Over x Lupus - Interativa
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Estavam em uma salinha abafada de três portas. Dentro, somente uma grande caixa de armas e um mapa do local pregado na parede. O grupo estava agitado. Entre alunos assustados até os animados, Marin observava tudo com aparente calma, mas só queria sair correndo com sua M4 Carbine* para qualquer lugar. Keith, ao seu lado segurando uma SCAR-L*, encarava-a como dizendo sarcasticamente “sua vontade de conhecer as aulas práticas já acabou?”.
— A gente precisa de uns snipers pra dar cobertura! – um dos garotos do grupo de 12 pessoas falava rapidamente.
— Tá, mas alguém sabe atirar aqui?! – outro rebatia.
— Alguém não sabe atirar ou não faz ideia do que veio fazer aqui? – um terceiro, chamado Dylan, questionou impacientemente.
Com a pergunta, três levantaram a mão: um garoto pequeno, aparentemente do oitavo ano, e duas meninas. Uma delas tinha o olhar aflito.
— Vocês – Dylan os encarou. – Fiquem sempre atrás do grupo e sigam o que dissermos, ok? – vendo que assentiram com a cabeça, retomou. – Os mais rápidos devem correr até as melhores posições de frente e não deixar que sejam conquistadas – falava enquanto destacava pontos centrais do mapa.
— E a cobertura? – um ruivo perguntou.
— Eu ficarei como sniper – dito isso, pegou uma arma longa e fina da caixa. – Todos pegaram rádios, granadas, facas e munição?
Concordaram com a cabeça.
— Ótimo, precisamos definir agora quem ficará com as caixas de vida. Temos três caixas, então vamos dividir em esquadrões, ok?
Aceitando a ideia do recém-líder, Keith e Marin se uniram rapidamente. A mestiça olhou para os três alunos que levantaram a mão.
— Gostariam de vir conosco? – sorriu enquanto olhava para a mais assustada.
— Hm, bem, eu não quero atrapalhar... – a menina respondeu timidamente.
— Não se preocupe, o único que pode fazer isso é ele – disse meigamente enquanto apontava para Keith, fazendo-o bufar em tom baixo.
Por fim, o esquadrão se fechou com ela e mais uma estudante, deixando com a última, de nome Donna, o papel de curá-los. O garoto restante foi para o esquadrão Um, totalizando três estudantes.
— Um esquadrão ficará com um a menos, já que me posicionarei mais para trás – Dylan advertiu. – Então fiquem sempre juntos e chamem outra equipe caso precisem.
Enquanto sua equipe saía do cubículo e terminava de se posicionar na área segura do mapa, Keith se aproximou rapidamente de Marin para cochichar.
— Qual é a cor da luz quando acaba a vida de alguém mesmo?
— Roxo, gênio – riu. – Você acostuma em uma partida.
— Eu espero – suspirou.
Olhou pela décima vez o macacão que ele e todos os outros usavam: completamente cinza, mas com uma pulseira mais escura onde, segundo os funcionários e juízes, contava virtualmente a vida de cada “jogador”. O macacão era composto por diversos sensores que captavam o laser das armas inimigas e, consequentemente, seus disparos. Se algum acertasse, as barras virtuais da pulseira, que mais parecia um relógio, cairiam proporcionalmente. Quando chegasse a zero, o aluno seria retirado da partida do dia.
— Veja pelo lado bom – Marin continuou, sorrindo. – Se você morrer, pelo menos não perderá nota.
— Como se eu quisesse ganhar dois pontos participando de um massacre virtual.
— Corine — chamou a garota com quem conversara inicialmente. – Fique sempre atrás de mim, ok? Se perceber algo, me cutuque silenciosamente, tudo bem? – perguntou gentilmente. O olhar de pânico na aluna mais nova a fazia ficar com o coração pesado, mas ao mesmo tempo aumentava sua vontade de jogar melhor que todos ali. Afinal, jogar Call of Duty* por mais de quatro anos deveria valer algo. – Não tenha medo, o barulho pode te assustar, mas lembra que os tiros são falsos, eles não te acertam realmente.
