I

—Eu poderia aceitar esse casamento, se possuir o título de Rainha do Norte fosse a minha grande ambição. Não nego que gostaria de estar ao seu lado para agir em favor de nosso povo, mas sacrificar minha honra e meu amor próprio é exigir muito. Minha vida não corre risco, como nas outras duas vezes em que precisei me casar.

—Sansa, seja razoável. Casamento de príncipes é questão complexa, envolve os interesses do reino. É preciso que você seja um pouco mais...- ele hesitou um pouco- flexível.

Ela olhou-o como se o estivesse vendo pela primeira vez na vida.

—Acha que meu pai, que de uma forma ou de outra foi o único pai você conheceu, acharia esse "arranjo de príncipes" uma coisa decente? Ele passou por adúltero para te proteger, mas ele não admitiria um casamento nesses termos.

No íntimo, Jon sabia que o que ele dissera era verdade. Resolveu jogar a última cartada, ainda que sentisse que era um blefe. Não sabia se teria forças para cumprir aquilo que ia prometer.

—E se eu cessar as minhas...relações com Daenerys... Você aceitaria se casar comigo, Sansa?- o tom era magoado, ela percebeu que aquele era o tom de quem abria mão de algo contra a sua vontade.

Sansa franziu a testa. Seus lábios repuxaram ligeiramente, como se provasse algo cujo sabor era desagradável.

—Não, não funciona assim, Jon. O que aceita fazer, com grande relutância e sem nenhuma convicção, seria apenas para me contentar. Não posso trocar a minha felicidade pela sua, até porque eu não poderia viver com um homem infeliz e frustrado a meu lado.

Parou diante dele e indagou sem rodeios.

—Se a quer tanto assim, porque não se casa com ela?

Ele pareceu meio hesitante;

—Você não entende. Quando começamos, não sabíamos de nosso parentesco. Foi como um ímã. Ela é diferente de tudo o que conheço, não sei explicar. Ela já foi casada. Perdeu um filho e com ele a capacidade de conceber. Eu preciso de um herdeiro, Sansa. O Norte precisa. E futuramente, o trono de ferro. Até Dany sabe disso. Ela é generosa, não é nem um pouco mesquinha ou ciumenta.

Quando ele viu a expressão no rosto da prima ele percebeu que, sem querer, havia ido longe demais.

—Então eu sou mesquinha, ciumenta e não sou generosa, só porque não quero aceitar essa situação humilhante?

Sansa se voltou para sair, Jon a reteve pelo braço. Ela se lembrou de uma discussão que eles haviam tido em Winterfell, há algum tempo atrás. Ela havia feito o mesmo gesto.

—Não te acusei de nada. Eu apenas a elogiei. Elogiá-la não tira nada de você. O que eu tenho com ela em nada interferiria no que nós teríamos. Estou lhe pedindo que reconsidere, pelo bem do Norte.

Ela ergueu o queixo e encarou-o com firmeza.

—Precisa de um útero para procriar. Será fácil encontrar alguém que aceite, Jon. Mas, não serei eu. E lembre-se que esse útero e os filhos que saírem dele poderão estar correndo risco. A natureza é caprichosa. E se a rainha vier a conceber um filho seu? O que aconteceria com os nossos filhos e comigo? Nossos destinos poderiam ser semelhantes aos de Elia Martell e seus filhos...

—Meu pai pode ter repudiado Elia Martell para se casar com minha mãe, mas ele não levantou a mão contra ela e nem contra os próprios filhos.-contestou Jon.

—Talvez você não o faça, mas pode responder por ela?

—Sim. Dany jamais prejudicaria pessoas inocentes.

Sansa olhou-o com ceticismo

—Não adianta, Jon. Você não percebe que esse é um jogo imoral e perigoso.

—Estou pensando no bem do Norte, não estou fazendo um jogo. Pensei que tínhamos isso em comum.

—Temos muito pouco em comum.

—Você é filha de Ned Stark. É minha prima, nós compartilhamos muita coisa.

—Não serei eu o peão do seu jogo. Quem sabe pode convencer Arya...

II.

