PREMONIÇÃO - A Última Nota
5 Caindo
Notas iniciais
O crepitar da lareira preencheu o silêncio sufocante no chalé. As chamas dançavam nos olhos de Kimberly, que parecia carregar o peso de décadas sem dizer o que sabia. Jamie limpou a garganta, a voz baixa, quase quebrada.
— Os próximos… — começou. — São nossos amigos, mãe. Ruby e Steven. Mas eu não lembro quem vem primeiro. Na visão… tudo aconteceu tão rápido.
Kimberly soltou um suspiro cansado e balançou a cabeça.
— Isso não importa.
Ramon franziu o cenho.
— Como assim não importa? Se a gente não souber quem é o próximo, como vamos impedir?
Ela se virou, apoiando as mãos sobre a mesa repleta de papéis, apontando para seu mural com certo orgulho.
Ramon e Jamie se aproximaram, vendo muitas notícias relacionadas a salvamentos bem sucedidos, desde de manobras de Ressuscitação Cardiopulmonar para infartos, engasgos ou o que for.
Todos tinham as palavras "Milagre", "Segunda Vida" e "Vida salva" rabiscados por marca-texto. Jamie começou a entender aquilo.
— Porque vocês podem parar a lista agora. Cortar a sequência… e impedir que qualquer outro morra.
Jamie a encarou:
— Uma segunda vida?
Um leve sorriso se formou no canto da boca de Kimberly. Ela pegou um livro de capa gasta, quase desmanchando, e o colocou sobre a mesa.
Jamie reconheceu na hora. Ele havia encontrado aquele livro quando tinha uns doze anos, escondido no sótão da antiga casa deles, na época em que o pai ainda estava vivo.
O título FINAL DESTINATION estava escrito de forma assustadora com uma imagem borrada de uma estrada ao fundo. Ele passou os dedos sobre o nome da mão como autora logo abaixo.
O estômago de Jamie se revirou.
— Eu… eu lembro disso. Você me disse uma vez que… que se alguém enganasse a Morte, podia continuar vivendo. Mas tinha um preço.
Kimberly assentiu.
— A Nova Vida. Uma chance de renascer, mas pra isso… tem que morrer. Pra que a árvore se acomode, pra que o galho não fique solto, alguém precisa ser podado antes de voltar. É a única forma de quebrar o ciclo. Se enganarem a Morte, fazendo-a acreditar que morreram… vocês podem voltar. E tudo se mantém como está.
Ramon ergueu as mãos, irritado.
— Ah, ótimo! Então a solução é a gente se matar? Tá de brincadeira comigo?
Kimberly o olhou com uma tristeza antiga.
— Não se matar, Ramon. Se aproximar da Morte. Ir tão fundo que ela acredite. Um afogamento, uma parada cardíaca… ela precisa tocar vocês. E então… vocês voltam.
Jamie sentiu um calafrio percorrer a espinha. Lembrava-se das passagens daquele livro. Os relatos de pessoas que haviam sido declaradas mortas e voltado depois de minutos ou até horas. E de como aquilo mudava tudo.
Mas também lembrava da advertência: nem todos voltam.
— É muito arriscado. — disse Jamie, a voz falhando.
Ramon riu, nervoso.
— Arriscado? Isso é suicídio, cara. Não tem como saber se vai funcionar. Se der errado, a gente só… morre.
— E você não acha que isso é loucura para mim também? — Kimberly exclamou, nervosa — Falar para os próprios filhos morrerem para sair dessa merda?
O peso das palavras pairou no ar. Kimberly se aproximou de Jamie, enrolando a corrente prateada da identificação militar entre os dedos, pousando a mão sobre a dele.
— Você sente, não sente? — disse, baixinho. — Que se não fizer nada… eles vão morrer. Seu irmão vai morrer e depois... você. Isso só vai parar quando todos estiverem no necrotério.
