Ozando no Chb
40 A Ópera da Morte
Notas iniciais
Há um bom tempo, as garotas estavam executando o projeto mal bolado de fuga contra harpias, no qual a solução era simplesmente correr como se não houvesse amanhã. O trio já tinha se afastado do acampamento e não estava mais sendo perseguido, logo não precisavam de toda essa correria, entretanto, no calor do desespero, não pararam de forma alguma.
Foi quando finalmente Isabela parou de correr e franziu o cenho como se estivesse acordado de um sonho confuso e estranho. Sara percebeu que a amiga não estava acompanhando o ritmo e sem parar de correr, cometeu a atrocidade de olhar para trás. Como era de se esperar, ela chocou-se nas costas de Laura e as duas rodopiaram feito bêbadas e caíram, uma para cada lado.
– Ai sua kenga! -reclamou Laura com a mão na cabeça. — Olha pra onde anda.
– Olha Laura você não reclama que eu tô preocupada com a Isabela. -disse Sara tentando se levantar.
– É o que minha cabeça tem a ver com isso? -perguntou Laura.
– Cala a boca aí as duas que eu quero saber por que eu fui raptada. -disse Isabela.
–Raptada? -perguntou Laura incrédula.
– Querida ninguém te raptou não, tá? Apenas saímos para uma missão. -explicou Sara.
– MISSÃO? -gritou Isabela fazendo uma careta de incredulidade.
– Missão. -responderam Sara e Laura em uníssono.
– Pra porra! Me trazem de pijama? Vocês são duas putas mesmo viu. -brigou Isa.
Quando ia abrir a boca para continuar a reclamar, Laura a interrompeu:
– Missão para ir atrás dos meninos. -disse ela determinada.
– Isso mesmo! -apoiou Sara cruzando os braços.
Vendo que Isabela continuava com a cara de ofendida com raiva Laura falou:
– Olha amiga pelo menos você trouxe a escova de dente, não vai ficar com bafo.
– Laura vai pra porra! -disse Isabela ríspida e saiu andando na frente. Laura e Sara foram se encarando tentando segurar os risos.
Por uns cinco minutos, Isabela ficou emburrada andando sem rumo na frente das duas. De repente, ela se virou para trás e com os olhos arregalados perguntou:
– Para onde vamos?
– Texas. Conhece? -questionou Sara.
– Lá é calor pra porra! Por que vocês escolheram logo esse lugar? -perguntou Isa contrariada.
– Isabela, nós não escolhemos. É lá que os meninos estão e estranhamente temos certeza disso. -esclareceu Laura.
– HAHA! Duvido vocês terem certeza de alguma coisa. Afinal, como chegaram a essa conclusão? -indagou Isabela, não esperando ter respostas concretas como de fato recebeu.
– Pesquisamos na Internet. -disse Laura simplesmente.
– I can't! Pra porra vocês. Vou voltar pra minha cama. -disse Isabela dando meia volta e voltando pra onde seria o Acampamento Meio-Sangue.
Sara a pegou pelo braço e a fez retornar. Olhou-a nos olhos e disse, seriamente:
– A vida dos seus amigos está em jogo. Isso não importa para você? Vá! Volte a dormir, mas tenho certeza de que essa não é uma opção de quem é amiga e irmã de verdade.
Isabela fez uma cara de ofendida pensativa e os seus olhinhos brilhantes encheram-se de lágrimas.
– Tá, vamos atrás desses ridículos logo. Meninos réi nojentos! Não sei por que fogem, só pra dar trabalho. Agora temos que ir atrás deles. –falou ela com sua típica voz barraqueira enquanto tentava esconder as lágrimas.
As meninas recomeçaram a andar. Sara deu sua mochila para Isa carregar.
–Tá me achando com cara de empregada? -perguntou Isa desaforada.
Sara abriu a boca para responder quando foi interrompida por um canto estridente.
– Pelo amor de Zeuz! -exclamou Sara. -Vocês ouviram isso?
As garotas prenderam a respiração ficando em um silêncio absoluto, tentando ouvir o tal barulho.
– Louca! Estou ouvindo nada. -disse Isabela e recomeçou a andar.
