Outro Dia no Paraíso
7 Porto seguro
Notas iniciais
Forks, Washington. 3301 habitantes.
Era o que a placa dizia.
Agora que estava aqui havia perdido um pouco a coragem. Há dois dias deixara minha casa, Phill voltaria em breve e, apesar de estar receosa da decisão que tomara, embarquei no ônibus que me traria a Forks. A viagem seria bem mais longa, mas não tinha dinheiro para esbanjar em uma viagem área.
Deixar minha casa doeu menos do que eu achei que doeria, mas deixar minha mãe, apesar de tudo e da forma com que sai, doeu muito mais do que podia sequer imaginar. Sentia falta de quando era apenas nós duas, tudo era bom e feliz antes de Phill. Eu gostaria que ela tivesse me escolhido, que me amasse tanto quanto amava Phill... Mas o amor é uma coisa estranha, e não posso fazer nada sobre isso.
Enquanto descia do ônibus no pequeno terminal rodoviário de Forks repassava o plano que tinha traçado na cabeça. Era uma cidade pequena, o que significava que não podia sair perguntando sobre alguém sem levantar suspeitas e especulações, e eu queria observar Charlie antes de qualquer coisa.
Existia uma pequena praia onde uma antiga tribo indígena ainda mantinha seus descendentes e lendas nos arredores da pequena e chuvosa cidade, e ela seria meu álibi. A qualquer um que perguntasse o que um forasteiro estava procurando naquele lugar escondido pela chuva. “Ouvi sobre as lendas Quileutes e achei interessante, vim para visitar a praia e conhecer mais sobre o lugar” foi o que disse quando fiz o checking no minúsculo hotel, foi o que disse quando sai para almoçar e foi o que segui dizendo ao longo do dia.
Após terminar de comer, sai pelas ruas, pensando em como exatamente se procurava uma pessoa sem deixar ninguém saber que se está procurando por ela.
Observei tudo ao arredor com atenção, imaginando como teria sido se eu tivesse crescido ali, se eu conheceria varias gerações de uma mesma família, como parecia acontecer por ali.
Suspirei cansada e deixei os “e ses” de lado, eu não tinha tempo nem dinheiro a dispor. Resolvi que a única fonte confiável e a que eu tinha ao meu alcance era a lista telefônica, e sai à procura de uma. Entrei na primeira loja que parecia promissora e caminhei para a sessão de mapas.
— E o chefe Swan, como está? — Estaquei no lugar ao ouvir o nome. Tentei acalmar meu coração, Swan não era um nome tão incomum assim.
— Charlie está ótimo. Saiu para pescar com Billy.
Swan. Charlie. Poderia ser tanta coincidência assim?
A pessoa que perguntara sobre ele era a atendente da loja, reconheci sua voz. Queria me virar e olhar a dona da segunda voz, mas não tinha coragem. Assim continuei encarando os mapas sem ver nada.
— Olha mãe, talvez papai goste dessa. Ele esta reclamando faz dias que a varinha dele esta ruim... — disse um rapaz, devia ter uns 4 ou 5 anos a menos que eu, vindo na minha direção e falando com a mulher a poucos metros atrás de mim. Assim que passou por mim me deu um sorriso amigável em cumprimento. Estava tão em choque que não consegui esboçar nenhuma reação para devolver a gentileza.
— Ótima ideia, Seth! Ele já estava ranzinza reclamando que não pega mais tantos peixes — dei uma espiadinha para trás e apesar de revirar os olhos dava para notar o traço de humor e afeto na voz.
Comecei a hiperventilar.
Meu pai era casado. Tinha uma família. Tinha um filho... Ou talvez outros...
Eu tinha um irmão.
Meu pai tinha uma vida.
Era obvio tudo isso, mas imaginar era muito diferente de ver essa vida diante dos meus olhos.
Sai da loja o mais rápido e discretamente que consegui. Sem levar o mapa. Já fora segui caminhando sem olhar para onde ia.
Charlie tinha uma família.
Continuei andando as cegas até encontrar uma pequena praça rodeada de bancos. Me sentei em um deles sentido a cabeça rodar.