Jamie olhou para as chamas. As imagens fazendo relembrar o fogo avassalador e descontrolado da sua visão.
Algo dentro dele… algo que não sabia explicar… dizia que era verdade. Que a Morte estava ali, cada vez mais próxima, e que não ia esperar muito.
Ele fechou os olhos.
— Se a gente for fazer isso… tem que ser agora.
Ramon resmungou.
— Porra, Jay…
Mas não disse mais nada. O jogo estava em andamento. E pela primeira vez… eles tinham uma peça para jogar.
XX
O Bar Black Flame estava quase vazio, e o relógio acima da porta marcava 00h47 da madrugada. O cheiro de madeira velha e cerveja seca impregnava o ar, o som ambiente era o zumbido baixo das lâmpadas antigas e o farfalhar do vento do lado de fora.
Ruby Raimi se apoiou no balcão, cansada. O pano de prato pendurado no ombro já estava endurecido de manchas de bebida e molho, mas ela não se importava mais. Na cabeça, os acontecimentos do dia martelavam.
O velório de Mike tinha sido naquela manhã. Caixão fechado. Choros contidos. Pessoas murmurando palavras vazias de consolo. E Ruby só conseguia pensar: “Não foi o celeiro… não pode ter sido o celeiro.”
Ela passou os dedos pela testa úmida. Dois dias atrás, ela estava festejando no show do irmão de Jamie, querendo ouvir o potente riff de guitarra de Mike, mas agora... ele estava morto.
Ruby não falava isso pra ninguém, mas sabia, no fundo, que aquela morte tinha algo errado. E aquela sensação, a mesma de quando o celeiro começou a arder do nada, agora pesava no ar.
Uma risada debochada a fez voltou para a realidade. Harlan e seu parceiro de bebida, Pete, riram alto, o cheiro de álcool sobre as bocas.
— Última rodada, Ruby. Prometo que depois sumo, disse Harlan.
Ela se forçou a sorrir.
— Última já passou faz quinze minutos, querido. Hora de levar esses fígados pra casa. Vai antes que o chão te engula.
Pete resmungou algo, e ambos saíram cambaleando. No meio do trajeto, Harlan tropeçou nos próprios pés e tombou contra uma pilastra de madeira. Seria um impacto normal, mas o velho extintor de incêndio estava pendurado no caminho.
O homem de meia-idade reclamou, meio grogue, se afastando e pondo a mão no ombro:
— Quem colocou essa porcaria aqui?!
— Ninguém, seu idiota! — Pete falou, rindo — Vamos! Desta vez, eu dirijo.
Os dois últimos clientes se afastaram, sem notarem o leve e arrastado rangido do gancho que sustentava o cilindro vermelho e descascado sendo produzido.
O gancho cedeu alguns centímetros para baixo e parou.
Assim que a porta se fechou atrás deles, o velho sino pendurado bateu mais do que devia, como se alguém tivesse passado a mão por ele.
Ruby franziu a testa.
A jukebox, que estava desligada algum tempo, voltou à vida pelas mãos da garçonete Cynthia Lamptom. Ela amava tocar algo enquanto fechavam o bar como se fosse sua prioridade.
Um estalo e as luzes verdes e âmbar começaram a piscar. “Falling” de Connie Francis começou a tocar, a melodia doce e sinistra ecoando pelo salão vazio.
Francis, do outro lado do balcão, olhou desconfiado.
— Ué… achei que essa porcaria tava quebrada.
Cynthia, mascando chiclete, revirando os olhos.
— Só estava fora da tomada, cara.
Ruby riu, abanando a cabeça. Ela começou a tirar as canecas de cerveja sujas das mesas em uma bandeja, ansiando terminar o serviço que deveria ser de seu patrão, Daniel Thompson.
Ela odiava ficar até tarde. Principalmente por que Daniel sabe enfiado em alguma festa ou motel barato como vinha fazendo desde que Ruby começou a trabalhar lá.
