Owari
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Owari
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Capítulo 3
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— Naruto!! — Hinata exclamou assim que viu seu marido entrar em casa, coberto de cortes leves, hematomas medianos e inchaço em algumas partes do rosto — O que...!?
O Hokage fechou a porta, escorando suas costas nela e suspirando pesadamente, observando sua esposa com o olhar cansado, enquanto ela jogava o livro que estava em suas mãos para o canto do sofá e corria em sua direção.
Hinata aparentava a mesma garota de sempre e ter dos filhos não prejudicou em nada o seu físico. Continuava com o corpo mais belo de Konoha e ainda escondia seus atributos debaixo de roupas largas, por vergonha e insegurança. Naruto não se importava, na verdade ele até gostava dessa característica de Hinata; ele sempre foi extravagante e barulhento (ou costumava ser), então encontrar alguém mais comedido como Hinata era bom para equilibrar a relação. Hinata ainda aparentava a jovem de dezesseis anos que Naruto começou a conhecer a fundo depois do fim da guerra, a única diferença era que sua inicial timidez com Naruto havia melhorado bastante (apesar de ela ainda ser bastante tímida com os outros), o que tornou o relacionamento dos dois bem mais fácil e prazeroso.
— Acalme-se, Hinata. — Naruto respondeu quando ela chegou perto o suficiente, deixando-a inspecionar seus machucados para que ela não ficasse ainda mais preocupada; Hinata não o via machucado desde a guerra, é claro que se surpreenderia ao vê-lo assim — Não é o que você está pensando, calma, eu estou bem. É que... bom... o Sasuke voltou pra vila...
Ela deu um passo para trás, fitando-o sem saber o que falar perante àquela revelação.
— Sasuke-san... Fez isso?! — ela questionou, indignada — Eu achei que vocês tinham resolvido as diferenças e estavam em bons termos.
Naruto deixou uma risada cansada escapar, fechando os olhos e sentindo que poderia dormir em pé a qualquer momento.
— Acredite, nós estamos em bons termos. — e era verdade: Sasuke não lutou pra valer; ele estava irritado, mas nem chegava perto ao seu estado emocional descontrolado de oito anos atrás — Se não estivéssemos, seria bem pior. Tanto pra mim, quanto pra ele.
Ela nada respondeu, puxando-o pela mão e levando-o até o sofá, onde ele se jogou de qualquer jeito, exausto demais para tentar sentar direito.
Hinata já imaginava o que aconteceu no reencontro dos dois ex-companheiros do time sete. Ela se lembrava muito bem de como Naruto correu desesperadamente atrás do Sasuke quando eles eram adolescentes, sempre se importando com o amigo e desejando ajudá-lo a superar seus problemas. Ela sabia que esses reencontros sempre eram repletos de fortes emoções. Além disso, muitos desses reencontros levaram a situações complicadas, e Naruto chegou ao limite do seu caos com Sasuke depois da guerra, quando perdeu seu braço no meio da briga.
Depois que Sasuke partiu mais uma vez e ela começou a se aproximar mais de Naruto, Hinata tentou entender a complexidade do relacionamento deles. Ela realmente se esforçou para compreender, mas logo percebeu que seria impossível alguém de fora da relação deles captar toda a dinâmica dos dois. Ela sabia que os poderes do Rikudou Sennin não foram dados aos dois em meio à batalha contra Kaguya por acaso; havia um motivo, e talvez esse motivo estivesse ligado ao por que dos dois terem uma relação tão complexa, mas Naruto nunca revelou muito a respeito disso.
Durante a época do “namoro” (namoro para os outros, amizade para eles), ela chegou a questionar a respeito disso e Naruto instantaneamente ficou cabisbaixo, entristecido, melancólico... Até tentou responder, mas não conseguir por em palavras o seu sentimento. Ele disse algo como “meu problema com Sasuke não vem apenas desta vida”, e Hinata percebeu que talvez fosse melhor ela nem saber a respeito disso. Nunca mais tocou no assunto, e foi a melhor coisa a se fazer: sem o assunto “Sasuke” no meio dos dois, ambos começaram a se conhecer mais a fundo e, com o tempo, Naruto passou a gostar dela.
Ela não era imbecil de acreditar pra sempre no conto de fadas que sua mente infantil sonhava diariamente: Antes de conhecer a fundo Naruto, ela acreditava que ele não seria apenas o herói de sua vila, mas também o herói de sua vida. De certa forma, ele foi as duas coisas: foi o maior guerreiro da aliança shinobi e salvou o mundo de sua maior ameaça, derrotando Obito, Madara e Kaguya; e salvou sua família, unindo-se a ela e acabando com aquela divisão de família principal e secundária que assolava a vida de todos os Hyuugas desde muito tempo. Todavia, Naruto não era o príncipe encantado que ela sonhava conhecer quando menina: Naruto tinha qualidades e defeitos, era um homem de carne e osso, e ela percebeu isso apenas quando eles começaram a conviver diariamente.
Pondo em outras palavras, Hinata notou que boa parte da sua interpretação a respeito de Naruto era equivocada e utópica. Ela entendeu aos seus dezessete anos que, na verdade, ela nunca conheceu de fato Naruto: ela o apreciava a distância, como um ídolo, e achava que isto era amor, só que não era. É impossível se amar quem não se conhece a fundo, só é possível criar um sentimento de admiração, respeito e coleguismo; e ela passou boa parte da sua vida confundindo isso com amor.
Inicialmente, ela ficou bastante desapontada ao constatar isso, pois a imagem impecável que ela tinha do loiro foi substituída pelo real Naruto. Ela se sentiu uma idiota por amar (ou achar que amava) uma mentira, ainda mais durante tanto tempo de sua vida. Só que depois que sua decepção passou, ela amadureceu o suficiente para perceber características em Naruto que nunca tinha visto: qualidades tão fortes que se sobressaiam aos defeitos que ela acabou por conhecer.
Pouco depois de contato diário por três meses, ela concluiu que seu “príncipe encantado” não era Naruto, mas também não seria nenhuma outra pessoa. Afinal, pessoas possuem defeitos e qualidades, a fantasia da perfeição não existia. Além disso, as qualidades de Naruto eram muito superiores aos seus defeitos, e isso a fez insistir na aproximação. Sua insistência resultou em um amor de convivência, maduro o suficiente e nada ofuscado por uma paixão platônica.
Quando ele a pediu em casamento foi bastante repentino, mas ela aceitou sem muito pensar a respeito. A companhia de Naruto era a melhor que ela tinha, a cada dia ela conhecia algo novo que a fazia gostar mais e mais dele. Como ela iria se arrepender? Quando eles se beijaram pela primeira vez após ela dizer “sim” para o pedido, Hinata teve a certeza de que fez a escolha certa.
Não era toda a fantasia que ela imaginava viver quando era uma criança sonhadora, mas era uma realidade muito boa, sem dissabores. Naruto era a melhor pessoa que ela podia pedir em sua vida, e isso a deixava realizada e satisfeita; ademais, ela sabia que, à maneira dele, ele também estava feliz e satisfeito com a escolha que fez.
O casamento foi aceito com entusiasmo pelo seu pai, pois Naruto era um herói consagrado no mundo e todos sabiam que cedo ou tarde ele se tornaria Hokage. À época, Hinata não deixou passar despercebida da ironia da situação: mencionasse casar-se com Naruto antes da invasão de Pain, seu pai jamais aceitaria a união dela com o “Jinchuuriki do demônio Kyuubi”. Mas não importava mais, o importante era que ela conseguiu a benção de seu pai, sua irmã, seus companheiros de clã e seus amigos: Kiba e Shino tiveram uma crise de ciúmes bastante grande, mas logo aceitaram a ideia e respeitaram sua decisão.
O casamento foi um evento pequeno, porque Naruto não queria dar fogo para maiores fofocas, mas bastante alegre para os presentes. Entretanto, um acontecimento prévio à cerimônia ficou marcado na sua memória para sempre e, de tempos em tempos, Hinata se recordava daquela conversa.
Tentar entender novamente a dinâmica do relacionamento de Sasuke e Naruto foi o suficiente para fazê-la recordar desta conversa específica:
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Faltava uma hora pro início do casamento quando Sakura entrou em seu quarto para conversar. Kurenai, que a ajudou durante todos os preparativos do casamento e fazia companhia numa tentativa de deixá-la mais calma, decidiu se retirar e permitiu uma conversa entre as duas garotas, sabendo que o assunto era sério. Todos na vila sabiam que Sakura não aceitara muito bem a notícia do casamento entre Naruto e Hinata, e talvez aquele fosse o momento onde as duas poderiam acertar suas diferenças.