O que eu faria agora? Como poderia me atirar na vida dele? E se a esposa dele me odiasse? Se o meu irmão me odiasse?
Se ele me odiasse?
Afinal, eu era uma bastarda, fruto de um relacionamento de anos atrás, apenas um fantasma do seu passado.
Passei o que me pareceram horas sentada naquele banco, ponderando o que faria. Senti a primeira lágrima escorrer quando se tornou óbvio a decisão que já tomara sem perceber. Não iria destruir a vida de Charlie como destruíram a minha, alguém merecia ser feliz. Iria voltar para Chicago com o pouco que me restara e depois que Deus me ajudasse.
Levantei do banco decidida ao menos olhar uma única vez para meu pai, queria ter pelo menos uma imagem para guardar.
Me encaminhei novamente para a loja de antes, mas não precisei ir tão longe. Poucos metros dali avistei novamente o garoto, Seth, caminhando na direção oposta a mim, vindo em minha direção, e ao seu lado um homem.
Meu coração parou.
Seu cabelo. Era dali então que viera a cor dos meus próprios. Seus olhos eram castanhos. Ele emanava calma e segurança. PAI gritava de todos os poros dele. Eu queria me jogar em seus braços e pedir, implorar para me aceitar, gritar que eu existia.
Não fiz nada disso, apenas continuei andando, os olhos grudados nele, capturando cada detalhe e gravando na minha mente para jamais esquecer. Quando ele passou por mim seus olhos foram para minha direção.
Me reconheça! SE reconheça em mim! Por favor!
Então acabou, ele se fora.
E eu me fora também, naquela mesma tarde. Orando para ao menos Deus reconhecer minha existência.
**********
— Chegamos — avisei assim que passei pela portaria do meu prédio.
Bella parecia nervosa, ficava torcendo seus dedos e olhava ao redor inquieta. Não lhe perguntei nada. Eu próprio não estava muito melhor.
Estacionei o carro e pedi que ela esperasse por mim que ia ajudá-la a descer. Dei a volta no carro e abri a porta, passei um braço pela lateral do seu corpo o mais gentil que pude. Caminhamos a passos lentos e logo estávamos em frente meu apartamento. Entrei primeiro e acendi as luzes principais.
Era estranho tê-la parada ali, bem no meio da minha casa, totalmente deslocada.
— Você precisa de alguma coisa? — perguntei após trancar porta e colocar suas coisas em cima do sofá.
— Humm — murmurou ela tímidamente — Um banho seria ótimo? — perguntou em duvida.
— Claro, segunda porta a direita— informei apontando para o pequeno corredor — Pode usar as toalhas, estão limpas.
— Certo, obrigada — agradeceu minimamente pegando suas coisas e caminhando para a direção instruída.
Suspirei cansado e me dirigi à cozinha determinado a procurar algo para alimentá-la. Por sorte ainda sobrara um pouco da lasanha do almoço. Coloquei o conteúdo em um prato e enfie no micro ondas. Enquanto a comida girava enchendo o ar com cheiro de orégano e queijo me sentei em um banco na bancada me permitindo surtar por um segundo.
A garota não voltaria para rua, isso era obvio. E tampouco podia ficar no meu apartamento para sempre também, isso também era obvio. Passei as mãos no cabelo me sentindo exausto. Pensaria nisso amanhã, agora só queria um bom banho e cama.
Escutei o chuveiro ser desligado e minutos depois Isabella caminhava em minha direção. Devidamente banhada e vestida com uma roupa surrada.
Agora, totalmente limpa, eu tinha uma noção mais clara da dimensão dos seus ferimentos, parecia que alguém tentara matá-la com as próprias mãos.
— Esquentei comida, venha comer — ofereci quando já estava perto o suficiente.
— Na verdade, não estou com fome... — se desculpou — Me sinto um pouco enjoada — continuou timidamente.
— Quando fora a ultima vez que comeu? — perguntei de cenho franzido.
Ela ficou em silencio e percebi horrorizada que se devia ao fato de que ela não se lembrava da ultima vez que tinha ingerido qualquer alimento.
— Como um pouco, vai melhorar — minha voz saiu mais estrangulada do que pretendia.
