PREMONIÇÃO - A Última Nota
8 Dança Roubada
Notas iniciais
A tarde já estava cedendo espaço para a noite, e uma fina garoa pinicava preguiçosa sobre a calçada irregular da antiga floricultura.
A luz pálida dos postes lutava para vencer a escuridão que avançava, pintando o cenário com tons de laranja e cinza. Do outro lado da rua, os cartazes coloridos do desfile de Ação de Graças tremulavam no vento frio, com imagens festivas de balões gigantes e crianças sorrindo — um contraste grotesco para quem sabia o que estava por vir.
Dentro da casa nos fundos, o ar era denso de poeira e tensão. Kimberly, de expressão focada, bloqueava as tomadas com fita adesiva. Ruby, inquieta, estava removendo objetos pesados e pontiagudos, resmungando baixinho a cada nova tarefa.
— Se a Morte quiser pegar a gente aqui… vai ser com almofadas, pelo visto. — murmurou, tirando um vaso pequeno de uma estante.
No ateliê, Sasha tentava recolher os restos do quadro que havia despencado mais cedo.
— Acho difícil ela fazer algo aqui. — falou a asiática.
Seus dedos estavam tremendo, arrastando sua escrivaninha para longe da janela larga e com vista para um poste enferrujado. Já estava imaginando aquilo despencar, invadir a janela e acertá-la.
Sasha se voltou para o outro lado do ateliê. A tela inacabada de Jacob Ulrick permaneceu no cavalete, o rosto dele quase completo, exceto pelos olhos, que ela ainda não conseguiu pintar.
Ela parou por um instante, respirando ofegante. Pegou o inalador do bolso e inalou com força, os olhos se fechando enquanto tentava afastar a dor e o vazio.
— Vai ficar tudo bem, vai ficar.
Na cozinha, Jamie ajeitava lanternas na bancada de madeira quando Megan entrou, o celular em mãos e a expressão carregada.
— James… dá uma olhada nisso. — a voz dela era baixa, quase um sussurro.
Ele se virou de imediato, atravessando a cozinha estreita e pegando o celular das mãos dela. Na tela, o perfil de Instagram do garoto platinado.
"@TheMichaelCross_"
As fotos eram um misto de bastidores de shows, caixas de som, fotos borradas de seu rosto, palcos meio montados… mas o que mais chamava a atenção eram as postagens confessionais.
Frases sobre recaídas, fotos em clínicas de reabilitação, e mensagens de desabafo nas legendas, como se gritasse no vazio de sua solidão.
Jamie sentiu o estômago se apertar.
A lembrança veio como um raio — a noite no celeiro, as luzes piscando, a multidão gritando, o cheiro de fumaça e madeira queimando. E Michael, passando rápido por ele, esbarrando no ombro e murmurando, com os olhos arregalados:
"Isso tudo vai desabar."
Jamie se encostou na bancada, a respiração travada.
— Merda…
Ele chamou:
— Ramon! Vem aqui!
O irmão apareceu, suado, provavelmente de mover móveis e pregar tábuas em janelas.
— Que foi agora, man? Mais teoria da conspiração?
Jamie mostrou a tela.
— Você reconhece esse cara? Ele tava no celeiro. Eu lembro dele. Você viu?
Ramon pegou o celular, encarou por alguns segundos.
— Sei lá, cara... muita gente trabalha comigo numa noite só. Bastidores de evento é uma loucura. Mas posso procurar nos meus contatos. Alguma pista de onde ele possa estar?
Megan mordeu o lábio.
— A gente acha que ele tá na lista. Ele tava lá. E se a Morte ainda quiser cobrar…
Jamie balançou a cabeça.
— Não vi ele na visão… mas isso não significa nada. A gente não sabe quantas variáveis essa merda mudou.
De repente, o celular de Ramon vibrou sobre a mesa. Natalie Lewis.
Ele bufou e atendeu, se afastando um pouco, mas o tom nervoso era audível mesmo de longe.
