— Vocês estão prontos? — A pergunta provinha diretamente do juiz da batalha e também narrador, Hecs. O homem de óculos laranja com um carismático sorriso estampado no rosto dirigia-se a Ox e a Simon, confirmando se estava tudo pronto para o início da primeira disputa da noite.

Simon era um rapaz de altura mediana, aparentando ter em torno de 17 anos e fisico bem definido para a idade. Cabelos tão loiros que chegavam a parecer brancos, moreno e de feições suaves, com olhos castanho-escuros. Como vestimenta, usava uma jaqueta vermelho escura, cor de vinho, com detalhes roxos e sem uma camisa por baixo, revelando seu abdomen malhado, finalizando a estética de sua roupagem com uma calça jeans preta. Tem um piercing na orelha esquerda e uma marca de Portaller como uma cruz de um tom de amarelo extremamente claro, com uma estrela no lado superior direito da cruz.

— Sim. — Diz Ox, respondendo a Hecs.

— Sim. — Repete Simon.

— Então... — O narrador abaixa uma bandeira branca junto a seu braço, em uma simbolização de que a luta está para começar.

— Portal Gate... – Ox demonstra uma postura de extrema concentração, olhando a fundo nos olhos do adversário, como se mentalizando uma coreografia de uma luta que ele nunca ensaiou.

— Portal Gate... – Simon, não diferente de Ox, também se mostra sério.

— Comecem! — O juiz levanta a bandeira.

— Open! – Dizem os dois, em uníssono.

— The Minotaur! – Uma aura azul envolve Ox.

— The Crux! – Uma aura amarelo-clara envolve Simon.

Eles se separam, num pulo para trás, pondo-se em posição de batalha. E sob aquela abóbada celeste repleta de estrelas, a primeira luta do Night Fight tem seu início.

*********

Ao passo que a luta começava na arena, Raiko e Maggie procuravam em vão por Alexan, Maggie nas arquibancadas, passando por entre as fileiras na esperança de acha-lo sentado e talvez apenas querendo brincar com a situação, enquanto Raiko o procurava pelo vestiário e pela parte interna do evento. Não havia ninguém nos corredores dentro da estrutura preparatória, exceto por Raiko. E mesmo assim, o garoto não conseguia deixar de sentir que alguém estava lá, o observando.



**********

Ox corre em direção á Simon armando um poderoso soco de direita. Simon habilmente defende com um dos braços e dá uma cotovelada de resposta no rosto do Minotaur, que cambaleia para trás, mas se recompõe de forma praticamente instantânea. Simon arma um soco, mas Ox nota algo de diferente, algo este que seria confirmado com as próximas palavras do seu oponente:

— Star Crush! – O punho de Simon brilha numa luz áurea e num rápido movimento atinge o estômago de Ox, que voa alguns centímetros acima, mas sem perder a consciência, se pondo em posição de combate novamente em um pulo.

— Você tem um ataque forte, garoto. – Diz Ox, em respeito.

— Não digo o mesmo de você. – Simon dá uma cuspida no chão, enquanto dá pequenos pulos de adrenalina, em seguida correndo até o Masamuri e alveja suas pernas, tentando desequilibra-lo com um chute. Ox facilmente pula e, ainda no ar, soca o rosto do adversário.

Simon gira com o impulso do golpe e ao parar, se põe com prontidão numa posição com os braços formando uma cruz, o braço direito sobrepondo o esquerdo perpendicularmente.

— Light Crux! – Uma projeção de aura em formato de cruz luminosa sai paralela aos braços de Starcry e atingiria Ox, mas o mesmo desvia por baixo do projétil e corre até Simon numa velocidade similar a um touro em direção a um toureiro.

— Special Punch: Uppercut! – Um brilhante minotauro azul com um machado em punho acompanha os movimentos do The Minotaur enquanto o pugilista arma seu gancho invertido, correndo numa velocidade assombrosa. O minotauro ao chegar no alvo acerta o rosto de Simon com o machado, numa sincronia perfeita com o momento em que o soco desferido por Ox atinge o queixo do rapaz da Dark Kuroki. O loiro voa dois metros pra cima até cair como um saco de batatas no chão.

E a plateia abre contagem.

*********

— Não deveria estar assistindo a luta, Raiko?