Antes de sair, Kurenai perguntou a Sakura se ela precisava de ajuda com Sarada; a rosada carregava a filha de dois meses no colo, e ela dormia calmamente com o dedinho na boca, sonhando com alguma coisa e deixando sorrisinhos escaparem em meio ao sono. Sakura recusou a oferta com um sorriso grato, ajeitando melhor a garotinha em seu colo.
Kurenai se retirou em seguida, deixando a noiva e a melhor amiga do noivo a sós.
— Durante algum tempo de minha vida, eu achei que seria eu quem me casaria com Naruto. — Sakura falou depois de um longo e constrangedor silêncio, com um tom de voz sério, olhando Hinata com os olhos brilhando por emoções — Ele dizia gostar de mim quando éramos crianças e durante boa parte da nossa adolescência. E eu, por um momento, comecei a cogitar um relacionamento com ele depois que conseguíssemos acabar com toda a confusão de Akatsuki e demais caos no mundo shinobi.
Hinata abriu a boca para responder, mas Sakura a interrompeu antes que ela pudesse falar, sabendo que ela não abordara o assunto da melhor maneira possível e se arrependendo por isso.
— Eu apenas cogitei tentar, não se preocupe. Eu nunca fui apaixonada pelo Naruto, mas eu estava disposta a tentar, porque eu o amo muito e sabia que a paixão viria com o tempo. Eu consegui visualizar nos dois juntos no futuro, nosso casamento, nossos filhos. — e então a rosada abaixou o olhar, encarando o rosto de sua menina adormecida com devoção — Ainda bem que não foi como eu imaginei...
Hinata relaxou visivelmente. Por um instante ela achou que Sakura estivesse ali para dizer que não aceitaria o casamento e que gostava de seu noivo, mas claramente a situação não era essa.
— E-eu... — ela gaguejou, um pouco nervosa com a situação como um todo. Respirou fundo e recomeçou — Eu sempre achei que você e Sasuke-san...
Ela não conseguiu terminar sua frase, mas Sakura captou o conteúdo do questionamento.
— Sasuke foi meu primeiro amor, e primeiro amor é algo complicado de se esquecer. — a rosada falava, apreciando os sinais de compadecimento na expressão da colega; certamente, primeiro amor é algo muito complicado de se deixar de lado, e Hinata entendia bem isso — Quando Sasuke veio para o campo de batalha, eu vi todos aqueles sentimentos que estavam reprimidos voltarem à tona, mas no calor da guerra eu nada pensei a respeito; não havia tempo para pensar. Ainda sim, nos dias que ele ficou na vila, se recuperando e interagindo comigo e com Naruto, eu vi que não tinha jeito, poderia aparecer quem fosse na minha vida, mas a mística do meu amor por Sasuke nunca me deixaria em paz.
— Se Sasuke voltar para vila, você vai tentar conquistá-lo? — Hinata questionou, verdadeiramente interessada na resposta — Você é mãe de uma filha dele, os Uchihas costumavam ser um clã muito familiar. Quem sabe ele...
— Não, eu jamais o obrigaria a casar comigo só pelas aparências. — Sakura a interrompeu, não desejando ouvir aquele tipo de insinuação de Hinata. Ela não gostava quando as pessoas pensavam que ela usaria Sarada para prender Sasuke, pois essa claramente não foi sua intenção ao decidir levar a gravidez à diante — O amor que eu sinto por Sasuke é aquele tipo de amor cuja chama se mantêm acesa com a distância. Acho que se eu tivesse a oportunidade de viver esse amor, o encanto se acabaria. Eu sou apaixonada por uma ilusão e eu sei disso... Você me entende, não entende?
Hinata não achava que alguém tivesse notado a decepção inicial que ela teve ao conhecer Naruto mais a fundo, mas pelo jeito ela estava errada. Sakura era perspicaz, claro que perceberia algo assim. Até porque, de certa forma, o amor que Hinata sentia antigamente pelo Naruto certamente se assemelhava muito ao amor de Sakura por Sasuke.
E todo mundo sabe que pessoas que sentem as mesmas coisas se compreendem com mais facilidade.
— Entendo... — Hinata respondeu, abaixando o olhar — Mas, mesmo assim, um amor mais maduro pode vir a surgir: um amor novo, que não dói, que só acrescenta.
— É isso que você sente por Naruto agora? — Sakura questionou, ajeitando melhor o bebê dorminhoco em seu colo — Seu amor por Naruto renasceu?
Hinata pensou um pouco antes de responder: apesar de ela ter certeza que amava Naruto, ela não acreditava que esse amor fosse um “renascimento” do amor anterior, porquanto o sentimento era totalmente diferente em seu coração.
— Meu amor por Naruto é totalmente novo, não há cinzas do amor passado e infantil que antes eu sentia. Eu não gosto de dizer que ele renasceu. — ela respondeu com sinceridade, ganhando um sorriso de Sakura pela resposta.
— Então eu desejo, de todo coração, que você faça o meu melhor amigo feliz. — Sakura declarou, sentindo os olhos encherem de lágrimas e percebendo a surpresa na reação de Hinata — Espero que a história de vocês dois seja diferente da minha com Sasuke. Espero que vocês sejam felizes.
— Você vai ser feliz também, Sakura. — Hinata retrucou, também abrindo um sorriso e se controlando para não chorar.
Receber a aprovação de Sakura era o mesmo que receber uma aprovação de Kushina, pois Naruto não tinha família viva, mas Sakura sempre adotou uma espécie de papel de mãe com seu noivo.
— É claro que vou. — a rosada respondeu, mais uma vez olhando para a filha e deixando bem claro onde ela buscaria a sua felicidade.
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Naruto soltou um ruído de impaciência e retirou Hinata de seus devaneios, trazendo-a de volta a realidade. Ela fitou os olhos azuis de forma penetrante, se perguntando mais uma vez (dentre tantos momentos de dúvida que tinha naquele casamento) se realmente teria feito Naruto feliz como ela gostaria.
Ela não era inocente ao ponto de imaginar que a volta de Sasuke em nada influenciaria o relacionamento dos dois; ela só não sabia ainda se seria algo bom para eles, ou prejudicaria ainda mais a relação complicada que eles viviam. Hinata estava insegura com esse retorno, e só conseguia torcer para que Sakura reconsiderasse sua decisão e tentasse se aproximar de Sasuke. O porquê, exatamente, ela não sabia dizer (na verdade ela sabia, mas não queria admitir a si mesma o que sempre esteve bem debaixo do seu nariz).
Suspirando, ela se afastou um pouco de seu esposo, sentando-se ao seu lado e descansando as mãos no colo.
— São machucados leves, você vai sarar pela manhã. — Naruto já sabia disso, Kurama nunca falhava em curá-lo (ainda mais agora que ele tinha o chakra completo de Kurama selado dentro de si), mas ainda sim permitiu que Hinata visualizasse o tamanho do estrago pra não ficar preocupada demais — Não deixe Bolt te ver assim, ok?
— Tarde demais... — Naruto murmurou, encarando por trás do ombro de Hinata e fitando o olhar assustado de seu filho no corredor, observando o casal no sofá com os olhos arregalados.
— Pai? — o garoto murmurou, aproximando-se dos pais com passos rápidos.
— Bolt, fique mais um pouco com a sua irmã, eu já... — Hinata tentou bloquear a visão do filho enquanto falava, mas ele não lhe deu a mínima atenção, desviando de sua mãe e subindo do outro lado do sofá; praticamente subiu no colo de Naruto, tentando ver melhor a quantidade de ferimentos em seu rosto.
Naruto entendia a curiosidade de seu filho: afinal, essa foi a única vez que ele teve o desprazer de ver seu pai ferido de alguma forma. Naruto era forte demais para se deixar ferir em missões, sempre voltava intacto para casa. Hinata não queria que o filho visse a cena, talvez com medo que ele perdesse o encanto que tinha pelo pai, mas Naruto, no fundo, achava bom que seu filho percebesse que ele também era humano e passível de se machucar e cometer erros.
Quem sabe isso melhoraria um pouco a relação delicada que eles possuíam...
