Outro Dia no Paraíso
6 Numa Rua, Uma Casa
Notas iniciais
Charles Swan. Forks, Washington.
Segurava o pedaço de papel como se minha vida dependesse dele. E talvez dependesse mesmo.
Mamãe deixara o quarto há poucos segundos após me deixar o pequeno pedaço de papel com as “informações” sobre meu pai – se é que aquela linha podia ser chamada de informação, e um pouco de dinheiro.
Charles Swan. Charlie... É como minha mãe o chamava nas poucas vezes que falávamos sobre ele. Isabella Marie Swan e não Isabella Marie Higginbotham? Swan eu deveria me chamar se eu tivesse sido criada por ou ao menos conhecido meu pai?
“Ele não sabe que você existe, Charlie nunca teria me deixado ir embora daquela cidade se soubesse que teria uma filha e eu não suportava mais aquele lugar” Foi o que ela me disse quando perguntei o porquê dele não me querer.
Ele não sabe que eu existo. Ele não sabe que eu existo e ela espera que eu simplesmente apareça na porta da casa dele e diga “Olá, eu sou sua filha!”. Isso é loucura, como eu poderia invadir a vida de alguém assim.
Gemi frustrada e me deitei melhor na cama me aconchegando nas cobertas. Trouxe a mão ao peito amassando o pequeno papel que continha tudo que eu sabia sobre meu pai. Não, nem tudo. Já se passaram muitos anos e ele pode nem mesmo morar mais naquele lugar... Ou pode ter uma família, uma família que não quer uma intrusa surgindo do nada. Mas que opção eu tenho? Somando mentalmente o dinheiro que tinha guardado e o que minha mãe me dera não era muito, meu poderia sobreviver 4 ou 5 meses em algum lugar muito barato e teria que arrumar outro emprego. Graças a Deus o colégio terminara, mas sem duvida a universidade teria que esperar. Acho que eu conseguiria. TINHA que conseguir, qual escolha eu tinha? Não procuraria Douglas, apesar dele negar eu sabia que a família dele não gostava muito de mim. Bem, não exatamente de mim, a minha família era o problema, e sinceramente, quem poderia culpá-los? Não, não o procuraria, ele estaria indo para a universidade em breve e estaria melhor sem mim.
No fim eu estava certa, aquela foi realmente a ultima vez que eu o veria.
Então o que me restava?
Seu pai.
Seu pai.
Mina mente gritava. Eu queria muito conhecê-lo, não havia nenhum foto dele, eu não fazia ideia de como ele era. Quais coisas em mim vieram dele? Eu não parecia muito com minha mãe, então os cabelos dele eram como os meus? Os olhos eram da mesma cor? E a personalidade? Ele era sério ou brincalhão?
Já fazia dois dias desde que Phill... Desde o que aconteceu, ele voltaria em breve, eu tinha mais ou menos cindo dias e fosse lá o que eu decidisse teria que decidir rápido. Nem se eu pudesse iria querer continuar nesta casa.
Em uma conferida rápida pelo meu corpo enquanto tomava banho constatei que tirando algumas manchas roxas nas pernas e arranhões nos braços eu estava bem. Um pequeno roxo na bochecha direita já estava quase sumindo e um pouco de maquiagem podia disfarçar perfeitamente.
Eu devia denunciá-lo, sabia disso, ele devia pagar pelo que fez. Mas o que eu ganharia com isso? Justiça? Ela não pode fazer muito por mim no momento. Ele não iria ficar preso por muito tempo e, honestamente, eu nem mesmo sei se ele realmente seria preso por qualquer período de tempo que seja. Isso não me beneficiária de nada, a única coisa que traria era mais ódio e brigas, e disso já estou farta. Vou entregar isso nas mãos de Deus e se houvesse justiça nesse mundo cedo ou tarde ele iria pagar.
E se existisse justiça no mundo eu iria reivindicá-la neste momento, pois estava decidida a ir procurar meu pai. Se ele iria me querer ou não eu não sabia, mas a minha existência tinha que ser conhecida.
Eu precisava existir para mais alguém.
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— Muito bem, agora vamos resolver isso — eu disse enquanto colocava o cinto e dava partida no carro.
— Resolver o que?
