Owari

4 Capítulo 4


Notas iniciais
N/A: Olá Leitores, cheguei! Desculpe a demora pra atualizar Owari. Não foi por mal ou por falta de vontade de escrever a fanfic. Eu tinha que finalizar Elysium e atualizar Haunted antes, e as férias atrapalharam um pouco a produção (eu viajei algumas vezes e nessas viagens não pude escrever). Além disso, eu estava com medo de atualizar Owari porque a participação dos leitores em Elysium e Haunted diminuiu bastante, me desmotivando a escrever. Eu tinha medo de atualizar Owari e passar pela mesma coisa com essa fanfic. Na verdade, sendo bem sincera, eu ainda estou com bastante medo, então por favor participem e comentem! Quero agradecer à Newtmas, —Ju—C e Automne Chemin pelas recomendações incríveis a Owari! Muito obrigada queridos, adorei cada palavra! Espero que essas recomendações tragam mais leitores maravilhosos pra essa fanfic! Capítulo mais leve, transitório, para compensar o próximo que terá grandes acontecimentos na história dos nossos meninos. ^^ Ah, capítulo sem betagem e sem revisão, perdoem erros. Leiam as notas finais depois de ler a fanfic, ok? Um beijão a todos, boa leitura!

Owari

.

Capítulo 4

.

A animação inicial de Naruto se esvaiu totalmente no primeiro quilometro caminhado em silêncio, o que lhe causou os sentimentos de nervosismo e apreensão. A falta de assunto entre os dois era um ponto delicado: nunca foram de conversar demais na época de Time Sete enquanto percorriam longas distâncias, mas naquele momento estava claro que havia muita vontade de bombardear um ao outro com perguntas, porém pouca coragem para assim fazer. Cada minuto ouvindo apenas seus próprios passos e os cantos dos passarinhos faziam Naruto considerar o nível de tensão bastante insustentável.

Mas, por incrível que pareça, foi Sasuke quem resolveu quebrar aquele clima estranho e fez a primeira pergunta:

— Por que estamos indo a pé? — ele questionou, fingindo não notar a forma como Naruto enrijeceu seu caminhar com aquela pergunta.

— Bem... — a voz de Naruto soou rouca pelo nervosismo, e ele pigarreou antes de continuar sua resposta — Nós poderíamos ir de helicóptero ou até mesmo utilizando Chōjū Giga do Sai para cruzar o caminho de forma aérea, mas, apesar de mais rápido, poderia ser perigoso. Shikamaru mencionou as possíveis rebeliões ninjas para você, né?

Sasuke assentiu com um gesto de cabeça, não parecendo nada preocupado com aquele assunto. Naruto achou melhor explicar com mais detalhes a situação, concluindo que o Uchiha não entendeu a complexidade dela:

— Eu acho que como pedestres temos maiores chances de passarmos despercebidos. Talvez esses grupos de rebelião não dêem atenção para dois forasteiros nas ruas enquanto provavelmente esperam que eu viaje com uma comitiva maior, possivelmente pelos céus. — Naruto explicava calmamente para Sasuke, surpreendendo-o de prontidão pela sua forma de raciocínio; Sasuke percebeu agora como Naruto amadureceu, pois ele certamente não pensaria nesses detalhes quando tinha dezessete anos — Eles querem fazer uma baderna pra causar medo entre os civis e induzi-los a contratarem seus serviços novamente. Atacar um comboio de viagem dos Kages traria bastante atenção dos civis.

Sasuke não acrescentou novas informações, apesar de ter mais noção sobre esses grupos de revolta do que Naruto imaginava. Mesmo assim, resolveu continuar a conversa, gostando da forma como o assunto evoluía.

— Então é por isso que só estamos indo em dois? Você acha que as pessoas não vão te reconhecer como te reconheceriam numa equipe maior?

Naruto corou intensamente, virando o rosto para o outro lado na tentativa de esconder seu embaraço. A verdade era que inicialmente ele havia planejado um grupo de quatro acompanhantes: Shikamaru, Kiba, Sai e Lee. Mas quando a perspectiva de levar Sasuke lhe foi proposta e Shikamaru requisitou sua ausência na missão, ele resolveu viajar apenas em dupla.

Ele sabia que Sasuke era mais forte do que os outros três ninjas juntos, e sabia que companhia poderia tornar a situação ainda mais complicada. Eles precisavam conversar de verdade, e Naruto acreditava que em algum ponto da viagem isso aconteceria, mas com a presença de outras pessoas seria ainda mais complicado se abrir com Sasuke.

‘Oh, não tem nada a ver com o fato de que você estava louco pra ficar um tempo sozinho com o Uchiha, né pirralho?’

Cale a boca, Kurama!

Tentando não transparecer sua irritação pelas provocações de Kurama nem a sua vergonha pelos motivos da viagem em dupla, Naruto respirou fundo e respondeu Sasuke da forma mais neutra que conseguiu:

— Na verdade, eu sei que eles vão me reconhecer facilmente, mas as chances são mais promissoras se...

— Gatinho medroso. [1] — o Uchiha o interrompeu, deixando um sorriso torto emoldurar seus lábios.

Naruto corou até as orelhas, sua expressão de surpresa diante da escolha de palavras do Sasuke era bastante perceptível.

— Ei! Eu não estou com medo de me machucar, até parece! — se defendeu — Você sabe que não é isso!

Sasuke entendia a preocupação de Naruto, ele sabia que o maior medo era ter que ferir ninjas que agiriam de uma forma não tão reprovável assim em nome de sua subsistência. Naruto entendia o problema deles, e se ele já era bastante relutante a ferir pessoas como Obito, que se enquadrariam na perfeita definição de “antagonista”, imagina pessoas que nada mais eram do que vítimas econômicas do sistema falido onde viviam? Além de que, sejamos francos, mesmo que Naruto não se machucasse, um ataque poderia resultar numa fofoca imensa, e a Aliança Shinobi perderia grande parte de sua credibilidade no mundo.

No entanto, quem disse que ele perderia a oportunidade de chamar o Naruto de “gatinho medroso”? Nunca! Era um saudosismo intenso usar essa expressão!

O rubor no rosto de Naruto apenas se intensificou com a provocação de Sasuke, mas mesmo assim ele tentava esconder seu sorriso encabulado. Era bom ver vestígios de Sasuke da época do Time Sete em sua vida novamente.

— Independente de qualquer coisa, não deve se preocupar tanto assim com esses grupos. — o Uchiha concluiu, dando de ombros e acelerando um pouco mais a passada.

Naruto o acompanhou automaticamente.

— Por que diz isso? — ele questionou.

— Porque eu conheço alguns deles...

Sasuke espiou Naruto de canto de olho, esperando alguma revolta intensa no clima entre os dois. Qualquer pessoa acusaria Sasuke de traição ou, na melhor das hipóteses, jogo duplo diante daquela afirmativa. O Uzumaki, no entanto, nada dizia, continuando a andar e aparentando estar levemente curioso, aguardando a explicação que certamente viria.

— Você não vai dar um chilique? — Sasuke perguntou depois de um longo silêncio que ele não conseguiu interpretar ao certo.

— Eu confio plenamente em você. — Naruto respondeu sem pestanejar, olhando para Sasuke e sorrindo abertamente, desta vez fazendo o Uchiha corar em vez do contrário — Estou esperando você me falar mais a respeito disso.

— Hn... — Sasuke respondeu suavemente, sentindo borboletas no estômago e uma vontade imensa de se aproximar fisicamente do Uzumaki (ainda sim, foi forte o suficiente para se refrear).

Assim como Itachi se infiltrou na Akatsuki em nome de Konoha, repassando informações indiretamente para Jiraiya [2], Sasuke resolveu ter alguma utilidade para Konoha mesmo em sua ausência. Infiltrou-se em vários grupos autodenominados “revolucionários”, sem sequer necessitar de disfarces para tanto. Sua má reputação como ninja pelos erros do passado vinha a calhar muito bem nesses momentos, pois tais ninjas acreditavam facilmente que Sasuke não hesitaria em trair Konoha mais uma vez; até porque ele uma vez atacou de fato uma reunião da própria Aliança Shinobi.

Entretanto, ele não chegou a mandar informações para Konoha como seu irmão fazia. Porque, sendo bem sincero, não considerava aqueles grupos uma ameaça de fato. Preocupar Kakashi, Hokage à época, seria um desperdício de bem estar e tempo: os grupos eram leigos, sem estratégia alguma, feitos por ninjas de baixo escalão que já teriam grande dificuldade de conseguir missões em época de menor concorrência de mercado, imagina num momento de crise.

Ele apenas os vigiava por costume, mas nunca considerou que algum dia pudessem se tornar um empecilho para a Aliança Shinobi. Pelo menos não até Shikamaru dizer que a estratégia desses grupos mudou: em vez de pensar num conflito direto com a Aliança Shinobi, alguns deles perceberam que um maior estrago poderia ser feito em apenas causar rebuliço antes ou depois da reunião, atacando a comitiva dos Kages de forma separada, criando assim fofoca entre os civis; e isso eles eram capazes de fazer.

