Outra vez
10 Capítulo 10
I.
Assim que embarcaram no bote que as levaria ao navio, sentiram um grande alívio. Aquele lugar nunca seria esquecido por ambas. Lord Tyrion e Gendry haviam ido acompanhá-las até a praia. Gendry conhecia Arya muito bem e nunca a vira tão desanimada.
Jon ficara dividido, numa grande confusão de sentimentos. Aquela ruptura, de alguma maneira que ele ainda não sabia definir, o abalara muito. Resolvera não se despedir, temendo alguma cena. Mas quando viu as primas na praia, com suas roupas escuras, apenas acompanhadas por alguns guardas, Tyrion e Gendry, sentiu uma grande tristeza mesclada de piedade. Elas confiavam nele, elas o amavam, cada uma do seu jeito. Sansa chegara cheia de esperança, agora partia sentindo-se humilhada, enganada. Ele sabia que ela o amava profundamente. Gostaria que ela o amasse menos, para não sentir aquilo que estava sentindo e que não saberia definir. Num impulso começou a descer as rampas do castelo, não sabia o que faria se ainda as encontrasse lá na praia. Precisava falar com Sansa, abraçar Arya. Pedir desculpas pela mentira. A paixão não pode justificar tudo. Um sentimento que, apesar do grande prazer que proporcionava, o arrastava num mar de vergonha. Que sentimento era aquele? Lembrou das duas perguntas de Arya. Desde que ela as fizera, martelavam em sua mente. Apressou o passo, descendo em direção daquela despedida que lhe traria algum alívio ao coração. Sansa o desprezava, ele tinha certeza. Talvez até o odiasse. Percebia que não conseguiria conviver com isso.
Quando chegou na areia o bote ja estava a meio caminho do navio. Tyrion não disse nada, estava focado em que elas embarcassem em segurança. Jon olhou à sua volta, já ia dizer aos soldados que lhe trouxessem um barco, quando Gendry encarou-o e balançou a cabeça negativamente.
—É melhor que elas partam em paz. Não me leve a mal...
Ele murchou. Seus ombros se curvaram. Sentou-se na areia sem dizer nada. Sentia uma absurda vontade de chorar. Dar um grito daqueles bem altos. De ir atrás delas, de tentar consertar o que havia feito. Mas se controlou. Ficou ali por muito tempo, até o navio desaparecer da vista.
II.
Logo no começo da viagem, Sansa começou a sentir-se mal. Achava que era apenas um enxaqueca. Mas logo sobreveio a febre e a fraqueza. Arya estava muito perturbada, apesar de todas as diferenças que tivera com a irmã, não queria perdê-la de jeito nenhum. Já havia perdido demais em sua vida. Lembrou de Jon e sentiu pena dele. Parecia enfeitiçado. Parecia uma outra pessoa. Mas se visse Sansa naquele estado talvez percebesse o quanto se desviara do curso. Junto com o pai, Jon era a pessoa mais generosa que Sansa havia conhecido. Pela primeira vez, em muitos anos orou, aos deuses pedindo que salvassem o corpo de Sansa e o espírito de Jon.
III.
Bran despertou no meio da noite. Mandou um criado trazer Tormund, Brienne e Sor Davos imediatamente. Apesar da estranheza, suas ordens foram cumpridas sem discussão. Tormund chegou por último, a cara estava estremunhada, o humor péssimo pela interrupção do sono.
—Sansa e Arya chegarão amanhã ao meio-dia. Alguém precisa levar um carro com cobertas e também providenciar que o Meistre esteja lá para recebê-las.
—Por que o carro e o Meistre? Elas devem voltar a cavalo como foram.-disse Sor Davos.
Bran olhou-o com frieza e uma ponta de condescendência.
—Sansa não poderá montar.
Os homens acharam aquilo muito estranho. Mas Brienne acreditou piamente no que Bran dizia. Ajoelhou-se e ficou bem perto dele.
—O que está havendo?
—Ela está doente. Está com febre, muito fraca. Precisamos cuidar dela. Sua vida corre risco.
Brienne levantou rapidamente e falou com secura:
—Ainda estão aí? O que estão esperando?
Todos saíram e Bran ficou novamente sozinho com o terror de sua visão.
IV.
Quem os visse juntos, via logo a semelhança, o parentesco. Os cabelos escuros, olhos ariscos, o mesmo formato de rosto. Conforme a menina crescia Lady Catelyn e a Septã Mordane trocavam olhares de mútua compreensão. Assim como Robb e Sansa guardavam uma semelhança física, a pequena Arya espelhava assombrosamente o menino que não era de ninguém.