— Vamos a delegacia é claro, você precisa abrir um boletim de ocorrência — respondi o óbvio.
— Não, muito obrigada – recusou ela — Apenas me deixe onde me pegou.
— É claro que não. Quem fez isso com você deve pagar — ela não podia estar falando serio.
— Não precisa, mesmo... Não vai dar em nada... Total perca de tempo.
A encarei sem dizer nada. Só poderia estar louca. Ela ia à delegacia nem que eu precisasse levá-la arrastada.
— Olha — começou ela suspirando parecendo subitamente muito cansada — Esse tipo de coisa... No meu mundo... Acontecem mais do que eu gostaria, envolver a policia não vai adiantar de nada, eles nem poderiam fazer nada. Talvez ir preso seria ate mais agradável e vantajoso para alguns e para outros... Bem, estão acima de nós — disse ela com um pequeno sorriso irônico — E também estava de noite, eu não vi muito, não teria muito que falar...
— Não importa, o pouco que tem a dizer é importante...
—De verdade... Eu já vi esse tipo de coisa acontecer, muitas vezes eles nem ouvem... Serio...
— Bem, agora você está comigo, vão ouvi-la querendo ou não — a interrompi estacionando em frente a delegacia.
— Ai... Por favor... — implorou ela olhando pela janela — Por favor.
— Do que você tem medo? — perguntei — você conhece quem te fez isso? Tem medo dele ou quer protegê-lo? — só de pensar na possibilidade de ela estar tentando proteger o desgraçado que fizera isso com ela me enchia de ódio.
— Não, é claro que não! — exclamou ela, para o meu bem, parecendo ultrajada — Eu apenas não vi nada e...
— E o que? — perguntei quando não disse mais nada.
— Eu não quero que mais ninguém me veja assim — respondeu a meia voz sem me olhar.
— Sem essa... — disse tirando o cinto.
— Por favor! — disse segurando minha mão.
Era a primeira vez que ela me tocava voluntariamente desde aquele beijo que havia me dado noites atrás. Sua mão era pequena e estava levemente gelada. Fiquei feliz, ao menos não era aquela pedra de gelo anterior.
— Bella...
— Por favor — pediu ela mais uma vez apertando levemente seus dedos em volta de minha mão.
— Tudo bem! — me rendi indo contra todos os meus escrúpulos. Parecia, não, não parecia. Era totalmente errado deixar alguém se livrar de algo assim, mas não queria deixá-la mais nervosa.
— Obrigada! — agradeceu soltando minha mão.
— Não agradeça... — sentia que ia me arrepender dessa decisão.
— Já que não vamos fazer isso — disse aborrecido — Vamos embora — eu disse enquanto recolocava o sinto e dava partida no carro.
— Vamos... — disse ela com um suspiro voltando o olhar para a janela.
Enquanto dirigia pensava em como seria ter outra pessoa em casa, uma mulher sem ser da família. A única foi Tânia e ela nem passou tanto tempo assim. Logo tudo se mostrou que nunca daria certo, não foi um término fácil, mas necessário. Ainda era desconfortável encontrá-la em festas e reuniões de família um pouco maiores, já que ela era filha de primos distantes de papai. Não sabia quanto tempo Bella ficaria, mas seria algo... Diferente. Morava sozinho desde meus 18 anos e... Lancei um olhar nervoso a ela, eu morava sozinho... Será que devia deixá-la com mamãe? Tinha certeza que ela não faria objeções... Mas milhões de perguntas que eu não tinha respostas... Com Alice? Não, era pior que minha mãe. Passei a mão no cabelo irritado.
— Bella — chamei.
— Sim?— Perguntou ela distraída, sem desviar os olhos da janela.
— Preciso que saiba que moro sozinho — comecei. Era algo que ela precisava saber, não queria que tivesse medo ou se sentisse acuada ou assustada em casa — Mas não tenha medo, você terá seu próprio quarto, é obvio, e eu mal fico em casa, e posso dormir num hotel ou na casa dos meus pais caso se sinta mais confortável. Você...
— Espera! O que?! — ela me interrompeu finalmente voltando seus olhos assustados para mim — Você está louco? Você não pode me levar para sua casa! — Ela quase gritou como se fosse se fosse algo óbvio que eu devia saber — Você acha que eu sou louca? Pare esse carro agora mesmo!