Sasuke piscou firme e parou de andar, adotando uma postura mais profissional. Naruto também cessou a caminhada, concentrado totalmente na presença de Sasuke.

— Eu tenho algumas informações que talvez possam ser relevantes pra repassar pra vocês nas reuniões sobre esses grupos. — ele afirmou, tomando cuidado em fiscalizar bem o terreno a procura de chakras alheios de pessoas curiosas; todavia, deu-se por satisfeito quando observou Naruto fazer o mesmo, ativando o modo sennin e desativando-o em menos de cinco segundos, indicando que o loiro já checou quilômetros de distância com sua habilidade impressionante — É seguro falar?

— É sim, até mesmo os animais estão longe daqui, não temos que nos preocupar sequer com summons. Podemos continuar andando enquanto conversamos.

Se havia alguns momentos da vida de Sasuke que ele invejava Naruto, certamente era quando ele usava o modo sennin. Para Sasuke, esta habilidade relacionada com energia da natureza era impressionante e extremamente útil, e ele adoraria saber fazer isso. Pena que existiam algumas coisas que sharingan não podia copiar...

— Quantos grupos você chegou a investigar? — o loiro questionou, voltando a adotar o passo de outrora.

Sasuke o seguia lado a lado, bem mais confortável para falar após descobrir que estavam sozinhos.

— Sete. — Sasuke respondeu, ganhando olhar desconfiado de Naruto; o moreno girou os olhos — Na verdade foi bem mais do que isso, mas apenas sete eu chamaria de “grupos de verdade”. Em cada lugar que eu ia, eu procurava um grupo, mas só nos grandes centros encontrei alguns que valessem a pena se preocupar minimamente. Muitos eram compostos apenas por adolescentes rebeldes falando absurdos sem sentido, nem vale a pena eu falar sobre eles.

— Você deve ter se identificado muito com esses últimos, né? — Naruto caçoou, ganhando um olhar irritado pela sua petulância.

— Não tínhamos muito em comum. — o Uchiha respondeu secamente, não gostando do fato de Naruto caçoar de seu passado dessa forma — Seus propósitos revolucionários eram rasos e sem coerência. Eles só faziam barulho, não eram do tipo que colocariam em prática todas as baboseiras que adoravam repetir. Não me compare com gente dessa laia.

— Eu só estou brincando com você, Teme. — Naruto respondeu, dando um soquinho no ombro de Sasuke, e arrancando um ruído de frustração do Uchiha — Você sabe que eu entendo e respeito toda a sua motivação no passado para fazer o que fez, e por isso eu confio totalmente em você e nunca te vi como um traidor... Não sabe?

Sasuke suspirou fundo, tentando fazer tal gesto transparecer impaciência ao invés do contentamento que sentia. Saber ele sabia, mas Naruto nunca disse isso com todas as palavras, e certamente era reconfortante ouvir. Ele sempre imaginou que, ao voltar para Konoha, restabeleceria seu lugar na vida de Naruto antes de restabelecer seu mérito de ninja e contribuir para a vila. Pelo jeito, nem sempre as coisas acontecem como o esperado.

Bem mais feliz do que no começo daquela jornada, Sasuke começou a relatar todos os detalhes que se lembrava para seu Hokage. Uma conversa mais pessoal com Naruto certamente teria que esperar.

.

(***)

.

Sasuke falou muito mais do que Naruto imaginaria, descrevendo vários detalhes sobre os grupos revolucionários e discutindo alguns assuntos políticos da Aliança Shinobi que chegaram aos seus ouvidos através de boatos. Noventa por cento deles eram mentirosos, e Naruto retrucava a cada novo questionamento dando sua versão profissional sobre tais assuntos. O Uchiha o ouvia com atenção e agora já tinha se acostumado com o brilho orgulhoso no olhar de Naruto, sentindo-se reconfortado e parando de corar loucamente como corara nas primeiras horas de viagem. Eles pareciam colegas interessados apenas em falar sobre trabalho, mas isso não era verdade: ambos morriam de vontade de perguntar sobre assuntos mais pessoais, mas a coragem nunca parecia surgir...

Fizeram uma parada de vinte minutos para comer e alongar os músculos; quando a refeição acabou eles tornaram a caminhar.

Neste segundo momento da viagem, o maldito silêncio veio de novo à tona. Apesar disso, não foi desconfortável como antes: Sasuke sempre foi naturalmente calado, e Naruto considerou que já havia esgotado a cota do moreno para aquele dia. Não podia esperar que ele conversasse consigo durante mais de doze horas a fio.

Então foi Naruto que resolveu quebrar o silêncio: falou sobre seus companheiros ninjas, sobre os casamentos e os filhos que cada colega teve. Sasuke ouvia apenas parcialmente atento, as vezes se surpreendendo com um casamento ou outro, ou fazendo algum comentário maldoso sobre essas uniões.

— Sabia que Ino iria se contentar com uma mera cópia. — ele disse em certo momento da conversa, sentindo uma leve competitividade quando o nome de Sai foi trazido à tona.

Naruto franziu o cenho, um pouco indignado com aquele comentário.

— Sai não é uma copia sua. — ele afirmou, defendendo o colega artista.

Naruto considerava Sai um de seus grandes amigos, e não gostava que insinuassem que a semelhança física dele com Sasuke fora o motivo para eles começarem a se dar bem. Muito pelo contrário, Naruto e Sai demoraram bastante pra se entenderem como amigos, ele se lembrava bem das brigas que tiveram nas primeiras semanas juntos no Time Kakashi.

— Mas vocês claramente o colocaram como meu substituto no novo time que formaram.

— Ninguém “colocou” o Sai no nosso time! Ele foi imposto por Danzou! — o Uzumaki se defendeu, não deixando de notar a careta de ódio que Sasuke fez quando disse o nome de Danzou — Não foi uma escolha, nem eu nem Sakura-chan ficamos felizes com a presença de Sai no começo. Demorou bastante pra gente criar amizade de verdade, e nós dois nunca pensamos nele como uma copia sua. Vocês só se pareciam um pouquinho fisicamente, nada mais.

Sasuke se sentiu mal com essa revelação, mas não quis dar um braço a torcer e reconhecer que estava errado.

— Então Ino com certeza viu como copia quase perfeita, porque ela certamente pensou apenas na semelhança física.

— Você tem uma tendência a achar que as pessoas não amadurecem, Sasuke. — o Uzumaki acusou, defendendo Ino. Ele sabia o quanto a garota havia crescido psicologicamente, principalmente durante a guerra e com a morte de seu pai, e não gostava de ver Sasuke tratando-a como uma menina fútil que ela com toda certeza deixou de ser — Sai e Ino se aproximaram bastante depois da guerra e foi Sai quem decidiu ir atrás dela. Ele queria entender mais sobre namoros, já que muita gente do nosso grupo estava namorando. Foi só uma curiosidade no começo, mas ele realmente conseguiu se apaixonar por ela e vice versa. Não julgue pessoas que você sequer conheceu de verdade, Teme.

Naruto não parecia irritado ao dar esse sermão, e isso deixou Sasuke se sentindo ainda pior. Claro, ele sabia que ele não era grande coisa pra julgar essas pessoas, mas velhos hábitos da prepotência natural de um Uchiha ainda afloravam no seu âmago de tempos em tempos. Ino nunca causou uma boa impressão para Sasuke, ele a considerava ainda mais irritante do que Sakura quando era criança, então não passou por sua cabeça que ela poderia gostar de alguém de uma forma diferente da sua paixonite superficial e infantil.

Sasuke achava complicado a maneira como as pessoas se apaixonavam, ele nunca entendeu muito bem. Ele sabia que existiam diversos tipos de paixões, algumas superficiais, outras intensas, outras meramente admirativas e algumas até extremamente irreais (como se apaixonar por uma mentira). As pessoas costumavam definir o sentimento de paixão como o oposto do sentimento de ódio, porém tão intenso quanto e, como Sasuke odiou Itachi por tanto tempo e sofreu bastante para lidar com isso (tentando transferir seu ódio para outros ‘culpados’ quando descobriu a inocência do irmão), ele compreendia que paixão era algo forte e dificilmente controlável, tal qual o ódio, mas não podia dizer com todas as letras que sentiu uma paixão de verdade em sua vida.

Alguém poderia perguntar a Sasuke “mas como você não sabe como é se apaixonar se você é apaixonado por Naruto?”. A verdade é que ele jamais denominaria o que sentia como uma mera paixão. Se em algum momento de sua vida chamou o que ele sentia de atração, amor, paixão ou qualquer clichê do gênero foi porque faltavam palavras no seu idioma para definir exatamente o que ele sentia. Era indefinível. Era algo que sempre esteve ali, desde criancinha, e estaria mesmo se Naruto fosse totalmente diferente, tanto fisicamente como psicologicamente. O vínculo dos dois era de outras vidas, era muito mais intenso do que as pessoas meramente apaixonadas poderiam imaginar.