Ela apenas assentiu e se sentou à mesa de frente para mim. Levantei tirando o prato do micro ondas e colocando-o á sua frente. Ela começou a comer timidamente, apenas beliscando com pequenas garfadas, mas depois de alguns minutos praticamente devorava o conteúdo.
Suspirei satisfeito. Não era a toa que se sentisse enjoada, depois de sabe-se lá quando horas sem comer qualquer alimento.
Depois que terminou toda a comida do prato lhe ofereci mais um pouco, o qual foi aceito de bom grado. Ela tentava comer com toda a civilidade, mas era obvio que estava praticamente morrendo de fome.
Observei seu rosto cortado e marcado — O que aconteceu com você? — Somente quando ela me encarou de olho, o único bom, arregalado foi que percebi que fizera a pergunta em voz alta.
Ela ficou em silencio e quando achei que não responderia ela suspirou — A fome e o frio ás vezes deixam as pessoas loucas — disse era quase inaudívelmente.
Esperei pacientemente que continuasse. O que demorou minutos intermináveis.
— Às vezes eu costumo ficar em albergues pela cidade — continuou ela com o olhar ao longe — Mas são poucos e não dispõem de muitas vagas. Já estamos na fila havia horas, quando mais cedo chega maior a chance de conseguir uma vaga — divagou ela com a voz distante — Então apareceu essa garota, às vezes trombávamos pela rua, e ela era muito mais nova que eu, praticamente uma criança e parecia muito mais faminta — sua expressão estava vazia, como se não houvesse ninguém ali — Eu não ia a deixar ela entrar na minha frente, entenda, eu ia ceder meu lugar e sair da fila. Mas não tive tempo de explicar. E quando eu tentei me defender acho que só piorei as coisas, elas já a não gostavam de mim de qualquer maneira — ela enfim suspirou e me encarou — Mas quem pode culpá-las? Eu mesma às vezes mataria por um prato de comida e uma cama gente — me deu um sorriso triste e enigmático — As coisas saíram muito fora de controle, achei que em fim morreria — ela suspirou mais uma vez — Enfim, apenas outro dia no paraíso.
Eu soube pelo seu tom que a conversa de encerraria ali — Você já me disse isso — comentei com ela.
— Disse o que? — indagou ela confusa.
— Sobre ser apenas mais um dia no paraíso.
Ela apenas me deu um sorriso triste e continuou a comer sua comida. Nas insisti mais no assunto, tinha mil e uma perguntas para ela, mas deixaria para saciar minha curiosidade estúpida quando ela estivesse em condições melhores.
— Vou preparar o quarto para você — informei me levantando.
— Obrigada — disse ela levantando o olhar para mim.
Me encaminhei para o quarto ao lado do meu e troquei os lençóis pegando cobertas para ela. Talvez tenha exagerado, mas frio ela JAMAIS passaria em sob meu teto.
Depois de tudo arrumado me encaminhei novamente para a cozinha onde Isabella estava terminando de enxugar os talheres — Não precisava — repreendi gentilmente.
— Era o mínimo — me deu um pequeno sorriso.
— Eu vou toma um banho, você pode ir dormir se quiser, primeira porta a esquerda.
— Humm eu gostaria, obrigada — disse timidamente.
Caminhei para meu quarto e me demorei pegando minhas coisas, estava cansado demais. Assim que sai do quarto reparei na luz do quarto de hóspedes acessa. Me perguntei se estava a apenas se ajeitando para dormir ou se teria medo do escuro.
Pretendia tomar um banhado demorado, mas estava exausto demais e tudo que queria no momento era o conforto de minha cama.
Assim que sai do banheiro reparei na luz de seu quarto apagada. Suspirei aliviado, ao menos o escuro não a amedrontava. Não resisti ao impulso de entreabrir a porta do seu quarto minimamente para me certificar que tudo estava bem. Bella ressonava serenamente sob as cobertas. Fiquei feliz que confiasse em mim o bastante para achar que não havia necessidade de trancar a porta.
Fui para meu quarto e mal encostei a cabeça no travesseiro antes de adormecer num sonho repleto de uma garota baixinha e frágil correndo em minha direção como se fosse seu porto seguro.
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