Overdose
24 Missão Tokyo - Parte 2
Notas iniciais
NARRAÇÃO ERIC
O espelho a minha frente indicava que haviam detetives atrás dele observando minha conversa com o policial, e de 7 anos no mundo do crime, essa era apenas a segunda vez que eu estava numa interrogação.
– Eric Jontéz, 29 anos, nasceu em Las Vegas, filho de mãe solteira que ganhava a vida sendo dançarina de boate. Sofreu bullying no colégio e desistiu de estudar no último ano da faculdade de pedagogia quando a mãe morreu de overdose. – o cara a minha frente, barbudo e velho falava lendo minha ficha – Foi preso uma vez por tentativa de homicídio a Henrique Herrera, filho do grande empresário Pedro Herrera.
– O cara devia dinheiro. – Eu me apressei a dizer.
– Dinheiro pra que? – o cara, que se chamava Robert, perguntou.
– Informação confidencial. – eu respondi frio.
O cara começou a rir e colocou os cotovelos na mesa, me observando.
– Quem ordenou sequestrar Beatrice Prior? – Robert perguntou.
– O melhor era perguntar por quê sequestramos ela. – eu respondi.
– No começo todos acharam que era dinheiro, mas agora eu não sei dizer direito porquê sequestraram ela, talvez tráfico de pessoas ou...
– Cale a boca! – alterei a voz – Você fala de nós, mas eu olharia melhor a vida de Andrew.
Robert ergueu a sobrancelha. Se levantou e saiu da sala, me deixando lá sozinho, precisava escapar dali logo, tinha que saber como que Quatro e os outros estavam e se tinham chegado a Tokyo bem. Uma meia hora se passou e Robert apareceu com uma cara azeda.
– Você pode sair. – ele falou com um sorriso amarelo.
Me levantei e saí, dando de cara com Layla.
Seus cabelos vermelhos arroxeados estavam lisos e sua maquiagem era simples, exceto pelo batom vermelho forte, suas roupas pareciam novas e o salto alto batucava no chão enquanto ela andava em minha direção, ela parecia ter saído do salão de beleza. Sua expressão era neutra.
– Espero que tenha boas explicações, Eric. – ela disse indiferente, mas eu sabia que ela estava explodindo por dentro.
– Como veio pra cá, Madame?
– Doug mandou me ligarem. – ela respondeu enquanto eu a seguia para fora da delegacia.
– E o que ele falou?
– Disse que eu era amiga de vocês, paguei eles para deixarem vocês saírem daqui, desde que não vazem da cidade.
– Mas esses caras parecem serem pessoas honestas. – Eric disse.
– Num rebanho de ovelhas brancas, sempre existe a negra. – Layla disse enquanto eu entrava no carro, Yudi e Doug estavam lá.
O motorista dirigiu em silêncio até um restaurante no centro de Marshfield e lá nós sentamos, Layla nos olhava sempre com raiva no olhar e sua voz ressonava como um leão rugindo para a presa, que éramos nós. Entramos no restaurante que tinha 2 andares e subimos as escadas para o segundo andar que estava vazio, Layla nos indicou a segui-la a uma mesa na extremidade do salão e nos sentamos, observando o cardápio. O garçom apareceu e Layla pediu por nós, para ela uma salada de folhas verdes com queijo de cabra ao molho mostarda e maracujá, para mim uma batata rústica assada, para Doug um frango xadrez e para Yudi uma sopa de mandioca com linguiça. Observei o lugar, as paredes tinham um tom bege e as toalhas da mesa eram vermelhas.
– Podem começar a contar. – Layla ordenou assim que o garçom saiu.
Eu e os garotos nos entreolhamos. Lembramos de todo nosso percurso, desde que chegamos na vila e quando fomos embora, atrapalhados pelos policiais (os cachorros da princesa haviam ficado lá com uma velha). Por onde começar? Talvez pela filha dela? Ou por todos estarem agora do outro lado do mundo?
– Estou esperando. – Layla revirou os olhos impacientes.
– Talvez devêssemos esperar a comida. – Yudi riu seco.
Layla arqueou as sobrancelhas feitas, e sorriu estranho, e eu conhecia aquele sorriso. Eu já o vi antes dela matar alguém quando eu estava junto dela em algumas viagens, ela atirava bem no peito, bem no coração e eu tinha medo dela e daquele sorriso demoníaco.
O garçom chegou 20 minutos depois (de puro silêncio) com os pedidos. Layla mordiscou um pouco do seu prato, embora eu mal tinha tocado na batata.
– Desembuchem! – Layla rosnou quando viu que o garçom já tinha saído.