— Oi, amor… tô bem, calma. Eu sei. Tentei ligar, o necrotério que tava não tinha sinal…
Megan se aproximou mais de Jamie, que ainda encarava a tela do celular com a foto de Michael segurando uma garrafa d’água no backstage de algum show.
O olhar profundo dele significava algo mais intenso do que noites não dormidas.
— Esse cara… ele parece quebrado, sabe? Como se não esperasse mais nada da vida.
Jamie assentiu, pensativo.
— Gente assim tem menos medo da Morte. E isso me preocupa.
Ramon se virou, animado.
— Confirmado. Ele trabalha como técnico de som. Vai estar no desfile amanhã. Com a Natalie.
Jamie ficou rígido.
— Sério? Amanhã? Que horas?
— Ela disse no carro alegórico dos músicos, antes da queima de fogos.
Jamie trocou um olhar tenso com Megan.
— Se esse cara previu o acidente e escapou... ele deve estar na lista. Tem que ser avisado.
Ramon riu sem graça.
— Mano, relaxa. Ela vai me matar se eu não passar lá antes. E se for pra morrer, prefiro com estilo.
Jamie pegou as chaves da caminhonete de Kimberly e as girou nos dedos.
— Você não vai sozinho. Eu vou junto.
Ramon resmungou:
— Jay… qual é…
— Sem discussão. Eu não quero ficar com seu sangue nas mãos. Nem ver tua cabeça rolando na calçada.
Megan deu uma risada seca e completou:
— E convenhamos, Ramon… você sozinho só se mete em encrenca. Deixa eu ir também.
Ramon bufou, mas deu de ombros.
— Tá, tá. Mas eu vou pilotando minha moto.
Jamie ergueu a chave.
— Ok. Eu e Meg vamos de carro. E ponto.
Ramon sabia que não venceria aquela. Ele balançou a cabeça, sorrindo de canto.
— Vocês são péssimos pra minha reputação.
— Vão sair? — Kimberly disse, assim que o trio caminhou em direção à porta — Tem certeza?
— Ramon tem que resolver algumas coisas. — Jamie falou e antes que ela reclamasse, ele disse em tom suave — Nada vai dar errado! Eu vou cuidar dele.
Lá fora, os cartazes coloridos continuavam a tremular no vento gelado.
"Desfile de Ação de Graças — Amanhã, às 09:25h. Venha celebrar a vida!"
Jamie fixou o olhar naquele anúncio, sentindo um arrepio.
— Amanhã… ou a gente muda o destino, ou ele muda a gente.
Eles seguiram para a porta, o peso da noite caindo sobre todos.
XX
O entardecer tingiu o céu de tons alaranjados e púrpuras, enquanto o som distante de um trem ecoava pelas linhas de ferro próximas.
A velha caminhonete azul parou em frente ao pequeno prédio de tijolos escuros onde Ramon morava. A Shadow negra do irmão de Jamie estacionando mais adiante.
Jamie desceu primeiro, seguido de Megan, que pulou da porta do carona com um leve salto.
Havia algo no ar — uma tensão que nenhum deles soube explicar, mas todos sentiram.
Encostado em um poste na calçada, um homem os observava. Usava um terno cinza, a gravata frouxa e um cigarro equilibrado no canto da boca. Seus olhos eram pequenos e atentos, como os de um predador à espreita.
Megan notou o sujeito e franziu o cenho.
— Quem é aquele cara sinistro ali? — perguntou, ajeitando o cabelo atrás da orelha.
Jamie reconheceu de imediato. O estômago revirou.
— Detetive Dean Jenkis. Deve ser sobre o Steven… o acidente de hoje cedo.
Ramon e Jamie se aproximaram. O detetive deu um passo à frente, tirando o cigarro da boca e apertando os olhos contra a luz fraca do entardecer.
— Ramon. Jamie. — cumprimentou, seco, como se dissesse seus nomes só para registrá-los.
