Notas iniciais
Olá, galera c: Dessa vez é a Kaonashi postando. Estamos usando o capítulo para adquirirmos mais fichas. Espero que gostem e boa leitura, o/

O auditório era enorme, mas parecia encolher a cada grupo de alunos que entrava e procurava um lugar para se sentar. Os cochilos e risadas abafavam os ouvidos de Keith, que só pensava em voltar ao novo dormitório e se jogar na cama.

— O que foi? – Marin, sentada na poltrona ao lado, encarou-o divertidamente. – Aqui não deve ser tão ruim, e só temos mais dois anos – sorriu.

— Se os dois anos forem desse jeito, meu hobbie se transformará em encarar a poeira acumulada na janela daquele quarto.

— Não que você tenha um hobbie útil agora – referia-se à preferência do amigo em ler mangás.

— E ficar fingindo que é soldado em jogo virtual parece espetacular pra sua futura carreira – rebateu impaciente.

— É uma fonte de inspiração, ok? – Marin encenou chateação, mas sorriu no final.

Keith retribuiu o sorriso. Apesar da grande mudança – e aparentemente negativa -, sua amiga viera junto. Conheciam-se desde o nono ano, quando entraram no Internato Over, e criaram a relação rapidamente, como se já tivessem se encontrado anteriormente. Achava Marin uma garota de personalidade engraçada. Era reservada com desconhecidos e pessoas menos íntimas, porém, com ele, era espontânea, irônica e sarcástica. Era uma brasileira, mestiça de japoneses, com um bom coração (um bem escondido). Por sorte, a direção não tocou nos números dos quartos, deixando que sua vizinha continuasse a mesma.

O burburinho, que vinha, em maioria, por parte dos alunos da Lupus, diminuiu quando duas figuras subiram ao grande palco.

— Boa tarde, gostaria de me apresentar como Elise, a coordenadora do Over – uma mulher de aproximadamente quarenta anos segurava um microfone antigo. — Será um prazer trabalhar com os alunos e funcionários nativos. Espero que tenhamos um bom ano letivo juntos – sorriu. – Obrigada.

— Primeiramente: sejam bem-vindos, Over! – um homem baixo começou assim que aceitou o microfone de Elise. – Muitos de vocês não me conhecem, já que eu visitei seu antigo campus poucas vezes. Sou o diretor Opilio. Meu trabalho se concentra aqui, – gesticulava enquanto falava — na unidade Lupus, e peço desculpas pela pouca presença na de vocês. Sinto-me também responsável pelo que ocorreu no último mês, e espero que eu possa equilibrar isso dando, a vocês, um ótimo ano. É por isso que fiz questão de trazer todos os funcionários e professores que vocês estão acostumados, continuando a respeitosa educação que tinham, e organizar a casa para que todos sejam confortavelmente acomodados.

— Adoro discursos – Keith cochichou deprimente. – Não quer testar aquela sua katana em mim agora? – Marin riu levemente e apontou para o palco, para que Keith voltasse a prestar atenção.

— Caso tenham qualquer dúvida, sintam-se mais que convidados a me visitarem na sala de direção. Por fim, teremos inspetores que os guiarão e mostrarão tudo no campus. Os horários de aula dos novos alunos e o manual de estudante serão dados quando estivem saindo do auditório, portanto os alunos da Lupus sairão primeiro – movimentou as mãos, um tanto já manchadas pelo sol, em direção ao bloco concentrado de estudantes antigos. – Obrigado por confiarem no nosso sistema de ensino e tenham um ótimo aproveitamento!

Dito isso, Elise e Opilio desapareceram através da saída dos fundos do palco. Professores e alunos da Lupus começaram a se levantar e sair em direção às entradas. Alguns, enquanto passavam, faziam graças para os novos companheiros, gesticulando desde dedos do meio a coisas inexplicáveis. O coral de risos era o mais incomodador.

— Por que não mudamos de escola mesmo? – Keith olhou para Marin, que observava de lado o alvoroço causado pelos Lupus.

— Porque estamos em uma das melhores e nossos pais não querem que percamos essa “oportunidade” – sorriu sarcasticamente.

— Ah, sim, como me esqueci disso? – perguntou retoricamente, não impedindo a garota de responder.

— Você é bobão – deu um sorriso inocente, que, na verdade, não tinha nada de inocência.