E isso já estava fazendo três anos.
— Responsável pelo fechamento, hein. — Daniel falava, como se aquilo fosse algum tipo de honra.
Francis, como de costume, aproveitou o clima para tentar o de sempre. Deu um sorrisinho, encostou-se no balcão e disse:
— Se quiser, eu posso te levar pra casa hoje, Ruby. Melhor não ficar sozinha… depois de tudo. A gente podia tomar alguma coisa no seu trailer…
Ruby ergueu a mão esquerda, mostrando a aliança de prata no dedo anelar.
— Comprometida, Francis. Esqueceu do Steven?
O sorriso dele murchou.
— Só tentando ajudar. Clima pesado hoje, sabe?
Ela não respondeu. Apenas lançou um olhar duro para os dois. A notícia da morte de Jacob Ulrick já tinha se espalhado antes mesmo dos jornais noticiarem.
Foi uma morte estranha? Foi. E era por isso que Ruby queria estar na sua cama e de preferência com Steven ao seu lado.
— Chega de palhaçada. Fecha isso aqui. Cynthia, limpa as mesas. Francis, apaga o estoque. Eu cuido do caixa.
A música na jukebox continuava.
“And I’m falling, falling, falling…”
Francis puxou o fio da tomada, e só então a jukebox se calou. O letreiro lá fora voltou a piscar por um segundo antes de se apagar de vez.
Um jornal, provavelmente daquele dia, acabou escorregando para fora da beirada do balcão e caiu no chão, virando-se para o lado dos obituários: “Em memória aos bons que se foram cedo demais”.
Ruby apenas pegou o jornal e o colocou na lixeira, sem saber que aquela noite seria diferente das outras.
XX
O quarto de hóspedes que Jamie Corman estava era modesto e pequeno, mergulhado em penumbra, iluminado apenas pela luz amarelada que vinha do banheiro ao lado, onde o som constante de água morna preenchendo a banheira ecoava como um relógio torturante.
Na parede, fotos antigas e lembranças esquecidas pareciam observar a cena. Jamie, sem camisa, com a pele fria e os olhos de puro medo, ajustava a tira de um relógio antigo.
Na beirada da cama, toalhas limpas, uma caixa de primeiros socorros aberta e um velho desfibrilador portátil repousavam, as luzes verdes piscando de forma intermitente.
No banheiro, Kimberly ajeitava as toalhas próximas à banheira e verificava a temperatura da água. Os dedos tremiam levemente enquanto ela entrava no quarto para pegar o desfibrilador para perto da pia. Respirava fundo para tentar conter a ansiedade.
A porta rangeu quando Ramon entrou no quarto, o rosto tenso e irritado.
— Ainda acho tudo isso perigoso demais. Você sabe que senão der certo, você não vai... — a frase ficou suspensa no ar.
Jamie o encarou pelo espelho do armário.
— Eu não vou ficar esperando ela vir, Ramon. Se a gente conseguir quebrar a sequência, parar a lista, talvez funcione.
Ramon deu um passo adiante, a voz grave.
— E se der errado? Se ela estiver só esperando você fazer isso pra te pegar de vez? Você viu o que aconteceu com o Mike.
— Eu não sou o próximo.
— Você me entendeu.
No banheiro, Kimberly reapareceu na porta, o rosto cansado e envelhecido por noites mal dormidas, mas com aquele brilho obstinado que os irmãos conheciam bem.
— Vai ser difícil. Eu sei. Mas é o único caminho se quiserem mudar isso. Se der certo, vocês vão se libertar. — a voz dela era suave, mas carregada de uma certeza que não se ensinava.
Ramon bufou, cruzando os braços.
— Cara, se você sair vivo dessa me prometa que não vai ficar louco e isolado que nem ela.
Ela sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos.
— Foi essa loucura que me manteve viva por vinte e cinco anos.
Um silêncio pesado tomou conta do ambiente, cortado apenas pelo gotejar da torneira e o zumbido do desfibrilador.
