P.O.R.T.A.L.L.E.R. - Reworked
8 Portais da Memória - Parte Um
Notas iniciais
São 16 horas. Céu nublado fora do apartamento. Raiko se encontrava numa grande sala. Bem decorada com vasos orientais de porcelana, jarros com plantas e samambaias artificiais exóticas penduradas pelo teto, piso de madeira refinada e uma boa vista da cidade Shinji graças as paredes transparentes da varanda.
— Então Julie, por que nos reuniu aqui afinal? — A pergunta partira de Raiko.
Aquele era o antigo apartamento de Julie. Alugado, mas era dela. Tecnicamente foi comprado com o dinheiro de seu pai, na época que moravam juntos, mas era dela. E não estavam só ela e Raiko, mas também Ox, Maggie e Lana. Todos sentados. Explicando de forma mais detalhada, Maggie estava sentada numa poltrona cinza, com Ox num banco, aparentemente de madeira coberto de pele artificial. Lana não ficava muito longe, mas ficava mais perto de Julie, num banco exatamente igual ao do Masamuri e a já citada Julie num puff cor-de-rosa. Raiko estava em pé, perto da porta principal da casa, de braços cruzados e encostado na parede.
— Bom, lembra-se do que disse, Raiko? Você iria me contar quem eram aquelas pessoas de quem você estava falando com aquele estranho mascarado no torneio. — Raiko sente um calafrio repentino.
— Sim, Julie. Me lembro bem. Bom, é uma longa história. Tem certeza de que quer ouvir?
— Com certeza. E a Lana também! – Julie aperta Lana com um abraço, essa que assente com a cabeça. — Até chamei vocês pro meu velho apartamento, eu não sou muito de vir pra cidade alta, mas essa ocasião é diferente.
— Tudo bem. Vou contar não só a minha, mas a história de Maggie e Ox. Pra mim, tudo começou há 7 anos atrás...
FLASHBACK // ABRE
Um garoto corria pelas ruas sujas da cidade baixa de Shinji. O ano era X318. Ele corria, tropeçando por entre os mercados e becos abaixo dos esgotos da cidade alta. Desesperado. Como se fugisse. E na verdade, estava sim fugindo. Pois havia roubado. E como ladrão, deveria ser pego. Não é isso a justiça para os ladrões? Mas e quando a necessidade supera a vergonha? Pois este é o destino de garotos de rua. Ou você sobrevive, ou não. Pois não havia quem os ajudasse. Não é?
— Peguem o garoto! Rápido! — A voz veio de um bom padeiro, que voltava de qualquer lugar onde havia ido para conseguir seus ingredientes. Ele era precavido e sempre vinha acompanhado de seus dois primogênitos, que o escoltavam. Ao verem o garotinho de 9 anos roubando a comida, eles o seguem.
O garoto continuava tentando escapar, em busca da sobrevivência. Ele dobra em um dos becos. E vê que cometeu um erro. Pois era um beco sem saída. Logo chegam os seguranças, encurralando-o.
— Pegamos você, moleque! Devolva isso agora, se não quiser se machucar!
— Não! Nunca! — O garoto protege a sacola com as mãos.
— Então sofrerá as consequências! — O homem arma um soco e o menino fecha os olhos. Até que, como um feixe de luminosidade na escuridão, ele escuta:
— Hikauri — Light Blow! — Ainda com os olhos fechados, ele percebe que houve um clarão de luz no local. Depois de um tempo, ele abre os olhos.
Um garoto da mesma idade que ele, aparentemente 9 anos, havia surgido de cima, e, num punho de luz, acertado os seguranças. O garoto era loiro, de olhos azuis. Tinha uma bandana branca em torno da testa e usava um colete até a altura acima do tórax, sem camisa por baixo. Tinha uma calça curta branca e assombrosamente seus braços brilhavam de um homogêneo e intenso branco. Era impressionante. Para completar seu visual, ele tinha uma marca em forma de uma rosa dos ventos no lado esquerdo do pescoço, branca.
