Notas iniciais
Fala, pessoal! Como estão? Ultimamente tenho postado um capítulo por dia e isso está me dando gás até chegar ao final dele! Esse capítulo focará em Jacob e uma personagem bem conhecida da franquia 👀 Boa leitura.

A fina garoa estava descendo sobre a cidade desde o início daquela tarde, pintando as ruas com tons acinzentados e frios.

O asfalto molhado refletiu as luzes amareladas dos postes e das janelas da universidade, dando ao campus um aspecto quase fantasmagórico.

Ramon conduziu a moto por entre as ruas com alguns estudantes caminhando com seus guarda-chuvas, onde Jamie agarrava em sua cintura, o capacete mal protegendo-o da chuva gelada que insistia em cair.

Cada curva que faziam parecia mais lenta, como se o tempo se arrastasse naquela tentativa desesperada de escapar do inevitável.

Jamie olhava para os prédios passando enquanto a moto avançava, sentindo o peso crescente em seu peito. Ele sabia o que aquilo significava. Jacob Ulrick era o próximo da lista. E se não o encontrassem a tempo…

Ramon estacionou a moto perto do bloco de dormitórios, protegido por um toldo esverdeado. O campus estava silencioso demais para aquela hora do dia.

— Vai lá. — disse Ramon, tirando o capacete e olhando para o céu carregado. — Procura ele. Eu fico por aqui, se ele aparecer.

Jamie assentiu e correu em direção ao prédio.

O corredor estava iluminado por uma luz opaca, e algumas vozes abafadas vinham de quartos distantes. Ele subiu os degraus rapidamente, o tênis encharcado chiando contra o piso.

Chegou ao 23B e bateu. Nenhuma resposta.

Giro da maçaneta. Destrancada.

O quarto de Jacob estava vazio. Uma blusa de botões jogada sobre a cadeira. A cama desarrumada. Cadernos abertos sobre a mesa. A janela entreaberta deixava o vento frio entrar, fazendo a cortina tremular.

Um despertador ao lado da cama estava indicando 13:13 sobre a mesa.

Um calafrio percorreu suas costas. Jamie xingou em voz baixa e saiu de lá às pressas.

Ao alcançar o térreo, Ramon já o esperava do lado de fora, embaixo do toldo.

— Nada? — perguntou Ramon, cruzando os braços.

— Ele não tá lá. E se a gente tentasse ir até a casa deles? Acho que fica no Bairro Eastwood.

Jamie observou as janelas do prédio de dormitórios com o peito apertado, a frustração evidente no olhar.

Foi então que uma voz suave, meio trêmula, os chamou.

— Corman?

Ambos se viraram.

Megan se aproximava pela calçada molhada, o capuz do casaco cinzento sobre a cabeça, onde os cabelos castanho-escuros desciam em uma trança. O olhar preso em uma preocupação velada.

Jamie sentiu um leve conforto em vê-la. Megan sempre fora extrovertida, mas desde o acidente no celeiro, parecia carregar o mundo nas costas.

Ela parou diante deles, abraçando os próprios braços para se proteger da garoa.

— Eu… — começou, a voz suave — Só queria dizer que… sinto muito por não ter ido hoje de manhã. No velório do Mike.

Jamie suspirou, sorrindo:

— Megan, não precisa se explicar. Eu sei como isso te afeta.

Ela assentiu. Estava mantendo um ar firme, mas ele sabia que por dentro as coisas não eram exatamente assim também.

— Eu tentei, sabe? Cheguei até a porta da capela… mas… — Megan fechou os olhos um instante. — Depois que perdi meu pai… velórios são como… facas no peito. Não consigo respirar.

Jamie se aproximou, colocando a mão no ombro dela com cuidado.

Ele sabia como era difícil. Megan tinha doze anos quando o pai dela sofreu aquele acidente de carro.

Jamie e ela estudavam na mesma escola. Lembrava da Megan sentada sozinha na calçada no dia do enterro, com o olhar vazio e os olhos inchados.

Ele tinha tentado ficar ao lado dela naquela época, mas certas dores ninguém consegue dividir.