Ramon enrijeceu a mandíbula e cruzou os braços.
— Você tem autorização para ficar seguindo a gente aqui?
Antes que Dean respondesse, Natalie surgiu do outro lado da rua. Os cabelos negros com mechas azuis balançavam com o vento leve, e sua expressão denunciava impaciência.
Ela atravessou apressada e parou diante de Ramon, que automaticamente sorriu ao vê-la.
— Fiquei meia hora esperando com aquele cara nada agradável. — disse, lançando um olhar de desprezo na direção do detetive.
Ramon a puxou para perto e a beijou rapidamente.
— A gente se enrolou. Desculpa.
Dean não desviou o olhar.
Permaneceu ali, como uma sombra incômoda. Então se aproximou de Jamie.
— Onde você estava hoje de manhã? — perguntou, a voz baixa, mas carregada de suspeita.
Jamie piscou, confuso.
— Que conversa é essa? Por quê?
O detetive deu uma tragada longa no cigarro, soltando a fumaça pelo nariz.
— Você saiu da cidade com sua família. Achei… curioso. Principalmente considerando que três pessoas que você ajudou a escapar daquele celeiro estão morrendo, uma a uma.
Jamie sentiu o coração acelerar. As palavras pareciam pesar no ar.
— Você tá me investigando? — perguntou, tentando manter a voz firme.
— Ainda não. — Dean esboçou um sorriso frio. — Mas no seu lugar eu acharia estranho. Bem estranho.
Megan deu um passo à frente, encarando o detetive.
— O Jamie não tem nada a ver com isso.
O sorriso de Dean se alargou, carregado de ironia. Ele tragou pela última vez e jogou o cigarro na calçada.
— Vou ficar de olho em vocês.
Virou-se e caminhou pela rua, desaparecendo na esquina sem dizer mais nada.
Ramon bufou.
— Não gosto desse cara.
Natalie pousou a mão no braço dele, tentando aliviar a tensão.
— Deixa isso pra lá. Vem, vamos subir.
XX
O apartamento de Ramon estava mergulhado em uma penumbra azulada, cortada apenas pelo brilho trêmulo do aquário na sala.
As bolhas subiam em ritmo constante, mas o ar parecia pesado, quase sufocante. O som distante de um trem passando pela linha férrea próxima ecoava pelos vidros das janelas fechadas.
Megan estava na cozinha, mexendo distraída em uma panela no fogão. O cheiro forte de alho refogado tomava conta do espaço, mas ninguém parecia realmente interessado na comida.
Ramon ajoelhava-se diante do aquário, jogando pequenas porções de ração na água. Os peixes se agitavam, mas seus olhos estavam distantes, presos no próprio reflexo.
Ele não percebeu o fio elétrico desgastado, exposto atrás da estrutura de vidro. Uma pequena faísca surgiu ali — rápida, mas suficiente para iluminar o canto da sala.
Jamie, no sofá, notou o brilho e o rangido abafado.
— Ramon! Cuidado! — gritou, levantando-se de um pulo.
Ramon moveu a mão, prestes a tocar a lateral metálica do aquário. Outra faísca e todo o metal ficou energizado. Por um triz. Ele recuou, respirando fundo, o coração disparado.
— Porra… — sussurrou, passando a mão pelo rosto suado.
Jamie foi até ele, preocupado.
— Cara, você quase virou carvão agora.
Ramon tentou rir, mas o som saiu forçado.
— Relaxa. Tô vivo. Até onde eu saiba.
Natalie, sentada no sofá com as pernas cruzadas e os braços sobre o peito, olhava para ele com um misto de reprovação e alívio.
— Um aviso desses e você ainda quer mexer com esse aquário? Toma juízo. Aliás... alguma notícia da Sasha?
— Nada. A Kim prometeu que ligaria se acontecesse algo. — respondeu Ramon, passando a mão pelo rosto.
Megan, ainda de costas, comentou:
— Deve ser um inferno pra Sasha. Ficar achando que a qualquer segundo… pronto, tudo pode acabar.