Raiko reconhece imediatamente a voz atrás de si. Vira sutilmente para visualizar aquele que ele já sabia a identidade. Dread apresentava uma pose imponente e forte, mas a única coisa que o The Mask sentia era um misto de nojo e desconfiança daquele homem. Maggie o pedira para encontrar a ovelha. Mal sabia ele que estaria entrando na toca do lobo.

— Não lhe faz direito saber. – Raiko era curto e grosso.

— De qualquer forma, não deveria estar aqui. Seu amigo está lutando, se desgastando, provavelmente perdendo e você gastando tempo aqui ao invés de apoia-lo? Não parece ser um amigo para o tal do Ox. — Diz Dread enquanto anda devagar de um lado pro outro, pondo os braços atrás da cabeça ao final da última frase, como se estivesse se espreguiçando.

— Não suje o nome dele pondo-o em sua boca, Dread! — Fala Raiko num tom mais forte.

— Não suje a sua boca com o meu, Raiko! — Responde o branco, sorrindo de forma maliciosa.

Dread se encosta na parede, abaixando os braços e os cruzando. Raiko o olhava com desprezo, já sabendo que ele não estava ali a toa. O lobo não viria conversar com a presa não fosse por um bom motivo.

— Procurando por alguém, The Mask? Algum amigo de vocês, talvez? — O olhar de Dread era simplesmente incomodo a Raiko. Era um encarar vago, mas conciso e perturbador.

— Poupe suas palavras. O que faria alguém como você vir aqui num momento tão inoportuno?

— Bem, acho que tenho algo que gostaria de saber... — Seu sorriso malicioso se torna cada vez mais caótico e macabro.

— Porque acha isso? — Pergunta Raiko.

Dread abre um sorriso ainda maior, deflagrando a gloriosidade do momento.

— Não sei... talvez o fato de que há Montecchium correndo nas veias da Julie e só eu tenho o antidoto seja algo interessante o suficiente para você?

Raiko enfim percebe que era melhor escuta-lo.

**********

— 10... 9... 8...

A contagem da plateia teve início. Simon havia caído de bruços, com a face voltada para o chão. A luta fora decidida em pouco mais de um minuto. Ox levantava os braços, agitando-os em comemoração. Mas sua felicidade dura até o momento em que ele nota uma pequena luz abaixo do corpo inerte de Simon, este com o rosto de encontro ao solo.

— 6... 5...

Ox se aproxima de Simon a fim de ver melhor a luz.

Maggie, desistindo de achar Alexan, se senta na arquibancada junto a Lana e Julie, esta última que já estava menos tensa.

— Ei, Maggie! – Quem fala é a jovem Irontell, chamando a atenção da ruiva. – O Ox vai ganhar!

— Estou ouvindo a contagem. – Ela olha para a arena, frustrada por não ter encontrado Alexan, mas feliz pela vitória de Ox, até que também vê a luz abaixo de Simon. E paralisa sabendo o que estava por vir.

“...4...3...”

Ox se abaixa para tocar no ombro de Simon e o puxa para ver seu rosto.

"...2...1...”

Mas, no lugar do que deveria ser o rosto moreno de Simon, só havia uma rachadura brilhante. E Ox percebe que caiu numa armadilha. Nas arquibancadas, como um sussurro inaudível, Maggie, em choque e com a voz trêmula, diz o nome da técnica que mudaria o rumo da batalha:

— Fake... Light...

O corpo de Simon explode numa imensa luz branca, cegando a todos na plateia.

**********

— Montecchium? – Raiko agora falava pausadamente, como se de repente Dread tornasse-se seu mestre e ele um cão com medo de ser castigado.

Montecchium é um composto encontrado normalmente em estado líquido, tendo cor azulada e consistência fluida. É usado principalmente como meio nutritivo para nano robôs medicinais conhecidos como Capulettos, tendo propriedades que mantém seu metabolismo estável. No entanto, o uso menos comum deste composto é sua utilização como veneno de longo prazo. As substâncias que mantém os Capulettos vivos é tóxica ao corpo humano, e quando completamente integrada ao organismo, pode causar asfixia celular instantânea, tendo um efeito que, dependendo da imunidade do alvo, pode matar em poucos dias caso não sejam injetados Capulettos na vitima, que irão eliminar as substâncias toxicas infiltradas.