Doug e Yudi olharam para mim, e eu sabia que eu teria que falar. Respirei fundo e soltei a bomba.
– Sua filha Natasha apareceu com um cara chamado Peter, parece que ela e Beatrice são irmãs e Beatrice acabou recebendo uma mensagem de uma coisa muito louca chamada Cicada 3301 e eles tiveram que ir para Tokyo, mas as amigas da sua filha avisaram a polícia de onde estávamos e quando estávamos indo para lá, já sabe. – joguei todas as palavras para fora.
O rosto de Layla ficou branco como papel e eu pensei que ela ia desmaiar, mas logo seu rosto adquiriu um tom vermelho de raiva e ela se levantou tão bruscamente que a cadeira caiu e veio em minha direção.
– SEU DESGRAÇADOS! – ela agarrou meu pescoço, mas eu era mais forte – MINHA FILHA ESTÁ DO OUTRO LADO DO MUNDO E VOCÊS IAM AJUDAR? COMO ELA DESCOBRIU TUDO?
– Ela te escutou conversando no telefone sobre a Dauntless. – Doug respondeu por mim, enquanto Yudi a segurava.
– Vocês vão atrás da minha filha, ou matarei cada um de vocês! – os olhos de Layla pareciam negros, sua expressão era sombria e eu não me atreveria a retrucá-la.
Saímos do restaurante sem comer e assim que Layla pagou fomos embora.
Ela chorava e choramingava sobre Natasha, não só pelo fato de que a filha estava a muitos países longe, mas também porquê agora ela sabia quem a mãe era.
E eu sabia que todos nós pagaríamos caro depois disso.
NARRAÇÃO AUTORA
Tobias tentava sair de onde estava com Nita e Peter, mas eles o seguravam e só lhe restava gritar por Tris que agora estava praticamente inconsciente enquanto era arrastada por um cara estranho. Natasha estava sentada com a mão no rosto onde Shauna havia batido, e depois de muitos minutos, os tiros pararam. Tobias começou a correr por onde haviam levado Tris, mas sem sinal. Saíram de lá o mais rápido possível e voltaram ao armazém.
Tobias esmurrava tudo que via pela frente, possesso de raiva por não ter tido a chance de salvá-la, mas agora não adiantava nada, o que ele teria que fazer era procurar saber quem e por que tinham feito aquilo.
Um dia se passou, e ele ainda estava inquieto.
– Quatro, pare com isso. Ela sabe se virar! – Nita disse enquanto deixava um pão com manteiga ao lado dele – Coma algo.
Apesar de ser um pouco rude, Nita se importava com as pessoas ao seu redor.
Tobias ainda estava chocado com o fato de Shauna estar envolvida nisso.
Peter acariciava a bochecha de Natasha, onde Shauna havia acertado. Estavam próximos até demais, mas agora eles não se importava com isso.
– Está bem mesmo? – Peter perguntou num suspiro, sem deixar de acariciar as bochechas de Natasha.
– Estou, é sério. – Natasha respondeu sorrindo de leve, um pouco ruborizada.
– Se precisar de algo, conte comigo. – Peter disse, parando com o carinho.
– Direi sim. – Natasha respondeu.
Peter queria dizer algo, mas nada saia de sua boca. Quando estava com Natasha sentia seu coração bater mais forte, agora que a conhecia melhor tinha perdido a vontade de zoar com ela sempre que a via pela grande mansão de Layla, sua patroa. Ele não entendia bem essa necessidade de querer estar mais e mais próximo.
Mas, sem pensar, depositou um beijo demorado na bochecha de Natasha, que corou instantaneamente sem deixar de sorrir mais ainda, pegando na mão de Peter.
Vendo aquilo, Tobias sentiu seu coração apertar. Sabia que Tris não era de se abalar fácil, mas queria estar com ela para deixá-la bem, protegê-la.
Ele queria ter feito mais...
NARRAÇÃO TRIS
Meus olhos passavam por toda a sala e minha respiração pesava cada vez mais. O medo era a agulha e o meu corpo era eu (óbvio), sentia essa agulha perfurar cada centímetro do meu corpo como se eu fosse uma daquelas almofadinhas em que se espeta as agulhas de costura, e eu estava cheia delas, cheia de medo.
Meu coração pulava como uma criança num pula-pula e eu não tinha ideia do que aconteceria comigo, não sabia o que fazer!
– Acalme-se, Beatrice. – o ruivo disse – Observamos você durante anos e ao passar no nosso teste, você provou ser digna de fazer parte da nossa corporação. Você não é a única a ficar assim quando chega, na verdade, os outros são até piores!