Jamie, já sentado na beirada da cama, sentiu uma leve lufada de ar passando pelas frestas da janela entreaberta. A camisa dele, pendurada sobre uma cadeira, balançou.
O relógio de parede parou. As agulhas travadas às 00h47.
Então, sem aviso, uma fotografia antiga caiu da parede, deslizando pelo tapete até parar aos pés de Jamie.
Ele se abaixou e pegou a moldura, virando-a devagar. Era uma imagem dos pais deles, jovens, de pé diante do letreiro brilhante do Black Flame, décadas antes. O olhar de Jamie ficou fixo na foto.
— O bar…
— O que? — Kimberly se adiantou.
Jamie apertou a foto nas mãos.
—Minha amiga trabalha lá. Talvez... ela seja a próxima. Talvez a Morte esteja lá.
Kimberly passou uma de suas mãos no rosto do filho. Ela estava se sentindo mal por vê-lo sofrendo. De repente, ela se viu nele quando tinha sua idade e em tudo que passou.
Ela falou:
— É agora ou nunca, filho.
XX
O relógio atrás do balcão marcava 01h13 da manhã quando Ruby Raimi passou o pano úmido pela superfície marcada do balcão pela última vez naquela noite.
O cheiro de álcool velho, madeira encharcada e fritura impregnada fazia parte do ar ali, como as paredes escuras e a jukebox cansada no canto, que insistia em repetir os primeiros acordes de "THE KILL", de Thirty Seconds to Mars.
A música, antiga e deslocada, parecia mais triste naquela hora morta.
Francis, o barman de braços fortes e sorriso fácil, puxou uma garrafa de vodca e um copo limpo, erguendo uma sobrancelha sugestiva para Ruby.
— Que tal um último drinque antes de fechar? Um Martini meu. Para dar uma animada na sua cara cansada.
Ruby soltou um suspiro cansado.
Por dias recusou as tentativas baratas de flerte de Francis Connor, mas aquela noite… não era como as outras. O velório de Mike ainda ecoava na cabeça dela — as coroas de flores, o cheiro sufocante da igreja, o olhar vazio da mãe dele.
E a mesma pergunta que martelava desde então: "Por que ele? E por que aquilo fazia Jamie e sua família enlouquecerem e se encherem de teorias da conspiração?"
Naquela hora, um drinque soava como a única coisa capaz de calar aqueles pensamentos.
— Tá bom, Francis. Mas capricha, porque se for ruim vou jogar na sua cara.
O barman abriu um sorriso satisfeito, alisando seus cabelos negros para trás, e começou a preparar o Martini. Do outro lado, Cynthia estava varrendo os últimos cantos do salão, cantarolando baixo, alheia ao clima carregado.
Foi então que Cynthia bateu sua cintura na beirada da mesa de sinuca, fazendo a bola de sinuca número 13, esquecida perto de um dos buracos, vibrasse pelo impacto.
Ela rolou sozinha, num movimento lento, como se puxada por uma mão invisível. Entrou no buraco e caiu sobre uma rede de plástico gasta e furada, quicando no chão em um som alto.
— Que droga.
Cynthia resmungou, pondo a vassoura na pilastra de madeira, a mesma que Harlan havia tropeçado.
Ela se afastou para recolher a bola, sem ver que a vassoura começou a deslizar até o suporte do extintor de incêndio antigo preso na parede.
O suporte já frouxo cedeu com o leve impacto.
Ruby se sentou no banco alto do balcão e ficou observando os movimentos de Francis. O barulho da bebida sendo mexida, o tilintar do gelo, e a música repetindo sua melodia triste criavam um momento de estranha calmaria.
— Você é uma sobrevivente, hein. — começou o barman.
— Como assim?
— Ora, vai me dizer que não se considera uma sortuda por ter saído viva daquela merda da Fazenda Peterson? — ele reparou o olhar curioso dela, onde ele continuou — Sabe como é cidade pequena. As notícias correm.