Um silêncio pesado caiu sobre a sala. Até as bolhas do aquário pareciam mais lentas.
Natalie quebrou a tensão, a voz cortante.
— E até quando a gente vai proteger ela desse jeito? Vocês sabem que isso não vai durar pra sempre.
Ramon bufou.
— Minha mãe conseguiu.
Jamie ignorou, o olhar perdido.
— Talvez… talvez ela devesse tentar o método de renascimento. Como eu fiz. Mas Sasha… ela é diferente. É asmática, é mais frágil… e anda cada vez mais paranoica.
Ramon se levantou e pegou uma cerveja da geladeira.
— Por isso a gente precisa de tempo. Precisamos achar o Michael. E é aí que você entra, Nat.
Natalie revirou os olhos.
— Ótimo. Porque eu não tenho mais nada pra fazer, né?
— Vai me dizer que não?
Natalie respirou fundo e apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Aliás… aproveitando... — disse, o tom mais sério — amanhã eu vou trabalhar no desfile. Vou tocar teclado com a banda da cidade, os Condado Blues, durante a apresentação.
Ramon, que bebeu um gole de cerveja, parou de repente.
— Como assim? E os Wild Strangers? Vai trocar a nossa banda por esses caras?
Natalie deu de ombros, impaciente.
— Dinheiro não nasce em árvore, Ramon. E depois de tudo que eu ouvi hoje de vocês… eu preciso ocupar a cabeça. Eu não quero passar as próximas horas imaginando qual de nós vai morrer depois de Sasha.
Jamie ficou em silêncio. Megan, da cozinha, olhou por cima do ombro, preocupada.
— E Michael? — perguntou Natalie, voltando ao assunto. — Vocês sabem que ele é instável. A maioria das vezes que eu vi aquele cara ele tava chapado ou cercado de gente perigosa. Falar com ele nunca é uma boa ideia.
Jamie se inclinou pra frente.
— Mesmo assim… a gente precisa dele.
Ramon assentiu.
— Ele viu o que a gente viu. Tá tão ferrado quanto a gente.
Megan trouxe uma bandeja com torradas e um molho quente.
— Aqui, pra ver se isso acalma vocês — disse, forçando um sorriso.
Natalie pegou uma torrada, deu uma mordida e, antes de engolir, falou:
— Eu posso tentar achar ele amanhã… antes do desfile. Mas você — apontou para Ramon — fica longe desse aquário. Se o destino tá de olho, é aí que ele vai começar.
Ramon sorriu de canto, se aproximou e beijou-a de leve no pescoço.
— Depois do desfile, quero você só pra mim.
As mãos deles desceram até o quadril dela, seus dedos afastando um pouco o jeans da pele dela. Natalie riu, empurrando-o.
Jamie resmungou, jogando a cabeça contra o encosto do sofá.
— Vocês dois deviam se trancar num quarto logo e poupar a gente disso.
O riso foi breve, forçado. A tensão voltou a preencher a sala, como se o perigo ainda não estivesse acabado.
Estava esperando... pela melhor oportunidade. E isso era óbvio.
XX
Kimberly terminava de limpar a mesa do café da manhã enquanto o noticiário local comentava sobre o desfile de Ação de Graças que já tomava conta do centro.
A janela da cozinha estava entreaberta, e o som abafado das bandas de fanfarra e dos ensaios de microfone se misturava ao tilintar da louça na pia.
Ela enxaguava os pratos do café da manhã com movimentos automáticos, a mente longe, pensando em mil formas diferentes de um acidente acontecer ali.
— Calma, Kim. — falou ela, baixo — Foi assim que você perdeu seus filhos.
Secou as mãos no pano de prato e pegou o celular. Várias mensagens trocadas com Jamie pela madrugada. Ela hesitou, sabendo que estava exagerando — mas não conseguia se conter.
Kimberly: "Bom dia. Tudo bem aí, meu filho?"