— Eu lembro. — disse Jamie, com a voz baixa — Eu tava lá naquele dia. Você não precisa passar por isso de novo.

Os olhos de Megan brilharam, e por um momento o peso de tudo pareceu mais suportável. Sem pensar muito, Jamie a puxou para um abraço apertado.

Ela correspondeu, escondendo o rosto contra o peito dele.

Ramon, do outro lado, cruzou os braços e observou com um leve sorriso de canto de boca. Depois de um instante, Megan se afastou um pouco, limpando os olhos.

— Obrigada, cara.

— Ei. — ele disse, tentando aliviar o clima — Agora, só preciso saber de uma coisa: você sabe onde o Jacob tá?

Ela assentiu, respirando fundo.

— Tá treinando com o time de hóquei. Na arena do centro. O técnico chamou geral pra um último treino, antes do jogo de amanhã. Vi ele saindo tem uns quarenta minutos, acho.

Jamie soltou o ar em alívio.

— Valeu, Meg. Você me salvou.

Megan tentou sorrir, e Jamie fez um carinho rápido no rosto dela antes de se virar.

Ramon já estava montado na Shadow preta, batendo levemente com os dedos no guidão. Quando o irmão se aproximou, Ramon lançou:

— Eu gostei dela.

Jamie bufou, colocando o capacete.

— Cala a boca. Somos só amigos.

Ramon deu um sorriso debochado.

— Ah, claro. Só amigos. Por isso esse abracinho aí no meio da chuva, só faltou a música romântica.

Jamie subiu na garupa, dando uma risada baixa e falando:

— Acho que ela também tá afim.

— O amor está no ar, hein?

Ramon deu partida na moto, o motor grave cortando o silêncio úmido do campus.

Antes de partir, Jamie olhou por cima do ombro. Megan ainda estava lá, parada sob a garoa, os olhos fixos neles. Ele acenou uma última vez.

A moto arrancou, desaparecendo pelo estacionamento encharcado, deixando para trás a garota e o cheiro de chuva e saudade no ar.

XX

O som afiado das lâminas dos patins ecoavam no velho ginásio, riscando o gelo como navalhas. O emblema "RAPOSAS DE FOGO" no peito de cada jogador se aquecendo antes de iniciar o treino.

Jacob Ulrick descansava encostado na murada, o uniforme azul-escuro aberto no peito. Gotas de suor misturavam-se ao frio cortante do ambiente.

Ele abriu uma garrafa d'água, bebeu longos goles e, ao baixar o braço, parte do líquido escorreu, respingando sobre o gelo liso, criando uma discreta poça junto à base da murada.

Sasha Wong se aproximou pela lateral da pista, com as bochechas rosadas e o olhar preocupado. Estava trazendo a sua bolsa no ombro, sem perceber que o zíper estava levemente aberto.

Jacob a notou e sorriu.

— E aí, coisinha linda, veio ver o rei fazer história? — debochou.

Sasha rolou os olhos e pegou a garrafa das mãos dele.

— Não sei se devia… — ela murmurou, bebendo um gole pequeno. — Aquele holofote… — apontou discretamente para o alto — Está brilhando mais que os outros, né? Isso não parece certo.

Jacob olhou e deu de ombros, rindo.

— Pff… Vai ver é Deus querendo iluminar o meu talento. — brincou, a voz carregada daquele humor ácido habitual.

Ela mordeu o lábio inferior, sem achar graça. Jacob percebeu e passou o braço ao redor da cintura dela.

— Relaxa, Wong… depois daqui, a gente dá um pulo naquele lugar nosso na trilha. Só nós dois, as estrelas e… — ele a beijou no canto da boca, sussurrando — ....o que mais você quiser.

Sasha se permitiu sorrir, apesar do frio na espinha. Ela amava Jacob acima de tudo e sabia que por baixo de todo aquele sarcasmo, tinha um cara amável e protetor.

Ela queria protegê-lo da sensação de algo pairando no ar como um urubu, mas Jacob... era Jacob e nada iria impedir ele de fazer o que quisesse.

Soltou-se devagar dele, o abraço apertando a beirada da bolsa dela contra o corpo e fazendo a bombinha de ar sair para fora.

