P.O.R.T.A.L.L.E.R. - Reworked
5 Portais de um Passado
“Era frio. A neve branca caia do céu, e pelo que parecia, não pararia nem tão cedo. E aquela pequena garotinha, deitada ao lado de uma caixa de lixo, na neve, teria de sair das ruas. Mas não devido ao frio. Não. Aquela garotinha de oito anos deveria sair dali, pois as autoridades de Shinji tinham ordens de sumir com moradores de rua. Moradores de rua... Era ela uma dessas pessoas? Pessoas sem pai? Sem mãe? Julie se perguntava, mas não sabia a resposta.”
— Você... – Julie não acreditava no que via. Seu passado passava pelos seus olhos, como um filme. Ela tremia por dentro. – De todas as pessoas do mundo, por que logo você... Por que você...
O time da Dark Kuroki entra na arena. E como se fosse um pensamento coletivo, sem perceberem, Julie e o narrador falam ao mesmo tempo. Aquele nome macabro e imbuído de ódio...
— DREAD!!! – A torcida da Dark Kuroki gritava, pulava. E batiam. Batiam no acento de suas poltronas, criando uma batida ritmada de agudos e graves. Um agudo e um grave, seguido de três graves. Um maldito som tribal.
“Tá, tum. Tum, tum, tum. Tá, tum. Tum, tum, tum.”
O ritmo tribal aumentava e Dread, o líder da equipe, de braços erguidos e apreciando o momento se aproxima do grupo da Chronicle, olhando fixamente para Julie com um sorriso sádico no rosto.
— Pequena Julie! Que surpresa ver minha companheira do passado por aqui. – Ele fala com sarcasmo e uma ponta de ódio.
— Como você...
— Não pergunte nada, sua puta! Não me desafie! – Ele agarra com força o braço de Julie, assustando-a. – Não dirija a palavra á mim. Se quer provar alguma coisa aqui, prove meu...
— Ei, vamos parando com isso! É um torneio amigável! – Ox separa os dois dando um empurrão com os braços, se retirando para falar com o time em seguida. Lana fica atrás, olhando a cena. Dread sussurra no ouvido da loira:
— Você, Julie, não merece estar neste torneio! Não merece estar nem nesse mundo! Nunca esquecerei de você! Não depois do que me fez passar! Passar mal, perdedora. – Ele cospe no rosto da The Ice, dando as costas para Julie e voltando para o próprio grupo, deixando a garota perplexa e chocada. Após um tempo, seus olhos se tornam mais escuros. Ela enxuga o cuspe que pegou em sua bochecha, trincando os dentes de raiva.
Dread aparentava 19 anos. Usava um colete de capuz preto com detalhes tribais de ossos em branco, sem uma camisa por baixo, deixando seu peitoral parcialmente á mostra. Calça jeans preta, rasgada nos joelhos, com uma corrente pendendo da calça e uma bota preta completando suas vestes. Tinha sua marca de Portaller abaixo do peito direito, um pouco oculto pelo colete, como a sombra de uma espada entrecruzada na sombra de uma lança. Tinha olheiras e olhos negros e profundos.
— Conhece ele, floquinho? – Lana pergunta um pouco preocupada, abraçando Julie por trás.
— Tive essa infelicidade. – Diz Julie, irritada.
— Nossa, Julie! Você não é assim! Nervosa. Quem ele é? O que fez?
— Não te interessa, Lana! É passado, ficou pra trás! Por favor, vá cuidar da sua vida! – Julie se desvencilha do abraço de Lana e sai pisando forte, deixando a garota de ferro pasme com a reação da amiga.
O narrador volta a comandar a arena.
— Vamos ver quem lutará aqui! A primeira batalha de hoje será... – Ele gira uma roleta digital no clicar de um botão, tendo quatro painéis em cada um dos ponto cardeais do estádio, para ser visível a todos, sendo a roleta contendo todos os nomes dos integrantes do time Chronicle. – Ox Masamuri!
Ox levanta um dos braços num grito de “Isso! Vou mandar geral”. Maggie se constrange e abaixa o braço de Ox.
— Se controla cara. É só um torneio. – Ela fala sorrindo nervosamente, mesmo sabendo que Ox sabe lídar com o público muito melhor que ela.
