Notas iniciais
Muito obrigada pela boa recepção da história e os comentários

EU APOSTO MINHA VIDA

“Sei que peguei o caminho

Que você nunca quis para mim

Sei que te decepcionei, não foi?

Tantas noites sem dormir” — I Bet My Life

AJUDEI MINHA MÃE A colocar a última mala no seu carro vermelho. Meu pai observava tudo da janela. Suspirei. Desde que soubera da internação, estava tentando me evitar. Reagira quebrando quase toda a sala quando descobrira que o filho era “louco”. Minha mãe chorava na cozinha desde então, ele fingia que eu não existia e eu fingia que estava bem. Mal podia esperar para entrar no IPJC. O panfleto, que eu lera nos últimos três dias incessantemente, dizia “Instituto Psiquiátrico para Jovens de Cabo é o melhor hospital psiquiátrico da região, com os melhores profissionais do estado e acompanhamento médico 24h por dia”. Toda a vizinhança estava me encarando esquisito e as mães puxavam as crianças quando eu chegava na mercearia para comprar algo. Afinal, não é todo dia que o filho de Laura e Otto Moura, o (antigo) orgulho da família, era mandado para o IPCJ.

No dia em que soube do meu diagnóstico, encontrei com uma garota, provavelmente uma paciente, que corria de uma enfermeira. Seu cabelo era curto e desarrumado, descolorido de forma que parecia branco, e ela era baixa e fina, esguiando-se como um rato. Em uns três minutos, ela comentara com sarcasmo que eu não era louco e falara da minha bunda, para depois sumir nos corredores do hospital. A vida estava cada dia mais legal para mim, mas por hora, eu tentava só me preocupar com a atividade que faria no agora, não no futuro.

— Vamos, Andersen? — Perguntou minha mãe, passando as mãos pelos fios soltos do cabelo, preso em um coque firme que parecia que iria fazer sua pele ceder de tanto que puxava. Ela estava com olheiras e com a aparência cansada desde que eu começara a esquecer. Esquecer. Um problema tão pequeno que se transformou naquilo tudo. — Não se preocupe, querido. Eu vou te visitar nos três dias. E não se importe com seu pai, ele vai superar.

O que ele vai superar, mãe? Sendo que todo dia ele vai chegar em casa e te ver chorando, não ouvir minha barulheira no quarto, e no final de cada mês ainda vai pagar pelo maldito hospital psiquiátrico? Engoli o começo de uma discussão e encarei a janela.

— Está tudo bem, mãe. Só estou ansioso.

Se eu iniciasse uma discussão, ela daria partida no carro e quando voltasse, ela e meu pai teriam uma briga terrível, só que sem eu para defendê-la. Eu não podia deixar minha mãe ali. Mas que alternativa havia? Daqui a pouco eu não iria me lembrar meu próprio nome. Era melhor me isolar de tudo e de todos, no fim das contas, e quando esquecesse de tudo, virar um vegetal idiota vivendo em um hospital psiquiátrico, a desprezível lembrança da antiga felicidade da família.

Talvez eu estivesse exagerando. Por esse pensamento, me meti dentro do carro sem me despedir de Otto e assenti para minha mãe começar a dirigir. Eu faria aquilo. Ainda era filho da minha mãe, afinal.

— Então, a enfermeira Isabella, que é um doce, me disse que você vai interagir com outros pacientes e que sua ala é um pouco vazia, então não vai precisar dividir quarto com alguém que se esqueça do seu rosto a cada dez minutos. — Ela começou a falar me olhando um pouco, enquanto saíamos do bairro. — Quero que saiba, querido, que eu não ligo se você está indo para um hospital psiquiátrico ou para um campus de faculdade. Você vai se tratar, vai parar com esses surtos de esquecimento, e vai voltar. Vai ser bom. E normal. — Estendeu uma das mãos para tocar a minha e meu estômago se retorceu. Não ia ser normal, de jeito nenhum. — Talvez não normal, mas há vários jovens lá, da sua idade. Você me disse que encontrou com uma garota sem querer naquele dia, não foi?

— A garota da enfermeira. — assenti.

— Pois é. Vai fazer amigos, como conseguiu quando nos mudamos para Cabo, e vai dar tudo certo. Porque você é um Moura, e nós não deixamos ninguém pisar em nós. — Me puxou com a mão quando paramos no sinal. — Eu te amo, Andersen. Você é o melhor filho que eu poderia ter.

— Mesmo com tudo isso, as despesas e os vizinhos?

— Mesmo com tudo isso. — Ela sorriu. — Nunca gostei da vizinhança e sempre quis ter algo excepcional para comentar nas reuniões de família. Nenhum dos seus primos vai pro IPJC, isso minhas irmãs não podem ter.

Eu ri, sentindo os olhos molharem. Iria sentir muita falta dela.

— Eu também te amo, mãe. Vai ter orgulho de mim.

— Eu aposto minha vida em você, querido.