PARADISE - Crônicas de um mundo perfeito
6 Capítulo 6 - Bem Vindos à Corrupção
Com cada vez mais duvidas em sua mente curiosa, Azazel continuava sua vida, que se tornava cada vez menos normal até para os padrões desse mundo anormal.
Dezenas de ciclos se passavam enquanto todas as suas expectativas se voltavam para a ida ao Paraíso.
Ciclos desperdiçados na loucura de seu trabalho. Ciclos Desperdiçados numa vida sem sentido.
Toda vez a mesma rotina:
Acordar, trabalhar, dormir.
Tudo isso já começava a encher o pequeno anjo de uma angústia da qual ele nunca havia ouvido falar. Parecia que sua ida ao Paraíso nunca chegaria.
Nem a carne humana de que ele tanto gostava o satisfazia.
Por que esperar tanto?
– Azazel? — Kesabel vinha parabenizar seu colega — É verdade que você foi classificado como um reprodutor?
– Puxa Azazel, isso deve ser uma honra... — Um outro anjo fazia o mesmo.
– Como exatamente é lá dentro??? — Este, por sua vez, enchia-o de perguntas.
Enquanto alguns anjos vinham conversar sobre seu trabalho, ele, por sua vez respondia da forma mais crua possível. Parecia nem se importar mais com o mundo à sua volta. Parecia ter se desligado de tudo.
– huh...? — Enquanto comia junto de seu irmão, após o início de mais um ciclo, Samyaza notou algo estranho em seu estoque. — Você... ainda não terminou de comer a sua carne de bebê...??? hm? Azazel...? Azazel...?
"CARNE DE BEBÊ"
Como um tsunami, essa pequena frase arrastou toda sua mente perturbada.
E em meio a pergunta de seu irmão, flashes de algo uma vez falado por seu tão querido amigo Kokabiel surgiram, junto de um estranho sentimento:
"Eu estava aguardando o anjo marcador, mas ele provavelmente deve estar se maravilhando com a carne de bebê. Ele provavelmente é o anjo que mais gosta dessa coisa"
"ELE PROVAVELMENTE É O ANJO QUE MAIS GOSTA DESSA COISA"
Lembrara que Kokabiel uma vez havia dito tais palavras. Aquilo procedia, Kokabiel não era o único que havia reparado nos hábitos do anjo responsável pela marcação. Todos sabiam o quanto ele gostava da tal carne.
Enquanto seu irmão ainda continuava, inutilmente, a chama-lo, pouco à pouco formava uma ideia um tanto quanto bizarra...
– Azazel!
– Ãh...? — Finalmente voltou a si — Ah... Ah...! Eu... Eu... Eu apenas estava comendo aos poucos...
– Sério...? Isso já ta aqui à um tempão.
– É que... É que eu demorei tanto pra comer que acabei esquecendo...
– Hmm...
Maldita carne.
***
O anjo marcador...
Assim como o cortador, apenas um existira por geração desde o início dos tempos. Sempre que era chegada novamente a vez de um se encaminhar ao Paraíso, outro era imediatamente classificado como marcador e colocado em seu lugar.
Um trabalho deveras normal, dado o mundo em que vivem.
Nesta geração, o anjo responsável pela marcação era Kasyade.
Ele possuía um gosto um tanto quanto comum entre os anjos. Assim como tantos de sua espécie, ele adorava o sabor das carnes de bebês humanos. Embora talvez ele gostasse um pouco demais da tal carne. Um pouco demais até pra um anjo.
Dada a sua posição, como responsável pela marcação dos anjos, isso não resultou em boas coisas.
Para entrar no Palácio Real, e ir ao Paraíso, 20 marcas eram necessárias e Samael checava os que entravam com certa frequência.
No entanto, o que Samael nem imaginava é que essas 20 marcas, poderiam ser facilmente conseguidas de forma "ilícita".
Isso com certeza já havia passado pela mente de Samael, ele não é burro. Porém, com toda a sua conhecida arrogância, sempre subestimou os outros anjos, achando assim que eles nunca quebrariam as regras desta forma. Regras essas que nem mesmo existiam oficialmente.
Mas eles quebraram.
Alguns poucos anjos, se aproveitando da fraqueza do anjo marcador, ofereciam suas próprias carnes de bebê em troca de completarem as marcas necessárias, e assim conseguiam ir ao "Paraíso" antes do momento certo, sem que Samael soubesse.
Porém, poucos anjos eram corruptos o suficiente para sequer imaginar isso, além de que Kasyade não gostava de faze-lo, por medo, tornando isso um ato muito raro de ser praticado...
