P.O.R.T.A.L.L.E.R. - Reworked
1 Portais do Início
Notas iniciais
Ano de XX325
O dia estava nublado na grande cidade de Shinji. As ruas estavam vazias, mesmo no que deveria ser uma tarde normal de domingo. Não que as ruas fossem muito movimentadas. Ainda mais naquela parte da cidade. A periferia de Shinji era muito conhecida devido a seus bares, mas ainda mais por algo bem específico. Os mercados. Em becos isolados, perpendiculares às ruas, escuros, sem a luz para os revelar, mercados clandestinos eram dificilmente identificados, mas facilmente presentes. Dos clássicos mercados de produtos falsificados ao tráfico de órgãos e drogas, ali era o ponto perfeito para a proliferação do crime, algo obviamente não permitido na alta cidade. Falando na cidade alta, algo muito interessante que se diz pelas classes superiores é a frase “O que você não encontra nos esgotos de cima, você encontra nos bares de baixo”. E faz sentido.
Num bar sujo da periferia pode-se encontrar as mais diversas coisas. E apostas em brigas clandestinas é uma delas. Numa das calçadas, um dos bares se põe em destaque. Em grandes letras garrafais de neon vermelho, o nome "The Bug Beer" coloria o cinzento bairro silencioso, ainda mais cinza graças ao céu fechado por nuvens tom de grafite. Adentrando o local, nota-se dezenas de pessoas, acomodadas em cadeiras de madeira, ao lado de mesas de tampão redondo, bebendo cervejas e comendo petiscos. Não só homens expelindo masculinidade, mas crianças e mulheres se juntavam no recinto. Todos admirando uma atração em especial. Uma batalha. Um ringue especial para atrações, cercado por uma grade de ferro. Nele, dois homens lutavam. Uma luta entre dois veteranos. Uma batalha, sim. Mas uma batalha sem limitação de força. Um duelo que plateias pagam para ver.
— “Jab, jab, jab, esquiva, direto, gancho...” – Um dos lutadores, em uma dança hipnótica, realiza todos os movimentos enquanto envolto numa aura azul. Parecia extremamente concentrado. Esmurrava e desviava, simultaneamente. Sem parar.
— Fique parado para que eu possa lhe bater, seu maldito! – Falava o oponente, já irritado. Mas o primeiro não estava o escutando. Pois sua mente não estava ali. Mas no calor do duelo.
O lutador índigo solta um urro e a energia azul ao seu redor aumenta. Um enorme touro espiritual, de mesma cor que sua aura, aparece atrás dele. Ele parte para uma seqüência:
— “Jab, direto, direto, gancho, jab, jab, jab, esquiva...” – Quando o oponente iria aplicar-lhe uma meia lua com o braço, ele apara o golpe, continuando a sequência. – Direto, Jab, direto, direto, gancho... – Ele intenciona executar o soco lateral; o oponente desvia mas... – “Uma finta.” – Aquilo era uma farsa, ele havia enganado o adversário, preparando um poderoso golpe.
Neste momento, um barulho irrompe o bar. O som da porta se abrindo. Um rapaz encapuzado, de feições magras e altas, adentra o local. Suas vestes eram completamente negras, incluindo um par de luvas de mesma cor, sua jaqueta e capuz, camisa interior, calças e sapatos, todos do mesmo tom de negro. Seu rosto mal podia ser visto abaixo do capuz. Poucas pessoas notam sua presença, devido ao entusiasmo do espetáculo. Logo se dirige ao juiz da luta, dizendo:
— Tem uma vaga pra falar com o...
— Portal Gate, Open!. – Um grito interrompe a fala do desconhecido, chamando a atenção de todos. — The Minotaur! – O brilho azul no lutador aumenta drasticamente, junto com a projeção astral do touro atrás de si. – Special Punch: Uppercut!!!! – Com o punho brilhando em ciano, a aura do touro se transmuta na de um minotauro de mesma cor, realizando o temido gancho invertido junto ao seu lutador. Ele acerta em cheio o queixo do oponente, jogando-o para cima, fazendo o mesmo voar e cair de mais de dois metros de altura.
— ...“Minotauro”. – Completa o rapaz encapuzado. Ao ver o garoto, o lutador fecha a expressão, recolhendo sua aura azul. Com o fim da batalha e os aplausos da platéia ao fundo, ele sai da arena de encontro ao jovem.