O leve tilintar da bombinha contra o chão foi abafado pelos berros de vitória de alguém fazendo um ponto.

— Eu… eu vou ali. Me chama se for sair, tá?

Ele piscou.

— Sempre.

Sasha se afastou em direção às arquibancadas vazias, sem notar a bombinha de ar oculta embaixo da primeira fileira de cadeiras.


XX

Do lado de fora, Ramon Corman pilotava sua Shadow preta, com Jamie na garupa.

A moto ronronava pela lateral do ginásio. Jamie mantinha o olhar atento, tentando achar qualquer perigo iminente.

Ele notou um técnico em uma escada mexendo apressado nas luzes externas, as mãos nervosas trocando cabos enquanto faíscas discretas escapavam de um conector.

— Ramon… — murmurou. — Tá aqui.

O irmão bufou.

— Merda… de novo?

Desceram da moto, e o zumbido das luzes vindo de dentro do ginásio fez Jamie estremecer.

XX

Lá dentro, Jacob já estava de volta à pista. Os jogadores patinavam em círculos, rindo e gritando provocações. O eco dos tacos no gelo misturava-se ao barulho incômodo das lâmpadas zumbindo.

O holofote citado por Sasha estava com um defeito na potência de sua iluminação.

Os cabos ao redor do suporte metálico tremulavam discretamente, a cobertura plástica parcialmente derretida. O calor ali era maior que no restante do ambiente e isso só aumentava discretamente.

Jacob avançava sobre os patins logo abaixo, rindo e se divertindo.

— Valendo, otários! Quem fizer o último gol paga as cervejas!

Os cabos começaram a se sobreaquecer e sua superfície quente enfraqueceu sua ligação com o holofote em um estalido baixo.

Avançou sobre o disco com a habilidade que mantinha sua reputação intacta, girando sobre os patins e batendo com força. O disco deslizou pelo gelo, voou e acertou a trave com um estalo metálico.

Os colegas gritavam, mas Jacob patinava de costas, fazendo piada.

— Viu, molecada? Esse gelo é meu!

Jamie e Ramon atravessavam a porta lateral no mesmo instante. Jamie xingou baixo ao ver o técnico do lado de fora ainda mexendo no painel.

— Não… não… — sussurrou ele.

Foi quando um dos colegas disparou o disco, que voou baixo, veloz, e acertou Jacob em cheio na panturrilha. A dor irradiou pela sua perna.

— MERDA!

Ele levou sua mão livre até a panturrilha, mas não reparou no seu rival se aproximando até sentir a colisão jogá-lo no chão.

A poça d'água sob a murada estava ali. Jacob escorregou sobre ela ao tentar se levantar.

O holofote brilhou mais forte e de repente, explodiu em faíscas, lançando cacos de vidro para os jogadores abaixo.

Um cabo derretido cedeu.

A descarga elétrica desceu como um chicote de luz. Faíscas estouraram no ar, o zumbido se transformou num estalo seco.

Jacob estava tombado na água que ele mesmo derramou minutos antes. Jamie estava no topo da arquibancada quando viu a tragédia acontecendo.

— NÃO!

Os jogadores que estavam na rota de colisão, deslizaram para longe, vendo o cabo tocando a murada de plástico e estalando o ar com eletricidade. Sasha, no alto da arquibancada, gritou:

— JACOB!

Jacob se moveu no último segundo, rolando para longe. A água fervilhou onde ele estava. A descarga estalou com um zumbido, parecendo raivosa por perder seu alvo, antes de cessar.

O ginásio inteiro cheirava a fio queimado. Jamie e Ramon correram escada abaixo, observando com ansiedade Jacob se sentando no gelo, tossindo, e ergueu o polegar.

— Relaxem! Só mais um susto nesse lugar fodido!

Jamie se aliviou em vê-lo vivo. Ele chegou até a lateral da quadra, pensando que Jacob havia enganado a Morte outra vez, mas o número 13 estampado na camiseta dele o chamou atenção.

As coisas não tinham acabado e Jamie sabia disso.


XX

O cheiro de eletricidade queimada ainda pairava no ar do ginásio municipal de Hope Hills.