Em uma caixa de som colocada em algum lugar no teto, soou algo parecido com uma buzina, caracterizando o início da simulação. Um esquadrão logo disparou em direção aos pontos mais elevados e protegidos do centro do mapa, enquanto Dylan subia um morro com sua sniper e a terceira equipe corria para o lado esquerdo. No contrário, Keith e o restante caminhavam na mesma velocidade. O cenário, naquele ponto, era repleto de árvores, fazendo com que qualquer passo causasse ruídos de folhas e galhos sendo esmagados. Sabiam que ainda estavam seguros, então decidiram analisar o local antes que chegassem ao ponto X marcado no mapa da sala: o ponto em que se dividiriam ligeiramente para cercar qualquer inimigo que ali estivesse.
Como na planta, uma construção já podia ser enxergada entre a folhagem das copas. A possibilidade de adversários já terem conquistado o lugar existia. Por isso, com cautela, Keith e Donna esperaram Marin e Corine darem a volta no sobrado para, simultaneamente, entrarem pelas portas da frente.
— Fique aqui – Marin avisou em voz baixa a companheira, que se sentou em meio aos arbustos que rodeavam a lateral direita do prédio.
Posicionando sua arma em frente ao corpo, adentrou o local silenciosamente. Se houvessem inimigos guardando a entrada frontal, pegá-los-ia antes que atingissem Keith e Donna. Como imaginado, um garoto esperava por qualquer adversário atrás das paredes da entrada. Rapidamente, Marin puxou a faca de plástico de seu kit e jogou nas costas dele, acertando a área do pulmão esquerdo ao mesmo tempo em que Keith aparecia e, usando o tempo de surpresa do garoto atingido, acertava as balas restantes para zerar sua vida.
A pulseira do rapaz logo perdeu as barras verdes e o colete começava a brilhar em um tom arroxeado.
— Menos um – Keith sorriu.
— Por enquanto, já que você chamou a atenção com esses tiros, né – reclamou falsamente, sorrindo no fim.
— Poxa, gata, só queria jogar de boa – o “recém-morto” entrou na conversa, pegando a faca caída no chão e devolvendo a Marin.
— Desculpe-me, caro soldado – aceitou sua arma e respondeu com um sorriso. – Se não se importa, preciso que passe suas munições.
— Claro, claro – tirou dispositivos de sua arma e de seu cinto preso ao macacão. – Vou torcer pro seu esquadrão agora – piscou o olho esquerdo e abandonou o local, indo para fora do mapa.
— Mata um e já tem fãs – Keith a provocou.
— É o que dá ser mulher, né? – respondeu sarcasticamente. – Vamos sair daqui ou esperar uma gangue de vinte pessoas vir?
— A segunda opção parece emocionante. Não acha, Donna? – olhou para a garota, que tremia levemente.
Marin suspirou pela falta de jeito que Keith tinha com os mais novos. Não era habilidosa com crianças, mas sabia que aquela não era hora para assustá-las. “Vamos pegar Corine e sair pela trilha. Não podemos avançar, eles estarão vindo por aquela direção”, disse e saiu do edifício, liderando a equipe.
Enquanto caminhavam para o centro do mapa, que parecia só ter árvores, o som de balas disparadas ficava cada vez mais claro. Marin, já acostumada com os sons, distinguia Dylan atirando a cada três minutos.
— Eles não estão avançando.
— Como assim? – Keith questionou.
— Dylan dispara em períodos longos. Ou ele é desatento e não encontra ninguém, ou a equipe da Lupus realmente não está progredindo.
— Pode ser que nossa equipe tenha conseguido conquistar o centro então.
— E agora eles não podem avançar – Marin concordou. – Melhor chamá-los pelo rádio. Corine, pode fazer isso?
A garota, balançando a cabeça positivamente, deixou sua arma escorregar até a lateral do seu corpo enquanto puxava e ligava o rádio de seu cinto.
“Esquadrão Um, Aria falando”, uma voz doce e alegre respondeu. “Esquadrão Três aqui. Estamos voltando para o centro”, Corine a retornou. “Estamos no ponto E, vocês podem vir. Aconteceu algo?”. “Eliminamos...uma pessoa no C, e saímos de lá com medo de nos encontrarem”. “Bom trabalho! Esperamos por vocês então”. O contato se encerrou e Corine suspirou aliviada.