Foi nesse exato momento, que o canto estridente pôde ser ouvido por todas. Isabela deu uma corridinha ridícula em retrocesso para perto das amigas. Cada uma colocou suas armas em mãos, exceto Isabela que portava uma escova de dente. Por sorte, Sara havia enfiado uma adaga dentro da mochila e Isabela apoderou-se da arma.
Era impossível distinguir de que direção o canto vinha, por isso as amigas ficaram encostadas, uma pra cada lado.
– O plano é o seguinte... -sussurrou Laura. – Será o mesmo esquema da Acheropita.
– Mas e se o monstro for diferente e vier por outro lado e... -começou Isabela.
–Tem um plano melhor? -perguntou Sara.
– Na verdade não. –respondeu ela.
– Então por falta de opções será esse mesmo. -falou Laura. — Qualquer coisa improvisamos.
Antes que terminassem a conversa, eis que um monstro saltitante e feliz vestido com roupas de maestro saiu de trás das árvores. O monstro possuía três chifres, sendo o do meio maior e vários dentes pequenos, mas que pareciam afiadíssimos. A criatura não parou de cantar ópera por nenhum segundo. O som de sua voz era agudo a ponto de doer os ouvidos de quem a ouvisse. As três meninas ficaram paralisadas esperando algum tipo de ataque, mas aquela voz já parecia ser o suficiente para a morte.
O que elas acharam engraçado foi justamente o contraste entre a aparência assustadora do monstro e a sua voz, o que não o tornava de forma alguma mais agradável. Laura colocou as mãos nos ouvidos, que latejavam e caiu no chão de joelhos. Laura tapou os ouvidos com as mãos e caiu no chão de joelhos de tanta dor. Isabela e Sara se esforçavam para conter a dor e o monstro prosseguiu seu show de horrores girando para todos os lados e dançando. Sara lembrou-se do canto das sereias e imaginou qual era a macumba daquele monstro, já que suas cantorias não atraíam ninguém, mas causavam muita dor e confusão de sentidos.
– Vai se fuder! Para de cantar seu idiota. Sua ópera é um horror! Ninguém nunca te falou isso antes? -provocou Isabela, esperando que o monstro calasse a boca, mas ele deu de ombros e continuou sua cantoria horrenda.
Isabela praguejou e jogou algo no monstro. Ele a olhou perplexo e extremamente ofendido, porém tinha parado de cantar.
– Como se atreve a interromper o meu magnífico show? –perguntou ele.
– Muito magnífico seu show! Ficamos extremamente admiradas com o seu desenvolvimento musical. -disse Sara e Isabela fez menção de falar algo, mas teve a boca tampada por Laura que finalmente tinha conseguido se levantar.
– É! Ela só quis chamar sua atenção para que você fosse elogiado um pouco. -continuou Laura.
Perceberam que aquele monstro tinha o amor próprio muito elevado e se por acaso quisessem que ele calasse a boca, teriam que distraí-lo com elogios.
– Se é assim... Continuemos o show! -prosseguiu o monstro e deu as primeiras notas quando foi interrompido por Laura.
– Não senhor, por favor. Não irá se apresentar antes? -perguntou ela dando tempo para que as amigas bolassem um plano.
– Claro que me apresento! E com o maior orgulho senhoritas. Sou maestro da companhia de monstros músicos do Tártaro. O Incrível e Invencível Feodor Fígaro! -apresentou-se o monstro cantarolando o seu nome, como se fosse a única palavra de uma ópera irritante.
– Nossa! Que belo nome... Afinal um cantor como você, representa muito bem a verdadeira ópera, não é mesmo? -perguntou Sara visando entreter o monstro.
O combinado era que ela e Laura fossem prosseguindo a conversa da forma mais "amigável" possível e Isabela o atacaria por trás no primeiro momento de distração.
– Ah! Por favor, semideusa. EU sou a verdadeira ópera. -disse Feodor cantando estridentemente a última palavra levando as meninas a fazerem uma careta. Suas cabeças e ouvidos estavam pra explodir.
– Claro... Mas por que o senhor está fazendo seu show pra nós, pobres semideusas, indignas de ouvir a sua belíssima voz e não conhecedoras da música? -perguntou Laura enquanto Isabela saia discretamente. O monstro riu desesperadamente.
