Outra vez
3 Capítulo 3
I.
A cavalgada após o desjejum foi divertida para a maioria dos participantes. Jon seguiu parte do caminho junto a Gendry e Lord Manderly, mas depois de algum tempo pararam para esperar os outros. Logo depois surgiram Arya, Sansa, Brienne e Lyanna Mormont. Gendry emparelhou com Arya e os dois saíram galopando alegres. O rei e Lord Manderly foram alcançados por Sansa , Brienne e Lyanna. Minutos depois encontraram Ned Umber e Sor Davos tomando água. Sansa, Brienne e Lord Manderly desceram por alguns minutos para esticar as pernas. Jon e a noiva foram adiante parecendo muito entretidos. Sansa logo tornou a montar, e foi seguida por Lady Brienne. Ned, Lord Manderly e Sor Davos haviam engatado na conversa e ficaram ali sentados à beira da trilha.
À frente havia uma pequena clareira. Nem sinal de Arya e Gendry, em compensação os cavalos do rei e de Lady Mormont estavam presos a um toco de árvore. Sansa não tardou a localizar os donos. Sentados em uma pedra, bem juntinhos, estavam rindo bastante descontraídos. Foi aí que Jon atraiu a noiva pela cintura e deu-lhe, na visão de Sansa,um tremendo beijo na boca. Ela não esperou para ver mais, deu a volta e dirigiu-se para Winterfell a galope, com Lady Brienne em seu encalço. Quando Sor Davos a viu passar, deduziu que algo a contrariara profundamente. Tyrion Lannister sabia das coisas.
Minutos antes, na clareira, Jon, um pouco sem graça, repassara o que havia combinado previamente com Lady Lyanna. -e tornou a dizer, com ar contrito, que lamentava a situação.
Lyanna sorriu muito tranquila.
—Mas está tão nervoso assim por causa de um beijo de fingimento, Majestade?
—Lady Lyanna, eu realmente não desejava que as coisas fossem assim...
Ela ficou intrigada. Algo estava lhe escapando.
—Não entendi. Que coisas?
—O beijo, milady. Pela sua pouca idade, presumo que seja o primeiro. Deveria ser algo mais espontâneo. Com algum namorado da sua idade.
Lyanna Mormont deu uma risada descrente.
—Não se preocupe, Majestade. Pode ficar sossegado. Para ser bem sincera, já me beijaram antes.
Jon ficou escandalizado. E curioso.
—Lady Mormont, a senhora já...? Mas quem?
Ela fez uma cara entediada.
—O trouxa do Ned Umber, quando eu tinha treze anos. Ajudou-me a descer o cavalo e pegou-me desprevenida.
Jon ficou mais aliviado. Abriu um sorriso.
—E como foi?-perguntou brincalhão.
—Foi muito babado, Majestade. Mas eu revidei com uma canelada. Nunca mais ele ousou se aproximar.
Ouviram o barulho dos cavalos. Após um olhar de entendimento, Jon segurou-a pela cintura e deu-lhe um beijo suave, que ficou meio encoberto pelos cabelos dela. Quando perceberam que já não havia mais ninguém, eles se separaram.
—E então, Lady Mormont? Procurei não babar tanto na senhora.- brincou Jon.
—Foi muito melhor, Majestade. Outro nível. E poderei sempre lembrar que fui beijada pelo Rei do Norte.
Os dois não conseguiram segurar o riso.
II.
Sansa entrou em seu quarto, sentou na pele de urso e ficou olhando a lareira acesa. Deixou as lágrimas escorrerem livremente pelo rosto. E o passado voltou ao seu pensamento.
Sansa se lembrava confusamente daquela primeira assembleia dos senhores do Norte, quando a campanha contra as hostes do Rei da Noite finalmente terminou, vitoriosa, porém deixando grandes perdas por todo o continente e a Muralha, símbolo da defesa do Norte, meio destruída. A situação havia sido tão grave e caótica que, como Jon havia previsto, mulheres , velhos e crianças haviam sido obrigados pegar em armas para se defenderem. As fogueiras para incinerar os corpos pareciam nunca se apagar.
Em Winterfell chegara a notícia de Jon Snow e Daenerys Targaryen, conduzindo os dragões e impondo pesadas baixas ao exército dos mortos. Sansa afligia-se e a sua tensão atingiu um ponto intolerável quando Arya e Brienne resolveram se juntar aos combatentes.