— Vocês não são homens para erguer o punho a alguém mais fraco! Nunca serão! Sofram com isso! Hikauri — Eternal Light! — Seu punho começa a brilhar mais forte enquanto a luz branca começava a girar em volta de seu braço, como um vórtex. Ele ameaça atacar os adultos, mas apenas os intimida, fazendo-os correr. A luz então explode num flashbang, um clarão de luz.
Quando novamente pode-se ver algo, o menino de rua olha com admiração o jovem guerreiro de luz, que se volta para falar com o garoto.
— Está bem? Presumo que sim! — Ele coloca os braços atrás da cabeça, como num alongamento. — Me chamo Tenma! Tenma Droire! E você? — Tenma estende a mão para o garoto, que usa o apoio para se levantar.
— Me chamo... Raiko... Raiko.
— Só Raiko? Rapaz, que nome pequeno!
— Não! É Raiko Tamashiro! — Diz Raiko, com uma ponta de raiva.
— Então, tá. Tem casa, Raiko? – Diz o Tenma, descontraído.
— Bem... Não... — Raiko fica de cabeça baixa.
— Tipo, você realmente não tem casa, ou fugiu? — Questiona o rapazinho loiro, tentando olhar nos olhos de Raiko.
— Não... eu morava com minha mãe, mas ela nunca mais apareceu. — Esse comentário quebra o semblante feliz de Tenma, mas logo ele se recompõe e volta a parecer alegre.
— Ei, calma! Eu tenho a solução! Vem comigo! Eu tenho um bom lugar! E mais, tem mais gente lá! Você vai gostar do mestre!
— Mestre?
FLASHBACK // FECHA
— Então esse é o Tenma? — Pergunta Julie.
— Sim. Ele me defendeu dos seguranças. Hm, era um cabeça-dura. Mas era engraçado, gentil, companheiro. E justiceiro. Um grande amigo. Meu melhor amigo.
— Ué! E o Ox? — Pergunta de Lana.
— Ox? Na verdade...
FLASHBACK // ABRE
— Seja bem vindo Raiko! Este é o seu novo lar!
O lugar era feito de madeira e concreto. Não havia decoração, era na verdade algo bem caído. Mas o lugar era um verdadeiro campo de treinamento. As paredes eram ideais e altas, boas para escalar. Haviam pistas naturais, de rocha provavelmente esculpidas pelo próprio solo, perfeitas para corridas, de curvas fechadas. Sem falar de crateras, que depois de melhoradas com um piso de madeira, serviram como arena de batalha. Era sem dúvida um retiro subterrâneo.
Havia muitas pessoas lá. Raiko notou umas poucas em particular. Havia duas garotas lutando numa das crateras. Uma era loira, branca e de olhos mais negros que a mais bela noite. Bochechas rosadas e se vestia de um vestido verde, com uma fita amarela na cintura. Lutava contra uma menina ruiva, de cabelos cacheados até a altura dos seios e olhos castanhos. Era um pouco pálida e usava um vestido vermelho com uma fita branca ao redor da cintura.
— Vejo que já viu a Lyra e a Maggie! Ambas são novatas aqui. Chegaram a algumas semanas! — Diz Tenma, apresentando as pessoas.
— Oi, novato! — Raiko sente alguém batendo em suas costas, de leve. Ele vira e vê um garoto de cabelos azuis e olhos castanhos. Era bem forte para a idade e usava uma camisa azul-escuro sem manga e calça curta preta. — Me chamo Ox Masamuri! Bem vindo ao nosso lar! Ei, o que acha de eu ensina-lo a boa e velha arte do pugilismo?
— Sai fora, Ox! O Raiko não vai aprender essa luta de maricas! — Diz Tenma, cortando a conversa e pondo os braços ao redor do ombro do pequeno Tamashiro.
— Como assim? Meu polegar é mais macho do que você inteiro!
— Só se macho na sua língua quer dizer idiota! Ai eu admito que sim! -Raiko ri do comentário.
