Over x Lupus - Interativa
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Se os professores reclamavam, após as aulas, que aquele reformatório não poderia ficar mais barulhento, eis que surgem os alunos da Over para tumultuar os corredores, pátios e lanchonetes do campus – e, é claro, para estimular os Lupus a perderem o pouco controle que apresentavam. Nos primeiros dias, diversos alunos ainda pareciam perdidos em relação ao mapa do local e, sobretudo, às aulas práticas. Aquelas que os Lupus adoravam.
— É o seguinte, garotas! – um menino de cabelo raspado subiu em uma das mesas da lanchonete e abriu os braços. – Amanhã, na terça, vocês terão a primeira simulação com a gente! Convido-as a se juntarem ao meu esquadrão, porque as protegerei de tudo – sorriu.
— Ignora esse cara! – outro se levantou ao seu lado, empurrando-o para baixo. – My ladys, em minhas mãos vocês nada precisarão temer! E ainda levarão alguns prêmios... – disse maliciosamente. – E...
Antes de continuar, abaixou-se levemente e puxou um garoto alto e de corpo definido que passava por ali.
— Temos o caro Nikolai Petrovich no time! – apoiou o braço no pescoço do rapaz. – Olhem esses olhos, meninas – apontou para as íris azuis brilhantes emolduradas por olhos estreitos, mas atentos. – Pensem bem antes de entrarem para alguma equipe – soltou um sorriso maldoso ao perceber os olhares curiosos em direção ao garoto. – Viu, cara – sussurrou. – Dá pra ao menos dividir alguma comigo mais tarde?
Sem responder, Nikolai desvencilhou-se dos braços de Dojan, um estudante que sempre tirava notas péssimas em, no mínimo, cinco matérias. Andava naturalmente em direção ao buffet enquanto Dojan ainda tentava se equilibrar em cima da mesa após a bruta saída do loiro, levantando risos baixos em todo o pátio.
Ignorando o barulho, passou por toda a mesa composta pelo cardápio do dia, atravessando a área e caminhando até a cantina separada do reformatório, onde os lanches deveriam ser comprados por dinheiro próprio dos estudantes. Na fila do balcão refrigerado contendo sorvete, uma garota baixa, mas de cabelos desproporcionalmente grandes, tentava segurar seu pote com a sobremesa, aparentemente pesado, e a carteira. Chegando à vitrine, deparou-se com a maior decepção do dia: não sobrara quase nada nos potes, outrora repletos de massas coloridas, frescas e saborosas.
— Desculpe, senhor – uma das atendentes atrás do balcão o chamou. – Só vamos repor amanhã agora.
Nikolai a encarou por alguns segundos. Suspirou e balançou a cabeça em resposta. Enquanto voltava ao início do pátio, imaginava um pote de sorvete em suas mãos se Dojan não tivesse interrompido seu caminho. Bufou. Estava prestes a entrar de volta na área do pátio quando uma voz feminina o chamou. Virou-se e encontrou uma menina de traços delicados e asiáticos. Era a garota dos longos cabelos.
— Toma – estendeu o braço, segurando um pote com sorvete. – Espero que goste desses sabores, só tinham esses – sorriu.
— Não tem problema – acenou rapidamente com a mão. – Obrigado – e voltou a andar.
— Ei – a aluna o alcançou, caminhando ao seu lado. – É injusto você ficar sem sorvete por alguns segundos de diferença. E, bem, estamos falando de sorvete – deu de ombros e sorriu timidamente.
— Você dividiu o que tinha? – encarou-a enquanto concordava com a cabeça. – Obrig...
Sua resposta não foi concluída, já que Dojan, ainda na mesma mesa, gritou.
— É a primeira de hoje, Nik? – acenava com as mãos e sorria largamente.
Nikolai, a poucos metros de distância, sorriu sarcasticamente e, aceitando o pote de sorvete, andou o pouco comprimento até Dojan.
— Veio me agradec... – antes de terminar, o garoto se encontrava com o pote em sua cabeça enquanto o sorvete descia até seu rosto.
O pátio logo se encheu com as gargalhadas alheias e sons de câmeras de celular captando tudo aquilo. Nikolai, respirando aliviado, deu as costas para tudo e desapareceu no corredor que levava aos dormitórios.
Em uma mesa nos limites do pátio, Keith observava Marin retornar.
— Isso que você não gosta de chamar atenção – abordou-a assim que se sentou.
— Eu só quis ser uma boa pessoa e dividir o sorvete – suspirou enquanto encarava seu pote.
— Não estamos mais no Over, Marin – deu de ombros.
A jovem concordou fracamente coma cabeça, ainda triste por ver aquele desperdício de precioso sorvete.
— Mas e aí – ciente da situação, Keith tentou animá-la. – Vi que rolaram uns olhares...
— Vai dormir, Keith – encarou-o e rebateu com pavor, mas sorriu no final. Marin fugia de relacionamentos – ou eles fugiam dela.
— Qual é? Você deve tê-lo achado bonito ou algo que as garotas falam – provocou-a.
— Sabia que eu prefiro garotos enrolados em dez c4s enquanto esquilos sanguinários dançam ao redor? – perguntou inocentemente, fazendo-o rir.
— Não, mas aposto que ele aceitaria.
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