A resposta veio em menos de um minuto.
Jamie: "Tudo sim. Mãe… vou no desfile. Preciso achar o Michael. Se ele tá na lista, quero saber antes."
Kimberly mordeu o lábio inferior, o estômago revirando.
Kimberly: "Cuidado. Os sinais… eles estão por todo lado."
Ela foi até a prateleira e preparou seu chá de camomila com mel, tentando manter as mãos firmes. O cheiro quente e adocicado não foi suficiente para afugentar a sensação sufocante no peito.
XX
O ateliê de Sasha estava tomado pelo cheiro de solvente e tinta fresca.
A manhã clara entrava por entre as cortinas manchadas de cor, e pequenas partículas de poeira dançavam no ar.
Sasha, com os cabelos presos num coque desalinhado, equilibrava-se num banco alto enquanto organizava algumas tintas e frascos de verniz na prateleira superior.
Ruby observava de baixo, fingindo organizar pincéis e panos, mas seus olhos não desgrudavam de Sasha — e nem das peças pesadas e perigosas espalhadas pelo cômodo.
— Você sabe que eu nunca vi ninguém tão talentosa como você? — disse Ruby, sua voz umedecida por uma doçura falsa.
Sasha sorriu, tocada.
— Obrigada… eu ia fazer uma surpresa para o... Jacob. Antes do acidente no hóquei.
A menção ao antigo namorado, morto dois dias antes, fez a alegria esmorecer no rosto de Sasha. Ela baixou os olhos, ajeitando os potes de tinta.
Ruby se aproximou, pousando uma mão no ombro dela.
— Ele teria amado.
Por um instante, o ar ficou denso. A poeira flutuante pareceu se mover mais lento, e Ruby deixou a mão deslizar, como se confortasse… mas na verdade calculava o momento certo.
Ela não conseguiu dormir à noite com a voz de Bludworth em sua mente. A teoria dele poderia dar certo. Ser um Servo da Morte.
Foi então que Ruby esbarrou discretamente numa bancada, derrubando uma estátua de gesso de um cupido que se erguia até a cintura da ruiva.
A peça tombou para trás, erguendo sua flecha de amor para cima, caindo em cima de um copo d'água. O líquido dentro se derramou no ar assim que o copo caiu, espatifando no chão.
— Que isso?
— Nada. — Ruby disse — Derrubei sem querer um copo. Já vou catar.
Sasha tentou se virar, mas o banquinho tremeu com o deslocamento de peso para um dos lados. A garota retornou ao seu ponto central por segurança.
Ruby girou seus olhos de volta ao cupido. Ele estava escorado sobre um cavalete vazio, próximo da beirada da escrivaninha e poucos metros de Sasha.
"Oque será que vai acontecer?", pensou a ruiva, atenta e ansiando que a teoria desse certo.
A estátua escorregou e caiu no chão, rolando até chegar aos pés do baquinho e com sua flecha apontada para cima. A queda acabou esbarrando no cavalete e fez as pernas do tripé se desequilibrarem. Ruby viu ele cair para o lado, em cima de uma caixa com tintas velhas e empoeiradas.
A confusão levantou uma nuvem de poeira espessa, e Sasha tossiu violentamente.
— Minha… minha bombinha… — ela arfou, os olhos arregalados.
Ruby ficou parada, observando.
— Tá tudo bem. Calma.
Mas ela não se mexeu para ajudar.
Sasha esperou para ela pegar, virada de costas para Ruby, achando que ela estava pegando seu precioso produto.
A tosse se intensificou e seus pulmões buscaram mais lufadas de ar.
— Ruby?
Ela tentou descer do banco, as pernas trêmulas pela falta de ar. O ambiente pareceu mais sufocante, a poeira densa, e cada segundo fazia a crise de asma piorar.
— A bombinha...
Sasha se virou e viu um sorriso estranho na face da garota que estava alguns metros dela. De braços cruzados e olhos profundamente estranhos.