A área onde o cabo de energia havia caído estava isolada com cones laranja e fita amarela, e dois técnicos corriam para revisar a fiação. Um fino rastro de queimado estava aonde o cabo deslizou, junto com o eco dos patins no gelo e a respiração pesada dos jogadores que insistiam em permanecer na pista.

Jacob Ulrick estava escorado na beirada da murada baixa e de metal, com o uniforme suado aberto no peito e o taco pendurado no ombro.

— Deixa eu ver se eu entendi. — falou ele — A Morte está atrás de mim? É isso?

O sorriso debochado ainda estampava o rosto bonito, como se nada pudesse atingi-lo. Jamie e Ramon estavam sentados na primeira fileira vazia, vendo o sujeito que havia acabado de escapar de um acidente fatal, rindo da preocupação deles na sua frente.

Jamie olhava para o holofote estilhaçado no teto, para os fios mal presos, para cada detalhe que poderia ser o próximo a dar errado. Aquilo fez seu estômago revirar.

Ele era conhecido daquela sensação. Era a mesma da noite no celeiro. O mesmo ar pesado, o mesmo prenúncio.

Jamie estalou a língua e se levantou, indo até o garoto loiro.

— Eu sinceramente não sei como você ainda dúvida depois do acabou de passar.

Jacob bufou.

— Se isso fosse verdade eu já estaria morto, mas vejam só isso! — zombou, girando no gelo e voltando a se escorar na murada. — Eu sou invencível.

Jamie se aproximou, sério.

— Não é piada, Jacob. Era pra você ter morrido naquela descarga. Igual ao Mike no celeiro… igual a todo mundo que estava lá naquela noite. Eu vi a ordem. A Morte tá seguindo a gente.

Sasha, que até aquele momento observava tudo com cautela, se pronunciou:

— Eu acho que devemos ouvir eles.

— Ei, baixinha. — ele falou, tentando acalmá-la — Eu estou bem. Não fique se enchendo de preocupação à toa.

Do outro lado da pista, alguns colegas insistiam em treinar, mesmo com o clima tenso. Disputavam dribles e passes rápidos, afinal o jogo decisivo da temporada seria amanhã.

Ramon se aproximou do irmão e apontou levemente com o queixo para o placar pesado do jogo. O painel retangular estava balançando devagar sobre a brisa que entrava no sistema de ventilação por perto.

Os cabos de sustentação pareciam ranger baixo, mas os gritos dos jogadores e patins raspando abafava o ruído.

— Olha... eu não quero mais ficar aqui. — Sasha falou, acariciando Jacob na face — Vamos para minha casa? Pode ser?

— Pode ser, gatinha. Não tem mais clima para ficar aqui mesmo.

Sasha foi até as fileiras mais altas da arquibancada vazia, tentando encontrar sua bolsa de tricô. Seu peito começava a doer, a respiração falhando aos poucos.

Ela percebeu tardiamente que a bombinha de ar não estava na bolsa. Seu rosto ficou pálido.

Ela tateou no assento ao lado, o peito arfando.

— Droga… — sussurrou.

Jamie tentou mais uma vez.

— Jacob… uma pessoa que salvei no celeiro tá morta. Você acha que isso é coincidência? Isso tá acontecendo de novo. E você é o próximo.

Jacob deu uma risada seca.

— Escuta aqui, eu quero esquecer toda aquela merda. Sasha já está quase pirando com tudo isso e ficar só ouvindo essas bobagens não vai ajudar ninguém.

— Esquece, Jay. — Ramon falou — Deixa esse otário morrer.

Sasha tossiu forte na arquibancada.

Jacob a olhou, preocupado, mas manteve o tom debochado.

— Relaxa, amor. Depois a gente vai para aquele lugar nosso. Só você e eu. Sem fantasmas, sem Morte. Só nós.

Foi quando ela se levantou cambaleante, procurando no chão. O ar não vinha.

Jamie percebeu.

— Sasha?

Ramon também olhou.

O placar rangeu mais alto.

Do lado direito da quadra, um dos colegas, Bruce, tentou um drible rápido. As lâminas de seu patins esquerdo passaram por um desnível na superfície e aquilo bastou para seu pé deslizar mais do que necessário.

