Notas iniciais
Ícaro, o garoto que voou próximo demais do sol. E morreu por isso. Seria isso um presságio?

– Adeus, Azazel...

Ao ouvir a voz de seu irmão sumir pouco a pouco em meio ao caminho para o trabalho, um sentimento de tristeza pairou sobre Azazel.

Indo ao Paraíso, tinha plena consciência de que reencontraria Samyaza em algum momento próximo, mas mesmo assim, saber que não poderia sequer se despedir ainda pesava muito em sua já pesada consciência.

– Espero que Deus me perdoe por isso...

Enfim chegou o momento.

O abrir dos enormes portões do Palácio Real, anunciavam a chegada de Samael, e tornavam o seu encontro com Deus, cada vez mais e mais próximo.

E acompanhado de dois outros anjos que nunca sequer havia conhecido, seguiu andando junto do anjo de asas negras. Este por sua vez, devido a sua profunda ignorância, nem ao menos recordou por um segundo do rosto do pequeno anjo.

E andaram, andaram e andaram.

Aquela caminhada parecia não ter fim na visão de Azazel. Toda uma tensão cobria a sua mente sempre que pensava estar cada vez mais próximo do Paraíso.

Sabia que por mais que não fosse exatamente proibido, ele ainda assim estava mentindo, e isso, pesava cada vez mais em sua consciência. Chegou até mesmo a duvidar se Deus o aceitaria no Paraíso.

Pouco a pouco começava a se arrepender de sua decisão.

– Se organizem lado à lado. — Ordenou Samael, que em um gesto estranho, novamente começou a colocar sua mão à cabeça de cada um dos três anjos.

Tal gesto, imediatamente lembrou Azazel da vez em que foi classificado pelo líder dos anjos, e ao mesmo tempo, também provocou uma sensação de estranheza, já que permanecia sem saber qual o significado daquilo.

– huh...? — Ao colocar as mãos sobre a cabeça de Azazel, Samael sentiu algo diferente.

E quase que ao mesmo momento seu coração disparou.

"Sera que ele descobriu?!". Azazel estava tão aflito que mesmo em meio a escuridão daquele cômodo mal iluminado, sua tensão podia ser vista de longe.

– Levantem suas camisas. — Samael ordenou, e rapidamente eles o fizeram.

Lá estava. Ambos os três anjos, incluindo Azazel traziam em suas costas as tais 20 marcas.

O que poderia ter ocasionado essa dúvida em Samael?

A verdade é que, por traz daquele estranho gesto sem sentido, Samael estava na verdade procurando saber quem, entre os três anjos dali, possuía a maior quantidade de "força" em sua carne.

Nesse "ritual", o escolhido, o que possuiria a carne mais "forte", se encontraria com Deus e consequentemente, serviria melhor como seu alimento, enquanto os outros seriam abatidos e levados para um outro lugar.

Foi exatamente isso que acontecera com Kokabiel na sua ida ao Paraíso... Graças a sua alimentação exagerada, ele acabou sendo o anjo mais forte entre os três que o acompanhavam.

Mas desta vez era diferente.

Azazel não possuía maturidade o suficiente para sequer se comparar à força dos dois outros anjos que o acompanhavam. E isto, Essa visível diferença de forças, que causou a desconfiança de Samael.

As recentes marcas que havia recebido se destacaram em meio as outras e isso foi o suficiente para que Samael ligasse os pontos e percebesse que ele, de certo, estava mentindo.

Mas, mesmo assim, mesmo sabendo desse fato, ele decidiu prosseguir com o ritual. Imaginou que não haveria problemas. Que de qualquer forma, aquele mentiroso ia morrer... Apenas um pouco antes do momento certo.

"Pobrezinho".

E foi, junto do anjo classificado como o mais forte, em direção ao "Paraíso", deixando Azazel e o outro anjo sozinhos em meio a escuridão e o silêncio amedrontador daquele cômodo.

Porém, algo ainda incomodava o anjo de asas negras. Algo ainda parecia estar fora do lugar.

O rosto dele.
É claro.
Algo soava familiar naquele rosto.

Andando naquele escuro corredor tentou lembrar. Forçava-se, sem sucesso, a lembrar. "Quem era aquele anjo?" essa duvida afligia cada vez mais a cabeça psicopática de Samael. Mas por mais que ele tentasse, não conseguia de forma alguma se lembrar.