Por mais que Naruto contasse sobre os amores de seus colegas, ele não conseguia ver o sentimento dentre os casais como tão forte como o que ele sentia por Naruto, e esse assunto o fazia agir com prepotência e tédio perante essas histórias. Talvez fosse sua prepotência Uchiha falando mais alto, mas ele considerava que esses amores nunca se comparariam ao que ele sentia; era inútil falar sobre uniões tão superficiais e rasas como essas.

— Que seja, Dobe. — Sasuke respondeu, dando o assunto por encerrado e acelerando um pouco o passo, deixando claro que queria seguir à frente e à sós por alguns momentos.

Ele só gostaria de saber se Naruto compreendia que o vínculo deles era muito diferente de todos aqueles que ele acabara de narrar; inclusive ao dele e de Hinata Hyuuga.

.

(***)

.

No começo da noite, chegaram à beira de um riacho que já era bastante conhecido pelos dois ninjas, já que muitas vezes acamparam naquela região em missões passadas, e isso trazia um grande ar de nostalgia. O céu já estava escurecendo e Naruto foi rápido em fazer quatro kage bunshins e mandá-los coletar lenha. Enquanto isso, Sasuke armava uma barraca; pouco mais de quinze minutos depois o Uchiha realizou um pequeno jutsu de fogo para acender a fogueira com a lenha coletada pelos clones.

Sentindo-se um pouco inspirado e , lembrando-se da forma como Naruto usara o modo sennin para inspecionar o ambiente no começo da viagem, Sasuke decidiu que aquele era o seu momento de se exibir um pouco: ativou os braços do susano’o, aparentemente sem motivos, e mirou o arco e flecha de chakra em direção à mata.

Naruto olhou para Sasuke indagação, se perguntando se o Uchiha teria sentido a presença de alguém que ele não percebeu, mas o moreno apenas disparou a flecha.

— Só estou pegando nosso jantar. — ele disse, exibindo um sorriso torto e se embrenhando no matagal.

Naruto aguardou e logo Sasuke voltou dois coelhos mortos, sem flechas de chakra atravessando o corpo deles, causando uma morte limpa e certeira.

— Exibido... — o Uzumaki murmurou, sentindo-se levemente competitivo com Sasuke — Eu poderia ter usado modo sennin pra saber a localização exata deles e atirar shurikens com precisão, você não está achando que fez nada de extraordinário exibindo susano’o por ai, né?

Sasuke sorriu de uma forma ainda mais prepotente, se sentindo revigorado por conseguir provocar o outro.

— Eu não disse nada, você que tá dizendo que eu fiz algo extraordinário.

‘Não sei como vocês dois conseguem voltar a ter mentalidade de doze anos estando menos de doze horas juntos.’

— Cale a boca, Teme. — E cale a boca você também, Kurama! — E outra, eu fiquei sabendo do susto que você deu no Bolt com o susano’o, isso não se faz com uma criança.

Sasuke congelou ao ouvir aquele nome. Ele percebeu que Naruto finalmente entrou no “assunto proibido”, mencionando um membro de sua família. Essa conversa poderia evoluir para algo maior, se Sasuke usasse as cartas certas. Tentando não transparecer o nervosismo que sentia, o Uchiha sentou-se ao chão, perto da fogueira e pegou os coelhos, buscando uma kunai de suas vestes para preparar o jantar.

Se ocupasse sua concentração com algo, talvez Naruto não perceberia seu nervosismo.

— Bolt estava sentado na janela, com as pernas pra dentro do quarto de Sarada. Eu não sabia quem ele era e também não acho apropriado que ele entre no quarto dela dessa forma. — explicou, evitando o olhar de Naruto — Eu quis defendê-la.

— Por favor Sasuke, como se ele fosse fazer alguma coisa! Eles são crianças ainda, e são amigos desde bebês.

Sasuke sentiu um pouco de vergonha pelo seu comportamento, mas era mais forte do que ele. Ter uma menina era difícil!

— O que você pensaria se algum garoto que você não conhece tentasse entrar no quarto de Himawari?

Naruto ficou em silêncio por alguns instantes, mas então ele expirou com força, sentando-se ao lado de Sasuke na fogueira.

— Ok, você tem razão. Mas deixa pra surtar de ciúmes pela Sarada quando ela entrar na adolescência, não agora. — Naruto soltou uma risadinha breve, e Sasuke ergueu a cabeça para entender do que ele ria — Se bem que esse medo seu deve ser porque foi assim que eu te amarrei aquela vez, se lembra?

Sasuke sentiu suas bochechas esquentarem, lembrando-se perfeitamente deste episódio. Pouco depois de se formarem genin, Naruto fez uma emboscada para Sasuke e o amarrou, realizando um henge e tomar sua forma, na intenção de tentar alguma coisa com Sakura.

— Eu mal lembrava disso. — mentiu, pois era lógico que se lembrava, e com intensos detalhes.

Naquela época, Sasuke já estava numa negação intensa sobre o que sentia por Naruto, mas o início da adolescência e os sonhos que todo menino tem aos seus doze anos estavam começando a fazê-lo cogitar que possuía uma atração pouco convencional pelo loiro barulhento. A briga breve que os dois tiveram só o deixou ainda mais irritado consigo mesmo, porque ele gostou de uma forma pouco ortodoxa daquela submissão. Sim, Sasuke só se deixou amarrar por causa do contato físico que teve com Naruto àquele momento, caso contrario ele não teria sido capturado tão facilmente.

— Heh, eu aposto que poderia fazer isso contigo de novo.

Sasuke estava com vontade de dizer tantas coisas. De provocar, de insinuar, de se insinuar, mas a situação não era tão simples. Dizer um “se você me amarrar agora eu nem vou reclamar tanto” não se encaixaria para ser dita a um homem casado que deixara mais do que claro sua não pretensão de separar-se de Hinata e que, acima de tudo, escondia seus reais sentimentos. Por isso, ele olhou para Naruto com um ar de reprovação total, e naquele momento o loiro pareceu compreender a besteira que tinha dito.

‘Moleque, eu já falei que é sempre bom pensar antes de falar. Você pode estar achando que tem doze anos de novo, mas vocês são adultos agora. Tem alguma ideia do que esse assunto faz Sasuke pensar?’

Naruto realmente falou na inocência, mas o ar de reprovação em Sasuke deixou claro que o que disse foi interpretado de forma reprovadora, como uma insinuação de duplo-sentido bastante inapropriada. E, de certa forma, o moreno estava certo em julgá-lo assim, pois ele não deveria insinuar essas coisas, mesmo que o tivesse feito sem querer.

‘Sem querer uma ova, você está só falando coisas que a cabeça de baixo está pensando, enquanto a cabeça de cima parece que parou de funcionar.’

Kurama, quer parar de ser amigo da onça e me ajudar?

‘Estou ajudando: pense antes de falar merda!’

Sasuke, encabulado e irritado, abaixou o olhar e continuou a cuidar do alimento daquela noite, não se preocupando em verbalizar uma resposta para aquele absurdo.

— Bem... Uh... Você precisa de ajuda? — o loiro questionou, achando melhor mudar o assunto.

— Não. — respondeu secamente, bem baixinho, fingindo estar totalmente concentrado no que fazia.

— Então eu vou tomar banho no rio enquanto você faz isso, algum problema?

Sasuke não respondeu e Naruto se sentiu constrangido demais para pressionar a pergunta. Levantou-se e caminhou para longe da fogueira, até chegar à margem do rio, ouvindo apenas os barulhos da correnteza e do vento. Sasuke estava relativamente longe dali; ele estava só.

O Uchiha demorou alguns minutos para se acalmar; quando havia espetado os dois coelhos em galhos finos e pontudos, deixando-os próximo da fogueira para assar, finalmente se sentiu um pouco mais recomposto. Lavou as mãos com o cantil d’água e ficou alguns minutos em silêncio, contemplando o fogo. Todavia, vários minutos se passaram e ele começou a ficar preocupado: Naruto não voltava, e o céu escuro da noite já tinha encoberto toda a região, deixando-os mais vulneráveis a possíveis ataques.

— Esse idiota... Que banho de meia hora é esse? — reclamou para ninguém em particular, se pondo de pé e andando até o rio. Pretendia brigar com Naruto pela demora e falta de responsabilidade, mas não estava preocupado de fato com o bem estar dele; Naruto sabia se cuidar, não precisava de babás, Sasuke tinha certeza disso.

Entretanto, quando chegou próximo à margem do rio, o Uchiha não viu o Hokage em lugar algum. Desesperou-se por um instante, ativando o sharingan e tentando ao máximo encontrá-lo, ou na pior das hipóteses achar alguma pista de seu paradeiro.

