Ozando no Chb
31 2° TEMPORADA - Ano Letivo Fail
Notas iniciais
POV Sara
No dia em que saímos do acampamento meio-sangue percebi pela primeira vez o que eram extintos de um semideus, embora eu ainda ache que grande parte era paranoia. E então eu olhava para todas as poucas pessoas que encontrei no caminho já achando que em alguns segundos elas se transformariam em monstros horrendos ou algo assim. Foi para esse caso que Quíron nos treinou intensamente e finalmente agora eu sabia me defender, mais precisamente tentar não morrer.
Quando entrei em meu apartamento senti de longe o cheiro da comida da minha mãe mortal (resolvi chamá-la assim, pois eu ainda não havia aceitado Afrodite completamente como minha mãe).
Olhei aquilo tudo em volta e senti saudades da minha vida antiga, porém a saudade do acampamento deu o ar da graça, mesmo não fazendo mais de um dia que eu tinha saído de lá.
Por fim, entrei em meu quarto que estava milagrosamente arrumado bem diferente de como eu havia o deixado. Joguei minhas coisas na cama e fui comer. Assim que eu terminei fui tirar um cochilo rápido e acabei dormindo a tarde inteira, como já é de praxe.
Quando acordei, conversei bastante com minha mãe e ela me contou de algumas novidades. Meu pai como eu já esperava nunca mais havia dado notícias, deveria estar muito bem com a nova mulher e na verdade eu não me importava muito com isso. Afrodite andou aparecendo para minha mãe em sonhos confusos agradecendo-a e disse até mesmo que nos protegeria como pudesse. Eu ignorei essa parte e decidi pensar nisso depois com mais calma embora o sonho que eu tive com ela ainda no acampamento se tornava cada vez mais claro.
No final da conversa, descobri que no dia seguinte eu iria para uma nova escola perto de casa. Eu não tinha ideia para qual escola as meninas iriam, com certeza não seria a mesma que a minha, até porque Quíron nos informou depois que tinha pedido para três sátiros observarem escolas que parecessem mais seguras (como se fosse adiantar).
Tendo em vista esse fato, já tratei de preparar o psicológico para ter que aguentar sozinhas as bitches, provas, professores e a parte ruim que uma escola pode ter só que agora eu poderia ser morta por um monstro a qualquer hora.
No outro dia acordei atrasada e me arrumei correndo. A primeira coisa que coloquei dentro da bolsa foi a adaga provisória que Quíron havia me dado e fui em direção a escola de pé observando bem todos ao redor.
Quando eu estava quase chegando, um menino de aproximadamente a minha idade aproximou-se segurando alguns livros nas mãos e sem pensar duas vezes recuei. Andei mais depressa e vi que o destino do menino era o mesmo que o meu, mas não foi por isso que deixei de pensar que aquilo já era um monstro disfarçado.
As famosas ‘’panelinhas’’ a essa altura do ano já estavam mais que estabilizadas e identifiquei cada uma delas de cara. Entrei na minha nova sala, sentei no meio da fileira de carteiras encostadas na parede. Era aula de literatura e a professora parecia ser bem amigável, mas como eu prometi para mim mesma era melhor ficar atenta e não se deixar levar por primeiras impressões.
Descobri que o menino que mais cedo eu havia achado que era um monstro não queria nada mais nada menos do que cochilar em todas as aulas de exatas e se chamava Jeremy Tate. Em tempos em tempos ele me encarava e em uma dessas vezes até deu um sorriso tímido, acho que meu olhar não foi muito amigável, mas juro que não foi a intenção, meu mal era sono e talvez quem sabe no outro dia eu não falava com ele não é mesmo?
Assim que cheguei a casa, coloquei meu CD de Arctic Monkeys pra tocar e pensei sobre o que minha mãe mortal havia falado sobre Afrodite. Ela me deixa extremamente confusa, me diz pra me afastar do Steve e agora vem falar de proteção? Esses deuses são terríveis! Sobre o fato da proteção, poderia até ser verdade já que eu não tinha sido atacada por nenhum monstro até então.
Os dias foram passando muito rapidamente. Conheci algumas pessoas inclusive Jeremy, que era muito legal por sinal. Eu me sentia verdadeiramente muito mal por ter que esconder tanta coisa e dar milhares de desculpas esfarrapadas quando coisas estranhas aconteciam.
Duas semanas se passaram. Nenhum monstro. Nenhum vai pra porra. Nenhum sinal de Steve. Ninguém para eu chamar de lerda. Saudade era a palavra que me definia naquele momento. E aí você deve estar se perguntando por que eu não ligava para eles, mandava uma mensagem de Íris ou qualquer coisa assim, mas, pois é Quíron havia ordenado que isso não acontecesse a não ser que fosse algo muito importante. Por quê? ‘’Questões de segurança, pois já cansei de falar que existe algo muito estranho por trás de todos os acontecimentos relacionados a vocês.’’ –dizia Quíron tentando dar sua melhor explicação.
