Notas iniciais
Ei! Você! Você é uma pessoa linda. E nunca deixe ninguém dizer o contrário.

Um friozinho confortável, penumbra perfeita, cobertas quentinhas e um ambiente silencioso, tendo apenas o som constante do ar-condicionado climatizando soando em meia-escuridão. Juliana não queria levantar, mesmo quando seu relógio despertador começou a tocar. Com um tapa leve, ela o silenciou e voltou para debaixo das cobertas, suspirando e voltando para a terra dos sonhos. Teria continuado ali por várias horas se não tivesse sido despertada pelo robô-mordomo, Charles.

As portas automáticas se abriram deixando a luz entrar, e a pequena puxou as cobertas mais pra cima de si, desprezando a luz do corredor. O Mordomo flutuou seu corpo metálico até a cama da jovem, e com seu módulo de voz padrão, vocalizou:

Senhorita... Senhorita. Se manter tal comportamento negligente irá receber punições desnecessárias de seus pais e possivelmente da escola.

Juliana franziu, e sem abrir os olhos, virou-se de lado, bocejando ordens: – Ahh~ai ai. Charles. Ordeno que me deixe dormir mais... mil anos... to com muito sono...

O Robô simulou uma risota: – Sinto muito, senhorita. Mas minha diretriz prioriza os comandos de seu pai, e ele me ordenou lhe despertar. Ainda mais, é fisiologicamente impossível você dormir por..

Juliana o interrompeu: – 'Tá, tá. – Ela sentou na cama, esfregando os olhos, bocejando mais uma vez enquanto se espreguiça, tremendo o corpo magrelo todo, e então despencando os braços na cama.— Eu 'tô com muita preguiça...

Charles perguntou:— Dormiu tarde de novo, senhorita?

A pequena concordou, falando esmorecida:— Stream da D.va.— Ela abre os olhos apenas um pouco e ergue os braços pro robô: — Me carrega?

O criado estende as mãos humanoides, posicionando debaixo dos braços da menina e a levantando, pegando-a no colo e a levando rumo ao banheiro particular: — E por acaso valeu a pena o cansaço da manhã seguinte?

Juliana mexeu a cabeça, concordando de leve, gemendo ainda sonolenta: — Eu amo a D.va...O Mordomo a depositou no tapete do banheiro, e acendeu a luz. Ela cobriu os olhos por um momento enquanto caminhou até a pia, onde subindo em um banco, alcançou a escova de dentes elétrica e pasta dental. Charles disse: – Devo terminar o seu desjejum. Confio em você se assear sozinha? — A pequena geme positivamente, fitando o robô pelo espelho, vendo-o partir enquanto a escova tremia na boca, preguiçosamente movendo ela pelos dentes sem se importar muito. Molhando o rosto, estava pronta para uma ducha. E durando mais do que deveria, estava pronta, vestindo seu uniforme de aula e indo à cozinha para um café da manhã nutritivo.

Ao passar pela porta, ela sorri largo. Seus pais ainda não tinham saído para o trabalho. Ela corre imediatamente para sentar-se junto deles. Não era comum eles estarem em casa quando ela acorda, geralmente os vê apenas de noite por serem muito ocupados, principalmente seu pai. Yusef El-Amin nasceu no Oasis, sendo descendente de ingleses, possuía pele branca, rugas demonstrando a idade, uma barba longa quase profética muito bem cuidada e cabelos castanho claro curtos e penteados. Costumava usar ternos e vestir-se a caráter de seu nível social, que afinal era muito alto. Seu pai era um dos cientistas mais renomados do mundo. Juliana não sabia muito sobre o que ele fazia, nunca teve o interesse, enquanto para o mundo ele era uma celebridade acadêmica, para ela, era apenas seu pai.

