Over x Lupus - Interativa
5 Capítulo 5
Notas iniciais
— Não podemos nos encontrar na área segura – Marin explicava. – Se voltarmos, só teremos um esquadrão em campo e isso o deixará desprotegido.
— Nós já estamos com a lateral esquerda comprometida – Aria respondeu através do rádio. – Se vocês todos virem para cá, a direita que ficará.
— Teremos que nos separar – olhou para seu esquadrão. – Keith e Donna podem ir aí como reforços, o que acham?
O garoto a fitou. Embora não admitisse, não queria ficar longe dela – sem ela, já estaria morto nos primeiros minutos da aula.
— Não me olhe assim – reclamou, mas divertindo-se. – Voltarei para te proteger, gafanhoto – sorriu como provocação e voltou a falar com Aria. – Encontrem-se com eles no ponto central, lá terão cobertura do esquadrão Um e Dylan poderá protegê-los melhor.
— Entendido! Fiquem bem, garotas – Aria recitou com confiança e desligou.
—Está com a caixa de vida, Donna?
— Estou!
— Certo, então vão, encontraremos vocês quando acabar – sorriu e acenou, já se virando de costas em direção ao começo da trilha.
— Marin – Keith a chamou, fazendo-a se voltar. – Não morra.
— Não antes que você – encarou-o e sorriu.
Esperaram a dupla feminina desaparecer entre as árvores que cercavam a trilha antes de seguirem seu próprio caminho. Keith olhou para o relógio em seu pulso: passaram-se apenas quarenta minutos desde o sinal da buzina, significando quase mais uma hora e meia de aula. “Simulação nível um...”, lembrou-se das palavras dos professores, “quero morrer no primeiro segundo quando estivermos no último nível”.
Em poucos minutos de caminhada, chegavam ao centro do cenário. O local contava com diversas construções, desde pequenas a altas, carros queimados e muros baixos. Um aluno descansava no ponto mais alto de uma das construções, vigiando grande parte da área, enquanto os outros estavam espalhados em locais próximos a possíveis entradas para os alunos da Lupus. Ao aparecerem, uma garota baixa, mas de corpo atlético e esguio, juntou-se para recebê-los. Seu cabelo castanho estava preso, destacando seus olhos verdes e castanhos – tinha heterocromia central – e seus lábios carnudos e rosados.
— Você é o Keith, e você a Donna – disse gentilmente.
— Olá – Keith a cumprimentou. – Como estão as coisas por aqui?
— Já fui “curada” e o aluno restante está ali – apontou para trás, onde um rapaz magro e de cabelos castanhos estava sentado. – O pessoal daqui me emprestou a caixa – sorriu. – Dylan também está vindo para cá. Disse que os pontos daqui darão um melhor ângulo.
O garoto assentiu ligeiramente com a cabeça. Estava desatento.
— Algo errado? – percebendo, perguntou com preocupação, mas logo retomou. – Elas ficarão bem, tenho certeza – sorriu atenciosamente após compreender.
— Não que elas possam morrer realmente – disse. – Só... Bem, esquece, é bem ridículo – sorriu nervoso.
Aria riu. Não com sarcasmo, mas com amabilidade.
— Vamos acabar aqui rapidamente para nos juntarmos a elas, fechado?
— Sim – Keith respirou mais calmamente e sorriu em resposta. Sentia-se como uma criança chata sendo cuidada por Aria. – Voltaremos ao ponto E agora?
— É a melhor coisa – balançou a cabeça. – Não podemos deixar aquela área sem visão por muito tempo – inesperadamente, arqueou as sobrancelhas em surpresa. – Marin está sem caixa?
Keith percebeu que a garota olhava para a cintura de Donna, onde um cinto com faca, munição e a caixa de vida pendiam.
— Ela não quis levar. Disse que teríamos como sobreviver no ponto E se trouxéssemos essa caixa.
— Entendo – seu rosto relaxou e mostrou um sorriso. – Ah, o Dylan chegou!
Voltando-se para trás, avistaram o garoto de cabelos claros andando até eles, balançando a sniper em suas costas.
— Vocês são do Um e do Três, correto? – perguntou assim que os alcançou.
— Sim – Aria respondeu. – Dois do Três continuaram no ponto C.
— As duas garotas, né? – comentou rapidamente. — Certo, irei trocar com aquele cara ali – apontou para o garoto de vigia na construção alta. – Acredito que tentarão nos atacar mais a partir de agora. Fiquem espertos.
Dito isso, correu até o edifício, deixando o restante dos esquadrões Um e Três a postos.
— Aiden, estamos indo! – Aria proferiu para seu companheiro, fazendo-o se levantar e jogar para o lado a grama que amassava com os dedos.
A aluna liderou a viagem até o ponto oeste do mapa, seguida por Keith, Donna e Aiden, um garoto do segundo ano do médio. Passaram pelas casas, estradas e muros do centro até estarem novamente no bosque, onde um rio largo cortava o terreno e enchia o local com a melodia natural das águas. Se não estivessem em uma simulação de batalha com armas de fogo, poderiam deitar ou organizar um piquenique ali.