— O que aconteceu?
— Bolt, seu pai não... — Hinata tentava a todo custo tirar o filho dali, pegando-o pelo braço e intencionando levá-lo para longe dali, mas Naruto fez um gesto requisitando a ela que não interviesse ainda, desejando lidar com a situação sozinho.
— Sasuke Uchiha voltou pra vila, nós tivemos um desentendimento. — Naruto respondeu encarando o filho, percebendo o arregalar ainda maior de seu olhar. — Não foi nada demais, isso acontece comigo e Sasuke desde que...
— O pai da Sarada voltou?! — o garoto questionou, nem um pouco interessado em ouvir a conversa do pai sobre os tempos de Time Sete ou babaquices do gênero. Ele sabia a história, Rokudaime sempre falava a respeito da relação de seus antigos alunos problemáticos.
Naruto suspirou, entristecido pelo filho interrompê-lo daquela forma.
— Voltou. — ele respondeu secamente, cansado demais para tentar educar o garoto naquele momento. Sabia que tudo isso era uma demonstração de falta de respeito inapropriada, mas estava tão exausto que deixaria qualquer tipo de briga pra outra ocasião.
— Filho... — Hinata chamou a atenção do garoto, compreendendo de antemão o que se passava na cabeça dos dois — Seu pai foi sincero com você e te disse a verdade, você percebe isso, não percebe? Não o trate dessa forma.
— E o que tem de mais? — o garoto indagou, fazendo uma careta indignada — Não é esperado dos pais dizerem aos filhos a verdade? É o mínimo que ele podia fazer!
— Bolt! — Hinata censurou, mas antes que o filho pudesse tomar qualquer tipo de bronca pela falta de educação com os pais, ele correu para o seu quarto, batendo a porta com força ao adentrá-lo — Bolt, volte já aqui!!
— Deixa, Hinata... — Naruto murmurou, fechando os olhos e descansando a cabeça no encosto do sofá, cansado demais até para se ofender com aquilo — É fase, vai passar.
— Naruto. — Hinata chamou seu nome, pegando seu rosto com as duas mãos e forçando-o a olhar pra ela. Assim que ela adquiriu a atenção do esposo, depositou um beijo em seus lábios, um beijo de súplica rápido e cheio de desespero, e, ao retrair, murmurou em voz baixa — Eu preciso de você aqui.
O loiro piscou, tentando entender o que ela queria dizer.
— Eu estou aqui Hina-...
— Não. Eu preciso de você nessa família, não apenas como Hokage e shinobi de Konoha. Bolt precisa de você, Himawari vai se revoltar também quando ficar mais velha se as coisas continuarem desse jeito. Eu preciso de você como marido e pai.
— Mas Hinata, você tem que entender que a crise...
— Não! — ela censurou, erguendo um pouco o tom de voz, coisa que raramente fazia — Você não está entendendo a gravidade da situação. E se você não entender isso logo, essa família vai acabar se destruindo!
Ele a encarou com extrema surpresa, impressionado pelas palavras utilizadas por ela. Sasuke estava vagando na sua mente desde o encontro que tiveram há pouco mais de uma hora, mas essas palavras de Hinata fizeram seu foco voltar-se completamente para ela. Naruto certamente não gostou da ameaça, apesar de entender as boas intenções da esposa.
— O que você está insinuando? — sua voz soou irritadiça e ele nem tentou disfarçar, indignado pelo suposto egoísmo de Hinata. Se ela soubesse que ele tinha acabado de rejeitar Sasuke por ela e por sua família, ela não viria com indiretas assim pra cima dele.
Mas ele não seria louco de contar algo assim para ela, não é mesmo?
— Eu não estou insinuando nada, mas eu preciso que você me ajude a tomar as rédeas da situação por aqui. Eu preciso que você volte para casa ao menos para jantar e ver seus filhos. Eu preciso que minhas crianças se sintam amadas pelo seu pai. — ela respondeu com firmeza, tentando ser forte e não se render aos velhos hábitos de abaixar a cabeça com vergonha e medo de encarar o olhar forte de Naruto; anos de experiência realmente dão coragem até aos mais tímidos dos seres humanos — Eu fui rejeitada pelo meu pai e você sabe disso, eu não quero ver os meus filhos passarem pela mesma coisa.
Ela, assim como eu, se preocupa mais com os nossos filhos do que com o casamento. — Naruto concluiu ao entender o conteúdo da cobrança que ela fazia — E é por isso que eu me decidi casar com ela...
Ele não respondeu de prontidão, e ela acabou abaixando a cabeça, entristecida por não ser compreendida.
— Hinata, me escute. — o Uzumaki pediu, pegando-a pelos ombros e fazendo-a erguer o rosto mais uma vez, detestando vê-la insegura desse jeito — Eu não quero rejeitar meus filhos, eu os amo e sou orgulhoso de tudo que eles fazem. Mas você tem que me ajudar, tem que tentar fazê-los compreenderem que, no momento, a vila precisa de mim mais do que eles precisam de mim.
A Hyuuga o soltou, virando o rosto e se sentindo derrotada ao ouvir aquela resposta.
— Isso não é verdade Naruto, eles sempre precisam de você. Eles são seus filhos! Himawari tem só cinco anos...
Naruto não gostou nada de ver vestígios de insegurança na esposa e segurou seu rosto, forçando-a a olhar em seus olhos mais uma vez, tentando transmitir calma com o gesto. Ela relaxou visivelmente e ele deu um beijo rápido em sua testa antes de falar, e dessa vez o fez com um tom de voz bem mais brando:
— Não é como se eu estivesse saindo de casa ou algo assim, eu só estou tentando arranjar a solução pra crise; e eles não estão sozinhos no mundo Hinata, você é uma ótima mãe e está me ajudando demais nesse momento de crise. Quando isso se estabilizar, tudo vai voltar a ser como era antes e...
— “Como era antes”?? — murmurou, indignada — Sabe o que Bolt pensa quando se recorda de “como era antes”? Ele pensa no pai fazendo missão de trinta dias, voltando pra casa, ficando no máximo uma semana por aqui, e saindo em missão de novo.
Isso fez Naruto se calar por alguns instantes, não sabendo ao certo o que responder. Era verdade, antes de se tornar Hokage ele gastava muito tempo ou em treinamento com Kakashi, ou em missões externas, enquanto Hinata costumava ficar com as crianças. As crianças deveriam realmente pensar algo assim a respeito dele.
— Eu vou tentar fazer diferente, eu juro. — Naruto declarou, entendendo melhor o ponto da sua esposa, soltando o rosto dela e acariciando seus cabelos com carinho — Eu tenho uma reunião daqui uns dias, e depois dessa reunião eu vou começar a jantar com vocês todas as noites, ficar um tempo com as crianças antes da hora de dormir, treinar com Bolt nos finais de semana e dar atenção pra você na hora de dormir. Eu sei que você também deve estar sentindo falta de mim.
Hinata corou, entendo a maneira sutil de Naruto de dizer que daria “atenção para ela”. Os dois não tinham momentos íntimos há, no mínimo, dois meses. Naruto nunca conseguia ficar acordado mais de dois minutos quando voltava pra casa, exausto por causa de missões e, agora, pelos problemas políticos; e ela não era o tipo de mulher que cobraria algo assim do esposo, preferindo ficar quieta com seus fantasmas do que abrir o jogo e reclamar da falta de atenção.
Na verdade, por mais insatisfeita que Hinata estivesse, ela só reclamava com Naruto quando o problema era ligado aos seus filhos e, em momentos críticos, à sua necessidade de trabalhar. Sobre os “deveres do casamento” ela não reclamava muito, por medo de parecer uma esposa insensível, algo que ela certamente tentava não ser.
— Ok. — Ela disse, encostando sua cabeça à de Naruto e olhando com carinho para ele — Eu confio em você.
O loiro se sentiu um pouco incomodado com a intensidade do olhar que recebeu, apesar de não entender o motivo daquilo. Forçou-se para sorrir e a viu retribuiu o gesto brevemente antes de se colocar de pé e ajeitar suas roupas.
— Eu vou ver o que Himawari está fazendo, e checar se o Bolt está se comportando.
— Deixe que eu... — Naruto fez menção de se levantar, mas Hinata colocou a mão em seu peito, forçando-o a permanecer sentado.