Com o auxílio de seus olhos especiais, Sasuke avistou uma pequena ondulação na água que ia contra a correnteza do rio. Já estava se preparando para se jogar na água e nadar até lá quando Naruto emergiu a parte de cima de seu tronco da água, exatamente naquele ponto percebido pelo sharingan.

Sasuke sentiu seu mundo congelar totalmente, e nem desativou o sharingan agora que percebia que Naruto estava bem. Não, ele iria gravar cada detalhe dessa cena em sua memória, não podia deixar uma oportunidade como essa passar:

Naruto refletia a luz da lua cheia e flexionava seus braços sobre a cabeça, passando as mãos pelos cabelos para lavá-los com a água doce. Juntava um pouco de água com as mãos e jogava sobre a cabeça, parecendo se divertir durante o banho, transmitindo um pouco da sua essência de criança que Sasuke sempre atribuiu como sendo algo intrínseco do loiro. Em certo momento, mergulhou sem qualquer necessidade para tanto, ele já estava bastante molhado para precisar fazer isso, e quando retomou a superfície balançou a cabeça para tirar o excesso de água dos cabelos, se divertindo com o gesto e exibindo um sorriso grande nos lábios.

Sasuke sentiu seu coração acelerar perante a cena. Não foi a nudez de Naruto ou a beleza de seu corpo que o fez se sentir assim, mas sim pelo seu comportamento. Naruto estava tão diferente naquele dia, mostrando-se tão adulto que Sasuke mal o reconhecia, mas algumas coisas deixavam claro que o garoto que ele sempre foi ainda vivia dentro daquele homem adulto e responsável. E isso, de certa forma, fez Sasuke respirar com alívio pela primeira vez desde que saíram juntos de viagem.

— Ele ainda é o meu idiota de sempre... — murmurou para si mesmo, deixando um sorriso satisfeito brotar em seus lábios, ainda concentrado em observar a cena.

— Puta que pariu, agora eu sei porque você recusou a Karin todos esses anos! — uma voz surpresa soou ao seu lado esquerdo, fazendo todo o alívio momentâneo de Sasuke se esvair.

Girou o corpo com velocidade, preparando para atacar seja lá quem fosse sua mais nova companhia e se xingando mentalmente por ter abaixado a guarda enquanto apreciava Naruto. Ele não podia ter se deixado distrair desta forma, o que estava acontecendo com ele?

No entanto, reconheceu sua companhia a tempo, antes de atingir o primeiro golpe.

— Suigetsu. — ele murmurou, cruzando os braços e reprovando a nudez do colega com um olhar crítico.

Suigetsu não deveria estar ali, ainda mais naquela (ausência de) trajes! Mesmo que sua presença possivelmente significava algo importante, ele queria ficar sozinho com Naruto por mais tempo.

Pelo jeito não teria tanta sorte...

— Não, é sério! — Suigetsu exclamou em tom baixo, não desejando atrair a atenção do Hokage — Você tinha que ver a sua cara, mais um minuto e tenho certeza que você ia começar a babar!

Sasuke não se sentiu envergonhado com o flagra. Desde o fim da guerra, ele nunca mais escondeu dos outros seus reais sentimentos por Naruto. O problema é que toda a humanidade tinha a mania de considerar que Sasuke era solteiro por estar com o coração vazio ou por simplesmente não gostar de se relacionar com as pessoas de um modo geral. Era até idiota dizer algo assim, mas eles o consideravam tão perfeito fisicamente que não levantavam a possibilidade de ele ser o que definiriam como “homossexual”. Apesar de que, sendo bem franco consigo mesmo, Sasuke também não se considerava homossexual, pois o único homem que ele desejava neste mundo era Naruto: e se Naruto, por uma ironia do destino, tivesse nascido mulher, ele o desejaria da mesma forma.

De qualquer forma, o Time Taka entrava nessa categoria de pessoas que vinculavam à imagem de Sasuke à alguém assexual e arromântico; até Juugo, que não ligava muito pra essas questões relacionadas a sexo e romance, encontrava uma ou outra mulher eventualmente, enquanto Sasuke não demonstrava interesse nem mesmo em prostitutas (que não cobrariam um relacionamento, apenas dinheiro), muito menos em Karin.

Se Sasuke aceitou dormir com Sakura no passado, o fez movido por um misto de curiosidade e necessidade de conforto. Não foi ruim, mas também não foi esplendoroso ao ponto de ele desejar fazer isso novamente com outra pessoa que não fosse Naruto. E, desde então, ele manteve um estilo de vida celibatário, não sentindo qualquer falta de um contato sexual com outra pessoa. Ele estava feliz com seus sonhos eróticos com Naruto de tempos em tempos, e isso teria que bastar.

— Como eu fui burro! — Suigetsu concluiu depois de não receber uma resposta; Sasuke piscou forte, saindo de seus devaneios — Era bem óbvio, Karin praticamente se jogou em você durante todos esses anos e você nem tirou uma casquinha!

— Você não deveria encher tanto a boca pra falar isso, porque se eu tivesse dado uma chance pra Karin, talvez você não estivesse com ela hoje.

Suigetsu, aparentando vergonha, apontou para o Uchiha e ergueu consideravelmente o tom de voz.

— Quem disse que eu e a Karin estamos juntos? — ele indagou, dando um passo para mais perto de Sasuke, observando-o girar os olhos — Isso é uma fantasia escrota da sua cabeça Uchiha, eu e ela não temos nada a ver.

Sasuke optou por não responder, pois não havia porque discutir algo que ele já tinha certeza.

Karin e Suigetsu podiam demorar demais para revelar a verdade pras outras pessoas, mas Sasuke não era burro ao ponto de deixar de perceber a dinâmica que eles possuíam de uns dois anos pra cá. Eles nem sequer provocavam um ao outro da mesma forma como antigamente! Se isso não era um indício, os ruídos que ele flagrou durante a madrugada do verão passado, quando o Time Taka fazia uma reunião e passava a noite em um hotel, só podiam ser a prova real de sua tese: e Suigetsu certamente não foi silencioso quando saiu do quarto que dividia com Juugo e Sasuke, atravessando o corredor em direção ao quarto de Karin (muito menos horas depois, quando voltou para a sua cama intacta andando na ponta dos pés e acordando Sasuke instantaneamente).

Deixando este assunto de lado, Sasuke resolveu focar no que realmente interessava: se Suigetsu viera atrás dele, algo devia ter acontecido.

— Onde você está? — ele questionou com seriedade, olhando para o homem pálido com curiosidade.

Suigetsu nem precisou perguntar para Sasuke como ele percebera que era um clone. Sasuke era Sasuke, sempre seria um prodígio, ele já nem se surpreendia mais.

— O verdadeiro está em Yugakure, as especulações a respeito da mudança de reunião já chegaram por lá. — respondeu, adotando uma tom de voz mais sério — Eu estava tomando banho no rio quando ouvi a conversa de um dos grupos, nem tentam ser discretos, é ridículo... Fiz o clone do jeito que estava e mandei correnteza a baixo, sabendo que as águas daquele rio desaguariam próximo de Konoha e eu poderia te encontrar mais rapidamente se me locomovesse com a água em vez de vir a pé atrás de você.

— Se essa informação já vazou, tem alguém infiltrado dentro das equipes dos Kages, com toda certeza. — Sasuke murmurou, refletindo sobre a informação e se sentindo grato por Suigetsu ter conseguido trazê-la para ele a tempo — Faz quanto tempo que você ouviu isso?

— Um dia apenas. E depois vocês ainda dizem que minha habilidade com a água é inútil.

Suigetsu queria um elogio, mas Sasuke estava ocupado demais pensando para lhe conceder isso.

— Onde está o restante do grupo?

— Karin está em Yugakure também... — Suigetsu respondeu; Sasuke arqueou a sobrancelha e deu um sorrisinho torto, mas nada comentou — Juugo está em Iwagakure, a situação por lá tá preta também. E... bom... tenho outra novidade.

— Qual?

— Orochimaru está indo pra Kirigakure, pediu para eu te avisar.

— Orochimaru?

Ok, isso pegou Sasuke de surpresa. Fazia um bom tempo que não tinha notícias deste Sannin.

— Não acredito que ele pretenda ajudar, até porque você sabe que não será um ataque que necessite de mobilização, mas acho que ele quer assistir. Orochimaru está curioso para te ver interagindo com Naruto novamente.

Sempre foi bastante difícil entender as pretensões de Orochimaru, mas Sasuke se considerava relativamente perspicaz neste assunto. Ele percebia as claras nuances de Orochimaru durante os anos que passou em treinamento ao seu lado, vendo que apesar de ele tentar prosseguir em seus objetivos de imortalidade para adquirir todos os conhecimentos do mundo, ele acabou deixando sua arrogância falar mais alto, subestimando seu adversário diversas vezes por conta disso e se dando bastante mal nessas ocasiões.