— Sim. Eu injetei nela na hora em que nos vimos. Vai ser minha garantia. – Dread continua com seu sorriso demoníaco. — Eu o inseri por meio disto, anestesiando a pele dela. – Ele mostra uma pequena agulha embutida na palma de sua mão. Raiko pensa que ele pode ter feito isso quando agarrou o braço da garota na primeira vez que os times se encontraram. – Como você deve saber, é uma substância que...

Num movimento absurdamente veloz, Raiko se locomove até poucos centímetros do líder da Dark Kuroki, desferindo um soco no rosto do mesmo, que defende com a mesma velocidade e com apenas uma mão.

— Eu não me exaltaria se fosse você, The Mask... só eu possuo os Capulettos que você precisa e num lugar muito bem guardado. Eu também não lutaria aqui dentro, pois até onde eu sei, eu possuo vantagem em ambientes fechados e sem sua parte do acordo, eu não teria interesse em salvar a Julie.

Raiko pondera as palavras por alguns segundos antes de recolher o seu braço.

— E se eu o denunciar para o Hecs? – Questiona Raiko, tentando coletar o máximo de informações antes de tomar alguma decisão.

— Você não teria como provar, pois o veneno ainda está no início da circulação, eles só identificariam faltando poucas horas para a integração total. Além de que se não for por mim, não sei onde conseguirão nano robôs como estes tão rapidamente e sem uma quantia alta de dinheiro. Aceitar meu acordo é muito mais prático e viável.

— E qual seria esse maldito acordo?

— É bem simples, mas ninguém pode saber, caso contrário... já sabe o que acontecerá com a pequena Julie. Se você por acaso conseguir chegar na semifinal deste torneio...

“ Eu quero que você perca, Tamashiro.”

**********

O flashbang toma conta da arena, cegando a todos os espectadores, lançando Ox quase dez metros para trás. Maggie, nas arquibancadas, retoma sua explicação assim que a luz cessa.

—Fake Light. Uma técnica poderosíssima utilizada por usuários do elemento luz. Eles criam um clone material, feito de luz, que só é quebrado com um golpe extremamente forte e, ao ser quebrado, depois de um tempo, explode toda a energia de luz usada na sua criação num raio de pouco mais de dois metros e meio. – Mesmo aparentemente tranquila explicando o movimento de Simon, Maggie estava tão aflita quanto as duas garotas.

— E isso vai atrapalhar muito o Ox, Maggie? – Pergunta Julie.

— Talvez não, Julie. Espero que não. – Maggie se sente culpada. Mas sabe.

Às vezes é preciso interpretar.

*********

Raiko chega à arquibancada. Ele olha a batalha enquanto senta, afastado dos companheiros. Somente uma fumaça espessa cobre o campo, devido à explosão do Fake Light. Ele fica um pouco preocupado com o amigo. A medida que a nuvem de poeira se dissipa, Raiko consegue visualizar Julie, que estava do outro lado da arquibancada. Por agora, nada poderia fazer. Infelizmente.

*********

Simon estava em pé. Inteiro. Havia se escondido dentro do próprio clone, tirando qualquer suspeita do adversário. Ox não sairia daquela, pensava o The Crux, ou pelo menos não sem muitos ferimentos. Foi certeiro e destrutivo. Era isso que Simon pensava, mas logo se viu estar enganado. Pois lá estava Ox. E sua aura de Portaller, berrante. Faminta. Pois nada impede um minotauro. Nem mesmo um labirinto. Ou as estrelas.

Os olhos de Ox estavam completamente brancos, cegos pela ira, não se podia ver suas pupilas.

Veias saltavam de seus braços, como se seu sangue estivesse bombeando com o triplo de intensidade. Seu cabelo estava espetado devido a toda a energia de aura circulando pelo seu corpo. E ele estava furioso. E demonstra toda sua fúria num urro bestial que congela a espinha de todos na arena.

Raiko vendo aquilo se espanta. Aquele não era Ox. Isso ele sabia. Ox se deixara dominar. Pela ira. Aquele não era Ox. Mas um Berserker.

Berserker era a propriedade secundária e passiva do Portal de Ox. Após ser atingido por uma carga bruta de estresse enquanto com o portal ativo, ele desencadeia toda a energia restante do seu portal de uma vez só, praticamente triplicando sua força e velocidade, forçando seu corpo de todas as formas possíveis. Justamente por isso, Ox se foca num estilo de luta concentrado de Stall, não Aggro, pois a liberação de tal habilidade seria extremamente prejudicial tanto para ele, quanto para o oponente. Isso pois a ativação desta habilidade secundária além de gerar uma fadiga catatônica no usuário quando a energia se esgota, também tira o controle do usuário sobre suas ações, deixando seu subconsciente assumir as decisões. E naquele momento, o subconsciente só queria uma coisa. Sangue.