— Bem mais do que eu gostaria. — riu a ruiva — Mas eu nunca tinha pensado desse jeito. De certo modo... sou uma sobrevivente.
Ele serviu ela com o Martini de vodca, onde Ruby sorriu fracamente. Seus dedos levaram a bebida até a boca e um pouco do alcóol caiu em sua blusa, sobre seu leve decote.
— Que merda! — Ruby viu o descuido, tentando se limpar.
— Não, espera. — Francis saiu atrás do balcão para oferecer um lenço para ela — Aqui. Use isso.
A música ganhava mais destaque aqui cada segundo e o ranger do gancho foi cedendo.
"I'm not running from you
Come, break me down
Bury me, bury me
I am finished with you"
Houve um clique metálico.
O extintor despencou, pesado e enferrujado, batendo na madeira com um baque surdo. O cilindro tombou de lado e sua válvula foi acertada pela perna de uma cadeira.
O lacre rachou com o impacto e seu gás pressurizado saiu rapidamente, forçando o extintor a voar como um míssil para a cabeça de Ruby.
Tudo aconteceu num instante.
— RUBY!
Francis, num reflexo quase sobrenatural, viu o borrão vermelho vindo e empurrou Ruby para o lado com força.
O extintor voou no espaço vazio que antes a cabeça ruiva da garota estava, explodindo dezenas de garrafas da prateleira adiante. A taça de Martini voou e se espatifou no chão.
Ruby caiu de bruços no chão, o coração disparado.
O bar mergulhou num silêncio absoluto, quebrado apenas pelo tilintar dos cacos caindo da prateleira. O gás do extintor de incêndio lançando seus últimos vestígios no ar.
Francis se ajoelhou ao lado dela, ofegante. Seus olhos apreensivos se cruzando em um instante.
— Porra, Ruby… você tá bem?
Ela ficou alguns segundos sem conseguir responder, os olhos arregalados fixos no banco tombado, onde segundos antes estivera sentada.
Ruby se sentou devagar, passando a mão pelo cabelo desgrenhado.
— Tô… tô viva. Merda.
Respirou fundo, o coração martelando no peito. Cynthia, que soltou um grito quando tudo aconteceu, apareceu do lado.
— Jesus Cristo! Vocês quase morreram aí! Que caralho foi isso?
Ruby se pôs de pé com dificuldade e olhou em volta. O cheiro de álcool e fumaça pairava pesado no ar. Um pressentimento denso, como se algo os observasse do outro lado das sombras.
E foi então que os últimos acordes da música terminaram como se o trabalho estivesse concluído... apesar do final não ser o esperado.
XX
O banheiro da casa dos Cormans parecia mais uma câmara funerária do que um lugar de descanso.
A luz amarelada piscava ocasionalmente, lançando sombras errantes nas paredes de azulejos gastos. O cheiro de madeira, desinfetante barato e velharia impregnava o ar, quase sufocante.
Jamie encarava a água na banheira. Estava morna, exalando uma leve névoa sobre a superfície lisa, e por um instante, ele viu o próprio reflexo distorcido ali. O rosto abatido, os olhos fundos.
Mas havia algo mais… algo no reflexo que não era só ele. Como se a sombra de outra coisa pairasse logo atrás.
Kimberly surgiu na porta do banheiro, carregando uma expressão resoluta em seu rosto cansado, os cabelos negros presos num coque apressado.
Ramon andava de um lado para o outro no corredor, os braços cruzados, as mangas da camisa social do velório dobradas até os cotovelos.
— Vamos logo com isso, senão eu mesmo me prontifico em fazer isso.
Kimberly pousou as toalhas na pia e pegou um pequeno objeto de dentro do bolso do casaco surrado. Caminhou até Jamie, as mãos ligeiramente trêmulas.