Quando Sasuke retirou Orochimaru de dentro de Kabuto e o reviveu, ele não esperava por uma mudança de espírito de seu antigo mentor, mas sabia que Orochimaru estaria fraco e facilmente manipulável se fosse necessário utilizar a força para obrigá-lo a seguir suas ordens. No entanto, não foi isso que aconteceu: Orochimaru se mostrou até mesmo um pouco ‘perdido’ perante o que vira enquanto estava preso à Kabuto, bem como curioso pela confusão nos objetivos antes tão sólidos do Uchiha. Sasuke não confiou totalmente nele, mas ele o ajudou sem pestanejar, e certamente teve um impasse decisivo para o desfecho da guerra.

Alias, Sasuke até tinha dúvidas a respeito do que Orochimaru disse sobre ainda desejar possuir o corpo dele, pois, após recuperar seus braços do Shinigami realizar o Edo Tensei dos antigos Hokages, Orochimaru poderia muito bem controlá-los e tomar o corpo de Sasuke. Mas ele não fez isso, e foi aí que o Uchiha teve certeza que algo mudou na essência de Orochimaru.

Após a guerra, membros do Bingo Book que ajudaram a Aliança Shinobi foram levados em custódia, inclusive Sasuke que, apesar de ainda não estar impresso no Bingo Book, estava previsto para a próxima edição desde o ataque a reunião dos Kages. O julgamento foi coletivo, mas Sasuke conseguiu a anistia sem muitos problemas com a ajuda de Kakashi, o qual ocupara o cargo de Hokage uma semana antes do julgamento. Naruto ficou maravilhado com esse desfecho, pois todos pensavam que ele iria ter que pagar ao menos um ano de penitencia.

Kabuto e Orochimaru tiveram destinos diferentes.

Apesar de Kabuto ter ajudado Sasuke a sobreviver o ataque de Madara e ter afirmado diversas vezes que havia mudado seus pensamentos depois de ficar uma eternidade mental preso ao izanami de Itachi, ele era um dos articuladores principais da guerra e não podia simplesmente ser perdoado de seus erros. Kabuto era o único sobrevivente do lado oposto à Aliança, visto que Madara e Obito morreram em combate, e foi unânime a decisão de que ele seria tomado como mártir, mesmo que tivesse se arrependido de seus atos e contribuído de alguma forma para a derrota.

Naruto, apesar de sua natureza benevolente, não mencionou nenhuma pretensão de libertar Kabuto desde o inicio de seu mandato. Já Sasuke, que de benevolente tinha muito pouco, preferiria que Kabuto ficasse o resto de sua vida preso, pois até agora não perdoou a forma como o traidor apossara-se de seu irmão e o controlara com o edo tensei.

O caso de Orochimaru foi diferente de todos. Como ele ajudou decisivamente na guerra ao realizar o edo tensei, além de curar Tsunade a beira de sua morte, ele ganhou a anistia com certas condições: ele estava proibido de fazer experimentos que envolvessem situações imorais com cobaias, além de receber um selo que o proibia de transferir sua existência para outros corpos e monitorava em tempo real o seu chakra. Ele ainda mantinha a liberdade de transitar no mundo ninja, mas qualquer mínima mudança em seu chakra que indicasse uma possível revolta contra a Aliança Shinobi resultaria numa destruição eminente de seu corpo físico.

Orochimaru aceitou as condições sem nem pensar duas vezes.

Desde então, mantinha-se solto e em diversas vezes se juntou a Sasuke em suas peregrinações. Ele afirmava que não mais desejava transição de corpos ou o conhecimento infinito, pois lhe fora concedido uma prévia de como seria isso em sua experiência com Tsukuyomi Infinito. Orochimaru afirmava que não gostou do resultado, pois a eternidade mostrou-se despropositada depois do cumprimento de seu tão sonhado objetivo; sua vida perderia completamente o sentido. Por outro lado, Orochimaru se mostrava cada vez mais interessado naquelas pessoas que desafiavam seu passado, mudavam de interesses e revelavam seu verdadeiro potencial. Sua nova obsessão era Sasuke, ver a forma como ele interagia com o mundo e as mudanças em sua personalidade se tornou o maior passatempo de Orochimaru.

Sasuke não se importava com a companhia de tempos em tempos, não por confiar cem por cento em Orochimaru ou prezar por sua existência, mas porque não havia grandes empecilhos e Orochimaru era um ninja a altura para manter um bom treinamento no seu dia-a-dia. Quando outra pessoa atraia a atenção de Orochimaru, ele deixava Sasuke sozinho por alguns meses e, posteriormente, retornava a visitá-lo, afirmando que nunca ninguém seria mais interessante do que o Uchiha.

Já fazia um ano que Sasuke não via Orochimaru, e achava curioso que Suigetsu tivesse novidades a respeito desta pessoa antes dele.

— Você encontrou Orochimaru recentemente?

— Não, ele ligou pra Karin.

— Ele... Ele o quê!?

Isso era uma grande surpresa: Sasuke e Orochimaru nunca se renderam muito a esse novo avanço tecnológico da sociedade, Sasuke sequer possuía um celular. Karin sempre gostou muito disso tudo e, dentre o grupo, era a única que possuía celular e computadores. Todos tinham decorado o número dela para casos de emergência, mas ainda confiavam bem mais em se comunicar através de clones do que por mensagens que poderiam ser grampeadas com facilidade.

Se Orochimaru, que nunca foi adepto a mandar mensagens dessa forma, acabou ligando para Karin, ele estava averiguando alguma coisa. Ele já esperava que seria interceptado, isso foi um teste!

— O telefone de Karin está grampeado. — Sasuke concluiu, ganhando um olhar surpreso de Suigetsu.

— Como você...?

— Vamos usar isso a nosso favor: diga para Karin ligar para algumas pessoas e despistar, dizendo que a reunião agora foi transferida para Kumogakure. Vamos mandar os grupos para lá.

Apesar de Taka nunca ter se unido de fato depois da guerra, era comum que eles se encontrassem (por acaso ou não) durante os últimos oito anos. Toda vez que um deles sentia o chakra do outro nas redondezas, uma breve reunião acontecia. Sasuke requisitou aos antigos membros do time Taka que ficassem de olho nas revoluções, e como não tinham nada pra fazer nem correlação com vilas especificas, eles seguiam os pedidos de Sasuke sem muito reclamar. Suigetsu inicialmente foi contra ajudar, mas acabou sendo arrastado pra dentro do esquema por Karin, e hoje em dia os dois realizam a espionagem e buscam as espadas que Suigetsu tanto quer colecionar (e também devem namorar bastante, apesar dos dois negarem veementemente). Juugo também fazia os trabalhos de Sasuke, mas de forma definitivamente mais solitária do que o casal que não se proclamava um casal até então.

Algum grupo deve ter descoberto as intenções de Sasuke e acabou grampeando o celular de Karin.

— Ok, mas Sasuke, há algo que eu acho que você deveria saber. — Suigetsu falou, aproximando-se mais dele para que ninguém mais ouvisse suas informações — A rebelião não está mais visando atacar os Kages.

— Não? Como assim?!

Porém, antes que Suigetsu pudesse formular uma resposta, seu clone tornou-se água diante dos olhos de Sasuke e se espatifou no chão. Sasuke viu uma shuriken cravada na testa do clone antes dele desparecer, e instantaneamente ele virou para trás em busca de seu atacante.

Era Naruto, que o segurou pelos braços com força e chegou muito perto do espaço pessoal do Uchiha, quase encostando seu nariz ao dele.

— Mas o que...?! — Sasuke questionou, totalmente perdido diante do que acabara de acontecer.

Como se percebesse o que estava fazendo, Naruto soltou Sasuke e deu um passo para trás. O Uchiha pôde ver como o Uzumaki ainda estava molhado, mas não totalmente nu como Suigetsu se encontrava, pois usava uma calça aberta ao redor das pernas encharcadas. Apesar das brincadeiras de outrora, Naruto foi responsável e resolveu tomar banho parcialmente vestido para o caso de ser surpreendido em um ataque.

Sasuke fez muita força para não destruir ainda mais sua sanidade mental e focou apenas no rosto de Naruto, irritado demais para checá-lo de cima a baixo naquele momento.

— O que você fez!? — o moreno rosnou, irritado — Aquele era Suigetsu! Ele tinha informações pra me repassar!

— Ele estava muito perto de você, parecia perigoso. — o Uzumaki respondeu com a voz arrastada e grave, demonstrando que estava tão irritado quanto Sasuke, senão mais.

— Perigoso? Você está brincando comigo? Suigetsu é da minha equipe há anos! Você sabe disso, nós declaramos no julgamento! — Sasuke rosnou, indignado, mas então outra coisa lhe chamou atenção e ele precisou questionar — Como você chegou aqui tão rápido? Eu não ouvi o barulho de você saindo da água, e eu estava prestando atenção.

Naruto não respondeu, adotando uma expressão culpada em seu rosto.

Sasuke até se surpreendeu consigo mesmo ao pensar rápido diante desta expressão e compreender o que havia acontecido, mal acreditando que Naruto era capaz de ter realizado um absurdo como esse. Agarrou o loiro pelo pescoço, o forçando a encará-lo sua expressão ameaçadora. Estava tão irritado que nem por um segundo percebeu como estavam próximos e como o contato poderia ser confundido com “íntimo”.