— Não, não hoje. Você está machucado, não quero que Himawari te veja assim. — ela acariciou o ombro do esposo, mas logo se afastou, dando-lhe as costas — Vá se deitar Naruto, logo eu me junto a você.
E então ela seguiu em direção ao quarto das crianças, entrando primeiro no quarto de sua filha; Naruto sorriu ao ouvir a voz suave de Himawari conversar com Hinata e perguntar sobre ele. Desejava muito ver sua princesa naquela noite, mas preferiu acatar o pedido da esposa para não gerar briga entre eles.
Ainda demorou alguns minutos no sofá, com preguiça de levantar. Pensou sobre os problemas de Konoha e sua família por alguns instantes, até o rosto de Sasuke novamente invadir seus pensamentos, talvez pela insistência de sua mente em sabotar todo o seu autocontrole, talvez pelo cheiro de Sasuke que ainda desprendia de sua roupa e sua pele por conta da briga.
Como ele gostaria de acordar com aquele perfume em seu corpo todas as manhãs...
— Eu preciso de um banho. — Naruto concluiu, levantando com dificuldade e decidindo que tomaria uma ducha rápida antes de dormir. Faria o possível pra seus pensamentos não vagarem nessa direção perigosa; eliminar os vestígios de Sasuke do seu corpo poderia ajudar.
‘Nenhuma ducha vai deixar os pensamentos ligados ao Uchiha saírem de sua mente, Naruto’ Kurama falou em tom de chacota, diretamente de dentro da mente de Naruto, se divertindo em demasia com o que acontecia.
O loiro fez uma careta, caminhando rapidamente em direção ao banheiro e tratando de se despir da forma mais rápida que conseguia. Olhou seu reflexo no espelho antes de entrar no box do chuveiro, e notou um arroxeado leve em seu pescoço. Bem que poderia ser uma mordida de amor de Sasuke ao invés de um hematoma e...
‘Oh... Bom trabalho em afastar os pensamentos inoportunos!’ Kurama novamente murmurou, dessa vez deixando uma risada escapar.
Naruto grunhiu no fundo da sua garganta, jogando as roupas no chão e entrando logo debaixo do chuveiro, decidindo deixar a água na temperatura fria, só pra garantir.
Você andava dormindo pra caramba, o que te deu agora de querer conversar? — ele questionou à raposa, sabendo que quando Kurama decidia socializar, não adiantava em nada ignorá-lo, pois ele não se calaria tão cedo.
‘Ah, as coisas ficaram interessantes novamente. Melhor do que aquela chatice de casamento que você tem. Eu já não aguentava mais dormir enquanto você gastava seu tempo ou trabalhando, ou tentando fazer as coisas com a Hinata funcionarem; algo que nunca deu muito certo e você sabe disso.’
Naruto trincou os dentes, percebendo que teria momentos bastante irritadiços em diálogos com Kurama. Agora estava certo de que se sua mente se esquecesse de Sasuke por um segundo sequer, a raposa faria questão de lembrá-lo disso. Tsk, Kurama era aquele tipo de amigo que adorava puxar a casquinha na ferida dos outros só pra provocar, e era exatamente isso que ele fazia no momento.
Kurama nunca gostou muito de Hinata. Ele não a odiava, mas dizia que Naruto não era totalmente feliz com ela e que já estava cheio desses “casamentos sem sal” desde Mito e Hashirama (pelo jeito, o casamento de Hashirama com a antiga Jinchuuriki foi um casamento chato aos olhos do demônio, que detestou presenciá-lo); em suma, o demônio dizia que ele não deveria se contentar com isso. Kurama também não morria de amores por Sasuke (muito pelo contrário, ele detestava o Uchiha), mas, pelo jeito, estava começando a rever seus conceitos a respeito do moreno...
‘Que ‘rever conceitos’ que nada, mas se o Sasuke tirar você desse casamento falido, eu já vou considerar que ele redimiu um pouco as atrocidades que fez na vida.’
Naruto decidiu que não prestaria mais atenção nas besteiras de Kurama e continuaria seu banho. Todavia, quando estava enxaguando seus cabelos, um pensamento lhe veio a mente de forma tão intensa que ele nem foi capaz de colocá-lo para longe:
Seria tão mais simples se ao ver Hinata eu tivesse a mesma reação física que tenho quando vejo o Sasuke...
A gargalhada do demônio que ecoava em sua mente depois deste pensamento vir a tona só demonstrava que, para ele, simplicidade nunca seria uma opção viável na sua vida.
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(***)
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Sarada já estava quase no final do seu livro quando sentiu o chakra por ela tão conhecido se aproximar de sua casa. Mesmo com a ansiedade a respeito da história do livro, ela sentiu sua concentração se esvair para a pessoa que logo estaria em seu quarto. Ainda sim, se fez de desentendida e não desviou o olhar das páginas, nem mesmo quando ouviu as batidas fortes contra o vidro da janela.
— Oooooi, Sarada! Abre isso daqui!! — a voz extravagante de Bolt invadiu os ouvidos da menina Uchiha que, apesar de sentir seu coração acelerar, ainda tentou agir como se não desse a mínima para a presença do filho de Nanadaime.
— E por que eu deveria? — ela questionou só de pirraça, deixando um sorriso irônico brotar seus lábios quando o garoto soltou um grunhido de irritação e tentou abrir a janela pelo lado de fora, quase machucando os dedos na tentativa frustrada.
Sarada e Bolt eram amigos bem próximos, mas nenhum deles admitia isso. Eles freqüentavam a casa um do outro e passavam muito tempo juntos porque Sakura e Naruto eram grandes amigos e colegas de longa data; nada mais natural do que os filhos de amigos de infância acabarem se aproximando, por vontade própria ou por insistência familiar. Eles possuíam uma grande rivalidade quando o assunto era “Academia”, gostavam de treinar juntos e competir para ver quem era o mais forte ou mais inteligente. Sakura costumava assistir as interações dos dois com um sorriso no rosto, como se ver as crianças competindo trouxesse boas lembranças para ela, mas Sarada não entendia a reação de sua mãe.
Depois de uns minutos de insistência e barulheira do amigo, Sarada resolveu ceder. Levantou-se da cama e abriu a janela do quarto, permitindo que o Uzumaki colocasse os pés para dentro e se sentasse no parapeito, balançando as pernas animadamente e fitando-a com um sorriso empolgado.
— E ai, cadê seu velho? — foi a primeira coisa que ele disse.
Sarada ergueu a sobrancelha, concluindo que, pelo jeito, a fofoca a respeito do retorno de seu pai já tinha se espalhado.
— Até onde eu sei, ele foi falar com o seu pai. Deve estar lá ainda. — ela respondeu, dando de ombros.
Na verdade ela estava contando os minutos para o retorno de Sasuke, mas não iria admitir sua empolgação para Bolt; sabe-se lá o tanto que ele iria pegar no pé dela se soubesse de algo assim.
— Hein? Não! Meu pai já chegou em casa e-... argh! — Bolt não terminou sua frase e, pelo que Sarada concluiu inicialmente, caiu da janela.
A garota exclamou seu nome e se debruçou, esperando encontrá-lo agarrado em algum lugar. A casa de Sarada era no térreo, mas sua janela era alta em comparação ao terreno de trás da casa, e a queda seria dolorosa se Bolt não se lembrasse que é um ninja e poderia concentrar o chakra nos pés para se fixar na parede e não cair (o que muito provavelmente ele nem pensaria em fazer).
Foi então que ela se viu diante de algo realmente surpreendente e, pelo jeito, não foi bem uma queda o que acabara de acontecer.
— Ahhh!!! Monstro, me largue! Socorro, Sarada!!
Ela também se assustou inicialmente, mas logo reconheceu que o “monstro” em questão na verdade era uma concentração de chakra de cor arroxeada, que adotava a forma física de um esqueleto semitransparente bastante grande. No interior do “monstro” estava seu pai, então isso, com certeza, era algum poder dos Uchihas que ela definitivamente tentaria aprender.
Seu susto foi convertido em animação em poucos segundos, ela abriu um sorriso enquanto Bolt se apavorava ao sentir a mão do “monstro” envolver sua cintura e trazê-lo para próximo do homem que o controlava.
— O que você pensa que está fazendo, moleque? — Sasuke rosnou para o menino, apertando um pouco a cintura dele com a mão do Susano’o apenas para assustá-lo. Onde já se viu um pirralho petulante como aquele tentando invadir o quarto de sua filha pela janela, até parece que ele deixaria algo assim passar barato!