Comecei a sonhar com Afrodite e era basicamente a mesma coisa dos sonhos anteriores e a voz doce e suave dela começou a perturbar minha mente dizendo: ‘’Brevemente as explicações virão... ’’ Ok, nossa, isso me ajuda muito.
Na nova escola as coisas iam tranquilas até o momento que Jeremy começou a ficar muito estranho e não falava normalmente comigo parecendo estar hipnotizado. Algumas pessoas começaram a reparar o comportamento do menino quanto a mim e fui tentando me afastar, vai que era coisa de Afrodite novamente. Minha tentativa falhou feio, pois ele estava cada vez mais próximo a mim.
Comecei a me preocupar quando ele se oferecia para carregar minhas coisas o tempo inteiro, queria pagar-me um lanche todos os dias e quando a criatura quis copiar a matéria de álgebra inteira pra mim eu tive certeza que algo estava muito errado.
‘’Oh meu Zeus! Será que eu to manipulando o menino?’’ –pensei. Uns cinco minutos depois, ele veio até mim e começou a falar com se estivesse em um transe.
– Meu Deus! Como você pode ser tão linda? Eu me sinto atraído por você de uma forma mágica... Oh céus eu faria tudo por você minha amada! –continuou falando interminavelmente e até aí ninguém tinha notado a estranheza do menino, pois ele falava baixo.
– Para com isso Jeremy! –murmurei suplicando mentalmente para que aquilo fosse apenas uma brincadeira.
Não adiantou. Jeremy começou a inovar o seu discurso e agora ele parecia que tinha acabado de usar algum entorpecente muito potente. A coisa ficou feia quando a sala inteira parou para observar o menino que agora berrava suas palavras de ‘’amor eterno’’. Todos estavam em uma profunda crise de risos e filmavam tudo.
A minha cara era a pior diante da situação. Jeremy ajoelhou-se e continuou a falar, ou melhor, gritar. Agora decididamente eu precisava tomar uma atitude. Aquilo sem dúvidas não era uma brincadeira e eu não podia o deixar passar tanta vergonha, até porque ele tinha se tornado meu amigo.
Fiz a minha melhor cara de puta possível e arrastei Jeremy pela gola da blusa para o banheiro feminino que ficava perto da nossa sala. A professora me olhou com uma expressão indecifrável e todos da sala olharam maliciosamente e fizeram comentários maldosos. Eu não podia deixar aquele menino falando daquele jeito sem fazer nada sabendo que a culpada era eu não é mesmo? De qualquer forma era melhor que pensassem que tínhamos ido nos pegar no banheiro do que o pobre fosse louco.
Consegui trancar a porta do banheiro e não me pergunte como. Jeremy não parou de falar nem por sequer um minuto. Tentei conversar com ele, joguei água gelada no seu rosto e dei alguns tapas, mas ele não parava.
Alguns minutos depois, dois funcionários da limpeza acompanhados do diretor bateram na porta do banheiro. Eles estavam com a chave mestra. Ótimo, o que eu fazia agora com o menino que ainda não tinha calado a boca? Se ele estivesse sendo manipulado por mim, sem minha intenção, pensei que eu poderia fazer o mesmo com aqueles três só que agora propositalmente. Sei que não se pode usar poderes com mortais, mas foi minha única opção e acho que o que eu usei não tinha nenhum poder mesmo, porque inicialmente tudo foi inútil.
Abri a porta e comecei o meu discurso, que não deu nada certo nos primeiros dois minutos:
– Então... É que ele tá passando muito mal. –disse apontando para Jeremy. –A professora nos liberou e a matéria já foi toda passada e vocês podem voltar agora para o que estavam fazendo tudo bem?
– Tá de brincadeira com minha cara né mocinha? Ajudar um meninos e traz ele para o banheiro feminino? –disse o diretor cético.
‘’Puta merda! Fudeu! Eu não tinha uma desculpa melhor não?’’ –pensei e implorei para que Afrodite desse uma ajudinha.
– É que ele não tem muitos amigos homens. –respondi.
– Oh meu amor da minha vida! Volte para o nosso leito de amor, pois eu te amo intensamente luz do meu viver. –murmurava Jeremy jogado no banheiro com sua blusa de frio encharcada.
– É, acho melhor que os dois se dirijam agora para a direção! Uso de drogas? Pelo visto esse seu amigo aí deve ter usado e muito. –ordenou o diretor impaciente.
Um dos funcionários da limpeza olhava tudo aquilo com um tédio contagiante. O outro, mais forte olhava a situação com olhinhos brilhantes. Tentei mais uma vez.
– Drogas? Claro que não... Como eu já disse, ele tá passando muito mal e eu só estou ajudando. Ele tem um tipo de alergia raríssima que provoca delírios. Mas já estou cuidando de tudo! –respondi tentando ser convincente com um sorriso.
O diretor e o funcionário da limpeza que tinha a chave mestra nas mãos pareceram muito confusos e aproveitei a brecha para falar mais um pouco.
– Isso mesmo! Agora já podem voltar a fazer o que estavam fazendo. Diga a todos que tudo já foi resolvido e quanto à matéria escolar, não se preocupe que nossos deveres estão todos feitos... Podem ir! –disse melhorando meu tom de voz e tentando aplicar um ‘’charme’’ que eu nunca tinha usado antes.