— Onde. Quando. — ele ordenou, não poderia nem mesmo ser chamado de uma pergunta as palavras que ele acabara de dizer.

— Teme...

— Onde e quando!!

— Durante a nossa briga na semana passada. — Naruto declarou, circundando seu braço ao redor de Sasuke e tocando a parte inferior de suas costas, puxando-o um pouco para frente, quase encostando o corpo dos dois — Neste ponto aqui...

Sasuke sentiu o contato da mão de Naruto em suas costas queimar sua pele e empurrou o Uzumaki para longe, estupefato pela ousadia dele de marcá-lo sem informar e ainda o agarrar daquele jeito pra mostrar onde colocara o selo.

Ora, mas quanta ousadia!

Sasuke jamais imaginou que Naruto iria deixar de treinar a técnica de teleporte seu pai depois de ter chegado ao auge do Rasengan, mas não esperava que ele conseguisse aprender todos os detalhes em poucos anos, quem dirá deixar jutsu-shiki [3] em pessoas ou coisas sem ser percebido. Ainda sim, ele sabia que Naruto era capaz deste feito e, por isso, foi a primeira coisa que passou em sua cabeça ao se dar conta que Naruto simplesmente se surgiu sem mais nem menos atrás dele: só podia ser a técnica do Yondaime.

Naruto o marcara com jutsu-shiki, e sem seu consentimento.

— Eu não acredito que você fez isso. — O Uchiha declarou, sentindo-se totalmente traído — Como...! Como você ousou ter feito algo assim!?

— Eu não queria que você saísse da vila de novo, Sasuke! Eu não queria te perder de vista novamente, eu não...!

— Você fez isso sem o meu consentimento!

Sasuke virou de costas e pretendia se afastar de Naruto (mesmo sabendo que o loiro poderia simplesmente reaparecer atrás dele a qualquer momento), mas o Uzumaki o agarrou pelo braço e o impediu de se mover.

— Sasuke, por favor, tente me entender. — ele suplicou, apertando cada vez mais a pegada no pulso do outro — Eu não vou sobreviver se você me deixar de novo, eu precisava de alguma garantia de que pudesse te parar se você decidisse ir, eu... Eu nem tenho garantia ainda de que consigo usar essa técnica em grandes distâncias, não é como se você deixasse totalmente de ter privacidade na sua vida!

Sucumbindo a sua irritação, Sasuke piscou forte e encarou Naruto com mangekyou sharingan a postos: se Naruto tinha a ousadia de marcá-lo sem consentimento, um simples tsukuyomi era fichinha.

O Uzumaki caiu de joelhos ao chão, em transe.

.

(***)

.

O que está acontecendo!?

O Uzumaki se perguntava, olhando o ambiente totalmente escuro onde se encontrava. Sasuke havia desaparecido, a mata havia desaparecido, até mesmo Kurama não o respondia mais. Demorou um pouco mais do que o esperado para que ele finalmente somasse os acontecimentos e percebesse que Sasuke o colocou em um genjutsu; não porque Naruto não soubesse reconhecer um, mas porque ele não esperava que Sasuke fosse apunhalá-lo pelas costas dessa forma.

O Uchiha sabia que o Hokage não era bom para se livrar de genjutsu, quem dirá um tão forte como os provenientes do sharingan. Isso foi proposital.

O loiro tentou usar as técnicas que conhecia para a interrupção do genjutsu, sem sucesso. Céus, já era difícil demais escapar de um genjutsu de Itachi, e olha que Itachi nunca teve o eterno mangekyuou sharingan, imagina enfrentar um genjutsu de Sasuke! Mas antes que pudesse se desesperasse de uma vez, notou que possuía companhia: no meio da ilusão, Sasuke apareceu caminhando de longe, com passos firmes lentos, vindo em sua direção.

— Desfaça essa porcaria! — O Uzumaki gritou, enfezado, considerando que Sasuke já estava perto o suficiente para ouví-lo.

Provando que tudo ali não era nada além de uma ilusão, Sasuke se materializou às costas de Naruto, como se tivesse usado também o jutsu de Minato. Naruto se virou rapidamente, sentindo-se irritado, desejando sair daquela mentira o quanto antes.

Sasuke nada disse, mas quando ficou frente e a frente com Naruto, fez algo que o surpreendeu em níveis inimagináveis: puxou o rosto do mais novo para perto com as duas mãos e o beijou de uma maneira bastante obscena, mordendo seus lábios com força, pedindo para que ele abrisse a boca e intensificasse ainda mais o beijo. Envolto em surpresa e desejo, Naruto enroscou sua língua à de Sasuke, puxando o corpo dele para perto, unindo as virilhas de ambos em um momento instintivo, sentindo-se cada vez mais hipnotizado pelo gosto suave dos lábios de Sasuke. Recebeu um suspiro doce e uma intensidade ainda maior do beijo, e não conseguiu controlar mais seus hormônios, levando suas mãos para o traseiro do Uchiha e puxando-o para se esfregar ainda mais intensamente contra o seu corpo.

Seu coração disparou, seu corpo tremia, sua respiração acelerava. Ele tentava agarrar todas as partes do corpo de Sasuke de uma vez só, como se temesse nunca mais receber um beijo como aquele em sua vida. Estava feliz, saltitante, maravilhado com o beijo, quando o Uchiha simplesmente desapareceu como fumaça dentre seus braços.

E reapareceu logo atrás dele. De novo.

— Então esse é o seu mais profundo desejo. — Sasuke murmurou em seu ouvido, transmitindo um grande ar de ironia.

Naruto virou-se mais uma vez para encará-lo, ofegante e indignado.

— Seu bastardo!! — acusou, praticamente rosnando entre os dentes — Foi você que me beijou!!

— Eu deixei seu inconsciente controlar o genjutsu brevemente, pra ver o que você desejaria que eu fizesse. — o Uchiha respondeu, franzindo o cenho e cruzando os braços — E aí você fez a minha imagem te beijar, Usuratonkachi.

Naruto sentiu seu sangue gelar, sabendo que deveria ter ficado pálido de uma hora pra outra. Nem sentiu vergonha do que aconteceu, mas sim extremamente horrorizado pelo seu inconsciente ter proporcionado todo aquele cenário.

Isso só pode ser um pesadelo, meu inconsciente não pode me sabotar assim!

— Eu não fiz nada, pare de falar besteiras! — afirmou, preferindo manter a farsa da negação do que confessar a verdade para Sasuke (ou para si mesmo)

— Não era você que era o homem casado e que não sentia mais nada por mim? — o Uchiha o provocou, ainda aparentando apatia, como se controlasse friamente suas reais emoções naquele momento.

— Sasuke, pare!

— É isso o tipo de coisa que acontece em seus sonhos diários? O que sua querida e amada esposa iria pensar?

— Sasuke, não ouse...! — Naruto estava hiperventilando, sentindo um medo inexplicável de perder sua família. Ele sabia que Sasuke nada faria com essa revelação e que, querendo ou não, o Uchiha já sabia disso tudo; não era nenhuma novidade o que ele acabou de revelar.

Mas Sasuke estava forçando Naruto a enfrentar a realidade, algo que ele não desejava enfrentar. Agora seria muito difícil pra ele continuar fingindo que o que sentia por Hinata era mais intenso do que sentia por Sasuke, já que estava claro quem seu inconsciente desejava.

— Então decida sua vida, Hokage-sama. — o Uchiha respondeu, ativando o sharingan e olhando para Naruto de forma ameaçadora — Eu não sou sua propriedade pra você simplesmente destruir o clone de alguém que estava conversando comigo por ciúmes.

— Ele estava próximo demais! Eu...!

— É MENTIRA! — Sasuke exclamou, perdendo um pouco a compostura e fuzilando os olhos azuis de Naruto com uma reprovação intensa, calando-o de prontidão — MENTIRA DESLAVADA! Eu sei o olhar de ciúmes quando vejo um! Você beijou a porra de uma ilusão que era igual a mim, seu idiota!

Naruto ficou sem palavras, sentindo seu desespero aumentar. Ele beijou Sasuke, ele traiu Hinata, ele descumpriu toda sua palavra, ele...!

— Você é um idiota. — Sasuke o acusou, recuando um passo e dando-lhe as costas — Não, você não está traindo ninguém, lembre-se de que isso é um genjutsu.

Sasuke consegue ler meus pensamentos no genjutsu?

— Óbvio. — o Uchiha respondeu com prepotência, ainda sim não se virando para encarar de novo o Uzumaki — Mas só porque é você a vítima: eu já praticamente consigo sentir tudo que você sente num estado normal, enquanto estou em um genjutsu com você, esse laço fica ainda mais estreito.