— Pai! Esse é o Bolt! Filho do Nanadaime! É meu... amigo. — ela gritou de sua janela, deixando o tom de voz diminuir bastante na última palavra dita.
Sasuke ergueu a sobrancelha, encarando melhor o garoto e percebendo que aquele realmente parecia um Naruto em miniatura; se não fosse pelos cabelos levemente diferentes (apesar da cor ser a mesma) e a ausência de dois risquinhos no rosto, ele diria estar diante de um Naruto dos tempos de Academia.
Era só o que faltava: o filho do Dobe tentando invadir o quarto da minha filha! — Sasuke pensou, enciumado, apertando um pouco mais a cintura do garoto.
Bolt, ao perceber que o “monstro” era controlado pelo homem que Sarada chamava de “pai”, relaxou visivelmente. Sasuke Uchiha tinha fama de muitas coisas em Konoha, mas assassino de criancinhas não era uma delas.
— Lógico que é o filho do Naruto... — Sasuke sibilou, irritado, desfazendo o Susano’o e deixando o garoto cair no chão sentado, de uma altura que não o machucaria, mas que deixaria claro que, se ele quisesse, conseguiria machucá-lo facilmente (e era muito prudente não dar motivos para isso).
O menino soltou um ruído de dor (mais pra drama do que qualquer coisa) e olhou para o adulto com uma expressão indignada.
— Hey, Uchiha! Tá menosprezando meu pai, é? — o garoto indagou e, por um instante, Sasuke achou que ele seria infantil o suficiente par amostrar a língua enquanto reclamava.
Todavia, Bolt não fez isso. Decerto não puxou 100% do gênio de Naruto, mas isso não o fazia perdoar pela invasão ao quarto de Sarada.
— O que você veio fazer aqui? — Sasuke questionou, levantando o garoto pela camisa com seu braço de ferro e praticamente perfurando seu crânio com a intensidade do seu olhar reprovador. O menino se debatia, mas ele não iria soltá-lo tão facilmente — Sarada é uma garota de família, e não uma menina qualquer pra você invadir o quarto dela pela janela!
Então Sarada saiu de seu quarto, pulando pela janela e correndo com o uso de chakra nos pés, chegando próximo de Sasuke e tentando alcançar o braço do pai para tirar Bolt do ar.
— Pai, pára com isso! Bolt e eu nos conhecemos desde bebês!
Sasuke ainda olhou para o garoto com o seu típico olhar Uchiha e cogitou a possibilidade de lançar um genjutsu que ele nunca esqueceria, mas como sua filha parecia preocupada com o menino, ele resolveu soltá-lo (ou melhor, deixá-lo cair sentado no chão mais uma vez).
— Eu não quero que garotos fiquem entrando no quarto de Sarada. — ele declarou, cruzando os braços — Não faça mais isso.
— Vocês Uchihas são todos esquentadinhos. — Bolt murmurou, colocando-se de pé e esfregando seu traseiro dolorido — E se quer saber eu nem vim ver a Sarada, vim ver você!
Isso pegou Sasuke de surpresa, mas ele manteve a expressão fria inabalável, ainda encarando o garoto sem piscar.
— Me ver?
— Sim! Porque eu queria ver o estrago que meu pai deve ter feito em você na briga que vocês tiveram! — Bolt exclamou com ares irônicos. Todavia, ele finalmente focou sua atenção no rosto de Sasuke, observando como ele estava intacto (principalmente se comparado aos hematomas e cortes que vira em seu pai), e isso o fez adotar a expressão mais desanimada do mundo — Como assim? Nem um olho roxo?
Sasuke sentiu vontade de rir, reconhecendo aquela expressão de birra que Naruto costumava fazer quando era menino. O filho dele certamente puxou muito do pai, e isso causava um misto de emoções bastante contraditórias no Uchiha. Afinal, era nostálgico ter um mini-Naruto na sua frente, mas doía pensar que aquela pessoa era fruto do casamento de Naruto e Hinata Hyuuga.
Independente disso, ele tinha uma reputação a manter, e era o que tentava fazer agora:
— Seu pai nunca vai conseguir deixar uma marca em mim, Bolt Uzumaki. — declarou, sabendo que era uma mentira deslavada. Naruto deixou a maior marca do mundo nele, e não estamos falando apenas da perda do braço aqui...
— Hein!?? — o garoto pareceu totalmente indignado, cruzando os braços com raiva — Só eu tenho o direito de falar mal do meu pai, você não!
Antes que pudesse protestar mais, o garoto pareceu perceber algo novo na aparência de Sasuke e se calou prontamente. Quando o mais velho se deu conta, o menino o puxava para baixo, forçando-o a se curvar, trazendo-o para mais perto de seu rosto.
— Sharingan e rinnegan! — Bolt concluiu, entusiasmado, soltando a capa de Sasuke, que logo endireitou sua postura, indignado com a audácia do garoto — Sarada, seu pai tem sharingan e rinnegan!
— E você nem byakugan tem. — ela retrucou, arrancando uma risadinha mínima de Sasuke.
Ela realmente era sua filha, tinha respostas rápidas e conseguia deixar um Uzumaki sem jeito com facilidade. E isso era ótimo!
— Hey! — o menino loiro, estupefato, dando as costas para Sasuke e fitando Sarada com desafio — Você também não tem sharingan, então cala sua boca!
Sasuke sentiu seu sangue ferver com a maneira que o garoto falou com sua filha, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, Sarada atirou um par de shurikens de uma maneira bastante precisa em Bolt, e ele só não foi atingido porque Sasuke instintivamente o defendeu, colocando seu braço metálico no caminho das estrelas ninjas, impedindo-as de acertar o seu alvo.
Sasuke até se questionou brevemente o porquê de ter defendido Bolt, mas logo concluiu que provavelmente era a semelhança com Naruto que o fazia agir assim. Seu corpo sempre se movia por conta própria quando Naruto precisava de ajuda. Não que essa fosse uma explicação muito científica, mas teria que bastar.
— Ah pai, era pra deixar! — a menina declarou, contrariada.
O Uzumaki o fitou com grandes olhos curiosos, tentando entender porque foi defendido. No entanto, antes que Sasuke ou Bolt pudessem falar qualquer coisa, Sakura abriu a porta da frente de casa e marchou para próximo da confusão com passos firmes, arrancando a atenção de todos para ela.
— Bolt, o que você está fazendo aqui numa hora dessas? — Sakura indagou, com ares de quem daria uma grande bronca se não ouvisse uma resposta plausível.
— Eu vim conhecer o Tio Sasuke. — o garoto respondeu a rosada com um sorriso, correndo em direção a ela e abraçando a mulher com gosto — E também vim ver minha tia favorita, mas não conta isso pra tia Hanabi.
Sakura sorriu para o menino, aceitando o abraço. Sarada deixou um ruído de irritação escapar sua garganta e atraiu a atenção de Sasuke, que passou os últimos segundos em choque por ouvir a palavra “tio” próximo ao seu nome.
Quando foi que o mundo virou de ponta cabeça mesmo?
— Ele é um puxa-saco da mamãe. Fica tentando chamá-la pra sair pra comer ramen, só fala um monte de besteira pra ela! — ela murmurou contrariada, aproximando-se de seu pai e pegando em sua mão, só para não ser deixada de fora em um contato afetivo familiar que Bolt, pelo jeito, arrancava de Sakura.
Deve ser o gene de Naruto falando mais alto. — Sasuke concluiu, recordando-se das inúmeras vezes que Naruto tentava a mesma coisa com Sakura; Bolt, pelo jeito, tinha um pouco mais de sorte que o seu pai em atrair a atenção da rosada — Só eu sei quantas vezes ele tentou levar Sakura em um encontro. Isso com certeza é paixonite de criança.
— Estou feliz em te ver também Bolt, mas acho que você deveria ir pra casa agora — a rosada declarou; Bolt fez um beicinho de birra— Seu pai vai ficar furioso se ver que você saiu de casa tão tarde.
— Eu deixei um kage bunshin no meu lugar. Ele nem vai perceber. — murmurou contrariado, desviando o olhar — Eu não quero voltar pra casa.
— Ah Bolt, de kage bunshin seu pai com certeza entende mais que você. — Sakura retrucou, dando um peteleco no nariz do garoto — Se despede de Sarada e Sasuke e vá, daqui a pouco vai chover e você vai pegar uma gripe se não chegar em casa logo.