— Sabe, faz muito tempo que você não vem aqui... – O lutador diz.
— Sabe, tenho mais o que fazer. – Responde o rapaz, seco.
— Tipo o quê? Procurar brigas desnecessárias com gente que não deve nada a você? É isso? Você sabe que...
— Eu não vim aqui pra levar esporro de alguém somente 3 anos mais velho que eu. – O lutador fica surpreso com a resposta, mas sorri. Fica um tempo calado, enxugando o suor com uma toalha. E fala:
— Por que veio até aqui?
— Preciso de ajuda pra encontrar alguém. O que acha?
— Bom, eu não sei se...
— Você vem ou não? – Corta o rapaz, revelando seus olhos para o homem. Eles tinham a íris de uma incrível e marcante cor rubra. Seu olhar era tão sério que chegava a assustar. Sua feição era similar à de um rapaz de 16 anos.
— Eu acho que não tenho escolha... – O lutador colocar os braços atras da cabeça, se espreguiçando enquanto o garoto tira o capuz. — Onde vamos, Raiko? – O mesmo possuía cabelos negros curtos e pele clara, com um sinal em sua orelha direita. Em seu pescoço uma marca negra, com o tenebroso formato de uma máscara.
— Você vai saber quando chegarmos, Ox. – Ox era lutador de pugilismo, musculoso devido à prática do exercício. Tinha cabelos azuis ciano e olhos castanho-escuros. No lado esquerdo de seu pescoço, uma marca em formato de uma cabeça de touro. Usava uma camiseta regata preta, com um colete em azul marinho por cima, junto com um short preto, que ele troca por uma calça branca após sair do palco.
Eles se dirigiam a saída, quando um homem aparentemente bêbado toca no ombro de Raiko, com um horrível hálito de álcool, falando:
— Vocês portallers acham que podem fazer qualquer coisa não é? – Logo após falar ele soluça. — Só por que tem esses poderes -hic- acham que podem ser os donos do mundo? – Chegava a balançar e quase não manter o equilíbrio de tão embriagado. O jovem de olhos vermelhos parece se incomodar em demasiado com tal atitude.
— Solte meu ombro. – Fala Raiko num tom sinistro e obscuro.
— Só ficam por ai esbanjando -hic- força mas não fazem ideia do que é ser humano! – Ele aperta o ombro de Raiko. Ox, vendo a cena diz:
— Raiko, não pre--
Mas era tarde demais. Raiko se abaixa, dando uma rasteira no bêbado e simultaneamente, quando o homem iria cair, Raiko entorna uma aura vermelha ao redor de seu corpo, enquanto uma máscara espiritual semi-transparente escarlate, toma sua face. A máscara era pontiaguda em seus extremos, com a única coisa visível de Raiko sendo seus olhos.
— Portal Gate, Open! The Mask! – A aura vermelha se torna mais intensa. – Secret: Ray!!! – Um raio de energia vermelho é atirado no bêbado que voa longe e cai na grade da arena, quebrando-a. Raiko recolhe sua aura enquanto Ox o olha com um olhar de reprovação e acena negativamente com a cabeça.
— Ele pediu.
— Você é muito infantil. – Ox abre a porta do bar enquanto pega seu capuz num porta-casaco ao lado da mesma. Abre a porta e percebe uma leve chuva caindo do lado de fora do bar. Olha para trás e vê os donos do estabelecimento, com rostos de espanto. — Podem usar o dinheiro da luta pra ajeitar a arena! Obrigado pela batalha! – Diz com um sorriso. Dá as costas, coloca o capuz e parte junto com Raiko para sua ainda desconhecida missão.
**************
Andavam na rua sem chamar muita atenção, principalmente porque não havia ninguém para chamar atenção, de qualquer forma. As calçadas continuavam desertas. Uma abissal monotonia era constantemente quebrada pelo som dos sapatos e as gotas de chuva tocando no asfalto.
As palavras daquele homem embrigado mexeram um pouco com Raiko. Portallers. Donos do mundo. Desde que ele se entende por gente, se lembra desse termo que passou a significar tudo pelo resto da sua vida. Lhe foi contado na infância que há muitos anos atrás, Portallers não existiam. Que essas pessoas capazes de liberar a energia de seus portais surgiram decorrentes da evolução humana. O próximo estágio da evolução. Não mais Homo Sapiens dominam a Terra. Mas Homo Portalis. "Nós não pedimos pra nascer com esses poderes", pensa Raiko enquanto caminha na chuva. "Só por que abrimos Portais, isso não faz de nós menos humanos".