Quando finalmente ele regressou, após a Concórdia de Dragonstone, onde Jon renunciara à reivindicação do Trono de Ferro em favor da Rainha Daenerys, ele parecia diferente. Estava meio distante. Assimilara dolorosamente a realidade os fatos que lhe haviam sido comunicados por Bran e Sam Tarly. Ele parecia esquivo até com a própria Arya. Perdera Fantasma logo no início da guerra. Sentia-se muito desconectado de tudo.
Mas uma tarde, ele entrara sem bater em seu quarto. Parecia triste e confuso, como se alguma preocupação oculta estivesse morando nele e ele não pudesse compartilhá-la. Ela estava sentada na pele de urso, diante do fogo, com as costas apoiadas na grande arca que ficava aos pés da cama. Jon sentou-se silenciosamente ao seu lado, parecia extenuado.
—E agora, Sansa?
Ela pegou na mão dele, segurou-a entre as suas.
—Tudo vai se arranjar, Jon. Como está se sentindo?
—Cansado. Confuso com tantas mentiras.
—Sim, mas foram mentiras necessárias para mantê-lo vivo.
—Eu fui um peso para o seu pai e para a sua mãe.
Sansa olhou-o mansamente. Toda ela exalava calma. A presença de Sansa acalmava e aquecia. Ele se sentia mais apaziguado ali, falando com ela. Recordou da curta convivência deles em Castle Black. Com Sansa ao seu lado ele se sentia alguém melhor. Ela tranquilizou-o com sua voz suave.
—Não, Jon, ele fez o que era necessário. Quanto à minha mãe, o ressentimento foi uma consequência da personalidade dela. Mas pare de pensar no passado. Procure olhar só para o futuro.
Jon sorriu. Em poucos minutos ali, sentia-se muito melhor.
—Agora certas coisas fazem sentido. Sansa. O dragão de Daenerys, Rheagal,o modo como ele se aproximou de mim, permitiu que eu o tocasse e que eu fosse o seu cavaleiro. Foi maravilhoso. Eu senti que aquilo fazia parte de mim.
—Você também é um Targaryen. Deve ser algo que corre em seu sangue.
Jon sorriu. Ele estava com uma aparência mais animada.
—Estão escondidos, trocando segredos?
Era Arya. Ela chegou sorrindo e sentou-se perto deles. Deitou a cabeça no ombro de Jon. Ele sentiu uma imensa felicidade em estar ali com as duas.
Os três estavam tranquilos. Era uma dádiva estarem vivos. Bran descansava em seu quarto, no final do corredor. Eles eram sobreviventes. A Casa Stark ainda existia. O Norte se lembraria deles.
—Saiba que nós o apoiamos como Rei do Norte, Jon. –disse Arya- Bran vai falar na assembleia de amanhã, e Sam Tarly vai mostrar os documentos da união de seus pais, que ele encontrou na Cidadela.
Jon deu um suspiro. Sansa pegou a mão dele, que estivera entre as suas e deu um beijo no dorso. Ele acariciou o seu queixo com delicadeza.
Arya não resistiu, e deu um beliscão leve na perna de Jon.
—Assim vou ficar com ciúmes. Eu fico afastada e Sansa agora é a sua querida, vive preocupada com você e te mima o tempo todo.
Jon riu baixinho. Elas haviam lhe tirado a amargura do peito, ainda que por alguns momentos. Sansa ficou um pouco desconcertada, virou o rosto porque tinha certeza de que estava ruborizada.
Ficaram ali, juntos, olhando o fogo, até a hora da ceia. Arya se levantou e foi ver Bran, antes de ir comer. Jon pôs-se de pé e estendeu a mão para ajudar Sansa. Ela ficou de pé diante dele e olhou em seus olhos, tentando descobrir o que o atormentava tanto.
—Jon, sei que algo aconteceu, você parece preocupado. Mas haja o que houver, vamos resolver. Não quero vê-lo sofrendo, já fez muito por todos nós.
Ele puxou-a para si, Sansa fechou os olhos. Ele acariciou aqueles magníficos cabelos ruivos. Ficaram abraçados por um bom tempo.
Nos anos seguintes, nenhum dos dois conseguiu esquecer esse momento.
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