

Atrás dele, uma mulher na casa dos quarenta e poucos anos. Os olhos entregaram que era a mãe dele, entrando com um casaco jeans claro.

— Sasha… — Jamie disse, sem esperar convite. — Tá tudo bem?

Ela hesitou, os olhos marejados, mas forçou um sorriso cansado.

— Na medida do possível. Entrem.

Ela viu que Ramon também havia vindo, dando um abraço leve nela com pêsames saindo de sua boca. Logo atrás, Ruby e Megan também entraram.

O grupo passou ara dentro da casa, parecendo mais um apartamento loft com teto alto e todos os cômodos convivendo em harmonia sem paredes internas, exceto o banheiro e o quarto de Sasha.

A tensão era densa, tão palpável quanto o cheiro de tinta fresca misturada ao de terra molhada que vinha de fora.

— Sasha, me diz… — Jamie começou, olhando para ela. — Você teve algum acidente hoje? Alguma coisa estranha?

Ela mordeu o lábio inferior, o peito apertando.

— Eu levei um susto agora há pouco. Uma escada quase caiu em cima de mim. Por pouco. — A voz dela tremeu. — Era pesado, ia me matar se eu não tivesse me jogado pro lado.

Os olhares se cruzaram e a tensão triplicou.

— Droga… — murmurou Kimberly, cerrando os punhos.

Sasha inspirou fundo, o olhar passando de um rosto para outro.

— Jamie… sou eu a próxima, não é?

O silêncio que seguiu foi espesso, cortado apenas pelo som da chuva fraca batendo no telhado. Jamie passou a mão pelos cabelos, nervoso.

— Eu… não tenho certeza. — Ele olhou para Ramon. — Na visão… você e o Ramon praticamente morrem juntos.

— Ótimo, — disse Ramon, erguendo as mãos com sarcasmo. — Quer dizer que ou eu ou a Sasha estamos ferrados. Ou os dois. Legal.

Kimberly lançou um olhar duro para ele.

— Ramon, isso não é hora pra piada.

Ele suspirou, levantando as mãos como quem se rende.

Ruby, que até então estava mexendo no celular, levantou os olhos e se adiantou, o tom de voz animado e ansioso.

— Ei, se é assim… a gente podia tentar aquilo que o Bludworth falou. A teoria do Servo da Morte.

O silêncio caiu de novo. Megan franziu a testa.

— Você só pode estar brincando. — Megan cruzou os braços. — Isso é insano. A gente nem sabe se isso funciona. E mesmo se funcionasse… significaria matar alguém.

— Funciona sim, — Ruby rebateu, a voz quase entusiasmada, o olhar vidrado. — Ele falou que todo mundo é servo da Morte sem perceber, só que se a gente fizer de propósito…

— Ruby, não. — Jamie cortou, firme. — Eu não vou deixar ninguém aqui virar assassino. Isso não é uma opção.

Ramon deu uma risada seca.

— A menina tá doida. Deve ser fã de filme slasher.

Ruby virou para ele, irritada.

— Melhor do que ficar aí parado esperando a Morte te pegar, seu babaca.

— CHEGA! — disse Kimberly, o tom ríspido. Ela virou-se para Sasha, que assistia tudo calada, visivelmente abalada. — Sasha, a teoria dela é… perigosa. Basicamente, é matar o próximo antes da Morte. A gente não vai fazer isso. O que podemos fazer é tentar tornar sua casa o mais segura possível. Sem riscos, sem nada que possa te machucar.

Sasha engoliu em seco, olhando ao redor.

— Kimberly… eu sou asmática. Se eu correr demais, ou se eu passar mal de novo… eu não vou durar. Eu conheço meu corpo. — Ela passou a mão pelos cabelos negros e lisos. — Vocês acham mesmo que vão conseguir proteger tudo aqui? Isso é uma casa velha, tem coisas de construção no meu ateliê.

Kimberly respirou fundo, sem responder.

Megan, mais contida, falou:

— Eu li seu livro, Kim. Tem um capítulo em que você tenta trancar os sobreviventes em um apartamento.... e uma mulher acabou sendo decapitada no elevador. — Ela olhou nos olhos de Kimberly. — Às vezes a gente não consegue impedir. Só atrasar.

Kimberly franziu o cenho, mas não respondeu.

— A gente pode tentar a Nova Vida. — Jamie disse, se aproximando de Sasha — Eu não sei se vai dar certo… mas vamos tentar. Eu vou fazer de tudo pra te proteger, Sasha. Nem que eu tenha que ficar aqui essa noite inteira.

Sasha o encarou, os olhos úmidos.

— Obrigada… — sussurrou.

Ruby, atrás, olhou aquilo com expressão fechada, mas não disse nada.



Notas finais
Eae, gente! Esse capítulo foi mais para dar destaque entre Megan e Jamie, além de dar um pouco sobre quem é o próximo, Sasha ou Ramon? . Espero que tenham curtido esse lance de ser Servo Da Morte. É uma coisa parecida com o que foi explicado no Premonição 5, mas aqui, decidi seguir por outra vertente. Em breve, essa teoria será posta a prova no próximo capítulo. Aguardem. Não teve música nesse capítulo kkk acho que esqueci. Mas na proxima terá.