Suspirou e esperou que o grupo provocador passasse. Seus colegas começaram a se levantar, saindo em fila dupla enquanto duas mulheres distribuíam livros e panfletos. Fora, seis filas iam se formando lideradas por funcionários de uniformes iguais. Keith e Marin entraram na penúltima, condizente com o terceiro ano do médio, e logo saiam para uma área aleatória do Reformatório.

Continuaria andando se Marin, ao seu lado, não diminuísse a velocidade cada vez mais.

— O que foi? – olhou para a menina, que olhava fixamente para o panfleto em suas mãos com o quadro de aulas.

— Isso – apontou para as últimas linhas. – Nós temos a opção de fazer aulas práticas com os antigos alunos.

Keith começou a ler. Aquilo não era opcional, era praticamente uma incitação para que eles, os estudantes da Over, se juntassem aos Lupus em duas tardes de cada semana em aulas chamadas de “missões e simulamentos”.

“Das 15h às 18h de toda terça e quinta abriremos aulas práticas, que serão desenvolvidas com o objetivo de treinar a cooperação entre alunos, mostrando-os a importância do trabalho em equipe. Os alunos poderão optar por esse método de aula ou continuar com aulas teóricas nesse mesmo horário. Segue a lista de aulas práticas:

Terça: simulação em campo de batalha + missão em campo;

Quinta: simulação de sobrevivência em diversos cenários;

Sábado: salas livres para alunos que desejem aulas extras.

Matricular-se até o dia 30/02 na secretaria.”

— Eu te falei: não é opcional – Keith proferiu um tanto agitado. – Ou você escolhe essas simulações, ou você estuda três horas a mais por dia. É injusto.

Marin concordou com a cabeça.

— Não faz sentido mesmo. Bem, — deu de ombros – o que escolherá?

— O que você prefere? – suspirou já cansado daquela escola.

— O que acha? – seus olhos brilharam.

— Tudo bem, guerra e mais guerra – sorriu de lado. – Mas sabe que isso é só na terça, certo? Você não sabe nem o que é uma fogueira, como fica na quinta?

— Quando eu te atacar em uma fogueira, saberemos – sorriu. – De qualquer forma, só temos hoje para nos inscrevermos.

Keith balançou a cabeça. No final da visita guiada ao campus, voltariam ao início atrás da secretaria. O tour demoraria menos se um grupo de alunos nativos não tivesse aparecido. Aparentemente liderados por um loiro alto, mais três rapazes conversavam rapidamente com o guia, que balançava a cabeça simpaticamente.

— Pessoal – começou a falar para os Overs. – Os alunos da Lupus querem dar um recado – sorriu e gesticulou, passando a palavra.

— Olá, galera – o loiro enunciou. – Meu nome é Alec e acredito que estejam mal por perderem o campus de vocês e, depois, ter toda essa mudança. Quero que se sintam bem assim como a gente, então quero que compareçam a nossa reunião – sorria. – Só estou chamando o pessoal do ensino médio, então não se preocupem em ser uma bagunça. Hoje à noite estaremos na sala de jogos, espero que venham se divertir! É isso, senhor – olhou para o funcionário e soltou um largo sorriso. – Obrigado.

Retiraram-se – sem deixar de fazerem cochichos audíveis sobre as garotas do grupo e a falta de beleza dos meninos -, deixando os novos alunos sem falas.

— Bom, rapazes – o guia limpou a garganta, tentando quebrar o silêncio e constrangimento. – Terminamos nossa visita. Já sabem o caminho de volta para os dormitórios, então os deixarei por aqui. Tenham um ótimo ano – acenou e seguiu em frente, em direção ao prédio dos funcionários.

— “Ótimo ano” – Keith repetiu sem ânimo.

— “E aquele cara de casaco azul? Nerd!” – Marin o provocou com uma das falas que os Lupus usaram.

— Só não falaram de você porque não te viram – rebateu. – Com essa altura, ninguém enxerga um gnomo mesmo.

— Gnomos jogam pessoas em fogueiras? – perguntou perversamente enquanto suas sobrancelhas se arqueavam.

Keith riu, imaginando Marin com orelhas pontudas jogando seus vizinhos no fogo. Algo reconfortante ainda existia no meio daquele reformatório isolado que causava suspeitas.