PARADISE - Crônicas de um mundo perfeito
3 Capítulo 3 - Be My Baby
Este era um importante ciclo na vida de Kokabiel. Finalmente participaria do seu último ritual de marcação. Finalmente Iria ao Paraíso. Ao encontro de Deus.
Mas mesmo diante dessa anormalidade em seu cotidiano, tudo ainda parecia normal. Ele acordou, comeu, se preparou para o trabalho e saiu, tudo com um grande e visível sorriso no rosto.
Apenas mais um dia normal...
Azazel, por sua vez, também tinha um ciclo importante pela frente. Após seu próximo ritual de marcação, que aconteceria junto do de Kokabiel, ele finalmente começaria a trabalhar. Mesmo que não parecesse lá muito confiante quanto a isso.
Ainda era um simples porém importante ciclo normal...
E não apenas isso. Eles nem sequer imaginavam, mas a partir deste fatídico ciclo, a vida deles e de todos os seres desse mundo iria, de pouco em pouco, mudar drasticamente.
Porém não é sobre isso que iremos tratar agora.
FOOOOOOOOOOM!!!
Este também era o aguardado ciclo da distribuição das carnes de bebês humanos.
Tal carne, indiscutivelmente macia e apetitosa, era a comida favorita de todo ser que ousava chamar-se de anjo.
Todos, mesmo que uns bem mais que outros, invariavelmente gostam desta carne. Comeriam-na todos os dias se pudessem.
Porém Samael, astuto como era, sabia que não poderia servir a famosa carne por todo o tempo. Se a tal carne de bebê fosse servida em todo ciclo, os humanos não cresceriam, não se reproduziriam, e consequentemente seriam levados a extinção. Não existiriam assim mais forma de alimentar os anjos.
Então ele criou a tal Uma vez a cada 100 ciclos seria distribuída a tal carne.
E assim, além de aumentar o valor da tal carne, ele ainda criou uma quebra no cotidiano dos anjos, fazendo com que a vida deles tivesse um pouco mais de sentido nesse repetitivo e entediante dia a dia.
Ao tocar do Segundo alarme, todos os anjos correram rapidamente para pegar sua parte da saborosa carne.
– Ahhh isso é tão bom... — Dizia um anjo qualquer enquanto se deliciava em sua parte da carne.
– Ohhhh! Ohhhh!! OHHHH!!! — Gemia o outro ao provar tal sabor.
Os anjos realmente eram loucos por essa coisa.
E enquanto quase todos os anjos piravam com o incrível sabor de tal carne, Azazel caminhava para seu não tão aguardado Ritual.
Samyaza, que voltou do trabalho com seu pedaço da carne, que dividiria com Azazel no futuro, chegou em casa e notou que Azazel já havia partido para o ritual. Ele então pôs-se a comer sua parte da carne enquanto se preparava para ir presenciar o aguardado ritual de seu irmão.
* * *
Depois de uma certa caminhada, Azazel enfim chegou ao aguardado evento. Lá Kokabiel, com o mesmo grande sorriso no rosto do inicio do ciclo, já se encontrava esperando por ele para o Ritual.
– O que falta para começarmos o ritual? — Perguntou Azazel enquanto coçava a cabeça.
– Eu estava aguardando o anjo marcador, — Respondeu. — mas ele provavelmente deve estar se maravilhando com a carne de bebê. Ele provavelmente é o anjo que mais gosta dessa coisa.
– Também falta Penemue chegar, — Continuou — ele sempre participa do ritual com a gente. E soube que ele também estará completando 20 marcas hoje.
Ei, — Disse um anjo entre a multidão que presenciava o ritual — Pelo que eu percebi, ninguém viu Penemue hoje. Ele não apareceu nem pra buscar o estoque diário. Será que aconteceu algo com ele?
Talvez ele simplesmente não queira ir ao Paraíso — Outro anjo opinou. — não é a primeira vez que acontece algo desse tipo.
Todo o anjo que vai pra lá, nunca mais volta... — Continuou outro — Alguns simplesmente não querem abandonar esse mundo pra sempre... Mesmo se for por Deus...
E em meio a todo o murmurinho da multidão, um anjo lançou uma obvia, porém necessária sugestão.
– Alguém já foi na casa dele? Ele mora sozinho não é? Talvez ele esteja lá.
Azazel observava tudo com seu característico olhar assustado, enquanto Kokabiel, sério como nunca antes, Optou por ir até a tal casa:
– Esperem aqui, eu vou até lá. Já que o anjo marcador ainda não chegou, temos tempo o suficiente para convence-lo antes do ciclo acabar.
Azazel, por sua vez, foi junto de Kokabiel, pois precisava saber que fim levaria o ritual.
* * *
Ao chegar na casa de Penemue, que entre as 50 casas do céu, morava na de número 12, Eles logo notaram um estranho vazio.
A casa, diferente de todas as outras do local, estava totalmente fechada.
Ao notar isso, Kokabiel logo pôs-se à porta, e começou a bater nela chamando por Penemue.
– Saia daqui! — Uma voz dramática e chorosa gritou de dentro.
– Penemue? É você? — Perguntou Kokabiel. — O que é que você está fazendo ai!? E o ritual!? E o Paraíso!?
– Eu não quero ir pro ritual! Não quero sair daqui!
– Você prefere ficar ai, se escondendo do mundo por toda a eternidade!?
– Por que eu iria querer ir ao Paraíso!? Eu...Nem ao menos sei oque me espera lá!
– Deus! Ele te espera no Paraíso! Isto não basta pra você, Penemue!?
