Ozando no Chb
53 Tretas
Notas iniciais
Ainda chocados, os semideuses encaravam Peter após a inusitada declaração extremamente culposa, exceto Isabela e Steve que queriam a cabeça do semideus em uma bandeja no maior estilo João Batista.
Quando os ânimos aparentemente estavam mais calmos, calmo para o padrão Steve e Isabela de ser, eis que do céu gloriosamente surge uma luz purilante. Tão clara quanto Sara, ela impediu a visão dos semideuses que desviaram os rostos para o chão.
Isabela e Sara não perderam tempo achando que seria Apolo e já treinavam o “me possua”. Claro que Sara tomou o devido cuidado para que Steve não percebesse. Laura ainda não havia pensado no deus sexy e por isso não tinha se juntado as amigas. Peter achou que estava perto de sua morte e aos prantos clamava:
“Não! A luz não. Eu sou muito novo pra morrer! Tenho que me afastar da luz!”
Tão subitamente como veio a luz foi embora deixando o grupo totalmente desorientando. Olhavam-se uns para os outros e um acordo silencioso foi feito: nenhum comentário sairia dali. Incluindo Steve, Connor e Leo que se abraçavam forte dizendo o quanto se amavam e agradecendo pelos anos de amizade. Há rumores que uma lágrima desceu do olho de Steve, mas ele alega que era um suor másculo que escorreu pelos olhos. Isabela e Sara estavam em poses totalmente comprometedoras, com o dedo indicador sexymente no lábio e os cabelos aos ventos que obviamente não deu certo no quesito sedução. Laura encontrava-se em posições fetal. Sacudindo-se pra frente e pra trás incessantemente.
Recuperados e com o orgulho ferido graças ao desespero que o desconhecido pode causar eles perceberam a presença dos deuses. Considerando que a situação em que os deuses se encontravam não parecia melhor do que a deles no quesito: desespero, aparência, clima pesado, chateação. Concluíram que eles tinham saído de uma treta. E pior! Levado a treta para eles. Deuses...
No entanto, Isabela e Sara sentiam-se no lucro, pois Apolo estava lá entre os deuses e de fininho elas foram aproximando-se do deus do sol. Elas ainda não haviam se esquecido daquela festa de arromba em que o deus apareceu e animou a festa inteira fazendo até flor de lótus cair do céu.
Pela cara de Zeus as coisas não estavam nada boas e uma senhora tempestade era iminente. Bom, pelo menos o fogo seria apagado. O primeiro trovão ribombou no céu após um raio ter atingido uma árvore próxima que consequentemente partiu-se e pegou fogo.
Os semideuses engoliram em seco e pareciam anjinhos de boca fechada quietinhos. Até a Isabela. Zeus começou um sermão enorme sobre como estava desapontado e decepcionado pela imaturidade dos deuses. Olhava sempre para Hera para ter certeza que estava falando as palavras certas. A esposa com a expressão dura assentia discretamente. Apolo entediado bocejou e Sara e Isabela suspiraram alto, ébrias de encanto.
Peter percebeu que os deuses o encaravam como o causador de todos os problemas. Tendo a consciência de que poderia ser morto em questão de segundos, empertigou-se e começou a argumentar.
– Eu, pobre semideus desprezado... Fui corrompido pela deusa da discórdia! Ela me influenciou a entrar nessa tremenda barbaridade e eu fui apenas usado por ela. Por favor, não me façam mal. Eu mereço ser perdoado! –dramatizou. Atena o analisava com uma pontinha de orgulho.
– Tu para de ser falso! –berrou Isabela assustando a todos, pois até então ninguém tinha ouvido a voz dela.
– Acho muito mais digno matar logo esse semideus. Ao perdoá-lo, vocês invalidam o nosso esforço e pelo amor de Zeus, não será uma perda muito grande. –disse Steve impaciente e Ares concordou.
Uma nova confusão se instaurou no local. A briga que deveria ser por conta da deusa da discórdia, passou para ofensas pessoais entre os deuses. Novamente, os semideuses ficaram quietos e assustados.
O clima tornou-se mais denso e uma aura vermelha envolveu o ambiente. Um novo clarão apareceu, no entanto não causava tanto espanto.
– Não me convidaram para o casório de Peleu e Tétis porque eu me comportaria indevidamente? Pois agora vocês vão ver o que é ter um comportamento ruim! –berrou Éris, a famigerada deusa da discórdia.
Afrodite revirou os olhos.
– Eu não acredito! O que essa criatura mal acabada está fazendo aqui? –disse a deusa do amor.
A deusa da discórdia ignorou as palavras de Afrodite e saiu desfilando desajeitadamente entre os deuses, com uma crença inabalável de que estava linda e maravilhosa.
– Essa palhaça provocou a Guerra de Tróia e ainda ousa? –questionou Ártemis incrédula. A deusa foi juntar-se a Afrodite.
– Ouso! E com todo o direito, queridinhas. Lancei o Pomo da Discórdia mesmo e se reclamarem lanço outro.
Connor, embora assustado como os demais, prestava atenção em cada detalhe da confusão. Afinal, tratava-se da deusa da discórdia e ele presumia que ela traria alguma fonte de inspiração para pregar peças nos campistas quando ele chegasse. Com certa empolgação, ele sussurrou para Leo:
– Ei cara, eu já fiz isso! Porém, eu e Travis usamos uma manga dourado no lugar da maçã, mas posso garantir que a treta foi hilária.