— Você é um metido, Droire! — Grita Ox para o guia de Raiko.
— E você é idiota! — Tenma fala sorrindo, provocando o rapaz de cabelos cianos. As provocações logo são interrompidas:
— Ei – Raiko chama a atenção de Tenma. — quem é aquele ali? – O menino aponta para um garoto de pele alva e cabelos curtos e negros, sentado num banco de pedra, escrevendo num livro. O menino usava uma roupa preta, que cobria todo o seu corpo, exceto os braços e a cabeça. A roupa tinha detalhes em ouro velho e uma pedra carmim no local do peito. O menino tinha uma bandagem ao redor dos olhos, como se tivesse passado por uma cirurgia.
— Aquele é Akira Shroud. Ele tem aquela coisa ao redor dos olhos; acho que foi isso que você achou estranho, né?
FLASHBACK // FECHA
— Ei, ei, ei! Espera um pouco. Se ele usava uma coisa tapando os olhos... COMO ELE ESCREVIA??? — A ótima pergunta veio de Julie.
— Ele usava um alfabeto criado por ele mesmo. — Quem lhe respondeu foi Ox, curta e seriamente. Nem chegou a perceber o espanto de Lana e Julie.
— C-como assim? — Indaga a Walker.
— Bem, ele mesmo inventou um alfabeto de 38 símbolos, que ele chamou de alfabeto rúnico.
— Rúnico? — Pergunta Lana, curiosa.
— Sim. — Corta Raiko. — E mais, ele dizia que só mostraria seus olhos a quem ele achasse que merecia olha-los. E no final... bem, deixa pra lá. Mas não querem saber do mestre?
FLASHBACK // ABRE
— Olá, meu jovem. Quem é você? — A voz vem do lado direito de Raiko, que leva um susto e dá um pulo para a frente. – Calma, calma! Sou só um ser humano. — O homem sorri amistosamente.
— Este aqui é o Raiko Tamashiro, mestre! Ele precisava de ajuda, encontrei-o hoje pela manhã. — Apresenta Tenma.
— Olá, Raiko! Sou Kaito Leviathan, mestre de todos aqui. Qual o seu portal, filho? — Raiko, secretamente, adorou ser chamado de "filho".
— P-portal? — Raiko parecia confuso.
— Sim! Não sabe? Nossa! Bem, vou explicar a você.
O menino presta atenção nas palavras a serem proferidas.
— Há um bom tempo, foi descoberto que alguns humanos nascem com um gene especial e outros, não. Os que nascem com o gene podem, ou aprender sozinhos ou serem ensinados a focalizar a energia para abrir o que chamamos de "portais". Isto no começo, a vários séculos atrás. Chegou um dado momento que começamos a nos separar de humanos comuns, que não possuíam os tais portais, sendo que agora somos a nova maioria na espécie humana. E cada portal é diferente! Desde objetos até criaturas mitológicas e elementos naturais! Os Portallers, aqueles que conseguem abrir os portais, sempre tem uma marca em algum lugar do corpo, olhe! — Kaito mostra sua marca como uma rosa dos ventos azul-piscina atrás do ombro esquerdo. — Meu portal é chamado The Water! E o seu?
Raiko olha pro corpo e mostra uma marca preta, na forma de uma máscara.
— Interessante. Se parece muito com uma máscara... Que tal... The Mask? — Raiko acena positivamente, gostando do nome.
— Eu sou The Light! — Diz Tenma entrando na conversa animado e levantando os braços para mostrar músculos que ele não tinha tanto assim. — Lyra é The Wind e junto comigo, o mestre e outras três pessoas aí, somos os Portallers Elementais! – Tenma fala esta última frase como se fosse algo incrível, digno de histórias fantásticas, até por que realmente o era.
— Sério, Mestre Kaito? — Pergunta Raiko, já gostando de ter uma figura importante para chamar de Mestre.
— Sim. Há seis Portallers elementais. The Fire, The Water, The Earth, The Wind, The Darkness e The Light! Tenho conhecimento de Tenma e Lyra, mas os outros três, não. E eles estão destinados a algo grande! Mas não sei se para o bem, ou para o mal. É o que está escrito na "Anima Stone".