— E o lutador da Dark Kuroki será... – Ele gira a roleta dos Dark Kuroki. Ao tempo que a roleta digital gira, os sons tribais recomeçam, criando uma tensão monstruosa sobre o local. – Simon Starcry! – Os painéis mostram a frase “Ox VS Simon”.
A Dark Kuroki e suas batidas de uma aguda e quatro graves afeta todos da Chronicle. Chegava a dar medo a loucura daquela torcida, a selvageria, a fúria, a sede de sangue ensandecida. Mas dava ao mesmo tempo inveja, pois não havia uma torcida da Chronicle devido ao fato de que ela teria sua primeira participação no torneio, portanto, não havia uma torcida formada. No meio dos gritos e do ritmo demoníaco, Maggie finalmente percebe que Alexan não estava nas arquibancadas. Não estava lá para vê-los.
****************
— Impulse! – Alexan libera uma onda de choque em sua inimiga. Era uma adulta, com cabelos verdes e vestia de calça boca-de-sino azul e blusa regata amarela. Ela é acertada pela onda, voando um pouco para trás e caindo de pé no chão após um pequeno mortal.
— Você... é um canalha... – Ela diz, arfando, já cheia de arranhões.
— Não ligo para seus xingamentos... – Ele diz, ainda em perfeito estado e com a típica cara de sono. – ...Portaller The Virgo.
Uma aura amarela surge ao redor dela, e se vê sua marca escondida atrás da orelha, como os traços de um rosto feminino.
— Ainda resiste. Bem, você pediu. – Ele carrega energia nas mãos, enquanto uma aura amarela com riscos de luz azuis surgem ao seu redor. Ele estende a mão calmamente. A mulher corre em direção a ele enquanto prepara um golpe. Golpe este que ela nunca usaria.
— OVERLOAD! – Este golpe de Alexan é extremamente mortal. Ele causa um aumento crítico na energia elétrica que percorre naturalmente o corpo humano, super acelerando os impulsos elétricos do organismo, podendo fazer a vítima desmaiar ou na pior dos casos, matar por ataque cardíaco. Ao atingir a mulher, ela se mantém paralisada numa descarga fatal, caindo no chão após cinco segundos. A aura de Alexan desaparece.
Neste momento, o céu, já escuro da noite, ganha um risco vermelho, um cometa escarlate, caindo no chão e revelando um ser. O risco vermelho some assim que o ser toca o chão.
— Bem vindo, mestre Fair. – Alexan se aproxima do humanoide. Era um humano, na verdade, talvez um pouco desproporcional, mas ainda humano. Ele usava um capuz preto, sendo impossível ver sua face, sejam seu nariz ou boca. A única coisa visível era um olho vermelho, apenas um, sem pupilas ou íris. Somente uma brilhante esfera carmesim. Fora o capuz, podia-se ver seus braços, tórax e peito. Sua calça era também negra e feita de tecidos leves. Mas algo era surpreendente e perturbador. Seus membros superiores e tronco estavam repletos de várias marcas diferentes de Portallers. Não apenas uma. Mas dezenas, espalhadas por todo o corpo. Podia-se jurar que havia mais de 80 marcas em toda sua extensão.
— Bom trabalho, Alexan. Conseguiu fazer o trabalho principal?
— A Maggie nem desconfia de mim. No entanto um tal de Raiko me acha suspeito. Além de ele parecer forte. Tenho de tentar me aproximar mais deles.
— Você vai, Lobster. Tem potencial para isso. – Fair levanta e toca no ombro de Alexan.
— Sim senhor.
— E aliás, você não iria assistir o Night Fight? – Diz Fair, se aproximando da The Virgo, liberando uma fumaça cinza de sua mão, que vai em direção da marca de portaller da inimiga, que geme de dor ao passo que a nuvem começa a puxar sua aura amarela. A fumaça absorve sua marca de portaller e um pequeno brilho surge atrás de sua orelha, ainda não visível. Ele levanta assim que termina o ato.
— Desisti. Não estava muito afim. — Se explica o jovem alvo.
— Aposto que sim... The Electricity. – E num raio vermelho, indo em direção aos céus, Fair desaparece deixando Alexan sozinho, iluminado somente pela luz da lua, junto ao cadáver seco do que antes era uma bela mulher.
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