O diretor e um dos monitores pareciam ter entendido, pois foram dando meia volta. O mais alto deles, não teve nenhuma reação a não ser me olhar debochadamente. Jeremy parou de berrar e olhava tudo extremamente confuso, como se não soubesse nem quem ele fosse naquele momento. Os dois já estavam na metade do caminho e o terceiro ainda estava lá na porta do banheiro. Dei o meu melhor sorriso e disse:
– Pode ir! Está tudo bem com a gente.
O homem soltou uma gargalhada monstruosa e eu tive certeza de que agora eu estava realmente ferrada, até porque minha adaga tinha ficado na sala.
– Semideuses me divertem! Acha mesmo que vou cair num charme fajuto de uma cria de Afrodite? –disse entrando no banheiro e fechando a porta do banheiro. Jeremy olhava tudo aterrorizado. Eu estava pálida e suava frio.
– Meu Zeus! Chegou minha hora! –pensei em desespero.
– Vejo que não terei dificuldades em devora lá. –ameaçou o monstro se aproximando.
Não sei da onde tirei forças, mas fechei meu amigo na cabine mais próxima, já que eu ia ser morta, seja lá o que ele fosse enxergar era melhor que não visse, embora exista a névoa.
O monstro tomou sua forma verdadeira. Era um ciclope de mais de dois metros de altura, faminto. Clamei a Afrodite mais uma vez e tentei usar o charme na minha voz, o que não deu certo, pois o ciclope apenas debochava de mim. Em alguns raríssimos momentos o monstro ficava confuso, tentei causar-lhe dores mentalmente como já ouvi alguns de meus irmãos fazerem, mas logo ele voltava a sua condição normal.
O ciclope, que se identificou como Teddy Forelegledston, aproximou-se de mim mais ainda, pronto para atacar. Eu fechei os olhos, já imaginando o tanto que eu era inútil, tudo acabaria ali, porque eu não estava armada e não tinha muito que fazer já que eu não conhecia muito bem os meus poderes.
Quando o monstro foi atacar, abrindo aquela boca horrenda e me olhando com aqueles olhos remelentos e amarelos, eu fui impulsionada para trás bruscamente por algo desconhecido. O monstro abocanhou o ar e ficou mais furioso ainda, jogando o braço em cima de mim.
– Chegou minha hora! –pensei apertando os olhos, mas de repente, Teddy (nome muito amigável para um monstro como ele) recuou assustado. Olhei de relance para o lado e algo dourado tremeluziu, pisquei e olhei novamente. Teddy Forelegledston ainda olhava para o troço do chão e só então eu percebi que se tratava de uma pulseira dourada delicadíssima e com detalhes minuciosos. Aproveitei a desconcentração do Sr. Forelegledston para me aproximar da pulseira e segurei-a, aquela altura do desespero qualquer coisa para defesa era bem vinda.
Teddy ficou estático por volta de dois minutos, tempo suficiente para que a pulseira estranha se acoplasse em meu pulso direito.
– Santo Zeus! Daí eu não morro com um monstro, mas morro perdendo minha circulação por uma pulseira dourada. –pensei. Imediatamente a pulseira ficou mais confortável no meu pulso e o monstro ‘’acordou’’ lembrando-se do seu objetivo de assassinato.
Eu afastei e a voz conhecida de Afrodite veio em minha mente dizendo:
– Lute, essa arma foi feita especialmente pra você.
– Ótimo, agora vou lutar com uma pulseira. Lindo. –pensei enquanto o monstro me xingava e ofendia incansavelmente. Tenho quase certeza que ele costumava fazer isso com todos os seus almoços, sabe-se lá o porquê, mas isso foi até proveitoso, pois nesse período eu tentei entender a tal pulseira.
Forelegledston cansou das provocações e começou a me encarar mais furiosamente ainda. Eu ainda não havia conseguido fazer com que a pulseira pudesse me defender de nenhuma forma e o monstro atacou. Sem jeito nenhum, rolei para o lado e a pulseira transformou-se em um chicote que reluzia. Meu Zeus, juro que naquele momento me senti uma das fúrias de Hades, mas o que importa foi que desajeitadamente eu ataquei o monstro que se desfez em pó dourado gritando que me veria no Tártaro. Nossa, que gratificante. Quanto à pulseira, assim que o monstro se desfez ela voltou a sua forma normal.
O que aconteceu depois? Eu e Jeremy fomos punidos com aulas extras no período contrário e nesse tempo eu tentava explicar o que havia acontecido confesso que me partia o coração ter que mentir e manipulá-lo novamente, mas tudo estava muito confuso e eu não podia machucá-lo mais. Fiquei conhecida como a ‘’piriguete do banheiro’’ mais tarde descobri que havíamos passados mais de duas horas lá dentro e os boatos do que tínhamos feito lá eram absurdos, pobres mortais.