Maldita ignorância.

Enquanto isso, no cômodo anterior, um outro anjo também sofria da profunda aflição.
A duvida de se Samael havia descoberto, ou não, sua farsa, aliada com a escuridão e o silêncio do local, só contribuía para o aumento da tensão de Azazel.

"O que eu faço?!".
"Será, que ele já descobriu?!".

Enquanto pensava cada vez mais em desistir de seu plano e sair daquele lugar, começou a entrar em pânico.

"É a minha chance! Enquanto ele não está aqui!" Correu rapidamente para a porta de saída do cômodo. Porem relutou em abrir a maçaneta.

"Mas e depois?! Oque eu faço?!"
"Ele pode voltar a qualquer momento!!!"

E num gesto rápido, que assustou o outro anjo que permanecia ali, finalmente fez sua decisão. Girou a maçaneta.

Inútil.
A porta estava trancada.

– ...!?

Enquanto o desespero bailava por todo o seu pequeno corpo angelical, continou à tentar insanamente abrir a porta.

E no mesmo momento em que Azazel enlouquecia em desespero, Samael começava a lembrar daquele rosto.

– Az-Azrael... Israel... Z-zadrel... Qual era o seu maldito nome?!

Ao longe a criatura do final do cômodo novamente comia, mastigava e devorava o anjo, enquanto ele continuava. — Az-azazal... Azaze...

– Azazel! — Até que então, finalmente e infelizmente, recordou o nome do anjo — Sim! Azazel é o seu nome! Mas espera... Ele... Ele não é...

"UM ANJO REPRODUTOR"

"Ele é importante...!" Lembrou um segundo antes de ser bruscamente surpreendido por um grande estrondo vindo do cômodo anterior:

– Mas o quê!?

Lá, Azazel havia conseguido achar uma maneira de sair do cômodo:

Simplesmente destruiu a porta. Assim como, viu Kokabiel fazer ciclos atrás em seu último ritual.

E começou a correr loucamente.
Destruindo e destruindo.

"Eu vou fugir daqui!!!"

Colocou abaixo, cada misera porta que encontrava em sua frente, numa tentativa insana e sem sentido de encontrar a saída do local.

Será que havia ficado louco?

De qualquer forma, isso já não importava mais para ele.

Não havia percebido, porém nem ligava mais para oque estava acontecendo naquele momento.

Toda a emoção... Toda a adrenalina que sentia quebrando as regras, agindo de forma diferente do comum... Trouxe à tona um sentimento que nunca antes havia sentido em toda a sua vida patética:

Felicidade.

E em meio à toda essa agitação, Azazel, sem sequer perceber, esboçou um tímido sorriso.

Um sorriso que imediatamente se quebrou ao entrar naquele cômodo.

– Hã...?

Aquele cômodo.
Onde anjos jaziam presos em gaiolas.

Lá dentro, naquela sala escura, que mais parecia um pedaço do inferno perdido no céu, Azazel viu dezenas de anjos agachados, presos em gaiolas menores do que eles mesmos, ao lado de uma mesa banhada em sangue e corpos de anjos, cortados em diversos pedaços.

Anjos mortos. Cortados exatamente da mesma forma que a carne humana que Azazel costumava comer.
Como comida.

Samael estava cometendo canibalismo.

E como se isso não fosse o suficiente para abalar a conturbada mente do pequeno anjo, encontrou, junto aos anjos sofrendo em agonia, um rosto familiar.

Penemue.

Em meio aquele cenário caótico e aterrorizante, ele viu Penemue. Cruelmente encolhido em uma daquelas gaiolas. Como um mísero e patético animal. Como um humano talvez.

"Oque é isso?", "O quê Penemue faz aqui?", "ele não deveria estar no Paraíso?", "E quanto a Kokabiel?". Nenhuma dessas perguntas passou pela cabeça de Azazel naquele instante.

Ignorando covardemente o olhar de Penemue em agonia, ele simplesmente fugiu dali em desespero. Sua mente congelou, nem sequer conseguiu processar aquilo que havia acabado de ver.

Sua única reação foi continuar a correr desesperado até finalmente botar os pés pra fora do lugar e alertar todos anjos que viviam ali perto com seu estardalhaço:

– O que esta acontecendo...?

– Azazel...?!