***
E lá, Kasyade estava, no ciclo de hoje: sentado à mesa, comendo sua carne, após o segundo alarme.
O silêncio reinava em toda sua casa. Paz por todo o lado. Morava sozinho afinal. Mal sabia ele que essa ínfima paz, estava prestes a ser quebrada por uma visita inesperada.
– Toc Toc — O barulho do bater da porta despertou rapidamente seus olhos arregalados.
"Quem poderia ser?". Não fazia ideia do que o esperava.
– Oi, Kasyade.
– ...?!
Era Azazel.
E entrando sem sequer ser convidado, sentou-se em uma das cadeiras da casa enquanto esboçava um rosto um tanto quanto debochado. Quase não parecia o mesmo de antes, exceto que por trás de sua face maliciosa ainda mantinha uma visível insegurança.
– Azazel...? O-o quê você quer...?
– Eu vim aqui te propor uma coisa. — Virou-se para Kasyade e colocou um pedaço de carne podre na mesa.
– O-o que é isso...? — Kasyade gaguejou assustado.
– Carne... De bebê.
Ao perceber o delicioso cheiro da carne que tanto amava, a boca de Kasyade imediatamente se cobriu de saliva, fazendo com que ele delirasse só de pensar em come-la de novo. Que anjo estranho.
– C-como... Como conseguiu isso...!?
– Bom... Eu, particularmente, nunca me importei tanto em comer carne de bebê. Por mais que ela seja mais saborosa que a carne normal, eu não vejo tanta diferença assim. Então, eu fiquei pensando... "Talvez alguém possa querer essa coisa bem mais do que eu"
Enquanto apontava para Kasyade, continuou — Foi ai que eu lembrei de você...
– huh?!
– ...Lembrei do quanto você gosta disso, e pensei em te dar... o que sobrou da minha parte.
A mente de Kasyade enlouquecia com a cada vez mais iminente possibilidade de poder comer a sua tão amada carne. — O-o que você quer dizer com tudo isso?
– Eu preciso de sua ajuda. — Azazel continuou, levantando da cadeira e voltando a sua feição normal banhada em insegurança. — Preciso ir ao Paraíso. Agora. Tenho muitas perguntas e sei que apenas Deus pode responder elas.
– Esta vendo? — Virou suas costas para Kasyade e levantou sua camisa, deixando à mostra suas marcas de cruz. — Eu já possuo 15 marcas, só preciso que adicione mais 5 e estarei pronto. Se fizer isso, eu lhe dou toda a minha carne de bebê.
– E-eu... Eu não posso... Samael não iria gostar disso...
– Vamos lá... Samael não saberia. Eu sei que eu não sou o primeiro a pedir isso, só quero que me ajude nisso.
Kasyade parecia estar cedendo pouco a pouco ao pedido de Azazel — Eu não... Eu não sei... Não gosto de fazer isso...
– Vamos... — pegou o pedaço de carne e colocou nas mãos do anjo marcador. — Fica com isso. Depois eu trago o resto. E então? Sei que você gosta disso.
Azazel permaneceu encarando Kasyade, que depois de olhar de um lado pro outro por minutos, finalmente cedeu:
– T-tudo bem...
– O-o que...?!
– Tudo bem... Eu aceito.
– Isso!
– M-mas não podemos fazer isso agora. — Olhou para a porta da casa — os outros podem acabar sentindo o cheiro de queimado da cruz em sua pele. Vamos ter que fazer isso ao tocar do ultimo alarme, quando todos estiverem dormindo.
– Certo — Azazel começou a caminhar rapidamente em direção à porta. — quando eu voltar, trago o restante da carne.
– ...Tome cuidado quando voltar. Se alguém descobrir isso... Eu não sei oque poderá acontecer...
– Ok.
– Adeus...
E, ao final de toda a dura negociação, antes de cruzar a porta daquela pequena casa, Azazel virou se para o anjo marcador...
– Kasyade...
– O que?
– ...Obrigado.
***
E no céu, em meio à escuridão do final do ciclo, tudo ocorreu. Azazel fingiu estar dormindo para seu irmão e junto ao silêncio da vazia cidade dos anjos, foi à caminho da casa de Kasyade.
Lá, entre gritos de dor causados pela quentura do metal em formato de cruz, ele finalmente recebeu as cinco marcas que restavam para completar suas vinte.
Estava pronto, enfim, para ir ao seu tão aguardado Paraíso.
Pronto para enfim ter seu encontro com Deus.
Porém, o que ele não esperava... Oque ele nem sequer imaginava...
Era que por causa destas marcas... Por causa destas malditas marcas... todo o mundo que ele pensava conhecer...
Ia acabar por desabar.
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