O tempo foi passando e não, nem sinal de Steve. Porra! Ele disse que apareceria e até agora nada. Os meus sonhos estranhos continuavam e agora envolviam a tal pulseira que não tirei do pulso por nada.
Minha rotina estava um saco. Matei mais um monstro em um banheiro de uma sorveteria. Esses monstros adoram me atacar em banheiros, incrível! Mas pelo menos após esse nenhuma apareceu mais.
Jeremy estava cada vez mais confuso, mas continuava sendo meu amigo me apoiando em tudo, na medida do que lhe era possível. Eu estava psicologicamente destruída e não aguentava mais, bom, pelo menos logo eu iria para o acampamento.
Continuei suportando a vida e num dia qualquer, na saída da escola, uma picape preta enorme estava estacionada lá na frente. Os alunos observaram tentando saber quem estava lá dentro. Eu e Jeremy fizemos o mesmo.
– Ah, vamos logo Jeremy, estou morta de fome. –disse eu ignorando a picape que todos olhavam. Quando começamos a andar, olhei para trás e quase morri do coração. Um rapaz alto e musculoso, com uma blusa camuflada saiu do carro e tirou seus óculos escuros, me olhando com uma cara de: ‘’Fala sério que você não me reconheceu?‘’. Rapidamente larguei minhas coisas lá no chão mesmo e corri em direção a ele pra abraçar, beijar e fazer algo que as namoradas fazem quando estão com saudade? Não, para reclamar e xingar o Steve, isso mesmo, que namorado é esse que some desse jeito? Jeremy ficou com uma cara de poker face que eu nunca tinha visto antes. Todos observavam o meu projeto de briga e Steve me olhava com uma expressão que escondia algo. Ele se cansou e levantou a blusa mostrando uma ferida horrível nas costas que ainda não havia sarado.
– Acho que isso me explica não? –falou Steve abaixando a blusa.
– Desculpa. –murmurei encarando o chão. Eu não estava bem mesmo, tinha milhares de problemas e meus olhos encheram-se de água. Steve me abraçou e comecei a chorar, muito por sinal, pois na verdade eu já havia segurado esse choro por muito tempo. O povo olhava sem entender e Steve pronunciou-se com sua suavidade de sempre
– Que foi porra? Nunca viram ninguém chorando não?
Jeremy já havia entendido que Steve era meu namorado e estava arrasado olhando ao longe, com minha bolsa ainda nas mãos.
– Acho que alguém está com o coração partido não? –falou Steve.
– Ai meu Zeus! Tadinho do Jeremy, eu só faço merda. –respondi enxugando o rosto.
– Vamos? –convidou Steve arqueando a sobrancelha em direção ao seu carro todo orgulhoso.
– Pera. –disse eu indo em direção a Jeremy que fez uma chuva de perguntas. Peguei minha bolsa e prometi que eu ligaria para ele. Jeremy segurava o choro e saiu em passos rápidos. Nunca me senti tão mal.
Os estudantes continuaram observando. As bitchs da minha sala babavam no Steve. Olhei com uma cara de ‘’ não olhem pro meu macho’’, entrei no carro, coloquei o cinto e fiz questão de abrir a janela. Steve deu partida e em poucos minutos já estávamos longe da escola.
– Tá. Adorei o carro. Lindo. Mas, como conseguiu? –perguntei trocando de música.
– Lembra-se da herança que te falei?
– Lembro.
– Pois é.
– Nossa. Pelo menos pra isso sua família serviu. –comentei.
– Chegamos. –anunciou ele.
– Hum, aonde mesmo? Não conheço ninguém que more por aqui.
Steve parou o carro, me olhou nos olhos e me beijou.
– Que saudades branquela. Mas vamos logo e vamos parar de viadagem. –disse Steve saindo do carro com um sorriso gigante no rosto.
– Okay né...
Paramos em frente a um prédio de aproximadamente dez andares decorado com azulejos azuis. Andamos quase até a portaria quando a expressão feliz de Steve se foi completamente. Tentei entender o porquê, mas não tive tempo.
– Sara! Volta para o carro agora! –disse Steve.
– Por quê? Mais rapaz, que ousadia é essa? –questionei.
Percebi que Steve estava em pânico, o que é raro, pois ele sempre tenta ter o controle da situação. Olhei ao redor e vi quatro homens de preto e olhos escuros na portaria, eles ainda não haviam nos percebido. Só aquilo poderia ser o problema, pois algo muito negativo emanava daqueles homens e então entrei no carro. Steve veio logo depois e arrancou saindo a toda velocidade. Quando ouviram o barulho do carro, os homens entraram em um carro vermelho, mas a essa altura nós já estávamos longe.
Do jeito que Steve estava ele iria bater em um poste e morreríamos num acidente de carro feio. Sugeri que parasse o carro no acostamento e Steve o fez. Ele encostou a cabeça no volante ofegante e murmurou tentando se recompor:
– Esses caras estavam em um sonho que eu tive. E eles matavam você.
– Minha Zeusa fabulosa tem misericórdia! –exclamei.
– Fora outros sonhos muito piores. Sara, perdi as contas de quantos monstros eu matei por esse período. –disse Steve agora mais calmo.