Minha mente demora um pouco para processar tudo.
– Eu... – comecei a dizer com a voz fraca – Eu preciso saber o porquê disso tudo, vim atrás de respostas. Preciso saber porquê vocês me querem e o que meu pai tem a ver com a Erudition e quem colocou fogo na Dauntless.
Eu me sentia frágil, eu não gostava disso. Meu coração apertava cada vez mais ao lembrar do desespero de Tobias!
– Você nunca sairá daqui para contar essas coisas para alguém. – Ele disse e se virou para sair quando o chamei de volta.
– Espere, por favor! – lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto.
Mesmo que eu nunca fosse sair dali (afinal, todos que a Cicada selecionou nunca mais foram vistos), eles precisavam saber, Tobias precisava saber, alguém tinha que saber quem estava por trás de tudo e o que Andrew, meu pai, que agora eu odiava com todas minhas forças estava tramando.
– Se vocês me ajudarem e passarem as informações para as pessoas certas, eu ficarei aqui sem pestanejar, ao contrário dos outros, imagino. – eu falei contendo as lágrimas – Afinal, como você disse, os outros foram piores.
Ele pareceu me avaliar, e me instruiu a segui-lo.
Saí daquela sala e segui ele até uma outra sala, onde estava cheio de computadores. Eu não reparei bem no lugar, só queria saber de tudo logo de uma vez e pensar numa boa frase de despedida para meu Romeu, afinal, eu sabia que dali eu não ia sair viva.
– O que precisa saber? – ele perguntou enquanto eu me sentava na cadeira ao lado de um cara que mexia no computador.
– Quero saber coisas da Erudition e quem estava hackeando o sistema da Dauntless. – pedi.
Passei as informações para que o cara no computador pesquisasse e em menos de 5 minutos, ele encontrou um endereço num lugar deserto da Rússia, pensei logo que ali estaria a Erudition. Ele começou a digitar algumas coisas e logo depois apareceu uma imagem...era um vídeo, ao vivo!
– Estas são as imagens da sala principal da Erudition, está acontecendo neste exato momento. – o cara falou, eu estava impressionada.
Eu olhei para a tela. A sala tinha um tom de laranja apagado nas paredes e o chão era de uma madeira, era tudo bem rústico, no meio da sala havia uma mesa também de madeira e uma mulher loira de cabelos na altura dos ombros que usava um vestido azul estava de frente a um cara grande e moreno.
– O plano vai dar certo mesmo? – o cara na frente da mulher loira perguntou, com uma voz grossa num inglês arrastado, provavelmente ele não era estadunidense ou inglês.
– Essa é a milésima vez que você me pergunta, e essa é a milésima vez que eu respondo que sim meu caro Kaio. – a mulher loira respondeu tomando um gole da xícara de café que ela segurava, o cara, que pelo visto se chamava Kaio, também segurava uma xícara.
– Por favor, Jeanine, preciso que me diga tudo de novo, pra mim ter certeza que de quero mesmo. – Kaio parecia aflito.
– Bem, você já sabe. – a tal de Jeanine começou a falar – Em cada capital de cada estado de vários países em cada continente, tem uma bomba com 80% a mais de radiação que o ser humano pode aguentar, ou seja, morte certa. Assim que a bomba principal explodir, que estará na G-Prior, todas as outras bombas explodirão também, e assim milhões, e quem sabe até bilhões de pessoas vão morrer e os danos da radiação irão permanecer nesses lugares por muitos anos, você sabe, as próximas gerações podem desenvolver câncer e podem nascer deformados, etc. Nós e nossos aliados iremos para a Austrália, único país que não terá uma bomba e lá será tipo o céu e o resto do mundo o inferno. Você e seu povo ficará feliz por acabarem com todos aqueles que não creem no mesmo que vocês.
– Nosso deus é o único deus – Kaio disse seco – E é daqui a 1 hora que partiremos, correto?
– Sim, o voo para a Austrália é daqui a 1 hora e irei no meu avião particular. Se me der licença, vou indo e espero que você vá também, não vai querer ficar aqui quando as bombas explodirem, daqui a 1 dia e meio. – Jeanine falou se levantando e indo em direção a porta.
Tanto eu quanto o ruivo e o cara do computador estavam boquiabertos com o que tínhamos acabado de escutar.
Antes do cara fechar a imagem, Jeanine se virou e falou:
– O apocalipse está chegando! – sua risada era demoníaca.
Nós 3 nos entreolhamos e o ruivo resmungou algo sobre “perder um bem tão precioso” e começou a me puxar pelo braço para fora da sala.