Ele perdeu o equilíbrio e deslizou desgovernado em direção à beirada da murada onde Jacob estava. O gelo úmido ajudou a velocidade.

— JACOB! — berrou Jamie.

Jacob virou a cabeça, a tempo de ver Bruce vindo descontrolado. O jogador tentou frear, mas colidiu sua cintura contra a murada e fazendo ele tombar para frente.

O patins erguido numa fração de segundos. Jacob ergueu o braço, mas era tarde.

A lâmina do patins atravessou a lateral de seu pescoço, cortando pele, músculo e traqueia num estalo seco.

O sangue explodiu como uma fonte grotesca, respingando na murada, no gelo… e diretamente em Jamie e Ramon, que estavam ali, impotentes.

Jamie tentou segurar o ferimento de Jacob, mas o taco de Bruce acertou em cheio o peito dele, caindo para trás.

O ginásio inteiro parou. Um silêncio de horror.

— Não, não, não... NÃO!

Sasha gritou, o som rasgado pela falta de ar. Ela correu em direção a Jacob, tropeçando no caminho. Seus tênis tocaram em algo frio no chão.

A bombinha de ar, respingada com o sangue de Jacob.

Ela a pegou, os olhos fixos no namorado caído, ainda se debatendo no gelo. O olhar dele era de puro espanto, o sangue escorrendo sem controle.

Ramon se ajoelhou ao lado, mas sabia.

Era tarde.

Jacob tentou dizer algo, mas só saiu um gorgolejo vermelho. O técnico das luzes, os jogadores, todos correram até eles.

Sasha se ajoelhou ao lado dele, as mãos tremendo, o peito voltando ao normal com a bombinha suja de sangue na boca. Ramon afastou ela devagar.

— Ele se foi.


XX

A traseira da ambulância cheirava a álcool, gaze e sangue ressecado.

Sasha estava sentada na maca, envolta por uma manta térmica, o rosto pálido e os olhos vermelhos de tanto chorar. Ela ainda segurava a bombinha de asma nas mãos, os dedos trêmulos, apertando o plástico como se fosse a única âncora em meio àquele caos.

Jamie se sentou ao lado dela, o peito latejando onde o taco de Bruce o acertou durante o acidente. Sentiu como se um cavalo tivesse passado por cima de suas costelas, mas a dor era suportável — pior era o vazio nos olhos de Sasha.

Um paramédico checava sua saturação e ofereceu água, mas ela recusava. Só queria respirar e tentar manter a cabeça no lugar.

— Ei… — Jamie começou, a voz baixa, rouca. — Tá conseguindo respirar melhor?

Ela assentiu, sem força para falar de imediato. O cabelo desgrenhado, a maquiagem borrada, mas ainda assim… tão bonita e humana no meio de tudo aquilo.

— Eu… — ela engoliu seco. — Eu nunca imaginei que fosse assim. Ver alguém… ir embora, desse jeito. Ainda mais ele.

Jamie baixou os olhos, respirando fundo. Ela continuou:

— As pessoas achavam que ele era só mais um garoto rico idiota. Arrogante. Mas Jacob… ele era um idiota sim — ela soltou um risinho fraco — mas tinha um bom coração. Ele era debochado, zoava todo mundo, mas… era o cara que ficava até tarde pra ajudar a ajeitar as telas no meu ateliê, ou que me levava comida quando eu esquecia de jantar pintando. Ele só não mostrava isso pra todo mundo. Tinha medo de não parecer forte.

Jamie a encarou, sentindo um aperto no peito que não tinha nada a ver com a pancada.

— Eu acredito, Sasha. E lamento de verdade.

Ela respirou fundo, piscando para afastar as lágrimas, e apertou a bombinha uma vez mais.

Foi quando o detetive Dean Jenkins se aproximou.

— Senhor Corman. — A voz dele cortou o ar como uma lâmina.

Jamie se virou, tenso, forçando uma expressão neutra. Ele se levantou e ficou distante de Sasha.

— Detetive.