– Calma Steve. Calma.
– Tá, já estou melhor. –disse ele ligando o carro.
– Vamos para onde? Aquele apartamento era seu? –perguntei.
– Nos encontrar com nossos amigos no Central Park. Sabe a surpresa que eu disse que iria fazer? Pois é, aqueles homens acabaram com ela, mas por Zeus ainda te levo lá ok?
– Tá. Precisamos conversar e muito.
– Mais tarde estaremos no acampamento e teremos tempo.
– Ué, mas não tá no tempo de ir para o acampamento está? –perguntei sem entender.
– Esses homens denunciam muita coisa Sara. Connor e Leo já foram avisados e creio que Laura e Isabela já estão lá. Não podemos ficar aqui no mundo mortal por muito tempo. –explicou Steve e um calafrio percorreu minha espinha.
– Podemos passar lá em casa? –perguntei.
– Menos de cinco minutos.
– Ótimo.
Seguimos para o meu apartamento. Eu nunca presenciei uma apresentação tão rápida. Minha mãe por sinal gostou do Steve e ficou até conversando com ele enquanto eu arrumava minhas coisas. Despedi-me da minha casa, e algo me dizia que eu iria demorar a voltar. Fomos para o carro, expliquei a minha nova arma e Steve me contou algumas coisas.
– Próxima parada: Central Park certo? –perguntou Steve acelerando o carro.
– Certo. –respondi com um sorriso, decidida a esquecer dos problemas pelo menos no nosso reencontro.
POV Laura
Eu confesso que estava com medo de voltar ao “mundo real”. Primeiro pelo fato de que agora eu sei que tem monstros a postos para me matar. Segundo que além dos monstros poderiam ter deuses e hum... Vários outros seres dispostos a me matar também. Terceiro que eu nem sabia lutar ou controlar meus poderes bem, mas por incrível que pareça o que mais me preocupava era o fato de que eu iria voltar pra escola e tentar ter uma vida normal sem as meninas.
Cara eu estudo com elas a mais de nove anos, não dá pra imaginar uma sala de aula sem a presença delas ali. Tudo bem que coisas estranhas aconteciam o tempo todo, mas era a Sara e a Isabela, coisas estranhas aconteceriam mesmo se nos não fossemos semideusas. Mas como o Quíron disse, mudanças eram necessárias caso quiséssemos sobreviver e bem... Eu quero viver ainda por muito tempo, então vamos encarar a escola de frente. Oh por Poseidon que merda! O ano letivo é quanto tempo mesmo?
Filosofei isso tudo a caminho da minha casa. Estava com meus fones e encarando a paisagem pela janela do táxi e só fui pensar que o motorista poderia ser um monstro quando ele parou o carro na frente da minha casa e me pediu que pagasse. Paguei e me peguei pensando que ele poderia ter me matado facilmente, tenho que parar de voar e aterrissar no mundo real de vez em quando. Missão impossível quando se está com fones e um álbum inteiro de Arctic Monkeys.
Entrei e não tinha ninguém em casa. Minha mãe não estava e eu ficaria sozinha, como sempre. Não me incomodava em ficar sozinha, na verdade já estava acostumada. Adentrei o local e senti aquele cheiro familiar. É, tudo como antes. Agora sem elas.
O primeiro dia de aula foi muito estranho. Olhava as pessoas com uma total desconfiança como se elas fossem me matar a qualquer momento, acho que o CHB me deixou um pouco obcecada com essa história de morte, e acho também que as pessoas perceberam já que foram se afastando aos poucos e encaravam feio. Dei língua pra elas na minha melhor pose de maturidade.
As aulas eram tediosas e apesar dos professores serem totalmente seres do mal, não eram monstros. As bitchs se comendo na sala com os garotos idiotas que só pensavam em bebidas e festa, confere. Os nerds olhando com cara de “sai nojenta”, confere. Os garotos que só querem saber de esportes e improvisam uma bola com tudo, confere. O palhaço da turma, confere. As garotas idiotas que riem de tudo, fazem piadas internas e são totalmente bestas, não confere. Fala sério é nisso que vou ficar o ano inteiro?
Os dias passaram rápido por incrível que pareça. Eu só falava com o povo da minha sala o necessário, não que eles não tenham ido falar comigo ou algo do tipo. Algumas pessoas eram até legais, mas eu realmente não queria fazer amizades, tinha medo de eles serem monstros ou eu os machucar colocando-os em perigo. É, eu estava começando a entender o lado ruim de ser semideus que o Percy tinha me falado.
Em um dia qualquer abri uma caixa com materiais escolares antigos pra procurar um livro para algum trabalho. Achei coisas que me deixaram feliz e triste ao mesmo tempo, ou seja, fiquei no chão com caixas, poeiras, risos e lágrimas. Aquelas caixas eram verdadeiros tesouros, tinham desenhos meus quando eu tinha três anos de idade (um borrão marrom que eu chamava de cavalo e um ser não identificado que minha mãe me disse uma vez ser eu), várias coisas dos dias das mães, tarefas com um “F” bem grande como nota. É, ser inteligente desde pequeno é pros fracos. Tinha também provas, trabalhos e projetos, mas não só meus das meninas também.