Portais. Um termo tão intrigante pra um fenômeno tão complexo. Com o surgimento dos primeiros Portallers, também foram surgindo as primeiras pessoas a estudarem essa nova etapa da humanidade. Descobriram que os portais não são nada mais do que núcleos de energia presentes em genes específicos dos Homo Portalis, capazes de tirar uma quantidade massiva de energia, mais conhecida como aura, de algum lugar ainda desconhecido pela ciência. Por isso receberam tal nomenclatura, pois é como se tais genes fossem portões que tirassem a energia de uma fonte maior e entregasse aos Portallers. Teoricamente, todos os seres teriam esses núcleos de energia, mas apenas os portallers são capazes de utilizar com liberdade essa energia.
Nos dias atuais, mais de 70% da população mundial é composta dessas pessoas especiais. Na verdade, não mais especiais. Comuns. Ordinárias. Os antigos donos do planeta, os Homo sapiens agora são a raça inferior, que luta por aceitação. Um choque de realidade que mesmo depois de séculos ainda não cessou. Isso gera inúmeros conflitos ao redor do mundo e mesmo sendo minoria, os sapiens continuam tendo preconceito com aqueles que conseguem usar os portais. Talvez seja inerente da raça ser tão presunçoso. Todos esses pensamentos e mais alguns atormentam a cabeça do jovem Raiko Tamashiro, mas logo eles tem um fim.
Isso porque um grito feminino se ouve ao longe.
— Ouviu isso, Raiko?
— Sim. — O garoto de vestes negras direciona o olhar na direção que o som veio.
Eles correm, adentrando num cruzamento pelo leste. Ouvem gritos mais intensos, ao passo que Raiko parecia ficar cada vez mais sério. Haviam coisas que nem ele poderia esquecer.
Eram quatro homens, num esquema. Dois seguravam uma garota e outros dois a agrediam. Auras roxas tomavam seus corpos, mas eram intercaladas por uma aura azul clara vinda da garota. A jovem era loira, de olhos verde-escuros, pele clara e altura mediana. Usava uma blusa verde de duas alças simples, com um decote extremamente modesto e uma calça jeans clara. Tinha uma marca acima do seio esquerdo, como um floco de neve cinza. Os homens que a agrediam estavam todos vestidos de roupas marrons, com suas auras púrpuras encobrindo as faces, sem olhos, bocas ou narinas.
— Não vai chamar o papai, vadia? Cadê ele agora? Chama vai. Quero ver quanto aquele filho duma puta pagaria pra ter você de volta. – Dizia uma das pessoas que a agredia.
— Me soltem! A minha aura... parem... – Ela começou a falar em gritos, mas conforme falava seu tom foi diminuindo, quase sumindo, chorando.
— Você pediu... – Um dos homens prepara um soco que atingiria o rosto da menina quando...
— Vocês tem coragem de bater em uma garota? E ainda se escondem atrás de auras covardes? Poupem meu tempo – O homem se vira e vê Ox armando um soco, que atinge um pouco abaixo da testa do mesmo, que cai no chão, num urro de dor. Os outros homens ficam olhando chocados o grande pugilista encapuzado quando uma sombra escarlate surge de cima do prédio atrás deles e,ainda no ar, dá um chute em cada um dos homens que seguravam a menina, que cai ajoelhada no chão. Raiko coloca os braços da menina por cima de seus ombros e fala no ouvido da garota:
— Você está bem? Te machucaram muito?
— Eu... Argh!! – Ela se contorce, numa dor na altura do estômago.
— Malditos. Ox, consegue segurar a luta por um tempo? – Ox, que estava acertando outro homem com um soco no queixo, olha para Raiko:
— Vão logo! Eu resolvo aqui! Portal Gate, OPEN! The Minotaur!!! – Sua aura azul brilhante o envolve, o destacando no meio do cinza da cidade baixa – Vão, vão! – Raiko assente com a cabeça e vai pulando por cima dos prédios, não percebendo que a jovem desmaiara alguns segundos antes sobre seus ombros.
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