– Como você pode ter tanta certeza!? E se Deus não for tão bom como dizem!? E se Deus me rejeitar!?
– Deus ama todos nós... Independente de qualquer coisa! Não faça isso com sua vida Penemue!
– Não há como ter certeza! Tudo isso pode até mesmo ser uma mentira!... O Paraíso pode nem ao menos existir!... Deus... pode não existir...!!!
Ao ouvir tais palavras, imediatamente uma grande expressão de raiva cobriu todo o rosto de Kokabiel. Ele parecia ter se irritado de uma forma que fez com que até Azazel se assustase.
Com uma força que nem ele mesmo sabia que tinha, Kokabiel destroçou a porta com um único soco e foi rapidamente em direção à Penemue que se encontrava sentado no chão ao lado de sua cama, encolhido e tremendo.
Este, por sua vez, ao ouvir o estrondo da porta se quebrando, imediatamente levantou-se e correu desengonçado, tentando sem sucesso fugir de Kokabiel, que com um rosto banhado em raiva, o agarrou pela camisa.
Azazel se surpreendeu com a cena que acabara de ver. Nunca antes tinha visto Kokabiel agir daquela maneira.
– Deus, certamente existe! — Gritou ele enquanto sua face raivosa sumia em um firme e sereno olhar de discurso. — Você nunca o viu... mas com certeza já sentiu a sua essência... Ouviu a sua voz... Deus esta em todas as coisas. Em você, em mim, no céu, no Éden... Até mesmo nos humanos... Porque tudo surgiu dele. Deus criou tudo. Ele é o grande e todo poderoso criador.
– ...!?
– Você precisa acreditar... Você precisa sentir... Acredite e você vai se sentir melhor! Toda essa duvida... Vai imediatamente desaparecer!
– Mas por que tudo isso?! Por que temos que sair desse mundo e ir ao Paraíso... Eu não quero Perder todos que conheci, tudo que construí, tudo a que me acostumei...
– Por Deus! Pelo Paraíso! lá, você não precisará mais pensar nesse tipo de coisa banal... você estará com Deus! tudo oque você gosta há de aparece lá...
Penemue então, lentamente modificando seu olhar choroso para um olhar de admiração, observava Kokabiel continuar seu discurso após largar sua camisa:
– É o Paraíso, meu amigo! você poderá rever todos os seus amigos lá! Você tem amigos que já foram ao paraíso não é!?
– T-t-tenho...
– Então! Além de viver eternamente com Deus! Você poderá finalmente rever todos os seus amigos que partiram pra lá! É perfeito!
Enquanto sua cara chorosa se desfazia aos poucos, Penemue ia se convencendo com as palavras de Kokabiel:
– M-mas... Mas... eu neguei a sua existência... Deus me aceitaria lá mesmo depois do que eu... Mesmo depois do que eu fiz...?
– Com toda a certeza! Deus é o ser mais misericordioso existente. Ele ficará muito feliz em te receber no Paraíso. Acredite em mim. Eu juro!
Observando toda a cena, Azazel realmente se surpreendeu com toda a cena... com todo o incrível poder de convencimento de Kokabiel.
– Vamos Penemue — Kokabiel Finalizou seu discurso. — Todos o esperam para o ritual
– Certo...!
E assim... O ritual ocorreu...
Azazel finalmente recebeu sua decima quinta marca... E Kokabiel e Penemue, por sua vez, receberam suas vigésimas.
Tudo realmente ocorreu... E muito bem por sinal...
– Ei Samyaza — Azazel virou-se para seu irmão ao chegarem em casa. — Você acha que... Que... Se o mundo tivesse sido diferente... Kokabiel poderia ter sido nosso líder...?
– O-o-oque? — Respondeu confuso e com certo ar desacreditado — do que você esta falando Azazel???
– Você não viu lá... Mas eu senti... Senti em Kokabiel um ar quase divino...!
Samyaza quase gargalhou enquanto Azazel insistia:
– Sério... O jeito com que ele falou com aquele anjo... Penemue... Ele salvou sua vida...! Convenceu ele a ir ao Paraíso...! Talvez ele pudesse ser um líder melhor que Samael... Tipo, nós quase nunca nem vemos Samael...
– Ta bom, Ta bom. — Ignorou se irmão sonhador. — Agora vamos comer. Logo logo o terceiro alarme soa. Esqueci de te dizer, mas eu guardei a sua carne de bebê de hoje. Vai comer agora?
– Não... Eu vou guardar ela... Para depois.
FOOOOOOOOOOM!!!
E mais um ciclo termina, bem como um novo se inicia. Ciclo esse, que não seria tão normal se comparado aos últimos. Ou talvez... O que poderia ser o tal anormal para alguns, seria apenas o bom e velho normal para outros...
Adeus Azazel... Adeus Samyaza... — Kokabiel, acompanhado de Penemue, se despedia de seus amigos, enquanto se dirigia ao Paraíso.
– Você já se acostumou com a ideia de que Kokabiel vai ter que partir? — Samyaza dirigiu-se ao seu irmão enquanto olhavam Kokabiel desaparecer ao longe.
– Na verdade não...
– Hum... De qualquer forma...Um dia todos nós vamos viver lá...No paraíso... Juntos...
– Vem... — Virou-se para o lado oposto — Você ainda tem um longo ciclo pela frente hoje.
E em meio a esse mundo mergulhado em anormalidade...
seria o normal, na verdade anormal?
– Vamos... Penemue...
Fale com o autor