— Ok, ok, eu me rendo. — o menino deu dos passos para próximo de Sarada, coçando a parte de trás do pescoço enquanto se despedia dela com um sorriso provocador a postos — Tchau chata, amanhã a gente se fala.
Ela corou visivelmente, mas tentou esconder e conseguiu por causa da escuridão. Apenas Sasuke notou a alteração de coloração do rosto dela, pois ainda estava com o sharingan ativado, mas preferiu não comentar a respeito por hora. Quanto mais tempo ela demorasse pra entender o que sente, melhor seria para ele: afinal, ele não queria ter que perder a filha que acabara de conhecer para namoricos, ainda quando o garoto em questão era filho de Naruto.
Ela não tinha idade e provavelmente nem sabia o que sentia, já que Sasuke demorou muitos anos pra perceber que o que sentia por Naruto era paixão, mesmo sofrendo deste mal desde o finalzinho da infância.
— Tchau, idiota. — ela respondeu, empurrando os óculos que já estavam quase na ponta do nariz. Ela não pareceu contrariada em ser xingada e nem tampouco o menino, deixando claro que, assim como Sasuke e Naruto, havia um hábito de transformar xingamentos em “apelidos carinhosos” no relacionamento dos dois.
Em seguida, Bolt virou-se para Sasuke e estendeu o braço, numa tentativa de se despedir com um aperto de mão. O Uchiha esticou seu braço da prótese e apertou a mão do garoto, já esperando alguma traquinagem, e tendo a certeza que este era o objetivo dele quando Bolt soltou uma risadinha vitoriosa.
Como Sasuke não mudou sua expressão, Bolt percebeu que sua brincadeira tinha falhado. Ele fez uma expressão de decepção, piscando para Sasuke e tentando entender o que aconteceu.
— Você não levou choque? — ele perguntou, mostrando um dispositivo na palma de sua mão, daqueles utilizados em pegadinha de dar choques nos outros.
Sasuke girou os olhos, concluindo que aquele só poderia ser um presente de Naruto. Em seguida, deixou um sorriso torto emoldurar seus lábios e puxou para cima a manga da sua capa de viagem, mostrando o braço de metal para o garoto e arrancando um ruído de decepção deste.
— Mas era pro ferro conduzir a eletricidade!
— Não uma besteirinha de eletricidade como essa. E, mesmo se eu não tivesse isso, eu não levaria choque de um pirralho feito você. — ele respondeu, dando um peteleco no braço do garoto com o seu braço saudável e deixando uma pequena descarga elétrica escapar de seus dedos, apenas para assustá-lo; dito e feito, ele deu um pulo para trás e gritou de susto — Você pode se chamar “Bolt”, mas de eletricidade eu certamente entendo muito mais. [1]
Sarada gargalhou com gosto, até Sakura tentou conter a risada. Com uma expressão contrariada, Bolt mostrou a língua para Sasuke e partiu, provavelmente obedecendo sua “tia” e decidindo voltar pra casa.
Ok, ele tem bem mais do Naruto do que da Hinata, acho que posso conviver com isso.
— Eu gostei disso! — a menina declarou entre a risada, trazendo a atenção de Sasuke de volta para ela — Você vai ter que me ensinar a fazer o mostro de chakra, pai!
— “Monstro de chakra?” — Sakura repetiu, somando dois mais dois e entendendo o que sua filha queria dizer — Você usou Susano’o contra o pobre do Bolt, Sasuke?
Sasuke percebia agora que havia exagerado, mas mesmo assim não tinha a mínima intenção de dar o braço a torcer.
— Eu vi um garoto invadindo a janela do quarto da minha filha, você queria que eu fizesse o que?
Sakura girou os olhos, percebendo que teria que lidar com um pai bastante ciumento dali pra frente. Era de se esperar algo assim, ela teria que conversar com Bolt depois e explicar a natureza ciumenta de Sasuke para ele.
— Sarada, vá dormir, está na hora também pra senhorita. — ela exclamou, e a menina correu em sua direção, beijando o rosto da mãe e se aproximando timidamente do pai para repetir o gesto.
Sasuke permitiu e recebeu o beijo de muito bom grado, agachando e a abraçando devagar antes de ela correr para dentro de casa.
— Boa noite. — ela se despediu com um aceno breve quando chegou à porta da frente, adentrando à casa sem mais delongas.
— Sasuke, pode desfazer o henge. [2] — Sakura respondeu secamente, aguardando que o Uchiha desfizesse o jutsu que mascarou todos seus machucados em frente às crianças.
Sasuke suspirou e desfez a corrente de chakra, mostrando a realidade de seu estado físico para Sakura. Crianças ainda não tinham percepção de chakra o suficiente para entenderem que Sasuke estava sob o efeito de um henge, mas Sakura logicamente percebeu.
Ela olhava para o estrago em seu rosto com ares reprovadores; Sasuke sentiu uma súbita vontade de se justificar para a rosada, mas não o fez.
— Ele tá pior. — Sasuke respondeu, dando de ombros.
Ela girou os olhos, chamando-o para dentro de casa com um gesto de mão.
— Eu vou te curar, mas só porque não quero ver nossa filha assustada vendo o pai todo quebrado desse jeito.
— Não será necessário.
— Eu acho que você deveria ouvir Sakura antes de deixar a sua situação complicar ainda mais, Uchiha. — os dois ouviram uma voz especifica soar do topo de uma das árvores, e pela primeira vez na noite notaram a presença de Shikamaru nas redondezas.
Sasuke, que nunca foi muito com a cara do Nara, se sentiu irritado com a intromissão deste. Sakura, por outro lado, pareceu preocupada.
— O que você está fazendo aqui, Shikamaru? — ela perguntou, se aproximando dele e vendo-o saltar da árvore para o solo — Aconteceu algo com Temari?
— Temari está bem, na medida do possível. — ele respondeu, também imitando o olhar de Sasuke e fitando-o com reprovação — Mas eu gostaria de dar uma palavrinha com Sasuke antes de declarar o dia por encerrado.
— Não tenho interesse em conversar com você. — Sasuke rebateu, mantendo-se intransigente — Vamos entrar, Sakura.
— Isso não é um pedido, Uchiha. — Shikamaru disse, cruzando os braços — Hierarquicamente falando, eu sou seu superior em todos os sentidos. Você nada mais é do que um genin desertor, e eu sou jounin e braço direito do Hokage. Não se preocupe, não tenho a mínima intenção de brigar ou interrogá-lo, eu só quero saber seu ponto de vista sobre alguns assuntos referentes à crise atual do mundo, visto que você ficou durante anos viajando por aí e deve ter informações valiosas para dividir.
Sasuke piscou, se perguntando se acabara de ouvir corretamente: Shikamaru estava dizendo que precisava dele para alguma coisa relacionada à vila?
Isso é surpreendente... Eu não achei que fossem confiar em mim tão cedo. Devem estar realmente desesperados para recorrer a mim.
— Faça um kage bunshin e mande-o me encontrar no distrito Nara, se você se sentir mais seguro dessa forma. Eu só quero conversar.
Isso dito, Shikamaru desapareceu deixando um rastro de fumaça para trás.
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(***)
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— Não, sem condições! — o loiro exclamou, colocando-se de pé em um pulo, não aceitando de forma alguma a proposta que acabara de receber — Eu preciso de você, Shikamaru!
O moreno suspirou baixinho, se perguntando pela enésima vez naquela semana porque decidiu se tornar o braço direito de Naruto. Claro, ele era um dos melhores amigos do Uzumaki e certamente gostaria de defender a nova geração de Konoha, adotar esse cargo seria um benefício duplo, pois ele ajudaria alguém importante para si e a sua Vila.
Mas era algo tão problemático, mas tão problemático, que Shikamaru não entendia como acabou aceitando entrando nessa roubada.
— Naruto, eu não posso ir. — ele tentou explicar, pela quarta vez, para ver se o seu amigo entendia — Temari está na segunda gravidez e...
— Temari já engravidou uma vez e isso não te impediu de fazer missões!