Desde pequeno ele notara que era antes tolerado do que amado. Por obra de Ned, tivera os mesmos mestres que Robb e Theon Greyjoy. Aplicara-se para mostrar que, apesar de sua origem obscura, tinha muita capacidade. Robb sempre o tratara de igual para igual. Os outros meninos pequenos também gostavam dele. Bran muitas vezes buscava respostas no olhar de Jon, antes mesmo que em Robb ou no pai. Ned Stark sempre o tratara com consideração, ainda que as demonstrações de afeto fossem raras e sempre longe de Lady Catelyn.
Arya era especial. Assim como a garotinha desde sempre pendeu para o meio-irmão e ele sempre esteve lá, para ela. Tinha paciência, não a perdia de vista, evitava que ela se machucasse e até mesmo, impedia que a castigassem. Crescendo sem grandes demonstrações de afeto ou apreço, aquela preferência lhe aquecia o coração. Era como se o destino o compensasse através da menina. Catelyn de início, não gostara da inclinação tão evidente de Arya pelo irmão bastardo, mas como o tratava muito mal por ciúmes, e, no fundo, não sendo uma pessoa de má índole, Catelyn sentira-se envergonhada em induzir a pequena ao retraimento ou à indiferença, como acontecia com Sansa. Ela começara agira assim para contentar a mãe que adorava. Ela nunca o maltratava, mas ficava enciumada com a sintonia entre Jon e os irmãos, principalmente Robb e Arya. Pouco se dirigia a ele e, quando o fazia, era de modo impessoal. Ele fingia que não percebia e evitava ao máximo contatos com ela.
Arya não, conforme ela crescia, era atrás dele que ela se escondia quando aprontava alguma travessura. Aos cinco anos, começou a resistir em pentear os cabelos. Reclamava muito que os puxões doíam. Uma ocasião, acabou encurralada por Robb e a Septã Mordane. Refugiou-se atrás de Jon. Sansa viera atrás e tinha um olhar condescendente semelhante ao de um adulto com uma criança teimosa. Foi então que Jon Snow estendeu a mão para pegar o pente de madeira. A Septã Mordane ensaiou ignorá-lo, mas Robb deu-lhe um olhar tão eloquente e ela entregou o objeto a Jon e bateu em retirada. Ele e Robb "negociaram" com a pequena, que em troca de um arco, com aljava e flechas, permitiu que Jon, apenas Jon, tocasse na cabeleira. Robb ficou sentado rindo, assistindo Jon, pacientemente, cuidadosamente , desembraçar e trançar o cabelo escuro de Arya. Ela não gritou sequer uma vez.
Sansa era linda desde que nascera. Alta para a idade, olhos azuis e a famosa cabeleira ruiva dos Tully. Habilidosa ao extremo em costuras e bordados, ciosa de sua bela aparência, era a filha mais querida, todos previam que, com uma beleza tão grande, casaria bem, com gente importante. Sansa seria uma grande dama. Arya sempre perdia na comparação. Não sabia bordar, costurar ou ser refinada como a irmã. Mas Arya era valente, era uma arqueira exímia graças à cumplicidade de Robb e Jon, que deixavam que ela treinasse junto com Bran. O irmão menor ficava chateado, pois ela fazia bem e com facilidade aquilo que ele nem com muito esforço conseguia. Mas os irmãos diziam que era assim mesmo, que com o tempo ele melhoraria.
Quando Jon vestiu preto sentiu uma imensa saudade de todos, principalmente de Arya. Depois da morte do pai, perdeu o sono muitas noites pensando nela e também em Sansa, desprotegidas. A sua pequena e indomável Arya, rolando pelo mundo, talvez morta. Mas graças aos deuses ela, Sansa e Bran haviam sobrevivido. Ainda havia mais de um Stark em Winterfell. Por isso aquele desentendimento o deixava magoado. O envolvimento com Daenerys até então era algo prazeroso e estimulante em sua vida. Ao saber que ela era sua tia e que estava dormindo com ela, ficara perturbado. A comparação com Jaime Lannister feita por Arya era degradante. Mas sabia que era a primeira coisa em que todos iriam pensar. E, mais remotamente, no sangue incestuoso dos Targaryen. Talvez aquele encontro devastador, aquele ardor sexual que ele partilhava com Daenerys , não fossem fruto do acaso, mas a força imperiosa do sangue. Sentia-se à beira do abismo. Aquele relacionamento começara a despertar nele uma confusão de sentimentos, mas não sabia se um dia teria forças para se desvencilhar. E a ideia de ser julgado por Arya e Sansa adoecia sua alma.
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