O desenho do que eu quero ser quando crescer da Sara era uma modelo em uma passarela enorme, ela usava salto alto e um vestido lindo com glitter, seu cabelo e sua maquiagem combinavam com o lugar e com a roupa. A boneca tinha uma pose de “sou sexy, bitch!” não tinha um traço da pintura que saia da linha. O da Isabela era uma mulher que estava com a barriga toda suja de sangue e uns “X” nos olhos sinalizando que ela estava morta, detalhe: ela estava no teto. Dois caras passavam por uma porta no fundo do desenho. Confesso que só consegui entender o desenho porque lembrei que nesse dia a Isabela ficou esfregando o desenho na nossa cara e gritando “Eu quero ser uma Winchester”. Tínhamos oito anos na época, não consegui achar o meu.
Foi então que desenterrei uma relíquia. Um livro ilustrado a mão de mais ou menos umas dez paginas que dizia assim na capa: “Manual de Sobrevivência a Isabela”. Não resisti e caí na gargalhada, eu e a Sara fizemos isso na 6ª série quando uma amiguinha nova ia entrar no grupo e estava tendo problemas com a Isa. Eram dez passos simples e eficazes, funciona até hoje, eu deveria ter levado pro CHB, teria evitado muitas tretas.
1º Passo: Em caso de idiotice ou retardação: Sorrie e Acene.
2º Passo: Não a olhe nos olhos e concorde sempre.
3º Passo: Convênio médico sempre a postos em caso de emergência.
4º Passo: Tenha sempre protetores de ouvidos (para a voz de barraqueira).
5º Passo: Nunca, jamais em hipótese nenhuma fale mal de alguma coisa que ela goste (por mais que a ache ridícula e repugnante).
6º Passo: Não a chame quando ela estiver concentrada em alguma coisa, pode a deixar com raiva.
7º Passo: Se você estiver sentada na frente dela, jamais a insulte caso não queira ter sua cadeira chutada e destruída. Na verdade, tenha certeza de que não há como ela te atacar e de que você está totalmente segura antes de insultá-la.
8ª Passo: Nunca, jamais em hipótese nenhuma pegue em seu celular.
9º Passo: Só deboche da cara de ofendida, quando a mesma já tiver passado.
10º Passo: Não fale com ela quando estiver com raiva, espere passar.
Quando terminei de folhear o livrinho minhas bochechas doíam de tanto rir. As lembranças me proporcionaram uma tarde deliciosa, mas no outro dia haviam me deixado triste. Fui pra escola meio depressiva.
Felizmente a aula de educação física tinha acabado e eu estava indo para o vestiário quando fui encarada maliciosamente por um dos idiotas da minha sala, revirei os olhos e ignorei. Retardado. Tomei um ótimo banho e senti minhas forças revigoradas. Estava cheirosa e limpa, o que melhorou um pouco meu humor. As outras meninas da minha sala enchiam o local com conversinhas e risos.
Abri a porta para sair quando ela foi fechada bruscamente na minha cara. Procurei assustada o que ou quem fizera aquilo, não estava com minha arma provisória já que não era atacada por monstros havia meses, nem me lembrei de pegá-la. Então vi a bitch mor me encarando com um sorriso de lado provocante e o olhar de ameaça me deu vontade de rir, mas eu segurei e fiz minha melhor cara irônica de “o que foi flor” que a Sara tinha me ensinado.
– Não mexa com meu homem, querida. –disse ela.
Fiz o meu melhor para não ter uma crise de riso, a essa altura as outras meninas observavam ao longe, o barulho de conversinhas havia dado lugar para os cochichos.
– Como é que é? –perguntei incrédula.
– Não mexa com ele, isso é só um aviso, pro seu bem. Fique longe dele. –ela falou se aproximando de mim e me encarando nos olhos.
Suspirei debochada.
– Ah, por favor, né! Me dá licença. –disse tirando a menina da minha frente pra poder abrir a porta.
Ela segurou meu braço com força e por impulso um jato de água explodiu da torneira e ela foi arremessada longe, não lembro direito como aconteceu, só sei que eu me via sentada no meio fio em frente à escola duas horas depois com uma suspensão e advertência em mãos. As meninas que estavam presentes no banheiro agora tinham toalhas em volta de seu corpo e algumas assuavam os narizes, resfriadas, os cabelos molhados. O vestiário foi interditado e encanadores trabalham no seu interior.
Eu me encontrava lá, no ápice da minha depressão quando sentir um puxão de leve no meu braço olhei e vi que meu caderno tinha sumido. Procurei em volta e não pude deixar de sorrir quando o vi. Connor Stoll estava fuçando meu caderno e morrendo de rir do manual de sobrevivência a Isabela. Levantei uma sobrancelha e o encarei. Ele se sentou ao meu lado.
– Era só pra te assustar, mas não resisti. Dar uma espiada nesse manual é muito útil. Você devia sei lá mandar publicar, para o bem da humanidade.