—Lady Sansa e Lady Arya pedem a sua permissão para a viagem de regresso ao Norte.

Daenerys pareceu surpresa. Olhou para Jon, que permanecia virado de costas, olhando o mar pela enorme janela.

—Claro, peça que providenciem tudo para elas, Lord Tyrion. Eu gostaria de trocar algumas palavras com Lady Sansa, antes da partida.

Assim que Tyrion saiu, ela voltou-se para Jon.

—O que está acontecendo?

Ele virou-se, olhou para ela com a fisionomia exausta.

—Não vai haver mais casamento. Pelo menos, não entre mim e Sansa.

—Ela descobriu... sobre nós. Não foi?

Jon permaneceu calado.

—Isso pode ser contornado, falaremos com ela.

—Não perca seu tempo, você não conhece Sansa.

—Mas o trono do Norte, como faremos?

—Ela sugeriu que eu me casasse com você, com Arya, com qualquer uma. Só não quer me ver pela frente. Acha que eu a manipulei.

Daenerys deu um suspiro. Aproximou-se. Pegou no queixo dele com delicadeza.

—Mas você a manipulou, querido Jon. Sei que não foi por mal, mas...

—Eu disse a ela que terminaríamos.

Os belos olhos violeta se estreitaram. Ela encarou-o.

—E você terminaria comigo?

Ele voltou a se virar e olhar o mar.

—Não. Eu disse porque achei que era isso que ela queria ouvir. Eu estraguei tudo. Eu a subestimei. Reconheço.

—E você está sofrendo porque foi desleal com Lady Sansa?

—Eu estou sofrendo porque eu menti, eu a decepcionei e eu tentei usá-la para atingir meus objetivos políticos. E ainda que eu me irrite com esse caráter altivo dela, não posso deixar de sentir vergonha.

—Isso pode ser contornado.

—Vou repetir, Dany: você não conhece Sansa Stark.

Jon saiu pisando duro da sala.

III.

Quando chegou à porta de seu quarto, o guarda fez um sinal que ele não entendeu. Arya estava de pé, perto da janela, com uma expressão que ele nunca vira em sua vida.

—Como pôde?

Os olhos de Arya pareciam duas adagas. A sua irmã se virara, enfurecida, contra ele.

Ele tentou alcançá-la. Lembrar o quanto ela significava para ele.

—Não vou suportar que vocês duas me odeiem Arya. Não as duas.

Ele viu uma expressão de desprezo em seu rosto.

—Bobagem, você está encontrando bom consolo na cama quente de sua tia!

—Arya! Por favor, pela nossa infância...

Ela não se comoveu.

—Quem lhe deu o direito de achar que podia tratar minha irmã como um trapo velho? Ela é uma Stark É filha do homem que arriscou muito para te proteger.

—Não foi a minha intenção. Até bem pouco tempo nós nos considerávamos irmãos. Eu estou sendo recriminado por não estar apaixonado? Quanta gente se casa sem gostar. Ela mesma...

—Você pode até ser o Rei do Norte, mas não vai completar essa frase. Que saudades de Jon Snow, do meu irmão... Você, eu não reconheço. Não sei quem é. Você montou num dragão e virou outra pessoa. Nosso pai deve estar se revirando no túmulo ao ver o que você está fazendo com a filha dele. Se não podia gostar dela ou pelo menos respeitá-la, não fizesse o pedido.

—Eu sinto muito, Arya. Fui levado pelas circunstâncias.

—Jon, como pode ser rei e ao mesmo tempo um idiota. Cada frase sua é uma ofensa a Sansa, é tão tolo ao ponto de não perceber? O desejo o cegou?

Jon sentiu como se a irmã o tivesse esbofeteado.

—Eu sou seu irmão e agora seu rei, você está me desrespeitando, Arya Stark...

—Não me interessa o que você pensa. Pode mandar me prender, se quiser. Você não é melhor que o Regicida. Está se deitando com própria tia e só quer a minha irmã para lhe dar filhos! E para ganhar apoio político! Sansa fez muito bem em não te aceitar. Eu ainda daria um soco na sua cara...