— Parece que estamos indo bem – Keith pronunciou.
— Parece que estão pegando leve com a gente – Marin comentou. – Qual o sentido em mandar uma única pessoa, sozinha, para aquele prédio? – perguntou enquanto andava lado a lado do amigo, com Corine e Donna logo atrás.
— Estratégia camper*? – sugeriu normalmente.
— Isso pode funcionar em games, mas não faz sentido aqui, considerando o “objetivo” dessas aulas.
— “Trabalho em equipe” – Keith relembrou o texto do panfleto. – Realmente não faz sentido – finalmente concordou.
Inesperadamente, Marin parou e levantou o braço esquerdo, sinalizando para pararem.
— Se escondam, eu já volto – disse e saiu correndo para fora da trilha.
Cercados por arbustos e árvores altas, ficaram ali por menos de um minuto quando tiros ecoaram ao longe. Keith contou até três pessoas disparando.
— Mas que coisa... – suspirou. Olhou para as garotas agachadas ao seu lado. – Fiquem aqui.
Levantou-se e correu para a mesma direção de Marin o mais rápido que conseguia. Logo as árvores diminuíram e deram visão para uma área rebaixada, com duas casas e um trailer abandonados. A iluminação ainda não era das melhores, formando pontos iluminados e escuros no local. Observou com atenção os últimos, mas não captara movimento durante minutos até que, finalmente, uma figura pequena apareceu entre troncos tombados. Para o alívio do garoto, o colete da companheira mantinha a cor verde.
E aí um movimento lento no seu limite de visão fez seu coração acelerar. Alguém de macacão azul escuro, simbolizando a equipe contrária, mirava a poucos metros de distância em Marin. Rapidamente mudou o curso de sua pontaria para o leste e atirou, desejando toda a sorte e que o tempo desperdiçado com a amiga nos games fizesse, finalmente, efeito. A garota pulou de susto com o tiro e se jogou para trás do tronco passado. Ele tinha acertado o inimigo? Ou fora mais lento? Desceu a ladeira e caminhou com pressa até a colega, sussurrando seu nome para que não se assustasse mais.
— Keith? – finalmente respondeu.
— Te acertaram? – sentou-se ao lado da garota, examinando sua pulseira.
— Obrigada, te darei um biscoito por isso depois – agradeceu após mostrar as barras verdes.
Suspirou aliviado pela segunda vez.
— Eu sei que você acha que tem experiência com FPS* e tudo mais – disse. – Mas será que dá pra ser menos kamikaze de vez em quando? – advertiu-a chateado.
— Farei o possível – sorriu. – Mas bem, só faltam oito agora – fez um sinal positivo com a mão esquerda.
— Pode me contar o que raios aconteceu aqui enquanto voltamos pro ponto E – sugeriu enquanto se levantava e observava o terreno alto que os cercavam.
— Claro, mas... – Marin começou a pensar no que Keith poderia ter feito. – Você não abandonou as garotas, certo?
— Obrigado pela confiança que tem em mim após anos de amizade – sorriu falsamente. – E elas não são crianças, têm mais de treze anos.
A mestiça se levantou em seguida, sempre apontando a arma para lugares variados, e começou a andar. Queria voltar aos locais em que eliminou os alunos e recolher suas munições e facas, mas já estavam ali há tempo suficiente para cair em uma emboscada.
De volta à trilha, reuniram-se a Donna e Corine, que estampavam evidente preocupação.
— O que houve? – Marin perguntou calmamente, sentando ao lado delas para descansar.
— Bem... – Donna começou nervosamente. – Aria ligou. Acharam eles... Eliminaram um, ela está com metade da vida. Só um continua com vida cheia...
— E a caixa de vida deles? – Keith questionou.
— Roubaram na explosão.
Marin encarou o amigo. Seus olhos, que brilhavam, fizeram-no ansiar pelas aulas entediantes e confusas de física.
— Só está começando agora, meu caro – a brasileira pronunciou alegremente.
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