Naruto respirou fundo, desejando se acertar o quanto antes com Sasuke. Detestava a maneira vulnerável que estava se sentindo no meio dessa ilusão, mesmo que não fosse vítima de qualquer tipo de tortura (e tivesse até ganho um beijo de brinde).

— A propósito, seu inconsciente está bem errado. — Sasuke comentou, não aguentando e voltando a encarar o loiro, mas se sentindo um pouco mais calmo ao ver os olhos azuis cheios de questionamento — Eu jamais beijaria você daquele jeito.

‘Eu beijaria muito melhor.’ Naruto ouviu a voz de Sasuke em sua cabeça, mesmo que o Uchiha a sua frente não tivesse proferido fisicamente tais palavras.

O Hokage sentiu seu corpo arrepiar, e o sorriso prepotente do Uchiha apenas intensificou essa sensação.

— Sonhos são... sonhos... — ele respondeu, sua voz soando bem mais rouca do que ele anteciparia — Se eu sonho contigo de uma forma, certamente a realidade seria diferente.

O Uchiha deu um passo a frente, entrando no espaço pessoal de Naruto, erguendo seu queixo com uma das mãos.

— Eu poderia te mostrar como seria a realidade... — Sasuke murmurou contra seu ouvido, sua voz soando rouca e promissora. Naruto sentiu seu corpo inteiro arrepiar e sua excitação ficar maior do que durante o falso beijo de outrora; realmente, Sasuke deixava bastante claro que qualquer coisa que ele fizesse superaria de longe os sonhos de Naruto. — Mas eu não farei isso.

— Eu... Eu... — gaguejou, não sabendo ao certo como por em palavras tudo que passava em sua mente naquele instante.

— Eu disse que eu “poderia”, mas você não quis assim. Você quis se casar, e agora eu não posso mais. — ele murmurou em retorno, se afastando, deixando o Uzumaki abobalhado.

— S-sasuke, não insinue que eu estou te pedindo pra você ser o meu-...

— Se você falar a palavra “amante”, eu juro que vai acordar deste genjutsu castrado, Uzumaki. — Sasuke exclamou, seu humor voltando a ficar mais áspero de uma hora para a outra — Nem se você pedisse eu aceitaria algo degradante como isso. Isso ofende toda a minha moral particular.

Não que Naruto estivesse cogitando pedir algo assim para Sasuke, longe dele, mas ouvir aquelas palavras ríspidas o fizeram se sentir ainda pior.

Por que era tudo tão difícil entre eles desde o primeiro dia que se conheceram? Não, desde a primeira vida que passaram juntos! Naruto queria estabilidade, e não essa loucura que Sasuke o fazia sentir. Quer dizer, ele queria a “loucura” também, mas ele queria ter a certeza de que não acabaria sozinho e sofrendo nessa história, e por isso alguém tão estável como Hinata mostrou-se uma melhor pedida durante seu momento de incertezas no fim da adolescência.

Será que era um pecado tão grande desejar uma estabilidade emocional?

— Sasuke, você nunca pensou em se casar com a Sakura? — Naruto questionou, não gostando da careta que se formou no rosto do outro, tanto em virtude dos seus pensamentos quanto pela indagação realizada — É uma pergunta séria, porque querendo ou não ela sempre esteve aí pra você, seria uma boa esposa, te deu uma filha...

— Eu nunca casaria com alguém apenas por conveniência.

— Não é uma questão de conveniência, mas é alguém que te completaria e...

— Naruto, eu sou completo. — Sasuke declarou, cruzando os braços de forma defensiva — Eu tenho meus defeitos, meus traumas e meus problemas, mas eu sou completo e consigo viver muito bem sozinho desde que eu me perdoei pelos meus erros. Eu jamais colocaria nas costas de outra pessoa a minha felicidade ou meu motivo para ter uma vida satisfeita. Eu não procuro uma pessoa que me complete, e sim alguém que me transborde: que me acrescente além da minha completude.

Naruto ficou sem palavras. Não sabia o que deveria responder depois de ouvir isso, jamais imaginou que Sasuke pudesse ter mudado tanto ao ponto de pensar algo assim, tão auto-suficiente, tão forte. Sasuke tinha uma mente muito fraca no passado, apesar de sua força física e determinação. Ele conseguia ser facilmente moldado pelos outros, controlado totalmente por pessoas como Itachi e Obito.

E agora ele estava ali, afirmando que era completo, que se bastava, que estava em paz consigo mesmo.

— As coisas mudam, Dobe. — Sasuke murmurou em resposta depois de ouvir os pensamentos de Naruto, levantando sua mão e estalando os dedos, desfazendo o genjutsu de uma só vez.

Sua mensagem fora repassada, não havia porque prolongar ainda mais essa ilusão. Agora Naruto seria forçado a encarar a realidade, ele desejando isso ou não.

.

(***)

.

Naruto acordou, piscando forte e voltando a dura realidade. Estava frio, seu corpo ainda molhado precisava ser aquecido o quanto antes. Mas ele suspeitava que pelo menos metade dessa sensação gélida vinha do olhar frio e julgador que recebia do Uchiha a sua frente.

— Você disse que queria filhos... — Naruto sussurrou, ainda de joelhos, observando o outro de uma forma que chegava a dar pena — Eu achei que...

— Quando eu disse que queria filhos, Naruto? — Sasuke o interrompeu, evidentemente perdido com aquela afirmação.

— No dia que conhecemos Kakashi. Você disse que queria restabelecer seu clã.

Sasuke ficou quieto por um grande período de tempo, verdadeiramente surpreso pelo outro ter chego àquela conclusão com suas palavras infantis ditas aos doze anos de idade. E, pelo jeito, sua falta de palavras diante daquela revelação também fez com que Naruto revisse suas certezas.

Será que eu me enganei quanto a isso?

‘Você realmente acha que um garoto pré-adolescente, que não pensava em outra coisa a não ser vingança, iria cogitar a possibilidade naquele momento de ter um monte de crias e se tornar o maior pai de Konoha, só pra re-popular um clã?’

Kurama, não fale assim! Eu tenho certeza que Sakura pensou a mesma coisa! Era isso que o Sasuke queria dizer... Não era?

Só que não era, e agora ele via a evidência no olhar de Sasuke. Ele parecia surpreso e indignado, provavelmente chegando a conclusão de que havia muita coisa mal entendida entre ele e Naruto, coisas que iam bem mais além do que ele imaginava.

— Eu quis dizer que eu queria restabelecer a honra do meu clã, vingando-o ao matar Itachi. — declarou, sua voz soando fraca e cansada — Era minha ambição, meu sonho: a morte de Itachi, para mim, traria o restabelecimento do clã. Eu não estava pensando em filhos, Naruto.

— Mas... Sakura e Sarada...!

— Então é isso? Você acha que eu engravidei a Sakura de propósito visando isso?

Sasuke se sentia ultrajado, Naruto não precisava nem ter a ligação diferenciada que eles possuíam para perceber isso. O loiro se levantou, apenas para conseguir segurar Sasuke caso ele decidisse fugir dali.

— Não... eu não acho que foi de propósito, Teme! — o apelido soou como uma tentativa forçada de acalmar o Uchiha, e com certeza o feito desejado por Naruto não se concretizou — Eu sei que você ficaria em Konoha se soubesse que ela estava grávida. Mas ela engravidou, e na minha cabeça era naquele momento que seu clã começaria a se restabelecer! E eu achei que você voltaria para se casar com ela, porque os Uchihas são um clã tradicional, e...

— O líder dos Uchiha sou eu! — Sasuke interrompeu, sua voz soando mais alta que a de Naruto, por incrível que pareça — Quem dita as regras desse clã sou eu! Eu não sou obrigado a seguir tradições centenárias de um clã que foi dizimado!!

— Justamente, você disse que queria reerguer o clã! Você disse, e você teve uma filha, e eu achei que quando voltasse fosse querer mais filhos, e eu...

Naruto se calou, sentindo-se um idiota completo. Não havia o que dizer, não tinha mais como se justificar. Se ele tivesse ouvido a promessa de Sasuke antes de partir de Konoha, se ele tivesse confiado plenamente naquilo, nada disso teria acontecido.

E, diante do silêncio estranhamente mórbido de Naruto, Sasuke também chegou a uma conclusão muito importante.

— Você não confia em mim, nem um pouco. — o Uchiha murmurou, abaixando o olhar, bem mais triste do que irritado perante essa constatação — Você botou um selo em mim por não confiar em mim; você não crê que eu voltei para a vila pra valer; você sequer confiou na promessa que eu te fiz antes de partir a última vez...

Naruto, tomado por um impulso sentimental, se aproximou de Sasuke e segurou as mãos dele, sentindo a rigidez fria do braço de metal debaixo da luva grossa de couro, mas não se importando com a diferença do toque de Sasuke.

— Sasuke, eu sei que você prometeu que a gente iria se resolver quando você voltasse, eu sei disso, eu confiei em você! — ele declarou, fitando outro com extrema tristeza, e ganhando um olhar igualmente destruído em retorno — Mas quando a Sakura teve a Sarada eu achei que quando você voltasse e a conhecesse, você desejaria ter mais filhos. Pra mim, esse era um de seus sonhos.

