Ozando no Chb
52 Quebra a cara dela Ártemis
Notas iniciais
Após a inesperada confissão de Alphômega um silêncio sepulcral invadiu o local. Estavam digerindo a informação mais devagar do que seria se não estivessem com tantas dores e problemas. No entanto, quando entenderam foi um completo caos com todos falando ao mesmo tempo enquanto os berros de Isabela se sobressaiam.
–Porra moleque! Eu vou matar você e é agora! –gritou Steve ameaçadoramente.
–Não faz isso! Por tudo que é mais sagrado só me deixa em paz. Já confessei tudo e tá tudo ótimo! Só tira essa garota de perto de mim e não me mata, por favor. –berrou Peter desesperado.
–Ah que desaforado! –Isabela reclamou.
–Vai pra lá Isabela que agora ele vai ter que contar. –Sara a puxou pelo seu coque.
–Olha garota, tu não mexe no meu coque! –atacou Isabela, mas voltou a gritar no ouvido de Peter, pois ela e todos os outros queriam respostas.
–CONTA LOGO, PORRA! –berrou Steve e empurrou Peter bruscamente no chão.
–Tá bom. Eu vou contar, mas não precisa avacalhar não meu filho! Tira essa mão de mim se quiser que eu fale alguma coisa.
Steve deu um sorriso de quem não estava acreditando no que ouvia.
–Mano, esse moleque tá de brincadeira... –disse o filho de Ares prestes a perder a escassa paciência.
–Cala boca Steve, vai pra lá que o menino vai falar. –interrompeu Sara.
–Pronto? Posso falar em paz? –interrogou Peter, não que ele quisesse contar, mas era obrigado.
–Já passou da hora. –respondeu Steve.
–Tudo começou com o nascimento do digníssimo Peter Alphômega Fahrenheit de Mendonça... Foi em uma esplêndida manhã do dia seis de novembro do ano de 1998. Recordo-me que naquele dia os pássaros cantaram mais felizes e o mundo ganhou um novo brilho. –o garoto fez uma expressão contemplativa, como se tudo houvesse acontecido há muito tempo.
–Pá porra! Moleque abusado! Começa essa palhaçada direito. –gritou Isabela.
–Isabela, vai pra lá você também e deixa ele falar. –disse Laura.
–Tá, eu vou. –ela disse com a sua típica cara de ofendida –Mas só vou porque quero saber a história.
Então a filha de Ares foi para trás de Sara completamente comportada.
–Pronto Peter está seguro da Isabela, conte sua história e por favor sem ser na terceira pessoa. –pediu Sara.
–E apenas a parte da missão. –completou Laura.
–Ok, tudo bem, como quiserem. Eu já entendi que não sabem apreciar uma boa história. Vagava eu por essas ruas sombrias e solitárias de uma cidade qualquer, estava tão perdido que oh! Nem consigo lembrar-me de qual era.
Os semideuses encaravam Peter entediados, porém ainda assim prestaram atenção. Connor e Leo chegaram no momento da história e logo Laura e Sara os impediram de interromper Peter e eles ficaram calados de má vontade. Reparando nos olhares de seu público ele apressou a narrativa.
–Abandonado como era, fui chamado e convocado pela deusa da discórdia e a sirvo fielmente, sempre a servi. Ela me incumbiu de uma missão e aqui estou eu a cumprindo fielmente, ou estava até vocês me interromperem e me obrigarem a ficar na companhia dessa filha de Ares, é impossível a aturar. Agora tenho que contar tudo espero que Éris me perdoe.
–Eu vou dar na cara dele! –berrou Isabela.
–Fica quieta aí Isabela –falaram Sara e Laura em uníssono.
–Conte logo, qual era o plano? –interessou-se Leo.
–Bom... Éris achou que o Olimpo estava muito calmo e resolveu fazer uma simples brincadeira, uma briguinha e discórdia de vez em quando é bom pra animar as coisas, não faz mal pra ninguém, vocês levam tudo a sério. Ela mexeu lá no fundo do baú e desenterrou tretas antigas e através de encomendas a iria executá-las, mas vocês apareceram e estão atrapalhando tudo, sinceramente, tão desnecessário!
–Éris... Quem é essa vaca aí? –questionou Isabela de forma confusa.
–Além de escandalosa é burra. –provocou Steve.
–E você sabe quem sabem Steve? Opa, você sabe quem é? –atrapalhou-se Isabela e Peter revirou os olhos por ter sido interrompido.
–Sabe quem sabem? É burra mesmo. –concluiu Steve.
–Ah! Que cacete! Vocês entenderam. –disse Isabela prestes a se ofender.