Dean parou ao lado do jovem, as mãos no bolso do casaco surrado, o olhar astuto de quem não engole qualquer história. Seu óculos estava pendendo perto da ponta do nariz e seus cabelos loiros estavam começando a ficar grisalhos.

— Estranho vocês dois aparecerem exatamente na hora do acidente. Poderia me explicar isso, por favor?

Jamie deu de ombros, mantendo a mentira ensaiada.

— A Sasha pediu para gente vir buscar ela. Só isso.

Dean o encarou por alguns segundos a mais do que seria confortável, então tirou um cartão de dentro da carteira e estendeu.

— Só por via das dúvidas. Se lembrar de qualquer coisa estranha… ou se decidir contar a verdade. Me liga.

Jamie pegou o cartão, assentindo sem dizer nada.

O detetive deu mais uma olhada para Sasha, com um olhar de pesar verdadeiro nos olhos, e se afastou em direção às fitas de isolamento.

Jamie virou-se de novo, indo até Sasha.

— Preciso ir. — falou, tentando não deixar a voz embargar. — Mas vou voltar pra ver você, ok?

Ela assentiu, e ele se inclinou, beijando o topo da cabeça dela. Jamie desceu da ambulância e atravessou o estacionamento. As luzes vermelhas e azuis refletiam no entardecer, tingindo tudo de tons doentios.

Ramon estava sentado sobre a moto Shadow, cigarro pendurado nos lábios e o olhar perdido em algum ponto da cidade adormecida.

Jamie se aproximou.

— A gente precisa ir até a nossa mãe. Agora.

Ramon olhou para ele e apenas assentiu, jogando a bituca de cigarro longe e ligando o motor.

O ronco grave da moto cortou o silêncio, e juntos eles deixaram para trás mais uma cena de tragédia, sabendo que o pior ainda estava por vir.

XX

A moto rugiu como uma fera na estrada montanhosa, enquanto Jamie e Ramon avançavam sob o céu escuro, cercados pelas muralhas naturais de pedra e árvores antigas.

O vento cortante da noite soprava pelos galhos retorcidos, assobiando como sussurros de coisas esquecidas.

Quando passaram pela madeireira de Ulrick Company, a imagem foi tão perturbadora quanto Jamie lembrava.

Troncos empilhados como cadáveres, correntes enferrujadas balançando ao vento e equipamentos esquecidos naquela noite fria. As lâmpadas do prédio estavam acessas e provavelmente iriam estar de portas fechadas pelo luto do primogênito falecido.

Jamie manteve os olhos fixos à frente, decidido. Ramon reduziu um pouco a velocidade, o corpo tenso sobre a moto.

— Sempre odiei passar por aqui. — resmungou Ramon, a voz abafada pelo capacete.

— É... eu sei. — respondeu Jamie. — Faz tempo que não venho para cá.

Ramon soltou um suspiro irritado e acelerou novamente.

Pouco depois, o caminho de asfalto deu lugar a uma trilha de terra batida, com placas desbotadas de “Propriedade Privada — Collins”, afixadas nos troncos das árvores.

Aquelas terras haviam pertencido ao pai deles, Matt Collins, um ex-militar autoritário e implacável, que transformara aquele chalé em seu refúgio de caça. Agora, o lugar pertencia apenas à memória e uma nova proprietária.

A moto parou diante do velho chalé à beira do lago. A construção de madeira escurecida pelo tempo parecia fundida à escuridão da floresta. Mas havia luz ali dentro — fraca, amarelada, vacilante.

Empilhadas aos fundos, pilhas de lenha seca repousavam sob uma edícula de madeira. O lago, imóvel, refletindo os contornos das árvores e as luzes distantes de outros chalés do outro lado da margem.

Jamie desceu da moto com decisão. Ramon permaneceu parado, hesitante.

— Não sei se quero entrar. — disse Ramon, tirando o capacete e lançando um olhar duro para a casa. — Não quero papo com essa mulher.

Jamie se virou para o irmão.

— Eu também não quero, mas não temos muitas opções.

Ramon fez um gesto de desdém, o maxilar tenso.

Por um momento, Ramon hesitou. Xingou baixinho, depois seguiu com relutância até a varanda. Jamie bateu três vezes na velha porta de madeira maciça.