Jon ficou vermelho. Ela estava alterada. As palavras de Arya o feriram profundamente. Ele esperara dela um pouco mais de compreensão e não gritos e ofensas.

—Não vou ouvir mais nada, saia do meu quarto! Desaforada!

Arya deu sorriso torto.

—Só saio quando tiver acabado.

—Então saio eu.

—Covarde!

Aquilo doeu. Ele estacou, virou no sentido contrário e parou diante dela.

—Fale o que quiser. Eu vou ouvir tudo. Você talvez seja a única pessoa no mundo que tem esse direito.

Jon viu os olhos de Arya se encherem de lágrimas. Ela não era de choro fácil. Então relaxou os ombros. Falou, já mais apaziguada.

—Preciso te perguntar duas coisas. Não precisa responder agora, Jon. Pense muito nas respostas. Quero que você pense se gosta de Sansa da mesma maneira que gosta de mim?

Ele pareceu que ia falar, mas Arya cortou sua fala com um gesto.

—Uma última coisa: o que você sente, de verdade, pela rainha? Pense bem, depois conversamos.

Arya saiu sem se despedir.

IV.

Sansa já estava pronta para partir. Levava sua capa dobrada no braço. A aparência era uma mistura de placidez e simplicidade. Foi introduzida por Missandei em uma saleta onde Daenerys Targaryen a esperava. A rainha estava linda como sempre. Usava um vestido prateado, vaporoso e belas joias. O colar com a forma de um dragão já chamara a atenção de Sansa.

—Sente-se, Lady Sansa.

Sansa obedeceu. Por dentro sentia-se muito mal. As têmporas latejavam. A única coisa que almejava era voltar para casa.

—Eu a trouxe aqui para saber se não poderíamos chegar a um acordo, apelando para o seu proverbial senso de responsabilidade com o povo do Norte. O seu povo.

Sansa mediu cuidadosamente as palavras, para não ser rude.

—Sinto muito, Majestade. Eu já conversei com o rei e o liberei de seu compromisso para comigo. Ele está livre para procurar outra noiva.

Daenerys falou com suavidade.

—Mas outra noiva, não será uma Stark.

—Lamento. Mas não é possível.

—Sansa, eu era apenas uma menina quando Viserys, meu irmão me deu ao Khal Drogo em troca de apoio militar para recuperar o trono. Eu sofri muito, mas não desisti, eu aprendi a amá-lo. Quando ele morreu eu lamentei muito. Uma parte de mim morreu com ele e com nosso filho. Às vezes, de uma situação aparentemente hostil, podemos extrair experiência para crescer e mudar o rumo de nossas vidas. Acredito que você seria uma grande rainha, ao lado de Jon.

Sansa ouvira tudo educadamente. Mas sentia um bolo em sua garganta. Se aquela mulher, a amante de Jon, a tia de Jon, continuasse lhe dando conselhos, acabaria vomitando. Respirou fundo.

—Seu marido, o Khal, ele a amava?

O rosto de Daenerys se iluminou.

—Sim, muito. Ele faria qualquer coisa por mim.

— Depois de sofrer abusos nas mãos de Joffrey, de ser obrigada a casar com Lorde Tyrion, que felizmente nunca me fez mal, e de ser levada a me casar com Ramsay Bolton para tentar recuperar Winterfell, não acha que eu mereço um pouco dessa consideração que a senhora teve de seu marido? A senhora sabe quem era Ramsay Bolton? Pergunte a Theon Greyjoy, seu aliado. Não quero nada do outro mundo, quero um homem que me respeite do jeito que eu julgo merecer. Jon, a senhora bem sabe, não pode me dar isso.

Daenerys percebeu que o que Jon dissera. Sansa era determinada. Resolveu não insistir.

—É uma pena, realmente. Teremos mesmo que providenciar outra noiva. Boa viagem, Lady Sansa.

Sansa pôs-se de pé.

—Adeus, Majestade.

Assim que ela saiu, Missandei entrou na sala.

—O que achou, Missandei?

—Ela é muito firme, minha senhora.

—Não me referia a isso.

—Bem, ela o ama. Eu diria até que o ama muito.