Já sua mãe era uma mulher muito bonita. Trabalhava como modelo. Enquanto seu pai saia na capa de revistas chatas com muitas palavras, sua mãe estreava em revistas chiques com muitas fotos suas repletas de Glamour. Possuindo uma figura esguia e esbelta, cabelos cacheados volumosos esbanjando o tom ruivo natural que tinha tanto orgulho, Luciana Santiago era Brasileira. Nascida em São Paulo mudou-se pro Rio de Janeiro para trabalhar como atriz. Foi lá que ela conheceu seu pai quando o mesmo passava férias por lá, e lembra todas as histórias como se apaixonaram, namoraram, se casaram e então deixou o Brasil para ir morar com o marido. Apesar de ter quase a mesma idade do pai, sua mãe parecia muito mais jovem devido a terapia genética providenciada por esteticistas brilhantes que haviam no Oasis.
Ambos, mesmo quando parados em silêncio, atraem o olhar. Sua mãe pela beleza e seu pai pela aura de sabedoria. Esse encanto nunca se perdeu nos olhos da jovem Juliana, ela os admirava mesmo quando eram autoritários demais. Ela senta-se na pequena mesa de vidro, rodeada pelas pessoas que mais amava e olhando para seu pai, fala animada: — Papai! Já que amanhã é Sábado, podíamos...

Ela, no entanto, é interrompida ela voz grave porém mansa do pai: — Não vai dar, amorzinho... Papai está no meio de um projeto importante.— Ele sequer olhou para a cria, mantendo o olhar para o tablet holográfico que possuía em mãos, utilizando a caneta magnética para gerenciar sua agenda assim como checar mensagens. Juliana fica um pouquinho abalada, seu tom ficando triste enquanto timidamente elaborava: — É.. que... Bom. Semana passada a gente ia ver a estréia de Hero of my Storm... só que o senhor não tinha tempo e...

Yusef suspira pesadamente, e Juliana se cala. Percebia que estava aborrecendo seu pai e sua mãe iria brigar se ela o aborrecesse. Após tomar um gole, Yusef explica: — Eu não achei um bom investimento, amorzinho. Eu vi as críticas, nota mediana, HAL-Fred Glitchbot não está bem no auge da carreira e Thespian 4.0 já teve performance melhores...

Juliana não conseguia acreditar na heresia. Olhava torto para o pai e falou alto, fazendo um escândalo: — Mas pai! Tem a D.va!— Ela é interrompida quando a mãe ralha a voz. As duas se encaram, e ela percebe que assim como muitas vezes antes, levantar o tom era uma malcriação que dona Lucy não iria tolerar. Ela abaixa o olhar, e fica calada. Os pais se entreolham por um momento, tendo uma conversa silenciosa apenas com olhares.

Charles, o robô mordomo, traz para a menina uma bandeja com duas fatias de pão, um ovo frito, cereal e achocolatado. Ela começa a comer lentamente. Charles percebe o comportamento da menina e simula um pigarro com seu módulo de voz, buscando atrair atenção do mestre da casa:— Senhor. Minhas analises levantam a possibilidade da senhorita estar se sentindo distante de vossa senhoria. Poderia considerar para seu bem estar ... um tempo de qualidade juntos?

Ele levanta a sobrancelha ao falar com o robô: — Você agora é programado para dar opinião, Charles?— O robô move a cabeça levemente para o lado, como um gesto de consideração: — Apenas uma sugestão educada, senhor. Perdoe qualquer ofensa. Fora puramente informacional. Retomarei minhas tarefas. Se me permite. — E parte para lavar louça.

Yusef olha para a filha, que não respondia nada. Apenas observava meio magoada a troca de palavras entre homem e máquina. Ele consulta a esposa com o olhar que parecia martirizá-lo com seus olhos castanho-claros. Então, Yusef se enche de dó, e pensativo, começa a falar: — Juliana... O que acha de vir a Universidade depois da aula? Iremos passear pelos Jardins.

A pequena logo se anima: – Os Jardins artesanais? Na ilha turística?— E quando o pai confirmou, ela se animou mais ainda. A esposa o olha com um sorriso amistoso, e então fala: — Eu já estou me atrasando, querido. Temos que ir.

Yusef consulta o horário no tablet que tinha em mãos, e confirma com o relógio digital de pulso. — Sim. Temos. Charles, pode levá-la para escola?— O mordomo confirma: – Sim, senhor.

E assim, com um beijo na testa a menina, o pai parte. A mãe repete o gesto, fazendo-lhe um cafuné carinhoso, e lá se foram eles. Juliana agora comia seu café com um sorriso pequeno no rosto, olhando pensativa o leite, confiante que nada podia arruinar esse dia.

Notas finais
Fim da primeira parte do episódio 1. Uma introdução a nossa heroína e a sua família. Se você gostou, recomende aos amigos, se não gostou, recomende aos inimigos.