– Já pensei nisso, mas é melhor não, acho que a Isabela me mataria.
– É... –concordou ele.
– Qual o motivo da sua ilustre visita?
– Quirón me mandou ficar perto, porque você é a posereia e tals. Daí vim te ver, deu saudades. –disse ele limpando pó dourado da roupa.
– Ficar por perto?
– É, ou você acha que não é atacada por sorte? Foi o Connorzito aqui.
– Ah... Bem... Isso faz sentido... Obrigada?
– Obrigado nada, você vai sair comigo.
–E o que o Quíron acha disso?
– Bem, ele disse que eu tinha que ficar longe, que você não poderia saber qual era a minha escola e que ela é perto da sua e que eu estava te protegendo de longe, mas não, nada sobre sair.
– Então tecnicamente podemos sair juntos? –perguntei.
– Tecnicamente sim.
– Tecnicamente tá bom, vamos? –disse desesperada pra dar o fora daquela escola.
Connor olhou em volta e sorriu.
– Acho que entendi o que aconteceu aqui...
– Calado.
E foi assim que Connor Stoll me proporcionou o melhor dia que eu tive em meses, mas raramente ele aparecia, tinha seus próprios problemas na sua própria escola. Nunca mais nenhuma menina da turma mexeu comigo, levava algumas encaradas de vez em quando, mas nunca nada além disso.
Eu contava ansiosa os dias até o verão para me encontrar com as meninas no Central Park. Após a tortura das provas corri para minha casa, precisava arrumar minhas coisas, nem acreditava que estava na hora de voltar para o CHB. Arrumei-me e em menos de cinco minutos eu estava em um taxi rumo o Central Park.
POV Isabela
– Ah pá porra esse CHB todo também, ficam querendo me separar das minhas friends, vou pra essa escola também não, quero nem saber.
– Ô Isabela, saí desse quarto logo. Vai se atrasar logo no primeiro dia menina? –gritou minha mãe com uma voz aguda.
– Vou para essa merda não! –respondi no mesmo tom de voz.
– Claro que vai, mas rapaz! Quem manda aqui sou eu. –berrou minha mãe espancando a porta.
– Vou não! Pra porra. –gritei.
– Como é que é Isabela? –disse minha mãe já dentro do quarto com a maçaneta da porta na mão.
Fiz minha cara de ofendida magoada porque minha porta do quarto havia sido quebrada e fui me arrumar, quer dizer, vestir o uniforme até porque no cabelo um nó estava ótimo para o primeiro dia. Saí de casa murmurando:
– Vou pra essa porra, mas quero ver se alguém vier me provocar! Ai, ai, ai que a merda vai ficar séria, porque não estou com paciência, não tô com paciência para desaforo!
Percorri o caminho da escola para casa reclamando ate porque meu pai não quis me levar de carro. Cheguei reclamando e entrei reclamando porque sou dessas, não quero nem saber, se a bitches me encararem com cara de cu eu juro que esfolo a cara delas!
Cheguei à porta da escola, encarei aquele pátio imenso e o cagaço nível galopante tomou conta de mim. Enquanto encarava aquela cena horripilante e decidia se eu ia para algum lugar matar aula, uma quenga ridícula esbarrou em mim e até hoje não sei se foi de propósito ou não. Ela virou-se e disse:
– Desculpa queridinha.
Eu não disse nada, apenas a encarei com uma cara de desprezo e segui para minha suposta sala de aula. Entrei em duas salas erradas até achar a minha, merda de corredores confusos! Quando finalmente consegui entrar na sala certa, sentei na frente, porém com uma distância segura da mesa do professor. É né, Sara e Laura não estavam então eu teria que “tentar” passar de ano, tentativa fail.
A primeira aula era de filosofia, ui professor gato. Sorrie e acene Isa. –pensei.
– Então alunos, vamos aprender nessa aula sobre lógica aristotélica. –começou o professor e logo escreveu na lousa a seguinte frase:
“Todos os homens são mortais
Sócrates é um homem
Logo, Sócrates é mortal”
Ele continuou explicando a matéria e eu estava mega interessada, afinal como disse o professor era um pitel, oh meu Zeus! Estou parecendo a Sara, sai de mim espírito de quenga!
O professor pediu um exemplo e fiz questão de levantar minha mão para falar, queria ser uma aluna participativa. Quem não ama filosofia? Ela estava tão linda hoje... Pigarreei e falei na minha melhor voz com pose de filha de Atena:
“Todo mar é formado por água e sal
O biscoito é de água e sal
Logo, o mar é um biscoitão? ’’
Dei um sorriso com a meu desempenho a Laura ficaria orgulhosa com meu exemplo. Quando olhei para trás, a turma inteira sorria e debochava da minha face, quengos ridículos mesmo, deixa eles. Terão uma morte lenta e dolorosa. Senti meu rosto ficar vermelho, o professor pediu ordem e me explicou que isso era uma falácia ou algo assim, fiquei com raiva e nem quis mais prestar atenção na aula. Pra porra todo mundo também!