Quando tentou descer apressada, a perna de Sasha ficou fora do degrau, e ela perdeu o equilíbrio.
No chão, seu pé pousou com força na base de gesso do cupido, o quebrando e fazendo ela cair de bruços sobre a estátua.
Sasha despencou do banco, e ao cair, o rosto foi de encontro a flecha pontiaguda. Ela gritou, mas foi silenciada assim que a flecha da estátua perfurou o céu de sua boca.
O esguicho de sangue explodiu no ar assim que a flecha saiu atrás da sua nuca, respingando no rosto de Ruby. Ela gritou... assustada e fascinada.
Uma brisa quente atravessou o ateliê, carregando a poeira dispersa. Ruby respirou fundo, a adrenalina misturada ao êxtase do momento.
A teoria funcionara. A Morte agiu, e ela estava livre.
Kimberly, no cômodo ao lado, ouviu o grito e a queda.
— Sasha? Ruby?
Subiu apressada e, ao entrar no ateliê, deparou-se com a cena: o corpo inerte de Sasha empalado, o sangue cobrindo tudo, e Ruby, com o rosto sujo e um sorriso sombrio nos lábios.
— Eu consegui, Kim. Eu tô livre.
Kimberly sentiu um calafrio.
— Meu Deus… o que você fez?
Ruby empurrou uma luminária que estava em cima de uma escrivaninha contra o chão. Kimberly reparou que havia estilhaços de um copo no solo de madeira e uma poça d'água que se formava até onde os pés dela estavam.
Kimberly saberia o que aquilo se tratava e deu um salto para trás, onde a corrente elétrica avançou como um raio até onde deveriam estar as solas de suas botas.
Foi por um triz.
— Imagina se eu conseguir te matar? — riu Ruby — A Morte iria ficar agradecida comigo.
Kimberly correu para fora, trêmula, passando pela casa até a floricultura. Ela fechou a porta com força, trancando ela com a chave que estava na porta.
— Que merda... então a teoria é real?
XX
Kimberly saiu da casa em disparada, o coração martelando no peito, os dedos ainda trêmulos.
O ar frio da manhã cortava seu rosto enquanto ela desceu a rua, sentindo-se observada a cada passo.
A multidão do desfile no centro começava a se reunir mais adiante, os sons de bandas e vendedores ambulantes misturando-se ao eco de suas próprias batidas cardíacas.
Ela pegou o celular e ligou para Jamie, os dedos suados deslizando pela tela. A chamada caiu na caixa postal.
— Droga, Jamie… atende, pelo amor de Deus.
Enquanto caminhava depressa pela calçada, notou pequenos sinais estranhos à sua volta. Um balão de hélio escapando das mãos de uma criança, subindo lentamente para depois estourar contra um fio de alta tensão.
Um carro freando bruscamente do outro lado da rua, quase atingindo um grupo de pessoas. Uma placa de trânsito bamboleando de maneira anormal, ameaçando cair.
Kimberly engoliu em seco. As palavras de Bludworth, o agente funerário, ecoaram em sua cabeça.
"A Morte ajustou os planos. Aperfeiçoou sua lista. Agora não há mais brechas."
Foi então que um carro em alta velocidade, distraído pela multidão e pelo barulho do desfile, virou a esquina e avançou direto na direção de Kimberly.
Por puro reflexo, ela se jogou para o lado, rolando sobre a calçada, o carro passando a centímetros de seu corpo antes do motorista xingar ela e seguir seu rumo.
Kimberly ficou ofegante no chão, as roupas encharcadas, mas viva.
Ela se levantou com dificuldade e olhou em volta. E foi nesse instante que percebeu… Ruby estava ali, do outro lado da avenida, misturada à multidão, os cabelos bagunçados, o rosto meio manchado de sangue seco, os olhos fixos nela.
Ruby sorriu.
Provavelmente ela havia saído pela portas dos fundos, já que da frente ela tinha trancado. A garota seguiu entre a multidão, sorrateira, e sumiu.