Cansados, finalmente chegaram ao falado ponto E: uma clareira elevada, com dois sobrados distribuídos, cercada por grades metálicas. Aria passou primeiro pelas mesmas, disposta a se sacrificar caso houvesse qualquer inimigo a espreita. Sem nenhum movimento dentro das casas, sinalizou para que pudessem segui-la.
— Acha estranho não ligarem pra esse ponto? – Keith perguntou após entrarem em uma das casas. Aiden e Donna vigiavam as entradas da cerca através das janelas estreitas.
— Acho bastante – Aria concordou. – É bom ficarmos com o rádio a postos...
Sua frase foi interrompida por uma voz masculina saindo do aparelho.
— Nos cercaram!— a voz gritou e, em seguida, um tiro abafado ecoou pelas saídas de áudio.
Keith e Aria se entreolharam. O que tinha dado errado? Como resposta, coincidentemente uma segunda voz, dessa vez feminina, quebrou o silêncio.
— Túneis secretos! – e, mais uma vez, um disparo apareceu em sequência. A chamada foi finalizada com uma fala incompleta, aparentemente vinda de um jovem gritando ao fundo.
— “Quem é o próximo que...” – Aria repetiu. – Estão matando-os – disse assustada.
— Ninguém nos disse sobre existirem túneis – Keith reclamou, suspirando de nervosismo.
— Brincaram com a gente, pois sabiam que venceriam, não é? – Donna, sem tirar os olhos da janela, questionou tristemente.
— Nós vamos reverter isso, mocinha – Aria respondeu atenciosamente a garota de treze anos.
Se Marin soubesse disso, Keith pensou, ficaria furiosa. E, nesse estado, seu costume ficava entre jogar profissionalmente para se vingar ou jogar como um camelo enfurecido sem patas. Para o bem da equipe Over, Keith botava fé na primeira situação.
— Tentarei falar com a Marin – disse.
Pegou seu rádio e tirou os fones para que todos a ouvissem. “Marin, onde você está?”. Segundos se passaram e nada. “Marin?”. Mais uma vez ficaram sem resposta. Posicionou de volta o objeto no cinto e olhou para Aria sem esperanças.
— Não podemos desistir assim — Aria se concentrou. — Se os cercaram, os oito restantes devem estar lá.
— Eles devem ter um sniper, então são sete em campo – Keith sugeriu e olhou para Aiden, esperando por sua ideia, mas não fora percebido.
Aria mirou Keith pacientemente, dando de ombros e sorrindo. “Ele é um tanto tímido”, foi o que entendeu com o gesto.
— Serão três contra sete, isso se o Dylan eliminar o sniper deles – a garota retomou.
— D-desculpa... – Donna falou timidamente, sabendo que não poderia ajudar, fazendo Aria sorrir em resposta.
— Se conseguirmos chegar às costas deles pela nossa base, conseguiremos eliminar a maioria.
— O que pretende? – Keith a encarou com atenção.
— Eu servirei de isca. Chegarei lá e fingirei não saber o que houve. Vocês terão um instante para eliminá-los por trás.
— Eu e Aiden teríamos que matar, no mínimo, três cada.
— Em um período de tempo muito curto – balançou a cabeça positivamente.
O garoto suspirou. Por que estava naquele tipo de aula mesmo? Levantou-se, saindo da posição agachada.
— Então é melhor corrermos – finalmente disse.
(...)
Durante a corrida de volta ao centro, mais tiros enfeitaram o ar daquela tarde. Contaram mais de quinze, porém era impossível saber se todos já tinham sido atingidos ou o exagero era apenas para assustar. Chegando aos muros baixos que caracterizavam o ponto A, diminuíram a velocidade e dobraram a atenção. Estavam na área traseira, como combinado, e agora buscavam qualquer indício de que os adversários passaram por ali. Todavia, não encontravam nenhum sinal de passagens secretas.
— As casas... – Aria falou de repente. – Os túneis estão dentro das casas.
— Droga – Keith reclamou em tom baixo. – É mesmo. Quantas casas são?
— Três. Devem ter se dividido em duas duplas e um trio.
— Posso entrar em uma e eliminar, Aiden pode fazer a mesma coisa – pensativo, analisou. – Sobrariam três ou dois alunos.
— Antes de me acertarem, posso fazer uma tentativa de jogar minha granada na casa restante – sorriu.
— Parece que temos um plano.
— Temos – Aria mirou sua equipe e sorriu com determinação. Faria o que estivesse ao seu alcance para ajudá-los.
Colocando a ideia em prática, Aria se posicionou para correr até o pátio no meio das três casas enquanto Donna, com uma granada pronta, ficava escondida a poucos metros da porta da segunda casa, onde Keith aguardava para invadir. Aiden esperava o sinal perto da casa um, de frente para a dois.