O outro acontecimento aconteceu em uma aula de português, não muito tempo depois. A professora pediu que eu falasse um advérbio de intensidade e com muita confiança e naturalidade eu respondi:
– Pra porra.
– Como? –perguntou a professora arqueando as sobrancelhas sem compreender.
– Advérbio de intensidade. Aplicação numa frase: Abacaxi é bom pra porra. Pra porra é o advérbio de intensidade professora. –respondi jurando que estava certa.
Todos começaram a rir e debochar, só que dessa vez levei uma advertência por ter falado palavras de baixo calão na sala de aula. Pra porra, eu falo o que eu quiser mais rapaz! Desde esse momento eu nunca mais quis dar uma de aluna participativa, sempre dava merda. Desisto!
Quando voltei da direção, sentei-me e olhei para trás e vi um menino muito, muito estranho. Ele tinha os cabelos negros e um olhar sombrio. Arregalei os olhos de medo e fiquei quieta na minha esperando o bicho se revelar. Certeza que aquela criatura era um monstro.
Ficou a aula inteira me encarando aquele troço. Tava para perguntar se ele queria meu corpo nu ou o que, daí lembrei que era uma semideusa e que ele não queria meu corpo nu e sim morto. Quero minhas friends! Pra quem eu vou falar mal desse boy magia dark aqui? Aposto que a Laura já estaria morrendo de paixão e a Sara com a cara de nojenta pra ela.
A aula já estava quase acabando e o bicho estranho ainda não tinha se revelado. Ele era um mortal que estava mais interessado em olhar tudo com desprezo do que ter meu corpo morto. Fui embora pra casa, quero saber dessa escola mais não.
Os dias foram passando e tudo estava uma bosta, inclusive minhas notas que afundavam junto com minha paciência com aquele povo daquela escola insuportável.
Certo dia em especial, acordei mais estressada que o normal e minha mãe me fez tomar dois comprimidos de calmante e obviamente não adiantou e inclusive algo me dizia que eu seria atacada por um monstro. Nesse tempo eu já havia matado dois, pra porra esses monstros. Tão achando que vão me comer assim tão fácil? Coitados!
Fui pra escola me arrastando e essa altura ninguém mais me olhava feio, são nem doidos, mas eu tinha uma leve impressão que falavam de mim.
Pedi pra professora de história para ir ao banheiro pra passar um batom e soltar o cabelo (eu tinha acabado de ver o diretor gato e ele iria passar nas salas). Tem que estar apresentável certo? Então aquele guri estranho lá foi beber água apenas o observei me seguindo e fiquei só de butuca. Aquele dia eu estava especialmente pronta para matá-lo caso fosse necessário. Eu tinha certeza que ele iria se revelar naquele momento e então me escondi atrás da porta do banheiro feminino.
Respirei mais devagar para não fazer barulhos e foi exatamente nessa hora que eu vi a minha arma letal pronta para ser utilizada. Uma vassoura colorida. Onde estava minha espada nessa hora? Até parece que eu iria precisar dela! Com a raiva que eu estava desse bicho estranho, era capaz de enfiar a vassoura na goela dele, se não em outros orifícios mais baixos. Ninguém mandou ficar me encarando demais.
Ouvi passos se aproximando e sem pensar duas vezes saí do meu ‘’esconderijo’’ com um pulo para fora do banheiro. Aquela era a hora do ataque. Ergui minha vassoura heroicamente e dei incontáveis vassouradas na cabeça do bicho. O problema era que o bicho não era o bicho e sim um menino do primário, baixinho e inofensivo que bebia água tranquilamente no bebedouro ao lado do banheiro.
O menino começou a chorar incontrolavelmente e em sua cabeça havia um galo enorme. Eu não tive nenhuma reação, mas vi que eu estava muito ferrada, muito mesmo. Sem tardar, um monitor se aproximou para ajudar o menino e virou-se para mim que estava estatelada com os olhos arregalados e então quase me arrastou até a sala do diretor.
Resumindo: fui expulsa do colégio, minha mãe foi lá fazer um barraco e eu não reprovei graças a ele e uma ajudinha de Quíron. Outra escola? Nenhuma quis me aceitar. Fiquei um bom tempo depressiva e minha mãe me obrigou a ir à uma psicóloga, que não era uma psicóloga e sim um monstro terrível, mas matei o troço com agilidade.
Ben não havia dado sinal de vida e senti muitas saudades das meninas. Fiquei sofrida assim até que finalmente eu pude ir para o lugar que eu podia chamar de lar. Fui para o Central Park como o combinado.
Quando cheguei ao parque, até o ar era diferente, estava leve e agradável. Nem acreditei que iria encontrar as minhas quengas de novo. Andei pra caramba naquele lugar, elas nem especificaram nada, pra porra também que eu não estava aguentando mais ver árvore.
Escutei ao longe um barulho de água, como se uma pessoa estivesse sido arremessada nela, seguido de um grito estridente. Logo abri um sorriso, pois reconheci o grito e corri em sua direção. Então, eu as vi.
Fale com o autor