— Espere. Antes…
Ela abriu a mão e mostrou uma velha placa de identificação militar, presa a uma corrente curta, gasta pelo tempo. As letras gravadas ainda podiam ser lidas, embora o metal estivesse escurecido:
Matt Collins
US ARMY
B-NEGATIVE
Jamie sentiu o estômago apertar. Aquele era o último objeto que restava do pai como lembrança. Ele havia morrido em algum lugar no Oriente Médio poucos anos atrás.
— Era do seu pai. — Kimberly disse, a voz baixa e embargada. — Ele usava isso quando partiu pra guerra. Sempre dizia que trazia sorte… e coragem. Vai precisar das duas.
Ela pendurou a corrente no pescoço de Jamie, que segurou a placa fria entre os dedos. Por algum motivo, o toque do metal gelado fez o ambiente parecer ainda mais silencioso. Ramon observava a cena sem dizer nada, os olhos duros.
Kimberly pegou o cronômetro.
— Cinco minutos. Eu te trago de volta em cinco minutos.
Jamie respirou fundo, uma, duas vezes. Depois sentiu os braços dela em seu peito nu, apertando ele em um abraço apertado. Ele entrou na banheira, sentindo a água morna subir pelo corpo até o tórax.
Segurou a placa de identificação contra o peito, como se fosse um amuleto.
— Se der merda, me puxa. — disse, encarando Ramon.
Ramon não respondeu. Apenas assentiu, engolindo em seco.
Kimberly se ajoelhou ao lado da banheira.
— Confia em mim, James. Confia.
Ele mergulhou.
A água fechou sobre ele com um som abafado, o mundo lá fora dissolvendo-se de imediato. O líquido morno engoliu seus ouvidos, e o único som que restou foi o de seu próprio coração batendo.
Nos primeiros segundos, ele manteve os olhos fechados, sentindo o ar de sua boca escapando em pequenas bolhas.
Então começaram os flashes. As Imagens.
O celeiro pegando fogo. Uma escuridão estranha com ecos de gritos de pavor e brasas rodopiando no ar.
O terror ancestral do instinto de sobrevivência tomou conta de Jamie. Ele tentou emergir, mas Kimberly estava ali, firme, pressionando seu ombro com a mão magra, mas forte como ferro.
A voz dela soou abafada.
— Ainda não, querido… só mais um pouco… confia…
A resistência de Jamie se dissolveu. Os pulmões ardiam com a entrada da água em sua boca. Ele sentiu sua garganta de sufocar e necessitava de ar, mas tudo que achou foi mais água.
Seu corpo se debateu para sair da banheira, mas uma mão forçou sua cabeça para baixo. Ele berrou e sentiu suas forças indo embora.
Tudo ficou escuro. Preto absoluto.
O silêncio da morte era pesado, abafado, como se o mundo tivesse prendido a respiração.
Um som metálico. Um estalo elétrico.
O choque o atravessou, e Jamie voltou com um arquejo violento, tossindo água e tentando respirar enquanto o desfibrilador descarregava uma segunda vez em seu peito.
— Agora, James! AGORA! — a voz de Kimberly, rouca de desespero.
Ele abriu os olhos, as pupilas dilatadas, o peito ofegante. O banheiro girava em torno dele. O rosto de Ramon pairava acima, pálido, suado, e chocado.
— Filho da puta… ele tá vivo…
Kimberly o abraçou imediatamente, os braços magros envolvendo Jamie com uma força febril.
— Você tava morto… — ela sussurrou, soluçando. — Dez minutos, Jamie. Dez minutos. Eu… eu já tinha te perdido.
Jamie piscou, o mundo desfocado.
A corrente da placa militar pesava contra seu peito, molhada, fria. Ele a segurou, sentindo o metal cortar sua pele.
Ramon se juntou ao abraço e então, Jamie se deixou sorrir, imaginando em como havia quebrado aquela maldição que tanto queria pegar eles.
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