– Você precisa sair daqui e ir atrás dos seus amigos – ele dizia de certa forma apavorado – A radiação pode demorar centenas de anos para sumir, e por mais que consiga pegar minha família e ir para a Austrália nesse pouco tempo, ainda existirão milhões de famílias lá fora que morrerão e sofrerão com esse desastre.
Eu assentia.
– Garota! – ele parou na minha frente e me olhou bem no fundo dos olhos – A G-Prior é a empresa do seu pai, vá e impeça isso. Acabar com o mundo não é nosso objetivo. Salve o mundo!
Um arrepio percorreu o meu corpo e logo eu estava correndo para fora do lugar, não sem antes escutar um “não conte sobre este lugar ou a mataremos” e ver que eu estava logo abaixo de um hotel abandonado. Corri como nunca pelas ruas de Tokyo e todos os rostos pareciam iguais para mim, eu não entendia aqueles risquinhos nas placas e eu não tinha como me comunicar com Tobias ou qualquer um deles.
Eu tinha 1 dia e meio, e eu não sabia nem como começar.
– Meu Deus, me ajuda! – implorei olhando para o céu.
Sentei na calçada com as mãos na cara, será que haveria uma bomba em Tokyo também? E mesmo que houvesse, eu nunca saberia encontrá-la. Em poucos minutos, senti alguém tocar meu ombro.
– Tudo bem, moça? – um japonês perguntou com um inglês meio coisado.
– Eu preciso encontrar meus amigos. – eu disse olhando agradecida aos céus por ter encontrado esse cara.
– Onde eles estão? – ele perguntou.
– Eu não sei, eu não faço a mínima ideia! – eu respondei entrando em desespero.
– Não se preocupe, meu nome é Jung e eu vou ajudar você! Onde você estava antes de correr igual maluca por Tokyo?
A lembrança do armazém me veio em mente.
– Eu estava em um armazém abandonado – comecei – Ele é grande e por fora sua tinta era azul e bem desgastada, por dentro ele tinha uns 3 andares e parece abandonado há alguns anos.
– O antigo ateliê da senhorita Hyang – Jung disse – Eu sei onde fica, vem comigo!
O segui até seu carro e ele correu até lá, a pedido meu. Eu estava quieta e tremia, balançava minha perna freneticamente e eu me sentia apavorada, desesperada, sem chão e com medo, o mundo estava prestes a sofrer com um massacre mundial e eu teria que impedir.
Em meia hora estávamos em frente ao lugar, agradeci Jung com um abraço e me despedi, entrei correndo e não pude deixar de sorrir ao ver Tobias, Natasha, Nita e Peter ali, sentados no meio do armazém (ou ateliê).
– Tris! – Tobias gritou rindo correndo até minha direção, me rodando no ar.
Ele me beijou como se nunca mais fosse me ver, e todos vieram me perguntar o que havia acontecido e como estava lá.
E onde estava Shauna.
– Pelo que eu entendi, assim que eu fui sequestrada eles entraram em contato com ela e pediram pra ela cuidar de mim para que no fim, eles conseguissem me ter na Cicada pois para eles sou muito inteligente. Eu pedi ajuda deles para saber o que a Erudition está tramando e se nós nos impedirmos – engoli em seco – o mundo vai pagar caro.
Todos me olharam confusos e eu expliquei tudo para eles.
Natasha começou a entrar em pânico e Peter a abrançou, confortando-a. A face de Nita estava sem expressão, mas seus olhos demonstravam o medo e o pânico que ela sentia, Tobias estava suando frio.
– Como vamos impedir o fim do mundo? – Nita perguntou.
– Temos um dia e meio – eu disse – Pelo que eu sei, Layla tem aliados.
– Sim, é típico máfias ou gangues terem aliados. – Tobias respondeu.
– Vamos pedir ajuda deles e iremos agora de volta para Chicago – eu praticamente ordenei – A bomba principal está na G-Prior, e Natasha, ligue para sua mãe, precisaremos da ajuda dela afinal, ela é a chefe da Dauntless.
Peter ligou para o dono do jatinho em que viemos que ainda estava em Tokyo e assim que ele desligou fomos para o lugar onde ele estava, prontos para partir. Tudo isso demoraria quase 1 dia, e nem um plano direito nós tínhamos, Natasha ligou receosa para a mãe que gritava tão alto que mesmo não estando perto eu podia escutar Layla no telefone. Corremos para dentro do jatinho e decolamos.
Rumo a um possível apocalipse.
Fale com o autor