Nada. Mais duas batidas.

Então, uma pequena escotilha de madeira se abriu na altura dos olhos, revelando o olhar cansado e penetrante de Kimberly Corman. Os mesmos olhos dos dois irmãos, mas com marcas de anos de dor e isolamento.

Por um instante, ninguém disse nada. Então, um pequeno sorriso melancólico se formou no rosto dela.

— Meus meninos… — sussurrou.

Ela fechou a escotilha e logo depois abriu a porta. Um cheiro familiar de madeira queimada, chá quente e livros antigos escapou para a noite fria.

— Entrem. Rápido. — disse ela, recuando.

Kimberly estava usando uma regata branca com a antiga Dogtag, a placa de identificação militar do pai deles, pendurada no pescoço. Uma jaqueta de couro surrado estava sobre seu corpo magro e seus cabelos negros trançados desciam até o busto.

O interior do chalé era diferente do que Jamie lembrava. Acomodado para o uso cotidiano, havia poltronas macias de couro envelhecido, uma lareira crepitando suavemente, e estantes repletas de livros e fotos antigas.

Mais adiante havia uma sala confortável com um mural com recortes de jornais, obituários e fotos de desastres antigos. Era um pequeno espaço saído diretamente de uma sala de investigação policial.

Kimberly tentou abraçar Ramon, mas ele recuou, endurecido.

— Não faz isso, Kim. — disse ele, a voz fria. — Nós não viemos para passear.

Ela abaixou os olhos, um sorriso fraco.

— Kim? Caramba, quanto tempo não ouço meu apelido.

Jamie sentiu o gosto amargo na boca, a imagem dela se misturando às memórias partidas da infância. Sentou-se numa cadeira antiga perto da lareira. Ramon se manteve de pé, encostado à parede.

Kimberly fechou a porta, passou os olhos pelos dois e disse:

— Eu sabia que viriam.

Jamie inspirou fundo.

— Vou deduzir que está acompanhando os noticiários. Eu tive uma... premonição assim como você e agora... tem gente morrendo.

Ela assentiu devagar, se sentando em uma poltrona à frente.

— Porque a Morte não erra, James. Ela espera. E agora… está tirando as vidas daqueles que não deveriam ter nascido. Frutos de uma árvore que não devia ter sido plantada.

Jamie franziu a testa.

— Como assim?

Kimberly caminhou até a sala de investigação ao lado. Foi até uma mesa coberta de papéis antigos, livros empoeirados e cartas amareladas pelo tempo.

— Quando alguém escapa da Morte… quando o destino é quebrado… uma fenda se abre na ordem das coisas. E tudo que nasce ou acontece a partir dessa ruptura carrega o erro junto. Esses frutos malditos crescem nos galhos tortos da árvore da vida. E a Morte… ela volta para podá-los e ajustar o destino corretamente.

Ramon passou a mão pelos cabelos, inconformado.

— Como assim? Tá dizendo que não era para nós termos nascido?

Kimberly o encarou, séria.

— Não era para eu estar viva, mas estou aqui. Tive dois lindos filhos... que não deveriam ter nascido e agora a Morte está podando minha linhagem para equilibrar as coisas.

Jamie sentiu a pele arrepiar.

O silêncio pairou na sala confortável do velho chalé de Matt Collins. Um lar que não tinha fantasmas nas paredes, mas guardava feridas abertas demais para cicatrizar.

O jogo ainda estava em andamento.

E a dívida de sangue estava longe de ser quitada.



Notas finais
Acho que esse capítulo foi o mais longo até agora. Poderia dividir ele, mas não queria quebrar o suspense da morte de Jacob. Tentei dar uma enganada no que iria acontecer e acho que ficou bom do jeito que saiu. Esse é o primeiro capítulo sem música kkk pensei em encaixar alguma, mas acho que o tom de urgência nele não dava margem para isso. Kimberly voltou! E adorei encaixar ela nessa história! A partir de agora ela irá ser peça chave para os acontecimentos que virão e estou amando escrever eles . Espero que tenham gostado da leitura e até a próxima!