–Bom, sei que Éris é desprovida de beleza e foi desprezada por Hera... Mas, continue Peter. –informou Sara como se a constatação da falta de beleza da deusa fosse um fator determinante.
–Pois bem, nunca perceberam o exagero de confusões entre vocês? Sem contar que nem vou comentar sobre a situação do acampamento. Com o plano de minha digníssima, todos os semideuses entrariam em desacordo e seria impossível conviver em harmonia, já que seus pais divinos estariam brigando. Minha deusa utilizou de extrema inteligência, pois o artifício das encomendas, atingiria os deuses em cheio. O Olimpo seria prejudicado, pois todos aqui sabem que os deuses precisam dos semideuses para fazer muitas coisas e convenhamos que eles não nos dão o devido valor, exceto Éris que tem me tratado muito bem. Ela se vingaria de todas injustiças que já passou nessa triste vida. Ou melhor, creio que ela se vingará.
–E quanto a você, Peter? –questionou Sara subitamente, usando charme na voz.
Laura logo entendeu onde a amiga queria chegar com a pergunta, pois as duas recordaram-se do acontecimento na loja do velho semideus Seymor. Naquele dia, Seymor havia falado sobre um semideus chamado Pedro Wall que por sua vez era filho de Psique. Se ele tinha dado informações erradas, teria dois motivos aparentes para isso: ou estava sendo manipulado, ou fazia parte do plano destrutivo da deusa da discórdia ativamente. Isso levou as semideusas a cogitar a possibilidade de terem caído em alguma armadilha.
–Palhaça, tá tentando usar o charme comigo? Não acredito. Não caio nessa não, queridinha. –disse Peter.
Sara fez uma expressão decepcionada. No entanto, tentou novamente e repetiu a pergunta. Geralmente seu charme nunca funcionava de primeira, então...
–Filho de Atena. –informou Peter finalmente.
–Ok. Velho Seymor? –perguntou a filha de Afrodite.
–Um completo idiota. –concluiu o garoto indisposto para mais denúncias.
Steve, Isabela e Connor já estavam se consumindo de ansiedade enquanto a imperatividade de Leo estava ficando impossível.
–Tá. Pra mim já deu. Eu já falei demais. Oh céus! Éris vai acabar comigo! O que farei desta vida agora? Por que fiz essas confissões malditas? Eis que já se esvaiu o sentido da minha vida nesse mundo infeliz. –monologou Peter, pensando em sair dali o quanto antes. Quando o garoto ia dar as costas para os semideuses, Isabela o fez voltar puxando-o pela gola da camiseta e vociferou:
–Olha aqui, você pensa que vai sair assim? Ileso? Sem ferimentos psicológicos e físicos graves? Ah, mas não vai mesmo!
Peter assustou-se e tentou correr.
***
Enquanto isso no Olimpo...
Aos poucos os olimpianos foram ocupando os seus devidos lugares. No centro da sala, estava uma projeção em tempo real mostrando os sete semideuses no Texas. As expressões de Ares e Atena revelavam o ímpeto que tinham de descer a acabar com a confusão ou talvez até aumentá-la. No entanto, a face extremamente séria de Zeus conseguiu conter os ânimos dos deuses.
–É seu filho, Atena! Apoiando Éris? É o fim dos tempos! Acho que você falhou gravemente com essa sua cria. –atacou Ares.
–Ares, milhares de semideuses, incluindo seus filhos, apoiaram os titãs nas grandes guerras e até mesmo à Gaia. Portanto, sem comentários idiotas. –disse Atena.
–Para começar com um nome desses: Peter Alphômega Fahrenheit. Onde já se viu? Em pleno século XXI? Onde está a inovação? –provocou Afrodite.
–O pai de Peter era um arquiteto químico. –informou Atena séria.
–E isso lá existe? –questionou Poseidon, tentando não se envolver muito na confusão, pois o mesmo tinha problemas para tratar em seu reino. A discórdia parecia ter alcançado até mesmo os mares.
–Não. Não existia. Mas o pai de Peter criou. Era um arquiteto químico que mexia na composição de todos os compostos químicos existentes nessa vasta imensidão. Tão astuto e inteligente! É... Eu não espero que vocês entendam. –respondeu Atena soando um pouco melancólica, mas sem sair de sua posição racional.
Afrodite revirou os olhos entediada e enquanto olhava para as unhas, disse distraidamente:
–Eu sei o que é isso, Atena. Falta de sexo.
–Concordo. –disseram Ares, Apolo e Hermes em coro e caíram na gargalhada.
–Vocês me cansam! Sexo não é o mais importante. Quão tolos vocês são! –disse Atena irritada.
Os olhos de Zeus fulminavam e ele parecia estar esforçando-se para não tomar uma atitude drástica.