— Meu sonho nunca foi isso, e mesmo se fosse: quem disse que para reerguer o clã eu necessitaria gerar filhos, Naruto! — o Uchiha exclamou, verdadeiramente indignado — Eu amo Sarada e estou feliz que ela tenha nascido, não vou negar, mas eu nunca pensei em ter filhos do meu sangue. Como diabos você acha que eu te prometeria que me acertaria contigo no meu retorno e ainda pensaria em ter filhos com alguém?! Como que um absurdo sem sentido como esse pode ter passado pela sua cabeça de vento?

Naruto estava sem respostas, evidentemente esgotado com aquela conversa. Sentia vontade de chorar, não conseguia pensar mais nisso. Ele sofreu anos de sua vida com aquela dúvida, e perceber que Sasuke não cogitaria ficar com uma mulher para ter mais filhos acabou com Naruto. Porque ele sempre se prendeu a essa possibilidade para não se sentir culpado por não ter esperado o Uchiha. E, agora, ele via que a culpa era totalmente dele.

— Eu... Eu nem sei o que dizer... — Naruto murmurou , sentindo seu coração doer mais do que doeria em qualquer possível tortura psicologia que Sasuke pudesse lhe causar num genjutsu.

Aproximou-se do Uchiha com um passo curto, levando sua mão até a parte de baixo das costas dele e desfazendo o jutsu-shiki. Sasuke não concedeu a ele esse privilégio de marcá-lo e, depois de tudo que ele fez, não era justo impor isso ao Uchiha.

— Você está certo, você não é minha propriedade. — ele declarou assim que a corrente de chakra foi desfeita, percebendo que estranhamente Sasuke parecia ainda mais triste por ele ter tirado o selo — Mas eu confio em você, eu juro! Eu só... Eu só fui um idiota Sasuke, pensei demais, fiz o que não deveria ter feito e...

— Não se arrependa de seu passado, pois eu sei que é impossível se arrepender de qualquer coisa depois de ver os nossos filhos. — Sasuke o interrompeu, novamente falando algo que fez Naruto se sentir ainda mais inferior — Se você se casou com Hinata, você teve seus motivos. Não se arrependa, em nome do tempo que você foi feliz ao lado dela, em nome de seus filhos, e em nome da honra dela.

— Eu não me arrependo, não é isso. Mas se eu não tivesse me casado... eu...

— Não viva de “se”, Naruto. — o moreno declarou, ainda bastante sério — Eu costumava pensar muito no “se eu não tivesse matado Itachi, tudo seria diferente”. Mas não adianta, a vida seguiu, eu errei e não posso voltar atrás. O passado está construído, tudo que você pode fazer é escolher o seu presente.

— Você está me dizendo que...

— Eu não estou te dizendo nada, eu não quero te induzir a nada. — Sasuke disse, dando um passo para trás, se afastando dele com um ar defensivo; não fazia bem para nenhum dos dois essa proximidade, pelo menos não agora — Eu só estou dizendo que quem escolhe seu destino é você, e que você pode mudar o rumo do seu futuro se assim desejar.

‘Você se lembra de ter dito palavras semelhantes a essa para um certo alguém, pivete?’

Neji...

Naquele instante, Naruto percebeu que estava soando como Neji: o Neji genin que tanto falava sobre destino imutável, ridicularizando seus sonhos e suas aspirações futuras. Naruto convenceu Neji de que o que ele falava estava errado, de que éramos nós quem decidíamos nossos destinos. Neji, no momento de sua morte, deixou claro que escolheu se sacrificar porque desejou salvar seus amigos, não porque era seu destino salvar Hinata como membro da família secundária dos Hyuuga.

E lá estava ele, o garoto que mudou totalmente a vida de Neji Hyuuga, falando absurdos que o seu eu antigo desaprovaria totalmente.

É Teme, as coisas realmente mudam.

‘E nem sempre pra melhor, pelo jeito...’

.

... Continua...

Notas finais
[1] Gente nem preciso explicar a citação do “gatinho medroso”, né? Qualquer um que shippa esses dois deve se lembrar bem dessa provocaçãozinha entre eles, ora dita pelo Sasuke, ora dita pelo Naruto, na época do Time Sete. No entanto, pode ser que na versão dublada do anime tenha saído diferente, ou em algumas legendas tenham traduzido de outra forma. O termo em japonês é “Bibiri-kun” e em inglês ficou como “scardey cat”, pro nosso idioma a maneira mais correta de traduzir seria “gatinho medroso/assustado”. [2] Isso nunca foi confirmado exatamente no canon, mas pra mim ficou bastante implícito por conta de algumas cenas que eu assisti no anime. Eu vi essas cenas numa época que eu não acompanhava tão assiduamente o anime e ainda estava entendendo o enredo, mas eu tive a certeza de que alguém mandava informações sobre a Akatsuki pro Jiraiya. Posteriormente, quando a lealdade de Itachi por Konoha foi revelada, eu tive a completa certeza de que era o Itachi quem fazia isso. Claro, pode ser outra pessoa, um espião nunca mencionado no anime/mangá, um summon do Jiraiya, mas é muito mais óbvio que seja o Itachi. No encontro que o Jiraiya e Itachi tiveram no clássico eu também senti que alguma coisa estava “errada” na interação dos dois. Jiraiya poderia ter moído o Itachi e Kisame na porrada (daria uma briga sensacional, vamos combinar, Jiraiya se saiu muito bem contra o Pain) e ele só usou jutsu defensivo, provavelmente pra manter o teatro perante Sasuke. Enfim, não é algo confirmado, mas é algo bastante implícito e aceito como headcanon em boa parte do fandom. E como eu tenho liberdade na fanfic, vou usar isso como um acontecimento de fato que o Sasuke descobriu no genjutsu final do Itachi para Sasue, onde ele conta toda a verdade. [3] Jutsu-shiki é o nome do selo que o Minato e Tobirama deixam para realizar a “Técnica do Deus Voador do Trovão”, que é aquela técnica de teleporte deles, limitado aos locais marcados com tal selo. Nesta fanfic, Naruto aprendeu a técnica enquanto Sasuke viajava pelo mundo. N/A: Owari vai ficar maior do que eu pensei. Eu achei que em cinco capítulos eu terminaria a fanfic, mas não vai dar pra fazer o que eu quero fazer com mais um capítulo apenas. Precisaremos de, no mínimo, mais dois capítulos. Por isso, eu declaro agora que Owari terá entre seis à nove capítulos, certo? Sendo assim, eu vou precisar encarecidamente que vocês participem pra eu ter motivação pra continuar essa fanfic, já que ela acabou me dando mais trabalho do que eu pensei que daria. Espero que o resultado final seja satisfatório a todos nós, mas para que eu me sinta mais contente escrevendo e entregue um trabalho melhor pra vocês, participem! Faz toda a diferença, sério mesmo. O fandom diminuiu, muita gente abandonou depois do final de Naruto, então a participação daqueles que ficaram é essencial! Esse apelo é pra vocês, leitores fantasmas: ponham a mão na consciência e percebam que se tem uma hora que vocês precisam deixar de lado todo esse silencio e participar, essa hora é agora. Dezenas de leitores nos abandonaram e muitos ficwriters estão desmotivados por conta disso, e por conta da desmotivação muitos ficwriters estão abandonando as fanfics também. Peço participação não apenas por mim, mas pelo fandom de um modo geral, pois ele está desmoronando... =/ Fim de mangá é trágico, ainda mais com um final ruim como aquele. Eu só estou escrevendo essa fanfic pra que vocês continuem no fandom, tentando encarar o final de outra forma. Então participem tanto das minhas fanfics, quanto das dos outros ficwriters (se não vocês acabarão perdendo cada vez mais e mais ficwriters). Obrigada a todos que leram, aguardo os comentários e as críticas positivas e negativas. =D Beijinhos! Amo vocês! Links relevantes: Página do Facebook: https://www.facebook.com/pcspuzumaki Tag de atualizações do tumblr: http://uchihalicius.tumblr.com/tagged/atualizacaofics Aviso sobre plágio: Plágio é crime (artigo 184 do Código Penal) e quem plagiar qualquer fanfic minha, seja totalmente, parcialmente, ou seguindo os mesmos acontecimentos e apenas escrevendo com outras palavras (plágio conceitual) será denunciado e processado judicialmente. Eu sou advogada, sei meus direitos e não vou hesitar em buscá-los, pois pra mim vai ser só mais um processo pra levar a diante, enquanto para você será uma imensa dor de cabeça. Tenha em mente o que te aguardará caso você decida plagiar algo meu, e tenha certeza do seguinte: se eu ou algum leitor meu encontrar o seu plágio de fanfics de minha autoria, eu não terei piedade. Quem não teve respeito com minhas obras não merece minha consideração e meu perdão.