FLASHBACK // FECHA
— Anima Stone... — Diz Raiko, pensativo. — É um pilar de pedra, encontrada a mais de três milênios feito de energia primal. Anima. A energia da primeira Portaller do mundo. The Anima.
— Sim. — Concorda Maggie. — Entendo bastante disso.
— A pedra tinha uma inscrição. Ela dizia, numa língua hoje já morta: "Regidos pela sétima e oitava matéria, os elementais se reunirão por um motivo. E lutarão por ele, acabando com tudo que entre em seu caminho. Porém um dos seis há de determinar o caminho que tomará o mundo. Se cairá, ou irá ascender".
— Nossa. E... — Julie queria fazer mais uma pergunta.
— Continuando. Eu não sabia como abrir meu portal. E mestre Kaito me ensinou. Eu não sabia usar minhas técnicas com perfeição. E ele me ensinou. Mestre Kaito me ensinou tudo que sei sobre tudo. Ele foi um grande mestre. Assim como ensinou a todos ali no refúgio. Porém...
FLASHBACK // ABRE
— Filhos. Estão comigo a muito tempo. Alguns a mais de treze anos. Como você, Tenma.
Haviam se passado três anos. Raiko já tinha doze anos, assim como Lyra e Maggie. Ox era o mais velho de todos, com quatorze anos agora. Akira era o mais novo, com dez. Naquela altura, Raiko e Tenma já eram melhores amigos. Todos estavam sentados um do lado do outro, de frente para o Mestre Kaito, acima de um pedestal.
— Outros, há três. Como o Raiko. Mas, amo todos como se fossem meus filhos, independentemente de como ou em que ordem os conheci. Infelizmente, hoje anunciarei a vocês algo que tenho planejado a algum tempo. Cada aluno escolherá uma dupla. E vocês treinarão todos os dias por dois anos. É tempo suficiente. É isso. Anunciarei depois deste tempo o que será feito. Treinem, filhos. Treinem.
E os times foram formados.
FLASHBACK // FECHA
— Como assim? Você não escolheu o Ox como dupla, Raiko? — Boa pergunta de Lana.
— Sinceramente, Raiko e eu não éramos muito amigos nesta época. — Responde Ox.
— Éramos mais como rivais. Esta minha amizade foi conquistada com o longo do tempo. — Completa o Masamuri.
— Nossa! Continua, continua! — Pede Julie, se ajeitando no puff.
FLASHBACK // ABRE
Maggie e Lyra. Ox e Akira. Raiko e Tenma. E outras duplas entre os demais alunos. No meio disso e de tantos outros eventos ao longo desses dois anos de treino, descobriu-se que Maggie tinha uma pequena queda por Raiko e Raiko por Lyra. Akira aprendeu pugilismo com Ox. E Tenma e Raiko estavam ficando cada vez mais amigos. Amizades que durariam toda uma vida estavam sendo formadas. Em teoria.
Dois anos se passaram. O ano era de X323. O mestre revelaria o grande segredo. Por que o árduo treinamento em dupla de dois anos? Mestre Kaito tinha uma expressão séria, de tristeza e vazio. Ao subir no pedestal, naquele dia, o mundo parecia mais pesado em suas costas. Ele passa quase cinco minutos calado, olhando para o nada em cima do pedestal, até que se põe a falar.
— Antes de qualquer coisa, peço desculpas. Isso é algo que deve ser feito, entendam. De qualquer forma, vocês todos treinaram por esses dois anos. Se conhecendo bem neste processo. Muito bem... – Ele dá uma pausa, abaixando a cabeça, erguendo-a depois de alguns segundos. — E hoje, lutarão entre si.
— E por que mestre? — A pergunta veio de Twister, um dos pupilos do retiro subterrâneo.
“– Por que hoje, quem vencer ficará aqui. E quem perder, irá embora.”
[...]
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