— Mas agora é diferente. Temari está com uma gravidez complicada, Sakura mesmo me pediu pra não sair de casa enquanto a situação estiver assim. — ele respondeu, sabendo que no fundo Naruto entendia, mas que estava preocupado demais com a solução que Shikamaru dera para o problema, relutando em aceitá-la — Ela não tem família em Konoha, o tempo que Kankuro demoraria pra chegar na vila seria metade do tempo da nossa viagem à reunião dos Hokages; Gaara é um Kage e não pode vir também. Eu tenho que ficar Naruto, ela é teimosa e quis levar essa gravidez adiante, e eu estou preocupado demais para deixá-la aqui sozinha.
O loiro cobriu os olhos, suspirando fundo. Posteriormente abaixou as mãos e olhou sério para Shikamaru, e apesar de sua aparência transparecer todo o seu cansaço, ele deu um sorriso de compreensão.
— Eu entendo... — ele disse, bastante serio — É sua família, eu entendo isso. Mas levar o Sasuke no seu lugar está fora de questão.
— Não está. — Shikamaru respondeu, sentindo-se irritado com aquela birra do Hokage, que no momento aparentava ter quinze anos em vez de vinte e cinco — Eu e Sasuke conversamos bastante nos últimos dias, e ele abriu meus olhos para varias coisas. Sasuke tem algo que nenhum de nós possui: experiência com vilas não ninjas e com sistemas econômicos diferentes. Ele tem prática, enquanto nós só temos teoria.
— Como assim o Teme tem experiências com essas coisas?!
Naruto parecia realmente surpreso com essa declaração; Shikamaru se perguntou mais uma vez porque era tão difícil pra ele chegar a conclusões óbvias quando o assunto era “Sasuke”. Parecia que o cérebro de Naruto nunca funcionava direito para esse tipo de coisa; ao contrário dos demais problemas, Sasuke sempre seria um ponto fraco para Naruto, até mesmo na sua capacidade de raciocínio.
— Ele fez uma volta ao mundo em oito anos, como que ele não teria experiência com essas coisas? — o moreno respondeu, recebendo um ruído de compreensão de seu chefe — Ele viu de tudo Naruto, você não está dando credito ao valor que um shinobi com a experiência de Sasuke tem. E nem eu pensei que chegaria um dia onde eu iria defender Sasuke perante você, mas veja só como as coisas mudam.
Isso realmente era estranho, já que Shikamaru nunca foi o maior fã de Sasuke. Talvez Naruto devesse levar em consideração a opinião dele por conta disso.
— E ele falou algo pra você que poderia ser dito na reunião?
Shikamaru, vendo que estava quase convencendo o loiro, deu um sorriso de satisfação, aproximando-se da mesa do Hokage e retirando do bolso um pendrive, entregando para Naruto que logo o colocou na entrada USB do seu notebook.
— Muitas coisas, preste atenção nesse documento aqui. — ele apontou um dos diversos documentos que carregava consigo.
Naruto deu um duplo-click com o mouse, abrindo-o e se debruçando sobre a tela para ler.
Os dois leram o documento juntos, cada qual fazendo pequenas observações com o descrito; não precisou mais do que vinte minutos de discussão para que Naruto reconhecesse que, mais uma vez, Shikamaru teve um julgamento correto da situação: Sasuke teria sua primeira missão desde o retorno à Konoha há pouco mais de cinco dias, e o loiro apenas torcia para que eles sobrevivessem a isso.
Ou, pelo menos, para que ele sobrevivesse; ficar dias sozinho com Sasuke em viagem seria, no mínimo, desafiador para Naruto e sua maldita obsessão pelo Uchiha.
‘Oh... Isso vai ser interessante, muito interessante!’
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(***)
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Não foi muito difícil convencer Sasuke a aceitar a missão. Em outras circunstâncias, ele provavelmente relutaria em ajudar Konoha a resolver qualquer tipo de problema econômico e acharia muito merecido eles sofrerem uma crise depois de tudo que fizeram em sua família. Por outro lado, agora ele possuía uma filha que estudava para se tornar ninja, e ele não queria que o futuro de sua filha fosse preso a problemas econômicos e profissionais. Isso pesou bastante na hora de tomar sua decisão e, levando em conta o desejo de Itachi de salvar a vila, Sasuke acabou aceitando em questão de horas a missão que lhe foi concebida.
Claro que ficar na companhia de Naruto também ajudou um pouco a tomar sua decisão, por mais que aquilo significasse um misto de alegria e tristeza concomitantemente: estaria perto do loiro, mais perto do que esteve desde os tempos de Time Sete, e os dois partiriam em uma missão juntos, sem mais ninguém para atrapalhar o convívio; seria apenas os dois viajantes juntos, durante dias! Todavia, Naruto ainda estava firme e forte na sua decisão de agir como se nada acontecesse entre ele e Sasuke, e o Uchiha entendeu as motivações do loiro teimoso quando viu a família dele parada nos portões de Konoha, no momento da despedida.
Hinata Hyuuga estava lá, com a mesma aparência de sempre, acompanhada de suas duas crianças. Sakura e Sarada também estavam presentes e logo se aproximaram, observando a interação da família Uzumaki com curiosidade.
— Tchau, papai! — falou a menininha de cabelos preto-azulados, Sasuke concluiu que aquela garotinha só podia ser Himawari, a filha mais nova de Hinata e Naruto. Enquanto Bolt se parecia muito com Naruto, Himawari se assemelhava mais à mãe, agindo com docilidade e gentileza.
Naruto a pegou em seus braços, erguendo-a e girando-a no ar de forma lúdica. Os dois deram risada por algum tempo e Bolt fez uma cara de ciúmes; Sasuke entendeu um pouco o sentimento do menino, pois ele também já teve um irmão e já se sentiu assim quando via Itachi receber atenção do pai ou da mãe (apesar da forma como Fugaku tratava os filhos ser totalmente diferente da forma como Naruto os tratava; Fugaku jamais se permitiria brincar desse jeito com os filhos).
Naruto parou de brincar com a filha e a observou por alguns segundos de ternura, enquanto ela tentava controlar sua risada, evidentemente feliz com a brincadeira.
— Tchau, princesa. — ele disse, beijando sua testa e a colocando no chão, agachando-se para ficar à altura dela — Você vai cuidar de sua mãe enquanto eu estiver fora, né?
— Vou sim! — ela respondeu, correndo em direção à Hinata e agarrando sua mão, ainda olhando com carinho para o pai — Mamãe não vai se sentir sozinha, eu prometo!
— Isso aí! — Naruto respondeu, desviando sua atenção para o filho birrento e de braços cruzados ao lado de sua esposa — E você, vai ser o homem da casa enquanto eu estiver fora?
A expressão de irritação de Bolt se tornou ainda mais proeminente, mas ainda sim ele respondeu à pergunta do pai:
— Eu sempre sou o homem da casa...
Sasuke franziu o cenho perante a resposta de Bolt, mas segundos depois entendeu um pouco melhor o relacionamento de pai e filho com o primogênito Uzumaki e seu patriarca. Na semana passada, quando Sasuke conheceu o garoto, ele parecia certamente orgulhoso do pai, vindo até a casa de Sarada apenas para ver o tamanho do estrago que seu pai havia feito em Sasuke enquanto os dois brigaram. Mas agora, ele parecia contrariado e entristecido com Naruto.
O relacionamento dos dois certamente era complicado, mas Bolt ainda admirava o pai intensamente, apesar de não deixar claro ao seu pai que tinha esse sentimento. Alguma coisa Naruto fez para a relação chegar a esse ponto, e ele tentaria entender os problemas familiares do loiro nesta viagem (porque Sasuke estava preocupado com a relação de Naruto e seus filhos, mas jamais admitiria algo assim).
Ele nunca imaginou que alguém como Naruto teria problemas na criação de seu filho. Isso era realmente uma surpresa inesperada e nada animadora, visto que Sasuke ainda tinha medo de errar com Sarada; se Naruto, a pessoa mais sociável que ele conheceu na vida, possuía problemas de relacionamento com os filhos, imagina como seria complicado para Sasuke.
Tentando não sair da vila em maus termos com seu filho mais velho, Naruto limitou-se em bagunçar seus cabelos com carinho; o garoto deixou, e seu aval era algo bem melhor do que uma briga. Quando tudo estivesse resolvido, Naruto tentaria melhorar seu relacionamento com Bolt. Era só uma questão de tempo, ele estava esperançoso com relação a isso.
Quando chegou a hora do Hokage se despedir de sua esposa, Sasuke e Naruto acabaram cruzando olhares. Para se poupar de maiores dores emocionais e constrangimento elevado, Sasuke virou-se de costas para o casal, prestando atenção em sua filha e se abaixando para despedir-se dela.