Ox continua urrando quando parte como uma fera até Simon. Sua aura explodia de tão intensa, praticamente uma mancha ciano numa velocidade sobre-humana e inconcebível. Ele atinge um direto certeiro na face de Simon. Aquela dor era excruciante e parecia destruir suas células de milhares em milhares, certamente quebraria os ossos de qualquer parte atingida, não fosse a aura do Portal protegendo-o. Simon voaria metros para trás. Mas Ox o segura, ainda no ar depois do soco, pela gola da camisa e desfere mais um soco de força similar. E ele continua socando.

Simon tenta se desvencilhar do Minotauro, mas é impossível. Cada soco parecia um meteoro, aniquilando suas tentativas de fuga. Num momento oportuno, Simon consegue se soltar e realiza uma sequência de saltos mortais para trás, finalizando com um salto em direção ao céu noturno, tentando executar sua sacada final.

Contrariando as leis da física, ele não cai após o pulo. Ele continua no céu, levantando o braço direito. A luz das estrelas aparentemente aumenta a medida que Simon preparava algum movimento. A energia luminosa delas se junta no punho de Simon. E diretamente do céu noturno, como uma estrela cadente, sob o regimento do Cruzeiro do Sul, Starcry usa seu trunfo.

— Constellation Drift!!

Num impulso acompanhado pela luz das estrelas, Simon se projeta em direção a Ox com o punho brilhante estendido. A energia era tanta que podia ser sentida das arquibancadas, como se não só a luminosidade das estrelas se juntasse ao golpe, mas toda a luz da Arena.

Ox apara o golpe. Segura o corpo do adversário com apenas uma mão. E desfere um soco brutal na barriga de Simon, atravessando seu corpo.

Toda a arquibancada se mantém um silêncio cadavérico. Hecs ameaça parar a luta, mas Dread o impede, dizendo que está tudo bem.

Ox sai de seu estado bestial, ainda meio zonzo e desnorteado pela luz intensa, vendo seu braço atravessado sobre a barriga de Starcry. E percebe, novamente, que aquele não era seu oponente. Fake Light. O novo clone explode, mas dessa vez não o lança para trás, sendo simplesmente uma rajada luminosa. Ele não consegue enxergar nada. A luz era muito forte. Mas ele não poderia perder, não ali, não para o mesmo truque. Ele tenta sair da luz. E escuta um grito vindo por trás de si.

— OX!! SEU IDIOTA! ATRÁS DE VOCÊ! – Num grito de desespero de Raiko, Ox olha para trás e vê que é tarde demais.

Simon já estava lá.

— Constellation Drift!! – Este é o trunfo do The Crux. Constellation Drift. Uma habilidade capaz de desferir um golpe poderoso e rápido, que rouba luminosidade do meio exterior, gerando uma cópia falsa de seu usuário que ataca por cima, distraindo o adversário da real ameaça, que se desloca na posição inversa.

Ele atinge Ox, que voa uma última vez para trás. E este não se levantaria naquela batalha. A plateia abre contagem.

Raiko olhava a cena com olhos arregalados. Sua face era puro desespero. Não. Ox fora o primeiro a lutar. E o primeiro a perder? Não! Isso não aconteceria. Não era possível. Lana, Julie e Maggie estavam quase desmaiando de tanta tensão.

Ox, caído de barriga para cima, olhava para o céu. “Raios!”, pensava. A fadiga da ativação do Berserk tomava seu corpo, que não conseguia se mover. Ele perdera a luta?

“10... 9... 8...”

Se sim, teve motivo. Distração? Fraqueza? Qual o motivo?

“...7...6...5...”

O minotauro fora derrotado. Como em sua lenda, fora derrotado por alguém mais fraco. Ou não?

“...4...3...2...”

Mais fraco? Ou melhor? Mais inteligente? Mais forte. E ele pensa antes de desmaiar:

“...1...”

“Desculpa, Raiko... Eu fiz tudo o que pude...”

E o minotauro desmaia, encerrando a primeira luta do Night Fight.