Kimberly sentiu o gelo percorrer sua espinha. Pegou o celular novamente, discando para Ramon.
Nada.Tentou de novo para Jamie.
Nada.
O desfile abafava qualquer vibração ou toque. Sem perder mais tempo, Kimberly começou a correr, desviando das pessoas, das barraquinhas e carros alegóricos.
Ela sabia que Ruby não queria só ela.
— Ramon... ela está atrás de Ramon!
Jamie havia dito por mensagem que eles iriam estar ali no desfile. Em alguém lugar da Avenida Principal, eles corriam perigo.
XX
O clima na área reservada atrás do palco estava carregado de uma energia estranha.
Mesmo com o burburinho alegre do desfile de Dia de Ação de Graças no centro da cidade, algo parecia fora de lugar ali.
O cheiro de churrasqueira, graxa e fritura pairava pesado no ar, misturado ao som abafado de instrumentos sendo afinados.
Jamie conseguiu estacionar em uma brecha de veículos, onde Ramon saltou para fora e ajudou Natalie a sair com sua case do teclado em mãos.
Jamie se aproximou de Megan assim que saíram do carro, seus olhos tensos a encaravam.
— Escuta… você não precisa ficar. Pode ir pra casa, trocar de roupa pro campus… quando eu resolver essa parada da Nova Vida, eu te encontro.
Megan o encarou, firme. Ela estava radiante com suas mechas soltas e uma regata branca com uma blusa jeans amarrada na cintura.
— Jamie, eu vou junto. Não vou te deixar sozinho nesse circo de horrores.
Ela o beijou rápido, e Jamie retribuiu, mas seus olhos logo se desviaram para a rua lateral.
Ramon franziu a testa. Também vendo o que o irmão reparou.
— Aquele carro. O mesmo de antes. Tá seguindo a gente.
Jamie olhou e reconheceu de imediato a silhueta de Dean Jenkis, parado encostado no sedã preto, tragando um cigarro como se fizesse parte da paisagem. Os óculos espelhados escondiam os olhos, mas a cabeça inclinada deixava claro que ele observava.
— Filho da p... — Jamie começou a avançar.
Natalie segurou o braço dele.
— Não agora. Michael tá por aqui. Ele é mais importante que esse maldito detetive.
Jamie respirou fundo, os dedos cerrando e relaxando.
Seguiram em frente. O palco ficava no final de uma ladeira com asfalto rachado, onde uma praça arboreada e com espaço suficiente para abrigar um multidão os aguardava.
Passaram por um carrinho de cachorro-quente que soltava vapor e gordura no ar. Ele estava em uma das esquinas da Avenida Principal, quase no topo da ladeira e com um encalço colocado em um dos pneus para que nada de errado ocorresse.
— Se der tempo, eu pego dois. — Ramon tentou descontrair.
— Depois que me ajudar a levar o teclado. — Natalie rebateu, sem humor, arrastando o pesado case preto até o final da ladeira.
Na frente deles, o palco improvisado balançava sutilmente sob o peso dos técnicos e caixas de som. Uma viga de treliça metálica estava sendo parafusada atrás das cortinas por dois homens com camisas pretas, escrito: EQUIPE TÉCNICA.
Natalie começou a montar seus cabos, enquanto Jamie e Megan ficaram do lado de fora da área fechada, esperando por Michael.
Foi quando, em meio ao caos, uma criança esbarrou em Jamie com uma caixa de equipamentos.
— Ei, porra, cuidado!
O celular de Jamie voou das mãos e caiu no chão de concreto. A tela rachou com um estalo seco. Quando ele o pegou, o aparelho travava e reiniciava.
Na tela piscava uma ligação perdida de Kimberly.
— Ai, que droga. — Megan disse, vendo o estrago — Essas crianças de hoje em dia...
Jamie tentava ligar seu telefone de volta, quando viu entre um grupo de pessoas fantasiadas de colonos e churrasqueiras lançando chamas ardentes, um carro passando com uma antiga música em seu rádio.