E finalmente a aluna saiu correndo, falsamente assustada, até os pertences abandonados de seus colegas, onde apenas um continuava vivo, inutilmente escondido atrás de um dos carros abandonados. Como esperado, os Lupus começaram a gritar.
— O que tá fazendo aí? Cadê o resto do seu esquadrão pra gente acabar com isso?!
— Me diz onde seus amiguinhos estão! Te deixo ser a única sobrevivente e ganhar uns pontos extras – disse sarcasticamente.
— Te abandonaram também, é?
Estranhando a pergunta, Aria olhou para o terreno baixo a poucos metros dali. Visualizou uma coreana pequena sendo segurada por dois Lupus. Provavelmente era Corine, a companheira de Keith e Marin. Seus olhos estavam inchados e vermelhos.
— Corine? – gritou para a aluna.
— Você a conhece? – um adversário a interrompeu. – Bem, ela foi abandonada lá na floresta por um de vocês – riu maldosamente. – Provavelmente o culpado estava entre um desses que matamos.
Repentinamente, o mais alto que prendia Corine berrou irritado. A garota tinha sacado sua faca da cintura e atingido seu tórax, fazendo o colete do garoto se tingir de amarelo, símbolo de vida baixa. Antes que seu companheiro pudesse apontar para a capturada e eliminá-la, um som de sniper alcançou os ouvidos de todos e logo o colete deste se enchia de roxo. Seu comparsa, assustado, correu para se esconder. Aria aproveitou os segundos de surpresa dos Lupus e, após colher a granada do garoto Over que lhe fazia companhia, jogou-a junto com a sua em direção à terceira casa. Logo foi atingida, provavelmente por três pessoas em simultâneo, mas não deixou de sorrir quando visualizou Aiden eliminando a primeira dupla em seguida da granada de Donna retirando mais dois da partida. Olhando para cima, viu Dylan recarregando sua sniper.
Enquanto seguia a primeira regra da aula e jogava todos os seus pertences no local onde fora atingida, percebeu que um integrante da casa três saiu ileso. Restavam então três inimigos, enquanto quatro da Over ainda viviam. Com a vantagem de volta, acreditava que Aiden, Corine, Donna e Dylan finalizariam a partida.
Com Keith, o garoto que morrera ao seu lado e os eliminados da Lupus, abandonou o mapa, dirigindo-se até a sala onde os jogadores já excluídos, professores e juízes tinham perfeita visão do centro do mapa através de grandes televisões.
— Fizeram um bom trabalho! – os alunos da Over os cumprimentaram com animação.
— Até que foi ousado, hein – outros da Lupus os provocavam positivamente, satisfeitos com a partida.
— Fizemos um bom trabalho – Aria cochichou para Keith enquanto ria alegremente dos comentários.
— Até que foi divertido – sorriu.
Caminhou até o fundo do cômodo, que possuía sofás grandes e mesas com água e biscoitos para os alunos. A confusão tomou seu rosto quando não encontrou Marin em nenhum lugar. Aria se aproximou, prestes a comentar sobre o mesmo fato, quando a sala se encheu de uivos misturados a gritos de torcida. Viraram-se para as telas espalhadas com a imagem do mapa: Dojan, o aluno que escapara da mira de Dylan, tinha voltado com o outro sobrevivente e encontrado o mesmo com Corine, Donna e Aiden juntos. Dojan segurava granadas acima da cabeça, ameaçando explodi-las e eliminar todos, incluindo ele mesmo, de uma vez enquanto seu companheiro esperava pelo lado de fora, mirando-os com uma AK-47.
— Cara, eles foram cercados de novo! – os Lupus gritavam eufóricos.
Os alunos do Over, no entanto, cochichavam entre si, criticando os colegas de equipe na tela.
— Por que fizeram isso? – Keith questionava confuso, fazendo Aria apenas balançar a cabeça e sorrir.
Olhando para a televisão, esperavam a explosão final que daria a aparente vitória aos Lupus.
— Parece, meus amiguinhos— Dojan proferia em tom claro e vingativo. – Que vocês realmente não são nada.
Dojan puxou o pino da primeira granada, fazendo seu colega se distanciar. Antes de jogá-la ao chão, ativou a segunda em suas mãos. Porém, repentinamente, um som de sniper estourou no pátio e o fez olhar para seu colete, que, agora, mudava para roxo.
— Parece, meu caro, que você é muito fácil de acertar— uma voz feminina o atraiu a olhar para suas costas, a metros dali, onde Marin deixava uma sniper balançar ao lado de seu corpo enquanto colhia a faca usada para eliminar o penúltimo Lupus, que bufava.
A sala de monitoração foi à loucura. Os Lupus tiravam sarro da própria equipe, enquanto os Over ainda tentavam entender o que aconteceu.
Minutos depois, os cinco sobreviventes da equipe cinza entravam no cômodo em meio a assobios, gritos e palmas animadas.
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