Agora a cena exibia Isabela partindo para cima de Peter furiosamente.
–Olha lá! Essa que é minha filha! Orgulho do papai. –exclamou Ares muito empolgado. – Isso! Dá um surra nesse bobão idiota! –prosseguiu ele assistindo tudo como se visse um jogo decisivo de futebol americano.
–Zeus! Faça alguma coisa! –pediu Atena.
–Eu vou descer para aplaudir! –comentou Ares.
A medida que a cena no Texas ia ficando mais tensa, o Olimpo se agitava. Houve um momento em que a balburdia era tamanha que não era possível distinguir as vozes. Um verdadeiro caos estava formado.
–CALEM-SE! –berrou Zeus trovão.
Os deuses foram obrigados a parar.
–Será que não percebem que estão sendo consumidos pela discórdia? Justamente a discórdia, Éris, que queremos combater? Lá embaixo estão os semideuses em missão e o traidor. Julgo lícito que ele deve morrer.
–Eu apoio –disseram Afrodite, Ares e os demais deuses.
–Nããão! –gritou Atena –Meu filhote! Meu filhinho!
–Onde está o meu hephonestos? Eu preciso gravar essa cena. Vai implorar Atena? –Hermes caiu na gargalhada.
–Não tenho tempo para suas infantilidades Hermes! Pai poupe a vida de meu filho, creio que a morte não seria um castigo apropriado.
Atena tentou argumentar enquanto Zeus ouvia tudo atentamente. Ártemis entrou subitamente pela porta da frente em passos firmes que demonstravam toda sua raiva, ignorou a completa balbúrdia do recinto e virou-se para Hefesto e falou propositalmente:
–Eu quero saber quem foi que colocou fogo na floresta espantando e matando todos os animais! Acabaram com minha zona de caça! Alguém terá que pagar.
–Ah mas era só o que faltava! Chegou a virgem da caça! Tem gente que não tem senso, queridinha olhe a sua volta, você não está vendo que temos coisas mais importantes aqui? Com uma treta quente dessa e você preocupada com floresta? Com mato? Gosta de mato? É a favor da maconha? Legalize? Vai pro Greenpeace! –falou Afrodite “amigavelmente”.
Ártemis sentiu-se tão ofendida que perdeu as palavras. Os deuses ao redor olhavam com expectativa para a resposta que viria da deusa da Lua. Hermes não aguentou e entrou em uma profunda crise de riso que logo foi seguida por Apolo. Ártemis ficou vermelha e cerrou os punhos. Não tinha o que falar então agiu.
–Sua piriguete! –gritou ela como um bordão.
Pulou em cima de Afrodite e foi direto nos cabelos. Ela por sua vez pegou nos cabelos de sua adversária.
–Briga! Briga! –começaram Apolo e Hermes.
Alguns deuses sorriam, outros estavam chocados, porém nenhum tentou separá-las. Nem mesmo Hefesto. Apolo desenvolveu uma aposta e dracmas foram jogados em uma mesa com a maioria dos votos em Ártemis. Hermes filmou tudo empolgado, “Isso vai pra TV Hefesto!”
–Opa, desculpa, quebrei suas unhas postiças? E esses cílios postiços? Será que essa sua cara é postiça também? Vejamos!
Afrodite foi impossibilitada de responder, pois recebeu incessantes tapas em sua delicada face.
–Di immortales! –murmurou a deusa da beleza.
–Vai fazer o que? Jogar uma praga de amor em mim? Uma macumba de paixão? Me poupe!
A mesa de apostas armada improvisadamente por Apolo estava lotada, os votos divergiam entre as duas deusas simultaneamente, era difícil saber em qual deusa estava o maior número de votos. Entretanto, de longe Atenas era a espectadora mais animada: “Quebra a cara dela Ártemis!”
Hera precisou chamar seu marido e adentrou tranquilamente cantarolando na sala do trono. Espantou-se com tamanha desordem naquele local que era sublime e idolatrado. Logo localizou Zeus que parecia distraído e no fundo até estar se divertindo com a briga. Ela deu-lhe um olhar de desaprovação e um enorme trovão foi escutado.
–Chega! Não quero mais brigas! Estou cansado desse caos. Vamos descer e resolver isso de uma vez por todas.
Hera sorriu em aprovação para o marido. Ele que se aprumou e arrumou a postura orgulhoso de si mesmo. Homens...
Ares e Poseidon separaram as deusas rapidamente. Elas estavam descabeladas, com os saltos quebrados, maquiagem borrada e vestido rasgado. Poderiam consertar aquilo em um instante, porém no calor do momento esqueceram.
E então todos aqueles deuses desceram ao Texas.
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