– Semideusas inocentes! -exclamou ele mostrando seus diversos dentes pequenos e afiados. — Não sabem que a carne de semideusas é ótima para a voz?
– Monstro cantor de ópera que mata suas vítimas forçando-as ao ouvi-lo. Após matá-las, costuma fazer um banquete e o prato principal é a carne dos semideuses. Ele acredita que a mesma, melhora a sua voz estridente. -disse Sara subitamente. O monstro deu outra gargalhada sinistra e recomeçou a cantar a sua ópera da morte.
– Como você soube disso? -perguntou Laura gritando, para que a amiga a ouvisse.
– Li em algum lugar! -berrou Sara em resposta.
– Minha fama está crescendo, minha fama crescerá! Três semideusas agora, agorinha eu vou matar! -cantarolava o monstro puxando o som de todas as últimas letras.
As meninas colocaram as mãos nos ouvidos torcendo para que Isabela resolvesse atacar o monstro o mais rápido possível.
– Nos sentimos honradas em morrer para que sua magnífica voz melhore, mas... -tentou enrolar Laura.
– Suas bajulações não irão adiar a sua morte querida. -disse o monstro cantando.
– Senhor Fígaro... Será que você poderia vir até mim? Você melhorará ainda mais a sua voz se ensinar os seus semideuses a cantar. A carne deles carregará a perfeição da sua voz e ela triplicará em beleza e graciosidade. -falou Sara caprichando no charme.
Sem parar de cantar, o monstro pareceu meio confuso e deu dois passos a frente. Nesse exato momento, Isabela entrou em ação e as meninas puderam ver a ponta da adaga na barriga do monstro. Ele se desfez em pó dourado, deixando Isabela toda suja e reclamando. As meninas se entreolharam e começaram a rir.
– Esse monstro aí é novidade. -disse Laura.
– Nunca nem ouvi falar desse troço. Qual é mesmo o nome desse monstro? -perguntou Isa tirando o pó de seu pijama rosa.
– Por que nunca pegamos um monstro normal hein? Ou ele é tarado ou tem uma forte inclinação musical. -disse Sara.
– Nosso destino é o Texas certo? -perguntou Laura. — Como vamos chegar até lá?
– Ué minha filha, você tem duas pernas pra quê mesmo? -respondeu Isabela.
– Gente, eu vi que de pé a viagem dura normalmente sete dias. -disse Sara. — E olha aqui, não vou andar que nem uma condenada até lá.
– Bicha fresca! -reclamou Isabela.
– Não temos um carro. Não vamos pegar um avião porque sabe lá o que Zeus sente por nós. A única coisa que temos são as pernas. -informou Laura.
– Então fazemos uma divisão. Vamos um pouco andando e quando surgir a oportunidade pegamos um carro. Pode ser? -questionou Sara.
– Ótimo. Até porque não podemos fazer o percurso de um jeito só, já que somos semideusas e isso atrairia muito, muito mais monstros do que os que já temos que enfrentar. -disse Laura.
– Ah! Vocês que decidam que eu não quero pensar mais não! Naquela última prova de recuperação de matemática já pensei demais pro meu gosto. -falou Isabela dando de ombros.
– Isabela, essa prova já passou há seis meses. -informou Laura e as amigas riram.
– É, mas estou traumatizada até hoje. -disse a inteligente filha de Ares.
As três começaram a andar. Sara explicou toda a sua pesquisa sobre o Texas: as lojas de marcas e a vasta rede de Shoppings. Contou também sobre a média alta de temperatura do lugar e que comprara muitos protetores de Apolo para proteger sua pele de bebê.
Por um bom tempo, seguiram o caminho conversando e isso ajudava muito para que a viagem se tornasse menos cansativa. Seguiram dessa forma por volta de dois dias, parando de tempos em tempos e matando monstros. Porém, chegou uma hora que nenhuma delas aguentou mais andar e a única solução era conseguir uma carona, por mais arriscada que fosse essa ideia, foi isso que elas fizeram.
Aproveitaram o fato de estarem em uma rodovia e estamparam no rosto suas melhores caras de safadas. Sara, revirou sua mochila a e achou uma saia preta, um batom vermelho e uma regata branca. Isabela se recusou a fazer isso e como ela tinha matado o monstro, tinha crédito. As amigas apenas a olharam com cara de nojenta, mas acataram a decisão.