"The only thing I feel is pain
Caused by absence of you
Suspense is controlling my mind"
Jamie reconheceu a música, sendo uma em que costumava ouvir sendo tocada na banda do irmão. "Stolen Dance".
Muitos espetos de carne. Balões voando e risadas demais. Jamie sabia que algo estava muito perfeito e que isso iria terminar em tragédia.
Ramon apareceu apressado.
— Jamie, vem! Estão fechando pra galera de fora.
Jamie hesitou. E nesse instante, seus olhos captaram a silhueta de Michael — os cabelos platinados desgrenhados, o moletom surrado e o jeito largado — mandando para os caras que firmavam a viga se apressarem.
Jamie trocou de lugar com Ramon, dando tapinhas nas costas dele como forma de tranquilidade. Ele viu Ramon sorrindo, mas sentiu que algo ruim estava prestes a acontecer.
— O que está esperando? — disse ele — O cara está ali.
Jamie assentiu e seguiu em frente. Ele começou a subir o palco, assim como fez dias atrás. Passou por Natalie, ocupada com plugges e fios se contorcendo perto de seus pés como serpentes.
Michael estava de costas. Tão perto, mas tão longe.
Uma brisa cortante soprou.
— Ei! CUIDADO!
Ele se virou. Jamie viu o carrinho de cachorro-quente se soltando, deslizando desgovernado ladeira abaixo. Pessoas vestidas de colono saindo da frente apressadas, vendo o pequeno veículo ir na direção de Ramon.
— RAMON! — Jamie gritou, o som abafado pela música.
Megan reagiu rápido, agarrando Ramon pelo colarinho da jaqueta de couro e puxando-o para o lado no último segundo, antes que o carrinho passasse onde ele estava.
O carrinho bateu contra as grades de contenção, se abrindo e entortando com o impacto.
Uma das grades voou e acertou o adaptador de tomadas em que a maioria dos cabos dos instrumentos estava conectado.
— NATY! — berrou Jamie.
A grade torceu pelo menos três cabos, puxando os fios com força. Lá embaixo, o carrinho avançou contra a beirada do palco, virando um recipiente de óleo quente, que se espalhou sobre sobre a fiação.
Um dos cabos de força faiscou, o fogo lambeu o chão e subiu pelo trilho lateral até onde Natalie ajustava seu teclado.
Ela olhou para baixo no instante em que a corrente elétrica percorreu os fios expostos e o pedal, causando uma descarga poderosa.
— NÃO!
Natalie arqueou o corpo, os olhos arregalados, o grito preso na garganta enquanto a eletricidade percorreu sobre ela. O teclado explodiu num estalo surdo, fazendo Michael puxar Jamie para longe da cena.
A viga de metal na parte superior do palco se desprendeu, os cabos de tensão cedendo, e a barra caiu como um machado vindo do céu.
Natalie, que estava agonizando com todas as faíscas explodindo em seu corpo, nem teve tempo de olhar para cima.
A viga a atingiu na cabeça com força brutal, o metal afundando o crânio num estalo surdo. Natalie caiu no chão já sem vida e espalhando sua massa encefálica para fora da abertura de sua cabeça.
O cheiro de carne queimada e ozônio tomou o ambiente.
Michael surgiu do meio da fumaça e dos curiosos, encarando Jamie com olhos surpresos e de puro horror.
Jamie avançou.
— Michael… caralho, onde você esteve?! Você tá na lista. A gente precisa descobrir o que fazer!
Michael passou a mão pelos cabelos, evitando o olhar.
— Eu… achei que se sumisse, ficava longe dessa merda.
— Funcionou? Porque não parece, cara! Natalie tá morta! E você é o próximo se a gente não der um jeito!
Michael hesitou, olhando para os lados como quem buscava uma rota de fuga.
— Eu preciso cair fora.
E então, Michael correu e Jamie foi atrás.
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