E eu parei o maldito carro mais uma vez. Parei apenas porque não queria deixá-la assustada. Mas travei as portas do carro discretamente, não queria que ela saísse correndo pela rua.
— Bella...
— Não — ela me interrompeu novamente — Eu não te conheço, VOCÊ não me conhece! Como pode querer me levar para sua casa? Você... — ela me olhou mais cuidadosamente — Você é realmente louco né? Como pode levar uma pessoa estranha para dentro da sua casa?
— Talvez eu esteja mesmo louco — confessei com a voz estrangulada — Acha que já não me fiz essa pergunta? Eu não sei se você é uma ladra, uma prostituta, as duas coisas ou mais. Eu posso confiar em você tanto quanto você em mim.
— Não exatamente. A pior coisa que eu posso fazer com você é te matar — disse ela me encarando com ironia.
— Eu também. Existe coisa pior que a morte? — Perguntei exasperado. De todas as coisas que eu poderia imaginar que ela pudesse fazer se eu a levasse para casa me matar é a que soa mais ridícula.
— Sim, existe — afirmou ela sombreamente.
— Eu jamais tocaria em você — disse finalmente entendendo ao que ela se referia — Jamais.
— Sim, gostam muito de dizer isso... — disse sarcástica.
Eu não podia me irritar com ela, eu não era uma mulher, mas seu sou um homem e sei que a vida é muito mais difícil para elas.
— Bella... Você conheceu minha irmã — comecei tentando deixar as coisas mais... Confiáveis para ela — Acha mesmo que ela me deixaria viver se eu tocasse em um único fio do seu cabelo?
Ela não disse nada, mas pude ver que estava pensando e considerando o argumento.
— Você saberá onde eu moro, estará dentro da minha casa, e graças a Alice em algum momento conhecerá minha mãe — gemi só de pensar na hipótese — Eu estou mais vulnerável aqui — não era totalmente verdade, mas eu estava me abrindo mais que ela, isso devia contar em alguma coisa.
— Não acho que seja uma boa ideia — disse ela por fim, mas não parecia muito convicta. Sorri.
— Talvez não veja — concordei — Mas não vejo outra opção. Não posso te deixar na rua.
— Por quê?
— Por que o que? — indaguei confuso.
— Por que não pode me deixar na rua? — questionou franzindo as sobrancelhas.
— Eu... — comecei e parei sem saber como continuar. Por que eu não podia deixá-la ir?Já me fiz essa mesma pergunta tantas e tantas vezes... Essa maldita garota... — Bella, eu sinto que devo proteger você — disse a única coisa que sabia — Não me faça explicar isso, pois eu não posso. Você nunca sentiu a necessidade de proteger alguém? — pedi desesperado. Eu não podia ser a única pessoa louca no mundo.
— Sim, já senti — respondeu por fim. Graças a Deus.
— Você virá comigo? — perguntei temeroso. Se ela dissesse que não eu iria enlouquecer, mas não poderia obrigá-la a ir.
Ela demorou a responder, olhava ao redor como se a resposta estivesse pairando no ar. Suspirou voltando seus olhos aos meus e finalmente respondeu — Sim, eu vou.
Sorri para ela — Fico feliz, eu realmente não queria te deixar por ai. Agora Bella — disse dando partida novamente no carro — Me deixe dirigir e não me faça parar antes de chegarmos em casa — pedi brincando.
— Espera! — exclamou ela.
A encarei levantando uma sobrancelha.
Ela me deu um pequeno sorriso divertido — Eu nem sei o seu nome.
Antes ela dizer isso eu não havia me dado conta que nunca nos apresentamos realmente, eu apenas sabia seu nome por causa de Alice — Me desculpe não ter me apresentado antes. Meu nome é Edward Cullen — disse estendendo a mão.
— Bella... Isabella Higginbotham. — disse ela pegando minha mão.
— É bom finalmente te conhecer Bella — Sorri apertando levemente sua mão.
A maldita garota agora não tinha apenas um nome como um sobrenome. E sua mão finalmente estava quente, e eu iria me certificar de mantê-la assim.
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