Mas antes que pudesse parar para assimilar toda aquela loucura, Azazel foi violentamente surpreendido por Samael, que surgiu de dentro do palácio com uma velocidade inacreditável.

Este, quase que instintivamente, o agarrou pelo pescoço e o lançou um profundo olhar de ódio, até perceber que já estava do lado de fora do palácio.

– O quê esta acontecendo?! — Rapidamente uma multidão se formou em meio ao caos daquela situação.

Samael, ainda segurando com força o pescoço de Azazel, começou a perceber que aquela confusão tinha tomado proporções muito maiores do que imaginara.

"O que eu faço?!" pela primeira vez, sentiu que as coisas haviam fugido de seu controle.

E enquanto segurava com cada vez mais força o pescoço de Azazel, que permanecia abalado, tentava planejar uma forma de escapar desta situação.

A multidão ia crescendo cada vez mais. Até que após ouvir todo estardalhaço criado pela confusão, Samyaza finalmente chegou. Para desespero de si mesmo.

"Azazel...?"

***

A tensão aumentava.

Samael sabia que agora que Azazel havia descoberto seu segredo precisava imediatamente se livrar dele. Mas como fazer isso na frente de dezenas de anjos?

"É isso!" Em meio ao pânico, uma ideia surgiu em sua mente. Uma ideia que seria capaz de resolver todos os problemas de uma só vez.

Uma ideia genial em sua visão.

– Este anjo!... Azazel...! — O líder dos anjos virou-se para a multidão enlouquecida — Ele quebrou as regras sagradas de Deus!!!

Incapaz de fazer qualquer coisa, Samyaza observava boquiaberto Samael continuar seu discurso, junto da multidão:

– Deus foi claro quando disse que só, e apenas no momento certo, vocês poderiam encontra-lo! Todos sabem disto! — Lançou para Azazel, um olhar de ódio, que desta vez era parte de sua encenação. — Mas este anjo... Azazel... Simplesmente ignorou tudo isto, e de alguma forma me enganou afim de entrar no Paraíso sem as vinte marcas!!

No meio da multidão atônita, Kasyade fugia sorrateiro.

– Isso é inadmissível! — Samael prosseguiu ressaltando cada vez mais sua falsa ira.

– A partir de agora, mais nenhum desrespeito à Deus será tolerado!!!

E com as próprias mãos, Samael cortou brutalmente as asas de Azazel, deixando todos os que assistiam a cena chocados.

– Azazel será exilado!! No Éden!! — Ainda segurando em seu pescoço, o arrastou para a ponta da cidade dos anjos — Será condenado a viver a eternidade como um mísero humano!!!

Enquanto Samyaza gritava em silêncio sem saber o que fazer para impedir a queda de seu irmão... Aquilo ocorreu.

Em um violento movimento, Samael arremessou o pequeno anjo, já quase inconsciente, para fora do céu.

"AZAZEL!!!"

Por mais que seu corpo almejasse reagir à situação, a mente de Samyaza congelava diante da grandeza do poderoso líder dos anjos. E aqui ele tomou uma decisão que o amaldiçoaria por todos os próximos ciclos... Não ir contra as ordens de Samael.

– E todos que desobedecerem as regras, a partir de agora... — Virou-se para a multidão em loucura — Terão o mesmo destino!

Maldito.

Sabia que a coisa que de que os anjos mais sentiam nojo, eram os humanos. Apenas pensar em ser comparado a um humano era como um xingamento para eles. Uma desonra.

No final das contas, toda a confusão que Azazel criou, trabalhou à favor de Samael. Serviu como uma forma de colocar todos os anjos na linha e evitar que mais confusões ocorressem.

Na verdade, a punição era mais uma mentira de Samael. Azazel serviria apenas como um exemplo, afim de criar mais credibilidade. E se algum outro anjo realmente quebrasse as regras de novo, Samael simplesmente o mataria sem que ninguém soubesse.

Um plano genial. Mas como um plano criado em meio ao caos, de certo haveriam furos. Era orgulhoso demais para sequer pensar nisso.

– Espero que tenham entendido!... — Samael começou a caminhar de volta à seu palácio — Voltem para seus respectivos afazeres!

E em meio ao dispersar da multidão atônita, apenas um anjo continou lá, lamentando sem acreditar no ocorrido...

Samyaza estava sem ação.

Notas finais
Até o próximo ciclo...