— Eu volto logo. — ele declarou, curvando-se para beijar a testa dela. A menina agarrou seu pescoço com força, e Sasuke ouviu um solucinho de choro — Não chore, é só uma missão, você não está acostumada porque sua mãe fica mais na vila por ser médica, mas isso é normal entre os ninjas.
— Eu sei que é, e eu não ‘tô chorando. — ela disse com uma voz arrastada, afastando-se de Sasuke e olhando-o com os olhos brilhantes de lágrimas, mas se controlando para que elas não escorressem — Eu só estou com um mau pressentimento.
— Bobagem... São tempos de paz Sarada, o que poderia acontecer? — Naruto falou para a menina e Sasuke o encarou por cima do ombro, pedindo com a intensidade de seu olhar para que ele não atrapalhasse seu momento de pai e filha.
Naruto entendeu e, um pouco envergonhado, voltou a se despedir de Hinata. Era natural pra ele tentar reconfortar Sarada, pois durante muitos anos a menina não tinha a presença de seu pai, e ele era o mais próximo de uma figura paterna que ela poderia ter.
— Não se preocupe, nada vai acontecer, Sara. — Sasuke falou para a garotinha, bem baixinho, apenas para ela ouvir — Um Uchiha não é tão fácil assim de se derrotar. Mesmo se algum perigo aparecer na viagem, eu e Naruto vamos resolver o problema e voltar sem nenhum arranhão.
Ela fungou e esfregou os olhos na manga da blusa, balançando a cabeça afirmativamente em seguida. Logo encarou Sasuke com os olhos inchados e sorriu, tentando quebrar o clima pesado.
— Boa viagem pai, cuide do Nanadaime.
Antes que pudesse responder, Naruto novamente interrompeu a conversa dos dois:
— Ei menina, acho que você deveria estar requisitando o contrário! — ele disse com uma expressão de falsa indignação e Sarada, desviando seu olhar para ele, corou imensamente e ficou sem palavras para responder.
Sasuke ainda não entendia nada bem a relação de Naruto e Sarada: Sarada agia com muita formalidade para com o seu Hokage, mesmo que Naruto não a tratasse diferente dos outros. Sasuke decidiu que tentaria entender melhor a respeito disso na viagem. Ajeitou os cabelos da garota com carinho e virou-se para Sakura, que não tentou abraçá-lo em sua despedida como fez em sua chegada, se limitando apenas em oferecer um sorriso carinhoso para ele.
— Se cuide, tentem não se matar, ok?
— Farei o possível para trazer Naruto inteiro pra vila, mas não prometo muita coisa...
Sakura deu uma risadinha pequena e andou em direção a Naruto, dando-lhe uma bronca por causa da maneira como seus cabelos estavam despenteados, mas também lhe desejou boa viagem, abraçando o loiro e agindo com maior intimidade do que agiu com Sasuke. Apesar disso, Hinata não prestou muita atenção na interação de Naruto e Sakura, olhando para o Uchiha com curiosidade e apreensão.
O moreno fingiu não notar a atenção de Hinata, mas sentiu seu corpo ficar gélido de uma hora para a outra. Hinata e ele nunca tiveram um relacionamento na época que ele morava na vila, nem mesmo quando eram colegas de classe, mas ainda sim ele sempre soube que ela era bastante observadora e, decerto, entendia em algum grau que Sasuke e Naruto tinham um relacionamento diferenciado. Ela possivelmente estava se sentindo ameaçada; Sasuke, no lugar dela, com toda certeza se sentiria assim.
Não que ele estivesse confabulando uma tentativa de estragar o casamento de Naruto, longe disso. Casamento para ele era algo sagrado, tão sagrado que mesmo sabendo que seria o melhor para Sarada, ele jamais aceitaria casar com Sakura sem paixão. Seus pais lhe ensinaram isso: apesar de não serem a favor de demonstrações públicas de afeto, Fugaku e Mikoto se amavam muito. Sasuke sabia que eles casaram por amor e que se mantiveram apaixonados durante toda a vida de casado — algumas vezes ele e Itachi até presenciaram momentos carinhosos dos pais (sem eles saberem, é claro, já que eles eram bastante comedidos com relação a isso), e esses pequenos flagras deixaram bem claro o sentimento recíproco de seus pais.
Mesmo que Sasuke não concordasse que um casamento sem paixão era bom, se Naruto escolheu aquele relacionamento para si não seria ele quem iria tentar destruí-lo. Hinata podia ficar tranqüila, ele sabia jogar a toalha e aceitar uma derrota: Naruto era dela, e não dele.
Depois do reencontro complicado dos dois, Sasuke pensou muito a respeito de Naruto e decidiu que precisava dele em sua vida, seja lá como fosse. Ele não conseguiria manter um mero relacionamento profissional com o Hogake, sua mente e seu coração ansiavam por algo mais que isso. E se ele não poderia ter Naruto como seu companheiro, faria o possível para tê-lo como seu amigo, assim como era o antigo relacionamento deles.
E isso teria que bastar...
— Vamos logo, usuratonkachi. — Sasuke murmurou, chamando a atenção do loiro.
As crianças fizeram uma expressão horrorizada ao ouvirem o xingamento, Hinata pareceu perdida (possivelmente nunca ouviu Sasuke chamá-lo assim) e Sakura sorriu abertamente.
Naruto, por outro lado, ficou sem reação por vários instantes.
Desde o retorno de Sasuke, os dois não tinham se chamado pelos “apelidos carinhosos” de outrora, e quando Naruto se viu sendo chamado de “usuratonkachi”, não pode impedir seu coração de bater mais forte: ele entendeu a tentativa de Sasuke de retomar a relação que possuíam no passado, e isso fez sua tristeza e preocupação esvair momentaneamente: sentiu-se radiante, e abriu um sorriso tão largo que surpreendeu até sua família com tamanha animação.
— Vou te mostrar quem é o usuratonkachi, seu teme maldito! — retrucou, animado, puxando Sasuke pela manga e caminhando apressadamente para fora dos portões de Konoha, fitando as famílias pelo canto de olho e acenando enquanto se distanciava — Se cuidem, nós voltaremos com boas notícias!
As mulheres das duas famílias acenaram para os viajantes, observando-os discutir atrocidades como duas crianças birrentas, mas percebendo que até Sasuke mantinha um discreto sorriso a postos enquanto eles “brincavam de brigar”. Elas sabiam que, à maneira deles, era a forma de fazerem as pazes; até mesmo Hinata, que nunca não chegou a ver muitas interações do time sete, entendia essa particularidade da dinâmica deles.
As crianças logo pararam de observar a cena e começaram a interagir: Bolt, para esconder a tristeza em ver seu pai partir mais uma vez, provocou Sarada e logo os dois estavam correndo um atrás do outro, numa briga boba que logo se converteu numa brincadeira. Himawari defendia Sarada das provocações de Bolt, e as mães ainda estavam hipnotizadas demais em ver os pais das crianças se afastando pouco a pouco para intervir nas bobeirinhas infantis dos filhos.
— Você não mudou de ideia com relação ao Sasuke, Sakura? — Hinata questionou depois de perder a visão dos viajantes no horizonte, sentindo seu coração doer e um medo irracional surgir em seus sentimentos.
Sakura entendeu o motivo da indagação de Hinata, mas teve a sensibilidade necessária para não conversar sobre aquilo no momento.
— Venha pra minha casa Hinata. — convidou, desconversando o questionamento que recebeu, sabendo que qualquer conversa a respeito da insegurança de Hinata deveria acontecer em um local privado — Eu vou preparar um chá para você.
Ela girou os calcanhares, chamando as crianças com um assobio agudo e gesticulando em direção ao Distrito Uchiha. Hinata ainda observou o horizonte por alguns instantes, recordando-se do sorriso radiante que acabara de ver nos lábios de seu marido, percebendo vestígios do menino pré-guerra ali, ao lado de Sasuke. E, se ela fosse bem sincera consigo, ela nunca mais vira Naruto sorrir daquele jeito; nem mesmo no dia que ele se tornou Hokage, muito menos no dia que eles se casaram.
Sasuke realmente trará mudanças para Naruto, e eu espero que eu ainda tenha espaço na vida dele quando essas mudanças acontecerem.
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... Continua...
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