– Olhe e aprenda querida. -disse Sara enquanto soltou seu coque feito com uma caneta e balançou as madeixas em câmera lenta. Pegou a caneta e mordeu com um sorrisinho de lado e uma falsa cara de inocente.
O carro passou reto em alta velocidade, o motorista nem sequer olhou para Sara. Isabela riu alto igual uma foca retardada.
– Isso vai ser melhor do que pensei! -disse ela. -Sua vez Laura.
Outro carro passou e Laura aproveitou a oportunidade. Balançou os cabelos e mordeu os lábios fazendo sinal de quem pede carona. O motorista velho e barbudo, apenas gritou:
– Voltem para o mar, oferendas!
Laura ficou claramente ofendida enquanto Isabela ria loucamente.
– Credo. Que grosso! Será que ele sabe que sou filha de Poseidon? -reclamou Laura sentida.
Outro carro se aproximava.
–Vem amiga é hora de apelar. -convocou Sara.
Elas se posicionaram na beirada da estrada e colocaram a perna direita à frente. Levantaram levemente um pouco da saia e sorriram provocantemente. Na hora que Sara viu uma caminhonete se aproximar, colocou a mão que estava livre na testa, como se estivesse passando mal e ambas as garotas foram levantando as saias gradativamente. Isabela observava o teatro das meninas se segurando para não rir.
Na hora em que avistou as três adolescentes, o motorista da caminhonete reduziu a velocidade e entrou com tudo no acostamento, parando o carro e saindo do mesmo totalmente solícito.
– Meninas! Meu Deus ela está passando mal? Tá tão pálida coitadinha. -disse o homem.
Imediatamente Sara fez questão de fingir um desmaio e caiu nos braços dele. O rapaz tinha no máximo trinta anos de idade, era alto, forte e tinha um olhar bem atraente.
– Moço! A pressão dela caiu. Ajuda a gente? Precisamos de carona pro Texas... -explicou Laura fingindo um desespero.
– Mas ela precisa ir para um hospital. -disse ele pegando Sara no colo e indo na frente.
Como o moço estava bem concentrado em abrir a porta do carro, que parecia emperrada, Sara deu uma piscadinha pras amigas, que por pouco não conseguiram conter o riso. Por fim, entraram no carro e a desmaiada "acordou".
– Ai meus deuses! Onde eu estou? -fingiu Sara olhando pela janela.
– Você passou mal amiga... E este cavalheiro nos ajudou. -explicou Laura encarando o motorista que retribuiu a olhada com um sorrisinho sexy.
Definitivamente ele não era um monstro, mas sim um mortal pra lá de prestativo e bonito também.
– Ah sim! Mas me sinto totalmente melhor... -disse Sara.
– Nossa! Não sei como te agradecer moço. -falou Laura meigamente.
– Como é o seu nome mesmo? -perguntou Isabela.
– Brad Mollison. -respondeu ele. — Apresentem-se meninas, por favor.
– A que desmaiou é a Sara, eu sou a Isabela e ela, a Laura. -adiantou-se Isabela empolgada.
O grupo foi conversando e se conhecendo, até telefones trocaram. O momento agradável foi interrompido quando as meninas olharam pela janela e viram alguns monstros. Pediram aos deuses que a névoa fizesse seu devido papel para que Brad não visse mais do que deveria e inventaram uma desculpa para descer do carro. Elas sabiam o risco que o mortal corria, mas iriam protegê-lo.
E dessa forma seguiram viagem, enfrentando alguns monstros e batendo um papo agradável com Brad.
Chegaram finalmente ao Texas e só se deram conta disso porque Brad avisou. Graças aos deuses ele estava intacto, seu carro nem tanto, mas eram amassadinhas e arranhões leves.
Elas despediram-se dele com todas as redes sociais trocadas e uma longa história louca de viagem para contar. Definitivamente, o mundo precisa de mais caras como aquele.
– Endereço em mãos? -perguntou Isabela.
– Mais do que isso. -respondeu Sara.
– Está em nossas mentes. -completou Laura como se tivessem ensaiado as falas e então, seguiram para o seu verdadeiro destino.
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