Leo reprimiu o riso quando viu que Zeus o encarava carrancudo.
– Eu vou lançar é a minha mão na sua face sua recalcada! –berrou Afrodite e Éris a encarou.
– Sabe a maçã dourada que era destinada à mais bela? –e olhou para Atena e Hera. – Nenhuma de vocês três é a mais bela. Eu sou a mais bela e ainda animo a relação de alguns casais como esses. –disse Éris apontando para Steve e Sara que ficaram sem reação.
As três deusas deram uma gargalhada extremamente debochada. Afrodite se recompôs e questionou:
– Eu. E somente eu. A mais bela e a mais inteligente. Já vocês... Caíram direitinho nos meus planos. –respondeu Éris triunfante.
Todos encararam Peter. Pelo modo como o garoto falara anteriormente, era possível jurar que ele havia causado todos os problemas, mas pelo visto ele só havia sido usado mesmo como era de praxe.
– E esse garotinho? –como se ele não tivesse 1,90 de altura. –Foi apenas um... Um... Ajudante.
– Ajudante? –berrou Peter ofendido. – O que seria de você sem mim? Eu apoiei seus planos, dei ideias geniais e impensáveis. Sou apenas um ajudante? Eu achei que você me amava.
– Me poupe! –exclamou Éris.
– Olha aí! Ela roubou até a minha frase. – acusou Peter.
– Pobre filhote... –lamentou Atena.
Peter percebeu que os demais olimpianos o julgavam com olhar inquisitório. Não seria vantajoso para ele continuar a lamentar pela infidelidade da deusa da discórdia já que ela era vilã. Então, o mesmo mudou o discurso e se fez de coitado manipulado.
– Roubou a minha frase, a minha dignidade e a minha capacidade de agir por mim mesmo. Fui manipulado em cada ação. –defendeu-se o filho de Atena.
– Di Imortalles! Alguém faz esse garoto calar a boca. E pode ser eu. –sugeriu Ares.
– Cale a boca Ares. –reprimiu Atena.
Zeus ficava cada vez mais furioso, prestes a tacar um raio na cabeça de cada um ali presente. Atena, Hera e Afrodite não calavam a boca. Hermes filmava tudo prontamente com a ajuda de Apolo e Hefesto com certeza estava com a mente em sua oficina preferida.
Nada estava sendo resolvido em meio a toda aquela confusão. Por fim, Zeus interviu e com enorme autoridade fez com que Éris abaixasse seu ego e ela enfim terminou de contar seu plano, ou melhor, seus planos.
Há algum tempo, os deuses haviam recebido alguns objetos em uma misteriosa encomenda na qual não havia remetente. Esses objetos foram os causadores de enormes intrigas entre os deuses e a parcela maior de culpa caiu sobre Hermes por se o deus mensageiro. Ao ouvir essa parte da confissão, o deus julgou merecer desculpas por todos terem suspeitado dele.
As encomendas relacionavam-se com questões mal resolvidas entre os deuses, qualquer coisa que fosse capaz de relembrar algum ocorrido desagradável e ofensivo. Desse modo, os olimpianos começaram a se acusar mutuamente com incessantes brigas. Ciente da situação, Quíron mandou Steve, Leo e Connor em missão para evitar que os deuses acabassem se destruindo.
Éris sabia que ao atingir os deuses com desconfianças a paz do Olimpo seria abalada deixando o caminho livre para ela, que queria se vingar de todo o desprezo.
Consequentemente, os semideuses foram afetados com esse clima de tensão. Por isso, quando Laura, Sara e Isabela invadiram a missão alheia, o grupo de adolescentes estava passando dos limites no quesito confusão, pois qualquer coisa era motivo de discussões intensas.
A essa altura, os semideus foram deixados em segundo plano e só observaram a situação. Todos concluíram que era uma boa oportunidade para fugir e voltar para o acampamento o mais rápido possível. O objetivo da missão era achar o remetente das misteriosas encomendas e os semideuses foram capazes de encontrar a verdadeira culpada, logo não tinham mais o que fazer ali.
– E aí? A gente sai correndo no já? –questionou Connor olhando para os amigos.
– Com certeza. Tudo o que quero é sair daqui. Esses deuses são completamente loucos! –concordou Laura.
– Mas gente... Eles são deuses né? É claro que vão perceber nossa saída. –comentou Sara e a balburdia entre os olimpianos ficou muito mais intensa. – Ou não... –mudou de ideia ao observar a cena.
– No já.
– Parem! –berrou Peter com a voz mais alta que conseguiu. Intrigados, os deuses voltaram a atenção para o garoto.
– Oi? –interrogou Afrodite. –Mas logo agora que saberíamos a punição dessa recalcada...
– Olha! –gritou Peter e apontou para os sete semideuses desconfiados que ficaram estáticos.
– Olhar o que garoto? Cale a boca antes que sobre para você. –reprimiu Ares.
Aproveitando que os deuses ignoraram Peter e voltaram a resolver os conflitos, os semideuses se preparam para sair dali após um projeto destrambelhado de fuga feito às pressas. Eles foram se afastando do local discretamente, mas Peter berrou novamente, bem mais alto do que anteriormente:
– Eles estão fugindo!
– Ihh! Agora deu ruim... –exclamou Isabela ao sentir os olhares dos deuses se voltarem para eles.
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